A VIDA

DAS EXPERIÊNCIAS DE ASSOCIAÇÕES À DESCOBERTA DOS COMPLEXOS

A ENERGIA PSÍQUICA E SUAS METAMORFOSES

Guardiões do saber


C.G. Jung

TIPOS PSICOLÓGICOS

Nise da Silveira

       Os trabalhos de exploração do inconsciente não fizeram Jung perder o interesse pelas relações do homem com o meio exterior. A comunicação entre as pessoas sempre lhe pareceu problema da maior importância. Na vida comum e na clínica via todos os dias que a presença do outro é um desafio constante. 0 outro não é tão semelhante a nós conforme desejaríamos. Ao contrário. ele nos é exasperantemente dessemelhante. Não é raro ouvir o marido irritado, dizer que não entende a esposa e a mãe queixar-se de absolutamente desconhecer a filha. Também nas relações de amizade e de trabalho surgem freqüentes desentendimentos, desencontros, que deixam cada personagem perplexo face às reações do outro, sem que os separem sensíveis diferenças de idade, de educação ou de situação social.

       Jung deteve-se no exame deste problema e apresentou sua contribuição a fim de que nos possamos orientar melhor dentro dos quadros de referência do outro. Modesto como sempre, escreveu: "não creio de modo algum que minha classificação dos tipos seja a única verdadeira ou a única possível".

       Distinguiu inicialmente aqueles que partem rápidos e confiantes ao encontro do objeto, daqueles que hesitam, recuam, como se o contato com o objeto lhes infundisse receio ou fosse uma tarefa demasiado pesada. À primeira forma de atitude denominou extroversão e à segunda introversão. Estes termos que se popularizaram, que todo mundo repete aplicando-os bem ou mal, foram criados e introduzidos em psicologia por Jung. 0 conceito de extroversão e de introversão baseia-se na maneira como se processa o movimento da libido (energia psíquica) em relação ao objeto. Na extroversão a libido flue sem embaraços ao encontro do objeto. Na introversão a libido recua diante do objeto, pois este parece ter sempre em si algo de ameaçador que afeta intensamente o indivíduo. Mas, em movimento de compensação, uma corrente energética inconsciente retrocede para o sujeito na extroversão e, na introversão, um fluxo de energia inconsciente está constantemente emprestando energia ao objeto. Portanto, vista em seu conjunto, verifica-se na circulação da libido, um movimento inconsciente de introversão naqueles cuja personalidade consciente é extrovertida, e um movimento inconsciente de extroversão naqueles cuja personalidade consciente é introvertida. Extroversão e introversão são ambas atitudes normais. Claro que a introversão em grau exagerado tornar-se-á patológica, do mesmo modo que a extroversão excessiva será também característica de estado mórbido.

       Não só o homem comum pode ser enquadrado numa dessas duas atitudes típicas. Igualmente os filósofos, através de suas concepções do mundo. revelam seus tipos psicológicos, bem assim os artistas. através de suas interpretações da vida. Quando Sartre diz que a existência do outro o atinge em pleno coração, que sua presença lhe traz uma sensação de mal estar, que por causa do outro sente-se perpetuamente em perigo, define uma atitude de introversão. Já na pintura de Matisse acontece o contrário. 0 objeto é glorificado. Ele o retira da atmosfera que o envolve para dar-lhe marcados contornos e colorido intenso. Uma feliz e confiante relação estabelece-se entre o homem e o mundo. Naturalmente os psicólogos não escapam à condição humana e funcionam eles próprios, tão curiosos da alma alheia, dentro de suas peculiares equações pessoais. Jung estudou-os com particular atenção, pois intrigava-o que os mesmos fenômenos psíquicos fossem vistos e compreendidos tão diferentemente por homens de ciência, cada um de seu lado, honestamente convencido de haver descoberto a verdade única. Exemplo de escolha é o caso Freud-Adler. Freud valoriza sobretudo o objeto. 0 homem é um feixe de pulsões em busca de objetos amoráveis e sua meta seria, não fosse a repressão imposta pela sociedade. A expansão livre dos instintos até a obtenção dos objetos desejados, os quais são fontes de prazer em si mesmos, por suas qualidades específicas. Muito diversa é a relação do homem com o objeto, segundo Adler. Antes de tudo ele busca segurança pessoal e afirmação de sua vontade de poder. A ênfase recai aqui sobre o sujeito. Quando se sente inferiorizado, o homem adleriano "protesta". Seu esforço dirigir-se-á no sentido de quebrar os laços com objetos que o cerceiam opressivamente afim de conseguir sobre estes a supremacia anelada.

       Na opinião de Jung as duas concepções são válidas. Apenas são unilaterais. A vontade de poder não exclui Eros e reciprocamente. Acontece é que cada psicólogo vê: a vida psíquica através de seu próprio tipo psicológico: Freud, na qualidade de extrovertido, dando prevalência ao objeto; Adler, como introvertido, valorizando sobretudo o sujeito. "A filosofia crítica ajudou-me a discernir o caracter subjetivo de profissão de fé de toda psicologia, - e igualmente da minha", disse Jung.

       Cedo Jung deu-se conta de que dentro de cada uma das duas atitudes típicas havia muitas variações. Um introvertido podia diferir enormemente de outro embora ambos reagissem, de modo análogo, face aos objetos. Idem no interior do grupo dos extrovertidos. Que ocorria então? Como bom empirista, Jung foi acumulando observações até concluir que essas diferenças dependiam da função psíquica que o indivíduo usava preferentemente para adaptar-se ao mundo exterior.

       São quatro estas funções de adaptação, espécie de quatro pontos cardeais que a consciência usa para fazer o reconhecimento do mundo exterior e orientar-se : sensação, pensamento, sentimento e intuição.

       A sensação constata a presença das coisas que nos cercam e é responsável pela adaptação do indivíduo à realidade objetiva. 0 pensamento esclarece o que significam os objetos. Julga, classifica, discrimina uma coisa da outra. 0 sentimento faz a estimativa dos objetos. Decide do valor que têm para nós. Estabelece julgamentos como o pensamento, mas a sua lógica é toda diferente. É a lógica do coração. A intuição é uma percepção via inconsciente. É apreensão da atmosfera onde se movem os objetos; de onde vêm e qual o possível curso de seu desenvolvimento.

       Todos possuímos as quatro funções, entretanto sempre uma dentre elas se apresenta mais desenvolvida e mais consciente que as três outras. Daí ser chamada função principal.

       Cada indivíduo utiliza de preferência sua função principal, pois manejando-a consegue melhores resultados na luta pela existência. 0 leão ataca com as garras e o crocodilo abate sua presa com a cauda, exemplifica Jung. Uma Segunda função serve de auxiliar à principal, possuindo grau de diferenciação maior ou menor. A terceira quase sempre não vai além de um desenvolvimento rudimentar e a quarta permanece, de ordinário, num estado mais ou menos inconsciente. Por este motivo é denominada função inferior.

       O ótimo seria que as quatro funções exercessem-se em proporções iguais a fim de que conhecêssemos satisfatoriamente os objetos sob seus quatro aspectos, e também porque assim haveria distribuição equivalente da carga energética necessária à atividade de cada função. Isso, porém, raramente acontece. Na grande maioria das pessoas uma única dessas funções desenvolve-se e diferencia-se roubando energia às outras. Jung chega a admitir que a atividade dessas funções, quando se realiza em graus muito desiguais, possa causar perturbações neuróticas. Se uma função não é empregada, diz ele, há o perigo de que escape de todo ao maneio consciente, tornando-se autônoma e mergulhando no inconsciente onde vá provocar ativação anormal. Isso diz respeito especialmente à quarta função ou função inferior. De outra parte, justo por sua ligação profunda com o inconsciente, a função inferior poderá ser utilizada terapêuticamente como uma ponte de união entre consciente e inconsciente e assim vir representar um meio para restaurar conexões de vital importância no organismo psíquico. A terapêutica ocupacional tem aí um rico filão a explorar.

       Essas funções dispõem-se duas a duas, em oposição. É fácil compreender que se a intuição é a função principal, necessariamente a sensação será a função inferior. Desde que o intuitivo apreende as coisas no seu conjunto e aquilo que o atrai é o clima onde elas se movem para seus destinos ainda incertos e obscuros, certamente ele não será perito no exame detalhado dos objetos nem saberá encontrar para si firmes posições de relacionamento no mundo real, com suas exigências concretas e imediatas. 0 contrário acontece quando a sensação é a função mais desenvolvida.

       Entre o pensamento e o sentimento ocorre incompatibilidade semelhante. 0 pensamento trabalha para conhecer as coisas, sem maior interesse pelo seu valor afetivo, valor que decerto viria interferir em julgamentos que pretendem ser neutros. 0 sentimento faz, antes de tudo, a estimativa do objeto, julga do seu valor intrínseco. Portanto são funções que se excluem, não podendo ocupar, ao mesmo tempo, o mesmo plano. Se o pensamento for a função principal, o sentimento será a inferior, e reciprocamente.

       Sendo a função principal de cada indivíduo a arma mais eficiente de que este dispõe para sua orientação e adaptação no mundo exterior, ela se torna o seu habitus reacional. É esta função, pois, que vem dar a marca característica aos tipos psicológicos. Desde que as quatro funções podem ser extrovertidas ou introvertidas, resultam oito tipos psicológicos: tipo pensamento extrovertido, tipo sentimento extrovertido, tipo sensação extrovertida, tipo intuição extrovertida: tipo pensamento introvertido, tipo sentimento introvertido, tipo sensação introvertida, tipo intuição introvertida.

       No próximo capítulo começaremos pela descrição dos quatro tipos extrovertidos.