A VIDA

DAS EXPERIÊNCIAS DE ASSOCIAÇÕES À DESCOBERTA DOS COMPLEXOS

A ENERGIA PSÍQUICA E SUAS METAMORFOSES

TIPOS PSICOLÓGICOS

TIPOS PSICOLÓGICOS EXTROVERTIDOS

Guardiões do saber


C.G. Jung

TIPOS PSICOLÓGICOS
- INTROVERTIDO -

Nise da Silveira

Tipo pensamento introvertido.

       0 tipo pensamento introvertido considera as idéias gerais aquilo que há de mais importante.

       Quando aborda um problema procura, antes de tudo, situar idéias e pontos de vista que lhe permitam uma visão panorâmica dos temas a estudar, Idéias gerais mal digeridas, mal diferenciadas. confundidas umas nas outras põem os indivíduos deste tipo irritadíssimo contra quem as apresenta em tal estado. Ao contrário do pensador extrovertido, que se contenta de por ordem lógica entre idéias já existentes, o pensador introvertido interessa-se principalmente pela produção de idéias novas ou pela busca de originais e audaciosos jogos do espírito. Valoriza os dados empíricos secundariamente, apenas para documentar suas teorias e não porque lhes atribua interesse próprio. Os matemáticos teóricos, os filósofos criadores de concepções do mundo, aqueles que se deleitam nas especulações filosóficas ou científicas são os mais altos expoentes deste tipo psicológico.

       Seus sentimentos são fortes e genuínos e manifestam-se de modo primitivo, poder-se-á mesmo dizer selvagem, pois emanam da função inferior que é caracteristicamente indiferenciada. Marie Luize von Franz compara a expressão de afetos do tipo pensamento introvertido aos jatos de lava de um vulcão. Poderá ferir e destruir, mas sem intenção malévola, como uma força da natureza. 0 sentimento inferior do tipo pensamento introvertido é semelhante, na sua indiferenciação, ao do tipo pensamento extrovertido, todavia com uma diferença fundamental: é extrovertido, isto é, dirige-se ao objeto e manifesta-se em toda a sua pujança, enquanto no outro caso os sentimentos não encontram formas de expressão. Na sua vida afetiva este tipo diz sim ou não, ama ou odeia. É por este motivo que costuma julgar aqueles que têm o sentimento como função superior algo calculistas nas suas amizades, capazes de tolerar certas pessoas, movidos por interesses espúrios. A crítica não é justa. A função sentimento sendo bem diferenciada consegue discernir nuances, discriminar qualidades positivas em meio às qualidades negativas e assim aceitar criaturas que os tipos pensamento eliminam abruptamente.

Tipo sentimento introvertido

       As pessoas deste tipo apresentam-se calmas, retraídas, silenciosas. São pouco abordáveis e difíceis de compreender porque, sendo dirigidas por forças subjetivas, suas verdadeiras intenções permanecem ocultas. Daí algo de enigmático envolve-las. Seus sentimentos são finamente diferenciados, mas não se exprimem externamente. Desdobram-se em profundeza. São secretos e intensos. As relações com o objeto são mantidas dentro de limites bem medidos, toda manifestação emocional exuberante lhes desagradando e provocando, de sua parte, reações de repulsa. Vistos do exterior parecem frios e indiferentes, `quando na realidade ocultam, muitas vezes, grandes paixões. Desde que os objetos são conservados à distância e os indivíduos deste tipo esquivam-se a participações emocionais, as correntes afetivas introvertidas poderão vir animar, no inconsciente, representações arquetípicas, ideais religiosos ou humanitários, aos quais venham a aderir devotada e apaixonadamente ao ponto extremo de sacrifícios heróicos.

       Seus afetos não se desenvolvem sempre na escala do amor e do devotamento, mas também na do ódio e da crueldade onde poderão atingir requintes, também decorrentes da alta diferenciação da função superior. Até as duas escalas às vezes coexistem. A mesma mulher será para o filho mãe amantíssima e para o enteado madrasta implacável.

       0 pensamento deste tipo psicológico (sua função inferior), é extrovertido. Isso explica porque dentro de sua reserva e de seu silencio tome vivo interesse por múltiplos fatos em curso no mundo exterior. Lê e reúne informações sobre os assuntos mais variados. Entretanto, se pretende tirar deduções do material de que dispõe, seu pensamento pouco diferenciado não é suficientemente plástico para elaborações de ordem teórica. As construções intelectuais resultam pobres e toscas. Pode-se assinalar mesmo uma certa monomania: a tendência a explicar todas as coisas por meio de um único pensamento diretor. É freqüente que se preocupe com o que pensam os outros e lhes atribua, pela projeção de pensamentos negativos, julgamentos críticos. rivalidades. intrigas. Tipo sensaçáo introvertida.

Tipo sensação introvertida

       Este tipo é extremamente sensível às impressões provenientes dos objetos. Fixa-os em todos os detalhes como se possui-se internamente uma placa fotográfica. Essas impressões o atingem de maneira profunda, mas não transparecem em reações que dêem a medida da repercussão que as qualidades sensoriais dos objetos determinaram. Enquanto o tipo sensação extrovertida age sempre em perfeita sintonia com a realidade, dentro do aqui e agora o tipo sensação introvertida surpreenderá de súbito por um comportamento que corresponde à intensidade das experiências internas nele suscitadas pelo objeto e não pelo valor que no mundo real seja de ordinário atribuído a esse objeto. Não havendo relação racionalmente proporcional entre o objeto e a intensidade das sensações que possa provocar, resultarão comportamentos imprevisíveis e fora das medidas comuns. 0 colecionador de objetos de arte, por exemplo, atingido pelas qualidades estéticas de um vaso de cristal o adquirirá para seu prazer por um preço que outros tipos classificariam de absurdo.

       Pertencem a este tipo os indivíduos que põem acima de tudo o prazer estético, que com uma requintada sutileza apreciam formas, cores, perfumes. Nas relações amorosas vivem intensamente o aspecto sensual, sem que lhes seja necessária a presença de verdadeiros sentimentos afetivos. Preocupam-se muito com o próprio corpo. Seu afinamento sensorial não é apurado apenas para as sensações provenientes do exterior, mas também para as sensações internas, o que os torna capazes de detectar mínimas reações do próprio organismo.

       A função inferior (intuição) deste tipo é similar àquela do tipo sensação extrovertida. Mas aqui esta intuição primária dirige-se para o mundo exterior, enquanto no tipo extrovertido ela se aplica ao indivíduo e seus problemas pessoais, pois sempre a função inferior move-se em contra corrente com relação à função superior.

       É um encontro difícil o da intuição inferior com a sensação superior. Quando um flash de luz, uma fantasia arquetípica concernente a acontecimentos futuros irrompem no campo da consciência, os tipos sensação sofrem vertigens. Essas percepções de idéias ou de imagens em movimento teriam de ser assimiladas justo pela função especialmente apta para trabalhar com dados reais, estáveis e presentes, o que se torna de fato uma contradição perturbadora.

Tipo intuição introvertida

       Este tipo é sensível à atmosfera dos lugares e às possibilidades novas que as coisas possam oferecer, mas não se sente atraído a seguir as pistas que seu faro, de passagem, apreende no mundo real. 0 exterior interessa-o muito secundariamente. pois Sua função principal está voltada para o interior. As múltiplas solicitações da realidade externa, quando excessivas, chegam a ser vivenciadas por este tipo como algo torturante.        A característica essencial deste tipo é sua aptidão para apreender o encaminhamento dos processos que se desdobram, na profudeza do inconsciente coletivo, as transformações, as elaborações de seus conteúdos em diálogo com as condições do tempo e da história. É assim que entre os representantes mais puros deste tipo encontram-se, num nível primitivo, o feiticeiro que guia os destinos de sua tribo; os profetas, nas religiões altamente espiritualizadas, e os artistas visionários, que são os únicos profetas aceitos em nossa época.

       Pelo fato da função do real ser a sua função inferior, este tipo não consegue executar seus numerosos projetos. Cansa-se facilmente e aborrece-se de coisas que já se lhe afiguram óbvias enquanto sua tradução em termos da realidade realiza-se com uma lentidão que lhe é dura de tolerar.

       Para este tipo psicológico os acontecimentos exteriores permanecem um tanto nebulosos devido a sua incapacidade de registrar rapidamente aquilo que ocorre diante de seus olhos e de fixar seus detalhes precisos. Assim, será a pessoa menos apta para prestar testemunhos. Sem a intenção consciente de mentir, poderá contar histórias fabulosas, ]evado pela própria fantasia, cujo prazer é precisamente distanciar-se da realidade cotidiana.

       0 constante desejo de por-se a salvo das engrenagens do mundo real, experimentadas pelo intuitivo introvertido como um envolvimento opressivo, representa duplo perigo. 0 primeiro seria a perda de contato com a realidade, que o desgarraría da vida normal; o segundo, decorreria da condição aparentemente insólita de que é na crista da tensão entre as duas funções opostas, onde se acende sua chama criadora. Quando não há exercício da função do real, as intuições dispersam-se em divagações inconsistentes. A experiência demonstra que se um Mecenas põe o místico ou o artista visionário ao completo abrigo da luta pela vida, sua função superior decai e sua atividade criadora estanca.

       Um belo exemplo de tipo intuição introvertida é Spinoza. Ele erigiu a intuição no mais perfeito gênero de conhecimento, o único, no seu conceito, capaz de penetrar na essência das coisas. A seguir é que o pensamento, sua função auxiliar, estruturava em rígidas formas geométricas as idéias apreendidas intuitivamente.

       Mas sabemos que Spinoza trabalhava com as mãos, polindo lentes de modo esmerado. Aceitou a ajuda de amigos ricos, porém fez sempre questão de reservar para seu esforço pessoal a complementação do necessário à própria subsistência. Este comportamento do filósofo é relatado de ordinário como coisa secundária, quase nas margens da sua biografia. Entretanto o trabalho manual como ajuda para ganhar o pão será talvez um dos segredos que contribuiram para aquele homem "ébrio de Deus", criador de uma filosofia extraordinariamente antecipada, possuir um equilíbrio psíquico perfeito e ter realizado de sua vida e de sua obra uma harmoniosa totalidade.

       0 conhecimento da vida e da obra de Jung, a valorização que ele dá aos fatores subjetivos, permitem situá-lo do lado dos introvertidos. Mas, sendo um homem extraordinariamente bem centrado em si mesmo punha em atividade suas quatro funções. Não era um sábio de gabinete. Não desdenhava a vida real. Sabia usar as mãos: lavrava a terra, rachava lenha, cozinhava, esculpia a pedra. Introduziu a dimensão sentimento na sua obra científica, dando a importância devida à tonalidade afetiva que impregna toda experiência vivida de verdade. E seu pensamento era decerto poderoso. Mas a leitura atenta de seus livros, permite discernir que sua função principal era a intuição. Parece que em visões de longo alcance ele apreendia o sentido dos processos psíquicos de maneira imediata para depois passar todo o material assim colhido pelos crivos do pensamento, trabalhando-o refletidamente e documentando-o exaustivamente.

       Apesar de sua extraordinária capacidade de compreensão, talvez Jung no fim da vida, devido às suas próprias características de intuitivo, não pudesse ter escapado inteiramente a um melancólico sentimento de cansaço, quando media a arrastada lentidão com que suas descobertas vinham sendo assimiladas e quanto eram ainda mal apreendidas as largas perspectivas que ele abrira para o futuro.

Próximo capítulo - a estrutura da psique - Inconsciente Coletivo.