A obra do psicanalista francês Jacques Lacan reformulou o modo de pensar psicanalítico, principalmente a partir da segunda metade do século XX. E, por esta razão, não é demais que se repita: Lacan era, em seu tempo e é hoje ainda, uma das mais importantes figuras do saber psicanalítico, juntamente com Sigmund Freud. Sua morte aos 80 anos tornou permanentemente necessária a retomada da originalidade textual de seu pensamento que sugere, a quem o segue, uma perene devoção pensante.
Se Freud estabeleceu a rota transferencial da verdade não-toda e foi, por isto, um mestre inovador, analista incomparável e incompreendido ao tomar, respectivamente, a fantasia histérica da ciência com valor sintomático e escrever «Moisés e o Monoteísmo», Lacan foi, no âmbito do (seu) campo freudiano, um porta-voz. Seus temas principais, sua renovação conceitual estavam a requerer um tempo, um discurso e um vocabulário adequados. Lacan, neste mister, foi um malabarista barroco do estilo, usou a expressão conceitual de forma análoga às órbitas elípticas da ciência de Kepler, ou ao maneirismo estético implícito na «Jerusalém Libertada» de Torquato Tasso. Foi o Nijinski da expressividade crítica, pois, conseguiu no palco verbal do conceito e do materna e no palco espacial da topologia, o que a dança só consegue no ballet de pernas e gestos. A letra é seu suporte material, o significante, sua cadeia a deslizar e a Alienação, seu significante fato do sujeito. Por sermos humanos não conseguimos evitar a patologia perversa do totalitarismo, nem a paranóica assertiva de o racismo, nas formas de hostilidade, exclusão e intolerância, vir do futuro, apesar de advertidos por ele. O pensamento Lacaneano, contudo, pouco antes de sua morte, no episódio da dissolução da Escola Freudiana de Paris, foi vítima de um assassinato tanto da parte dos que o fetichizavam sem seguí-lo, quanto da parte dos que o estigmatizaram. Por isto, Freud nos disse: «deformação de um texto (ou de um pensamento) se aproxima, desde um certo ponto de vista, de um assassínio. A dificuldade não está na perpetração do crime, mas na dissimulação de seus traçor»: Sua palavra, malgrado nosso mal-estar civilizatório, "badalativo" e específico, fez série e, como tal, ecoou nos trópicos, fez eco de par com Narciso que se engalanou de Lei perseverante e paterna. Após à dissolução acima citada, fundou a Causa Freudiana que, após sua morte, em orfandade crítica, não impediu que sua palavra, no nível de preocupação teórico-clínica, continuasse disseminando, transmitindo seu ensino, seu estilo, sua autoria da própria palavra (mestria) através de seus Escritos e Seminários. E, assim, a incessante e fugaz paixão deu lugar à metafórica, sintomática e intra-subjetiva verdade de um pensamento que seduz, fascina e ensina por sua retórica, de um lado, o Saber (Gozo) e de outro, o Sintoma (Verdade). Esta é a verdadeira Spaltung do sujeito.
A análise não é mais indexada, não tem tempo, nem preço, pois a dívida é para com o significante, simbólica. Sua palavra se reproduz, seu ensinamento traz à luz a evidência perene que ofusca seus detratores. Lacan é Mestre, seja por consenso de colegas, nomeação histérica de discípulos ou reconhecimento de pares (analistas). Não é um Pai, já que inventou a metáfora deste lugar: o Nome-do-Pai simbólico enquanto significação do Falo e também o Pai-Real, assim como o Real do Pai: luto possível de um imaginário Pai-Ideal. Qual um mestre do medievo, não se escondia no jogo da verdade que lhe autorizava ora a ilusão, ora a suposição de portar, em nome do Outro, o desejo, este bastão fálico. Seu verdadeiro "jogo de dados" mallarmaico estava lançado na intenção explícita de "retomada do fio da meada da verdade freudiana." Isto se concretizou. Sua fala, como todas, foi parcialmente ouvida, ainda que nos avisasse: «Falo, sem a mínima esperança de me fazer entender corretamente», mas, qual Sísifo, ainda assim falava.
Fica-nos, então, deste psicanalista francês, que dissolveu a impostura que se tentava fazer em seu nome e nos disse como últimas palavras: «estou desaparecendo» , o que, do ponto de vista da grande imortalidade preconizada pelo romancista tcheco Milan Kundera não se deu. Por isto, seus Escritos e seus Seminários (forma de exposição e autoria aprendida com seu mestre Kojève) fazem-no cada vez mais presente. Por isso, para concluir esta parte, deixamo-lo falar de seu próprio legado:
«O que caracteriza meus Escritos é que não os escrevi para gue fosse "compreendidos" eu os escrevi para gue fossem (efetivamente) lidos"; "é muito freqüente que, após... anos, um de meus Escritos torne-se "transparente". Vocês, então, verão que, em pouquíssimo tempo, encontrarão Lacan em todos os cantos..." » (conforme Conferência de Imprensa realizada em 29-11-74, no Centro Cultural Francês em Roma, Lettres de L'École Freudienne de Paris, pp.17/18).
Conclusão
A obra do psicanalista francês Jacques Lacan reformulou o modo de pensar psicanalítico, como já se disse, principalmente, a partir da Segunda metade do século XX. Produziu, em seus primórdios, o verbete sobre a Família para a Enciclopédia Francesa e o publicou depois em livro com o nome de «Complexos Familiares», isto porque incluiu a dita questão familiar no âmbito do Complexo de Castração. Neste texto, produziu ainda, dentre outras, as categorias de Intrusão e Desmame. Esta última rompia com a ilusão biologista de maturidade inerente à pulsionalidade genital. Lança-se, também, à inclusão da suposição freudiana de a homossexualidade ser, desde Schreber, o núcleo de psicose paranóica no, também, freudiano Projeto de uma entidade científica e metapsicológica. Por isso, estudou a psicose paranóica' de Marguerite Anzieu, dita por ele, em metáfora substitutiva como Aimée (Amada), do ponto de vista das relações entre a metapsicologia freudiana e o bovarismo de Jules Gaultier (suposição de que se é um Outro que não se é), basta ler-se «A Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade», sua tese de doutoramento. Tem como projeto, em seguida, a retirada da obra freudiana da inoperância teórico-clínica a que a IPA (Sociedade Psicanalítica Internacional, inglesa) lhe condenara. Aí, em nome de Freud, usava-se tudo, menos Freud. E tal procedimento, tanto a juízo de Lacan quanto, de uma certa forma, do próprio Freud, que em vida rechaçou com veemência alguns de seus detratores e algumas de suas supostas influências, deu-se o desfiguramento de sua obra. Freud não permaneceu insensível ao que ocorria, senão vejamos:
a) sobre Viena:
«Odeia Viena quase pessoalmente e acumulo forças renovadas no mesmo instante em que tiro os pés do chão da cidade de meu pai» (cf. Freud, Sigmund, Diário (1323/1339) Crônicas Breves, Porto Alegre, Artmed, 1399, referência à 28/03/1330);
b) sobre a Medicina:
«Tal como as coisas estão hoje, mediante esta escolha vocacional ter-se-ia impedido toda a possibilidade de alcançar êxito, por exemplo, em uma universidade e, se tivesse que começar a vida como médico praticante, encontrar-me-ia no meio de uma sociedade que não me entenderia os esforçor e tratar-me-ia com desconfiança, com hostilidade». (cf. idem, ibidem, 21/02/31);
c) Sobre Melanie Klein:
«... temos uma boa oportunidade de adiarmos a publicação do livro de Melanie Klein e finalmente repudiá-lo, devemos aproveitá-la... Nos últimos estudos do desenvolvimento da criança do sexo feminino, cheguei à convicção de que os resultados da terapia lúdira kleiniana são enganosos e suas conclusões equivocadas. De fato, não temos nenhuma obrigação de patrocinar esta obra» (cf. idem, ibidem, 24/07/1331);
d) sobre Wilhelm Reich:
«O complexo de Édipo não é a causa específica da neurose. Não há uma causa específica na etiologia de uma neurose. Reich negligencia o fato óbvio de que há muitos componentes da pulsã que não podem ser descarregados nem no mais perfeito orgasmo». (cf. idem, ibidem, 03/01/1330);
e) sobre Sandor Ferenczi:
«Já que você gosta muito de desempenhar o papel de mamãe em relação aos outros e a seus pacientes, talvez o esteja fazendo em relação a você próprio. Portanto, você deveria escutar o lembrete do pai-brutal - de que tanto quanto me recordo - você não era estranho a jogos pré-sexuais com seus pacientes, no período pré-analático, de tal forma que poderia associar "sua nova técnica" ao seu velho erro» (cf. idem, ibidem, 28/10/1331);
f) sobre Otto Fenichel e a Psicanálise de seus dias:
«Irritante, na verdade pior do que isto, é o acúmulo de uma experiência de que nada pode ser feito, a cada vez mais pessoas. Primeiro um, depois outro revela-se imprestável. A destinação de Ferenczi a sua técnica de suspeição, as tentativas de Reich e Fenichel de usar indevidamente os periódicos como forma de propaganda política, tudo mostra como sob a influência corrosiva da atualidade, personalidades rapidamente se decompóem» (cf. idem, ibidem, 03/01/1332).
Isto é, lançava-se e lança-se ainda, este procedimento ao mais audaz ecletismo: Psicologia do Ego, obras de Karl Abraham, Rank, Jones, Adler, Winnicott, Ferenczi, e, sobretudo, Melanie Klein. Lacan se propôs, então, a "retomar o fio da meada da verdade freudiana", mas pagou o preço da excomunhão, já que a condição imposta pela IPA inglesa para filiar a Sociedade Francesa de Psicanálise era a não inclusão de seu nome e o de Françoise Dolto. É desta época O Seminário, Livro XI, Os quatro conceitos fundamentais em Psicanálise (Inconsciente, Transferência, Repetição e Pulsão) que marcava a opção conceitual pela irredutibilidade da obra freudiana. Funda, logo depois, a ESCOLA FREUDIANA DE PARIS e se
joga à fundação e estudo de Campo Freudiano, isto é, à analogia entre o regime do Inconsciente, a lógica do processo primário freudiano e a sua lógica do significante retirada, por apropriação abdutiva, da lingüística de Saussure e Jakobson. Como decorrência deste procedimento, é estabelecido que "só há Inconsciente no ser que fala" e que "a linguagem é condição do Inconsciente, por isto "estruturado como uma linguagem". Formula o próprio Inconsciente como uma Formação do Inconsciente onde são incluídos: uma língua, o sonho, o chiste, o Sintoma e, destacadamente, o lugar de analista. Vê a Transferência, enquanto oriunda da suposição de Saber, como a "atualização do Inconsciente" e o analista (lugar e função emanados da neutralidade do significante, por ser "tela" entre o Real e a realidade) como ponto de renegação, diferente da Verleugnung (desmentido) perversa freudiana. Lastreia os princípios de fundação e estruturação de uma sociedade psicanalítica, a seu juízo, de inclusão do sujeito, ou seja, diferente da autoria autocrática do Mestre, do Desejo de Saber histérico, da alocução do Saber no lugar da morte própria do Discurso Universitário, da foraclusão (preclusão) psicótica e da impostura perversa: funda a Psicanálise em novos conceitos que são, a saber: a identificação ao próprio Sintoma (manda-nos amar o sintoma e não um outro, como a nós mesmos), a "Castração do Pai: a única que há", o "retorno único do recalcado", a Verworfen (exclusão) como o que "recusada pelo Simbólico retorna no Real (cf. O Seminário, Livro III, As Psicoses) e a «travessia da fantasia». Revê a questão da Spaltung (divisão) freudiana do sujeito, pois esta não mais se dará entre Ego-Ideal (Imaginário, para Lacan) e o Ideal-de-Ego (Simbólico para o mesmo autor) e sim, entre o Significante-Mestre, S1, O Sintoma e S2, O Saber (cf. "Ciência e Verdade"- Escritos) e, posteriormente, entre o Sintoma e o Gozo (novas marcações destes significantes no campo lacaneano (cf. O Momento de Concluir). Retoma, modificando, as leituras freudianas de Dora (cf. O Avesso da Psicanálise), Leonardo da Vinci (cf. A Relação de Objeto), O Homem dos Lobos (cf. As Psicoses), Schreber (cf. As Psicoses) e acrescenta à investigação freudiana a questão de Hamlet e a Tragédia do Desejo (cf. O Desejo e sua Interpretação); Don Juan e a heterossexualidade (cf. A Relação de Objeto); Joyce e o Sintoma, aí nao como Sintoma Fundamental (cf. Le Sinthome), mas como santidade (Symptôme), e a Lei não se inscrevendo, por ser perseverante, paterna e narcísica (cf. RSI,) noutro lugar, salvo no Desejo; o Kant com Sade (cf. Escritos e/ou A Ética da Psicanálise), ou seja, o duo "paranóico-perverso" do "sujeito do prazer", delirante e/ou patológico; os quatro discursos (Universitário, da Histérica, do Mestre e do Analista) e sua concepção de Estrutura. Esta, por sua vez, articula a impossibilidade do Real à contingência da Simbólico e à consistência do Imaginário, ao Sintoma (signo de que se pertence à diferença sexual, cf. O Sintoma) e ao objeto a (objeto causa do Desejo, por ser semblante do Falo enquanto este, é o verdadeiro e impossível objeto de Desejo). Do ponto de vista de sua C1ínica do Real, Lacan articulará os Nomes e/ou Versões do Pai (cf. Os Nomes-do-Pai, Le nom dupes-errant) e o objeto a e distinguirá Pai Real, Pai Simbólico (Nome-do-Pai enquanto significação do Falo) e Pai Imaginário (Pai Ideal, o da Castração) e Real-do-Pai: a possibilidade ou não de se fazer luto do Pai Ideal.
Nos anos 70, Lacan fundou o dito Campo Lacaneano (cf. O Avesso da Psicanálise) enquanto Campo do Gozo e aí tivemos: o analista concebido como Sintoma, a função Desejo do Psicanalista (Silêncio e/ou Interpretação) tomada como suporte do mais-gozar do analisando; a Direção da Cura como destacamento, no Inconsciente, de um Gozo particularizado para um sujeito dito, neste momento, Sintoma-Real.
E desse Inconsciente já havia sido dito, no Campo Freudiano: "O Inconsciente e de Freud, disse-o apenas simbólica"; e, em seguida, no Campo Lacaneano foi dito: "O Inconsciente é de Lacan, Freud fundou apenas um campo matêmico" (conceitual). E a análise, após ser vista como o que tinha por objetivo fazer "sofrer o menos passível", tornara-se a simbolização, o deciframento do enigma desejante (Che vuoi?), entendendo-se por tal o destacamento do que de Real afetava o objeto pulsional, ou seja, o Sintoma-Real, ou ainda, o gozo particularizado de um sujeito, isto é, o deciframento do que de Real, implícito no objeto pulsional, há do gozo particularizado de um sujeito.
Fica-nos, então, deste psicanalista, que dissolveu a impostura que se tentava fazer em seu nome, quando disse: «vão ser alguma coisa sem mim», e deixou-nos a Mestria de sua autoria, esta cada vez mais presente, o seu legado.
PRÓXIMO CAPÍTULO: A CASTRAÇÃO