26/09/2008
Ano 12 - Número 600


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

 

Geraldo Batista




O bacalhau da vovó

Certa vez, Stanislaw Ponte Preta escreveu um crônica sobre uma fritada de siri que ele planejou comer, após sair do Maracanã. Na época Stanislaw trabalhava como comentarista para uma das rádios do Rio de Janeiro. Dizia ele, que havia no Rio, uma senhora que fazia uma fritada de siri de se comer com a gula de um Dom João VI. Logo que chegou ao Maracanã, convidou um dos seus colegas para comer a iguaria junto com ele. Passou a tarde comentando um jogo chato sem um gol sequer, entre Botafogo e América. “Na falta de um futebol decente, meus pensamentos se concentraram na fritada de siri, que chegava à mesa, dourada e com um cheiro de dar água na boca. Saímos do Maracanã e fomos direto para o botequim de dona Maria, em São Cristóvão. No percurso, esquecemos a chatice do jogo, e nos concentramos na fritada, regada por uma cerveja geladíssima. Eu não me cansava de elogiar o prato, descrevendo para meu colega a preciosidade. Essa fritada, dizia eu, não tem nem um só fragmento de casco de Siri, ela consegue servir uma fritada limpa, pura, maravilhosa. Vencida a primeira dificuldade do trânsito na saída do Maracanã, conseguimos chegar rápido a São Cristóvão. Estacionamos o carro bem na porta botequim e nos deparamos com um aviso: ‘Fechado por motivo do falecimento de uma pessoa da família’”. Não precisa dizer o tamanho da frustração do famoso cronista.

Lembrei-me desta crônica, depois de conversar no Supermercado com uma de minhas queridas leitoras, Drª Maria Bandeira. Ela me contou que nas vésperas do natal passado, viu naquele supermercado um bacalhau do Porto lindíssimo, “desta grossura”, falou ela mostrando os três dedos da mão. Naquele momento começou seu namoro com o pacote de bacalhau e o seu drama de consciência. “Meu Deus, estou há muitos anos sem reajuste nos meus vencimentos e fazer uma extravagância dessas é de doer na alma. Por outro lado, com tanta gente passando necessidade, gastar oitenta reais só com bacalhau não me pareceu uma atitude muito coerente com o espírito natalino. E eu paquerando o bacalhau, olhava para ele e ele ‘olhava’ para mim. Já estava sentindo o sabor do prato que eu chamo de Bacalhau da vovó, uma verdadeira loucura gastronômica. Pensei muito e tomei uma firme decisão. Pode até ser que Papai Noel não mereça, pois ele nunca se lembra dos pobres marginalizados durante o ano inteiro, mas o aniversariante, o menino Jesus, merece essa comemoração. Dei aquele suspiro e levei o bacalhau, paguei ainda com uma ponta de remorso. Chegando em casa, tratei de botar o pescado para demolhar, (demolhar sim, pois bacalhau do Porto é muito nobre para se dizer que vai botar de molho, como se fosse um simples e prosaico jabá.)”.

Minha grande surpresa veio na hora de desfiar o dito cujo, pois todo mundo sabe que o legítimo bacalhau do Porto, se solta facilmente em generosas camadas para se fazer dele qualquer prato nobre, o troço que eu comprei era borrachento, duro e não tinha nem sequer cheiro de bacalhau. Parecia feito de papelão. E agora José? Lembrei-me que tinha guardado a nota fiscal da preciosidade. Fui até o supermercado falar com o gerente. Ele perguntou onde estava a mercadoria. O falecido bacalhau já está a feder como diriam os portugueses. Voltei e levei para o gerente os restos mortais daquilo que deveria ser um nobre bacalhau do Porto, como rezava na etiqueta. Felizmente, fui devidamente indenizada. Recebi o dinheiro de volta e passei o natal pensando no bacalhau da vovó que não pude comer.
 


(26 de setembro/2008)
CooJornal no 600
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br

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