03/10/2008
Ano 12 - Número 601


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

 

Geraldo Batista




O Centro da cidade
 

Em um dia de domingo, resolvi passar de bicicleta pelo centro da cidade, às seis horas da manhã. Um deserto. De longe se “escutava“ o silêncio. Na esquina da Ulisses Caldas passa um ônibus quase vazio. Mais na frente, uma fiel apressada para não perder a hora da missa na antiga Catedral ou na Igreja de Santo Antônio.- O terço e livro de orações revelavam seu destino.- Na Princesa Isabel, quatro motoristas, com cara de sono, jogavam dama, enquanto esperavam passageiros fantasmas. Um bêbado solidário arrastava outro, mais bêbado ainda, pelo braço. Na João Pessoa, uma padaria aberta sem nenhum freguês. Saí pela Avenida Deodoro e não encontrei mais nenhuma alma viva. Na Jundiaí, vi apenas um senhor - devia ser um vigia - na janela de um edifício em construção, que respondeu ao meu bom dia, com um sorriso largo, de quem tem a consciência tranqüila. Os jornaleiros não aparecem mais, sabem que não se pode vender jornal em ruas desertas.

Voltei para casa, com a certeza de que o centro de nossa cidade morreu sem direito à missa de sétimo dia. Lembrei-me do Grande Ponto do meu tempo de jovem boêmio, voltando das farras aí pelas cinco horas da manhã. Em cada esquina, um gazeteiro (naquele tempo os vendedores de jornal eram chamados assim) anunciando aos gritos as manchetes do dia. “Atenção! Atenção! Mais um motorista de táxi assaltado, vítima de terrível Baracho.” Parada obrigatória no “Dia e Noite”, atendidos pelo garçom Gasolina, que gritava para a cozinha: Sai dois ovos no ponto e uma abacatada! Um garapinhado com pouco açúcar! Uma cartola! Isso é lá hora de se comer cartola, comentou um freguês do lado. O provocado respondeu, se você quiser posso comer sua irmã. Saíram às tapas.

Bons tempos aqueles do velho Grande Ponto. Saudades de uma época em que a gente saía, a pé, do cinema com a namorada (sem medo de ser assaltado). Depois do tradicional sorvete, ia olhar as vitrines da Formosa Síria, das Duas Américas, da Casa Rio, do Novo Continente e de tantas outras lojas famosas tragadas pelas Centrais de Compra (Não uso palavras estrangeiras). Hoje, nem as Lojas Brasileiras resistiram à decadência do Centro. Durante os dias de semana, dá uma tristeza passar por ali e ver o comércio quase parando. Em breve, só restarão os bancos e as farmácias, cada vez mais abundantes. Deve ser um grande negócio vender remédio.

Esta semana, ouvi em uma de nossas rádios que o prefeito quer revitalizar o Centro da Cidade. Digo com toda convicção: sem lugar para estacionar os carros nenhum tipo de revitalização vai pra frente. A única solução é a construção de edifícios garagens. O resto é conversa para boi dormir.
 


(03 de outubro/2008)
CooJornal no 601
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br

Direitos Reservados