A VIDA

DAS EXPERIÊNCIAS DE ASSOCIAÇÕES À DESCOBERTA DOS COMPLEXOS

A ENERGIA PSÍQUICA E SUAS METAMORFOSES

TIPOS PSICOLÓGICOS

TIPOS PSICOLÓGICOS EXTROVERTIDOS

TIPOS PSICOLÓGICOS INTROVERTIDOS

INCONSCIENTE COLETIVO

ARQUÉTIPOS

SÍMBOLO

PROCESSO DE INDIVUDUALIZAÇÃO

O SONHO

CONTOS DE FADA

Guardiões do saber


C.G. Jung

MITOS

Nise da Silveira

       Que significação poderá ter para o homem, da era atômica a narração dos feitos de deuses nos quais ele não crê, ou das aventuras de heróis que os atuais astronautas ultrapassaram? Nenhuma, aparentemente. Entretanto os mitos continuam a fascinar. Os estudos e as pesquisas recentes no campo da mitologia multiplicam-se, conduzidos não só por psicólogos mas igualmente por antropólogos e sociólogos. Mesmo livros de qualidade duvidosa, pseudo-científicos e romanceados, desde que tratem de mitos, encontram sempre público ávido. Este interesse crescente por temas que se desenvolvem num plano tão distante da realidade pragmática de nossos dias dará alguma indicação sobre à psicologia do homem ocidental moderno? Será talvez um fenômeno de compensação ao extremado racionalismo de nossa época? O leitor poderia deter-se aqui, um instante, considerando estas perguntas.

       A mais antiga das interpretações da mitologia é o evhemerismo (Evhemero, filósofo grego do IV século antes de Cristo). Os mitos seriam a transposição de acontecimentos históricos e de seus personagens para a categoria divina. Ainda no século XIX houve mitólogos que continuaram sustentando que a mitologia grega era a história de épocas remotas, elaborada pelos sacerdotes, com a íntenção deliberada de transformar heróis humanos em deuses.

       Outra maneira de interpretar os mitos foi entende-los como alegorias de fenômenos da natureza que o homem esforçava-se para compreender. É a teoria naturalista. Originária também da antigüidade grega, esta teoria foi defendida até começos do século XX e talvez conte ainda hoje partidários.

       A abordagem do mito pelos especialistas modernos é muito diversa, Estes não os consideram narrações históricas reelaboradas fantasiosamente, nem tão pouco tentativas para explicar fenómenos da natureza. Os mitólogos modernos vêm no mito a expressão de formas de vida, de estruturas de existência ou seja de modelos que permitem ao homem inserir-se na realidade. São modelos exemplares de todas as atividades humanas significativas. Os mitos, nas sociedades primitivas, escreve Malinowski, «são a expressão de uma realidade original mais poderosa e mais importante através da qual a vida presente, o destino e os trabalhos da humanidade são governados.»

       A interpretação que Jung faz dos mitos acrescenta aos conceitos dos especialistas modernos dimensões mais profundas. Segundo Jung «os mitos são principalmente fenômenos psíquicos que revelam a própria natureza da psique». Resultam da tendência incoersível do inconsciente para projetar as ocorrências internas, que se desdobram invisivelmente no seu íntimo, sobre os fenômenos do mundo exterior, traduzindo-as em imagens. Assim, «não basta ao primitivo ver o nascer e o por do sol; esta observação externa será ao mesmo tempo um acontecimento psíquico: o sol no seu curso representará o destino de um deus ou herói que, em última análise, habita na alma do homem.

       Os mitos condensam experiências vividas repetidamente durante milênios, experiências típicas pelas quais passaram (e ainda passam) os humanos. Por isso temas idênticos são encontrados nos lugares mais distantes e mais diversos. A partir desses materiais básicos é que sacerdotes e poetas elaboram os mitos, dando-lhes roupagens diferentes, segundo as épocas e as culturas.

       Tomemos para exemplo o mito do dragão-baleia. Em suas numerosíssimas versões este mito segue um curso constante. Na primeira etapa o herói, respondendo ao apelo da aventura, desvincula-se dos laços da família e das rotinas fáceis da vida cotidiana. Enfrenta perigos terríveis. Acaba sendo devorado por uma baleia monstruosa, o que significa mergulhar no inconsciente, no mundo ardente dos desejos, das emoções, dos instintos, onde coexistem toda sorte de escórias junto a valores preciosos. Ai dentro ele faz «a travessia marítima noturna». A saída do herói através da guelra da baleia simboliza sua libertação das trevas da inconsciência. Ele conseguiu escapar do redemoinho dos desejos e das emoções. Poderá tomar alguma distância dos tumultuosos acontecimentos que antes o arrastavam como a um autômato. Pensa, raciocina, renasce num nível superior de consciência. O mito encarna o ideal da todo ser humano: a conquista da própria individualidade.

       Entretanto, diz Jung, a eficácia do feito heróico tem breve duração. Os sofrimentos do herói renovam-se incessantemente pois, se de uma parte o atrai a conquista de níveis de consciência mais altos, de outra parte: também o fascina a volta ao inconsciente que tem as seduções do abraço materno. Ele sofre, dividido por forças opostas. A luta pela vitoria da consciência é o eterno combate de todo homem.

       Em muitas versões deste mito, principalmente nas mais antigas, o homem que encarna o herói apresenta-se dotado de audácia e valentia extraordinárias, mas noutras versões ele é uma pessoa comum. Não aspira realizar façanhas invulgares. E quando o apelo faz-se sentir, resiste, como sucedeu no caso de Jonas. Ir pregar em Nivive, a esplendorosa e devassa capital da Assiria, conforme lhe ordenava a Grande Voz? Jamais ousaria tanto. Fugiu para Tharsis numa tentativa de escapar de si mesmo.

       Mas a tempestade se levanta, Jonas é lançado ao mar. engolido pela baleia e três dias e três noites depois é depositado pelo animal exatamente nas proximidades de Nivive. Jonas não conseguiu desertar.

       Outros lançam-se à aventura, porém uma vez engolidos pelo dragão-baleia não conseguem sair de seu ventre. São destroçados ou perdem-se nos labirintos escuros das entranhas do monstro (esquizofrenia).

       O regresso é sempre difícil e freqüentemente só se processa com ajudas imprevistas (fio de Ariana para Teseu, assistência de Minerva para Jasão, socorro- de Jeová para Jonas).

       A volta do herói, ou daquele que foi levado, por circunstâncias diversas, a viver o papel do herói, é sempre um triunfo. Símbolos solares (pássaros) freqüentemente dão ênfase ao acontecimento indicando por sua presença que a saída do herói do ventre do monstro equivale ao nascer do sol, isto é, equivale a nascer de novo.

       Os temas míticos não são encontrados somente nas mitologias dos povos antigos ou entre grupos humanos primitivos. Não mitos de contexto coordenado e elaborado, mas componentes típicos de mitos continuam emergindo do inconsciente, cada noite, nos sonhos de homens, mulheres e crianças contemporâneos. Surgem reativados pelas condições atuais do sonhador que despertam ressonâncias de experiências semelhantes já vividas pela espécie humana. Outras produções do inconsciente, tais como visões, alucinações, delírios, trazem sempre de permeio componentes míticos. A constatação repetida dessas ocorrências, sem que conhecimentos anteriores os pudessem explicar, levou Jung a admitir que devem estar presentes na profundeza do inconsciente os moldes básicos para a formação dos mitos (arquétipos).

       No curso da análise psicológica muitas vezes surgem sonhos e fantasias figurando personagens e situações míticas que são adequadas representações da condição psíquica atual do sonhador e mesmo de suas perspectivas futuras.

       Por exemplo, não é raro que o mito do herói, citado acima, apresente-se sob aspectos vários e que típicos perigos míticos (encontro com monstros, viagens marítimas tempestuosas, etc.) sejam vivenciados em sonhos. A epifania interior do herói, assinala Jung, tem conseqüências na vida real. É acompanhada de fenômenos de inflação: o indivíduo passa a julgar-se dotado de altas qualidades, sente-se superior aos demais; ou então a impossibilidade de satisfazer pretensões excessivas demonstra ao indivíduo a própria interioridade e ele assume o papel de sofredor heróico. Estes são fatos de observação corrente. Se. através do trabalho analítico, os processos inconscientes chegarem a ser confrontados e o ego despojar-se da identificação com a imagem arquetipica do herói, «abre-se a possibilidade para a síntese de elementos de conhecimento e de ação do consciente e do inconsciente. Isso por sua vez conduz ao deslocamento do centro da personalidade do ego para o self» (Jung).

       Sem a ajuda da mitologia, nunca serão entendidos grande parte dos delírios e alucinações dos psicóticos. Inutilmente procuraremos encontrar a origem de todas as idéias fantásticas dos loucos em suas experiências individuais. Muita coisa escapará inevitavelmente às buscas nesta direção pois, nas psicoses, a inundação do campo da consciência pelo inconsciente traz de roldão conteúdos oriundos de suas camadas mais profundas, de seus fundamentos estruturais, conteúdos que são precisamente os materiais básicos dosmitos.

       Do ponto de vista da psicologia analítica, portanto, o estudo da mitologia não será diletantismo de eruditos. Fará parte indispensável do equipamento de trabalho de todo psicoterapeuta.