19/09/2008
Ano 12 - Número 599


ARQUIVO
GERALDO BATISTA

 

 

Geraldo Batista




Recado para Marcílio e Rosângela

Antes de mais nada, peço permissão aos meus contados leitores para fazer um desabafo.

Hoje, (16 de setembro) estou muito sem graça. Ontem, fui ao velório de uma menina linda de 28 anos. Não me cansei de alisar sua cabeça e admirar sua beleza. Ângela, você parecia uma princesa adormecida dos contos de fadas de sua infância, dormindo à espera de um príncipe encantado. Como eu gostaria de ser esse príncipe só para acordá-la e entregá-la de volta a Marcílio e Rosângela.

Conhecia Ângela desde que era uma menina sapeca, bem pixototinha, dos cabelos encaracolados, correndo pela casa. Ainda escuto sua mãe gritando: Ângelaaaa, venha cá...” No último domingo, foi vítima de um acidente de carro. Dormi muito mal de ontem para hoje. Um filme passava a toda hora pela minha cabeça, onde via aquela menina tão bonita que teimava em não abrir os olhos. Os seus pais são amigos, verdadeiros irmãos para nós. Não sei o que dizer a eles. Parece que o dicionário de minha cachola, de uma hora para outra, ficou com todas as páginas em branco. Não encontro uma só palavra que se encaixe neste pobre texto.

Quando cheguei no local do velório, encontrei uma mulher que eu “não conhecia”, uma outra Rosângela que se agigantou diante da dor. Uma leoa ferida no que havia de mais sagrado para ela, o amor de sua filha primeira. Pois bem, essa mulher nos deu uma lição de coragem inacreditável. Sua fé sem limites disse a todos nós, diante do cadáver de sua filha, que ali estava apenas seu corpo inerte, mas sua alma estava viva junto a Deus. Rosângela, você me fez lembrar das palavras de Sócrates quando seu discípulo começou a chorar antes de ele ter que beber cicuta para morrer.
- Mestre, por que eles vão lhe matar?
- Ninguém mata Sócrates, esse corpo não é Sócrates, Sócrates é minha alma e essa ninguém mata.

Marcílio e Rosângela, como bem disse o Padre Robério, não existe remédio para esse tipo de dor. Assim, não tenho um ungüento milagroso para pensar suas feridas. Resta apenas dizer que as lágrimas que minha mulher e eu derramamos, junto ao corpo de Ângela, foram lágrimas sinceras de saudade e que podem contar conosco sempre que precisarem de um ombro amigo para desabafar. Fiquem com Deus, o Farol que há de iluminar seus caminhos na noite escura que vocês estão atravessando neste momento. Logo mais o sol voltará a brilhar, graças à fé que os fortalece.                               
 


(19 de setembro/2008)
CooJornal no 599
 


Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldobatista@digizap.com.br

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