A VIDA

DAS EXPERIÊNCIAS DE ASSOCIAÇÕES À DESCOBERTA DOS COMPLEXOS

A ENERGIA PSÍQUICA E SUAS METAMORFOSES

TIPOS PSICOLÓGICOS

TIPOS PSICOLÓGICOS EXTROVERTIDOS

TIPOS PSICOLÓGICOS INTROVERTIDOS

INCONSCIENTE COLETIVO

ARQUÉTIPOS

Guardiões do saber


C.G. Jung

SÍMBOLO

Nise da Silveira

       Toda imagem arquetípica não é um símbolo por si só. Em todo símbolo está sempre presente a imagem arquetípica como fator essencial, mas, para construí-lo, a esta imagem devem ainda juntar-se outros elementos. 0 símbolo é uma forma extremamente complexa. Nela se reúnem opostos numa síntese que vai além das capacidades de compreensão disponíveis no presente e que ainda não pode ser formulada dentro de conceitos. Inconsciente e consciente aproximam-se. Assim, o símbolo não é racional nem irracional, porém as duas coisas ao mesmo tempo. Se é de uma parte acessível à razão, de outra parte lhe escapa para vir fazer vibrar cordas ocultas no inconsciente. "Um símbolo não traz explicações; impulsiona para além de si mesmo na direção de um sentido ainda distante, inapreensível, obscuramente pressentido e que nenhuma palavra de língua falada poderia exprimir de maneira satisfatória" (Jung).

       Figuras sintéticas, substitutivas de coisas conhecidas não são símbolos - são sinais. Exemplo: asas estampadas no quepe dos aviadores. Representações figuradas de objetos ideais ou materiais não são símbolos - são alegorias. Exemplo: a justiça representada por uma mulher de olhos vendados. Os símbolos, segundo Jung, são a expressão de coisas significativas para as quais não há, no momento, formulação mais perfeita. Exemplo: a imagem da caverna, descrita por Platão, onde homens acorrentados vêm apenas o movimento de sombras sem se darem conta de que desconhecem a verdadeira realidade.

       Os símbolos têm vida. Atuam. Alcançam dimensões que o conhecimento racional não pode atingir. Transmitem intuições altamente estimulantes prenunciadoras de fenômenos ainda desconhecidos. Mas desde que seu conteúdo misterioso venha a ser apreendido pelo pensamento lógico, esvaziam-se e morrem.

       0 conceito junguiano de símbolo difere, portanto, do conceito de símbolo da escola freudiana. As representações disfarçadas de conteúdos reprimidos no inconsciente são símbolos para os freudianos e apenas sinais para os junguianos. Freud afirma que a simbolização surge como resultado do conflito entre a censura e as pulsões reprimidas, enquanto Jung, em vez de ver na atividade formadora de símbolos o resultado de conflitos, vê uma ação mediadora, uma tentativa de encontro entre opostos movida pela tendência inconsciente à totalização. Outra diferença consiste em que, na concepção freudiana, embora os símbolos sejam numerosos, referem-se sempre a reduzido número de idéias inconscientes que dizem respeito ao corpo do indivíduo, às personagens da família, aos fenômenos do nascimento, da sexualidade e da morte. 0 símbolo, na concepção junguiana é uma linguagem universal infinitamente rica, capaz de exprimir por meio de imagens muitas coisas que transcendem das problemáticas específicas dos indivíduos.

       Freud sustenta que todas as ocorrências da vida psíquica pessoal ficam indelevelmente gravadas no inconsciente. Nada se apaga. Tudo se conserva e, sob circunstâncias favorecedoras, poderá voltar a surgir. E para ilustrar essa idéia, recorre a uma comparação fantasista. Imagina Roma vista num corte em profundeza, conservadas suas diversas fases: a Roma quadrada, pequena colina erguida sobre o Monte Palatino; a Roma dos Septimontium que reuniu a população instalada sobre sete colinas; depois a área delimitada pela muralha de Servio Túlio; a seguir, a cidade cercada pelas muralhas construídas sob ordens do imperador Aureliano e, posteriormente, cada fase de transformação da cidade eterna, tudo isso preservado, todas as fases conservadas intactas e não apenas ruínas esparsas, correspondentes a este ou àquele período. Assim seria a vida psíquica inconsciente. Seus conteúdos manter-se-iam permanentemente iguais.

       A concepção de Jung é diversa. Desde o inicio ele via o inconsciente num constante trabalho de revolver conteúdos, de agrupá-los e de reagrupá-los. Mais tarde porém. através de sua experiência clínica, chegou à conclusão que algo ainda mais importante acontecia: os conteúdos do inconsciente não se mantinham necessariamente iguais para sempre. Eram susceptíveis de metamorfoses. Será possível acompanhá-las através dos sonhos, nos casos individuais. Na vida social poderão ser captadas sobretudo nas transformações dos símbolos religiosos. 0 inconsciente sofre mudanças e produz mudanças. Influencia o ego e poderá ser influenciado pelo ego.

       Desde que a atividade consciente repousa sobre o lastro básico dos instintos e dos arquétipos, será utilíssimo para a saúde psíquica estabelecermos diálogo entre consciente e inconsciente a fim de nos apropriarmos do influxo energético que emana do dinamismo das estruturas de fundamento da vida psíquica. Quando se abrem fendas demasiado largas entre consciente e inconsciente, surge a neurose, a doença da nossa época. Será, portanto, de vital importância dedicar conscienciosa atenção às imagens arquetípicas. Tais como se apresentam, elas correspondem a um modo de vida arcaico. Teremos de elaborá-las, na medida em que possamos atingi-las, e modificá-las no sentido de adaptação às necessidades de nosso tempo.

       É este, resumidamente, o pensamento de Jung, expresso nos seus últimos escritos. Nota-se uma ampliação em profundeza do diálogo entre consciente e inconsciente já iniciado no seu livro de 1928 "As relações entre o Ego e o Inconsciente".

       Tendo presentes esses dados, compreender-se-a porque a psicologia junguiana não se interessa unicamente em fazer achados arqueológicos nas produções do inconsciente e em interpretá-los como sobrevivências de mundos mais antigos. Afigura-se-lhe ainda mais importante descobrir e acompanhar, nessas produções, o contínuo processo de elaboração dos conteúdos do inconsciente.

       Um dos últimos livros de Jung tem por título Aion (1950), É Aion o deus da religião mitraica que representa o eterno envolver do tempo, e eon significa uma era, um segmento de tempo histórico. Sob este título Jung estuda as modificações da visão do mundo formada pelo homem no curso da era cristã em correlação com as transformações pelas quais vem passando o arquétipo do self (si mesmo).

       Esta linha de pensamento do mestre orienta as pesquisas de Marie Louise von Franz. Em estudos de muita originalidade, ela já apresentou dois cortes transversais, distantes um do outro quatorze séculos, desse lento processo de desenvolvimento que vem se desdobrando na profundeza do inconsciente coletivo, No seu trabalho - Passio Perpetua - analisa os sonhos de Santa Perpétua, mártir cristã do século I, mostrando que o cristianismo havia sido incorporado às correntes de forças ascendentes do inconsciente, Com efeito, o desenvolvimento do homem ocidental exigia, naquela fase de decadência do império romano, repressão da vida instintiva a fim de que a consciência melhor se diferenciasse. E era este, precisamente, o programa da nova religião.

       Noutro ensaio - Sonhos e visões de São Niklaus von der Flue - Marie Louise von Franz continua a pesquisa dos processos em desenvolvimento no inconsciente coletivo. Os sonhos e visões do santo suíço do século XV evidenciam, que o obscuro labor do inconsciente havia conduzido seus conteúdos a um estágio bastante diferente da situação no tempo de Santa Perpétua. Agora, nos sonhos de São Niklaus, símbolos pagão vinham fusionar-se com símbolos cristãos. Num desses sonhos, por exemplo, Cristo se apresenta revestido numa pele de urso, tal como costumava fazer o deus germânico Wotan quando errava pelos caminhos do norte da Europa. E essa imagem desperta no santo um inefável sentimento de amor. Cristo vestindo pele de urso é um símbolo em cuja construção reúnem-se aspecto espiritual luminoso e aspecto escuro animal, formando uma totalidade.

       Curioso testemunho contemporâneo dessa aproximação de opostos em elaboração, é a pintura de um rapaz pernambucano, feita em 1963 (nossa coleção particular), onde se vê a Virgem Maria com os pés mergulhados no interior da cabeça de um gato preto. A orla do manto azul da Virgem dá o colorido aos olhos do gato e a ponta de seus pés confunde-se com os dentes do animal. Esta imagem bem pouco dogmática reúne o aspecto luz e pureza da bem aventurada aos atributos terrestres da mulher representados pelo gato, animal que é o mais apto representante de sua sombra e que sempre esteve em conexão com as Mães Divinas pagãs.

       Observe-se que nesses exemplos não se verifica mera emergência de símbolos pagãos, mas a tendência desses símbolos a fundirem-se com os símbolos cristãos, permitindo admitir-se e que está em curso, no inconsciente, uma reorganização de seus conteúdos.

       Uma vez obtida a diferenciação dos opostos Deus - diabo, bem - mal, instinto - espírito, que foi psicologicamente necessária ao afinamento da sensibilidade do homem ocidental, parece que muito lentamente se está preparando, nas profundezas da psique, uma nova reaproximação entre opostos, reaproximação que se realizaria, porém, num nível mais alto que aquele de sua primitiva coexistência. Nas produções do inconsciente vão se acentuando os sinais anunciadores de que se delineia uma futura coordenação de forças onde os instintos (o animal em nós) venham a ser integrados aos valores espirituais de nossa cultura.

Próximo capítulo - Processo de individualização.