Embora Freud tenha ficado conhecido como aquele que nos levou ao conceito de Castração, este conceito não domina a maior parte de sua obra. O conceito de Castração só passa a ocupar um lugar de importância em sua obra quando Freud abandona a teoria do trauma e sua fundamentação biológica, ou seja, pós-1920.
De qualquer maneira, a Castração é um conceito tardio, fruto da opção de Freud pelo Édipo e pela Castração, já que o Édipo era, nele, a estrutura implícita da Castração e a Neurose e o Inconsciente, os dois efeitos possíveis da Castração. Freud vai-nos legar o limite da análise, o
limite de eficácia clínica da Psicanálise, o dito "rochedo da Castração", o que de certa forma foi algo lamentável porque, em nome desse "rochedo", Freud praticou os equívocos (reconhecidos por ele e por Lacan) na escuta do "Homem dos Lobos".
Mas, de qualquer maneira, devemos a Freud a primeira formulação do conceito de Castração.
A Castração, para Freud, tem dois elementos fundamentais: o recalque originário (Verdrängung) e a denegação (Verneinung).
A função do recalque originário é afastar a fantasia perversa da consciência, deslocá-la para o Inconsciente e este, através de um trabalho de elaboração, transformá-la em fantasia Inconsciente. Esta, por sua vez, torna o Gozo Fálico universal e acessível a todos os falantes. O conceito de denegação, em Freud, incide sobre a Bejahung, faz com que cheguemos à conclusão de que só há Inconsciente, por efeito de denegação, no ser que fala. Desta forma, quem não possui o dom da linguagem não tem referência ao Inconsciente, como na psicose e na perversão. Na psicose, no lugar do Inconsciente, tem-se o delírio; na perversão, no lugar do Inconsciente, tem-se a constituição do objeto fetiche.
Freud atribuiu um papel de relevância ao motivador interno responsável pela dinâmica interna da Castração, chamada literalmente de sua "mola-mestra": a Angústia. Se o limite da Castração era o seu "rochedo", a sua motivação interna, aquilo que estava para além da fundamentação do Inconsciente, que era a pulsão de morte, estabelecia a Angústia, na sua tensa relação com a pulsão de morte, como a "mola-mestra", a dinâmica da Castração. Tanto é que Freud só termina a elaboração da sua concepção de Castração em 1926, quando escreve «Inibição, Sintoma e Angústia», dando à Inibição e à Angústia o mesmo estatuto dado ao Sintoma propriamente dito.
Essa opção de Freud pela Castração e pelo Édipo é chamada por Lacan de "opção pelo significante", que faz com que, num texto memorável, ele nos chame a atenção que rememorar e elaborar são fundamentais para a escuta, e a forma de escuta por ele empregada, derivada da escuta das histéricas, principalmente Anna O. e Elisabeth von R. A escuta das histéricas foi, sem dúvida, a razão de ser de sua Associação Livre, que constituiu-se na "cura pela palavra", a talking cure.
Freud, então, abandona a hipótese traumática, sendo isto consolidado em «Construções em Análise», quando ele nos chama a atenção de que por mais que haja incidência do recalque, sobra sempre algo de renegado, algo da ordem da Verleugnung. Propõe, então, a construção como algo relativo à Fantasia, como algo relativo à reconstituição (já que construção é sinônimo de reconstituição) dos fragmentos de memória, daquilo que ele chama, no sonho, de verdade histórica e que Laurence Bataille chamou de Umbigo do Sonho. Então, a construção seria pertinente à estrutura fantasmática e a Interpretação seria pertinente à estrutura sintomática. Esta será uma conclusão de Lacan, bem assinalada por Serge Cotté em seu
livro «Freud e o Desejo do Psicanalista».
De qualquer maneira, a incursão de Freud sobre a Castração termina aí. O que nós temos hoje da teoria da Castração, reconceituada a partir dos termos propostos por Freud e proposta como uma coisa inteiramente distinta da Castração em Freud, devemos à obra de Lacan.
A teoria da Castração é retomada em três momentos por Lacan. A primeira incursão de Lacan a respeito do tema da Castração data dos anos 30, quando a convite de Jean Hyppolite ele escreve para a Enciclopédie Française um verbete sobre a família, denominado de «Complexos Familiares», que dá origem ao livro que leva este nome. Neste livro, Lacan começa colocando a substituição do trauma - trauma que, para Freud, foi substituído pelo conceito propriamente dito de Castração e, mais especificamente, pelo de recalque. Lacan, neste momento, prefere ver, no nível do falante, o desmame como efeito do recalque e, onde se lia trauma, Lacan passa a ler desmame, efeito de recalque e associa o trauma à foraclusão, associa o trauma à eclosão da psicose, ou, como é dito por ele ali, textualmente, a reconversão do Narcisismo em objeto (objeto ai no sentido de das Ding).
Mais tarde, nos anos 50, Lacan retoma o tema da Castração de uma forma mais detalhada. E o que ele diz sobre a Castração nos anos 50, no Seminário «Relação de Objeto» acaba sendo consumido como se fosse a sua teoria da Castração. Este Seminário surge como uma correção ao texto de Freud, de 1926, «Inibição, Sintoma e Angústia», porque naquele texto o Sintoma era relativo à Castração, mas a Inibição e a Angústia seriam os sintomas de quê? Teria a Castração três efeitos sintomáticos, que seriam o Sintoma propriamente dito, a Angústia e a Inibição? Obviamente que não. A Angústia e a Inibição são, tanto para Freud como para Lacan, sintomas neuróticos. Mas para chegar a esta conclusão Lacan teve que fazer duas reconsiderações: reconsiderar a teoria freudiana sobre o objeto e reconsiderar a teoria freudiana sobre a Castração.
Em sua reconsideração da teoria freudiana sobre o objeto, Lacan mostra a superioridade das concepções de Freud sobre as concepções de Karl Abraham, Winnicot e Melanie Klein. Abraham, ao dizer que o objeto é parcial, diz, para Lacan, o "óbvio ululante", pois não há objeto que não seja parcial, porque não há objeto que não dependa da sua estrutura pulsional. Já Winnicot, ao dizer que o objeto é transicional, ou seja, que é da ordem da transitividade, também cai no óbvio, porque a relação de objeto pressupõe a troca de objeto. Melanie Klein, por sua vez, tentou criar uma ética do objeto, confundindo Ego com Superego e achando que este último protegeria o Ego das incidências agressivas do Id. Isto faz com que esta teoria seja uma teoria psicótica, porque o comparecimento do Id no Ego é impossível para Freud. Isto seria aquilo que foi consagrado pela psiquiatria como loucura. Entre o Id e o Ego há, para Freud, o Superego e o Superego secciona o Ego (clivagem do ego) em Ideal-de-Ego e Ego-Ideal, e não, em objeto bom e objeto mau. A clivagem do ego não passa pelo fenômeno amor, ódio e reparação, como se supõe Melanie Klein.
Superado isto, Lacan vai mostrar as incompletudes da teoria freudiana sobre o objeto. Freud apresentava o objeto não como relação e, sim, como "escolha". Esta "escolha" de objeto seria primordialmente narcísica, secundariamente amorosa e, por finalidade, anaclítica, ou seja, desejante. Para Lacan não há "escolha", mas relação de objeto. Além disso, estes objetos seriam distintos de todos: objetos de demanda que seriam os objetos amorosos e objetos de desejo que seriam os objetos anaclíticos.
Por esta razão, a juízo de Lacan, Freud não se deu conta de uma teoria eficaz do objeto, embora ele vá dizer, em «O Mal-estar na Civilização» que a causa deste mal-estar se deve ao fato de das Ding ter sido perdido para sempre, constituindo-se, por isso, no objeto de desejo. Freud não consegue configurar isto na estruturalidade clínica porque lhe falta, a juízo de Lacan, o conceito de falta de objeto e falta de objeto significa presença do Sujeito.
Ora, a Fantasia é uma relação de afetação do Sujeito pelo objeto causa de desejo (objeto a). Se Freud não tem a categoria de Sujeito no lugar da falta, faltar-lhe-á, também, a categoria de Fantasia. Consequentemente, o Desejo, para Freud, não seria, como Lacan o vê, sustentado pela Fantasia, porque Freud coloca o Desejo como se fosse perverso. É por esta razão que ele passa por todas aquelas hesitações quando inaugura a teoria do Ego na «Introdução ao Narcisismo», colocando-o inteiramente do lado do objeto, tal como ele se passa na Fantasia Perversa, como Lacan a escreve no matema: E o objeto a que marca o Sujeito.
Lacan, então, retomando esta teoria do objeto de Freud, propõe dois pólos, onde a Inibição e a Angústia seriam sintomas sucedâneos à Castração; dois pólos onde a Castração seria atualizada como fixação de Sentido, porque é o termo que ele usa: Sentido, ou seja, é uma relação entre a contingência simbólica e a consistência imaginária. Esta relação dar-se-ia na Privação e na Frustração. Assim, o Sintoma seria relativo à Castração, a Inibição relativa à Frustração e a Angústia relativa à Privação.
Lacan retoma isto mostrando que a Angústia pega a Castração ao "pé da letra" quando vai nos «Escritos» de 1966, distinguir o Édipo como proibição do Desejo, a Castração como privação do desejo incestuoso e a Neurose como punição do desejo incestuoso.
Mas, voltando-se a 56-57, Lacan ainda vai desdobrar esta teoria da Castração. Fica óbvio que Privação e Frustração são efeitos neuróticos da Castração. Com isto, ele resgata o aforismo freudiano de que "a Castração tende à Neurose". E o Inconsciente será, a juízo de Lacan, um efeito da Castração. É o Inconsciente como Pré-consciente, que determinará se uma imagem coalecida será Inconsciente ou neurótica. Se ela se desfizer por ação do deslocamento, ela será Inconsciente; mas se ela se condensar, se fixar em Sentido, será Neurose.
Neste momento, Lacan já remete a Angústia à Privação, fazendo uma distinção básica entre Angústia como sintoma histérico - o objeto a aposto ao Pai-Ideal, ao Pai Imaginário e a Angústia de Castração, que é o movimento interno da Castração, da sua eclosão ao seu limite, que é o "rochedo". Lacan vai, então, partir para a definição do conceito de Castração.
A Castração começa, para ele, pelo desfazimento da Alienação, pela sua desatualização. Alienação, para Lacan, não tem nada a ver com o conceito de alienação em Marx ou em Hegel, com "falsa consciência", no último e com "perda de consciência histórica pela contradição da sociedade civil entre o capital e o trabalho", no primeiro. Em Lacan, Alienação é fato significante do sujeito. A falta significante (Simbólica) é o fato significante do Sujeito.
A Castração começa por dissociar o Sujeito da falta, porque a Alienação é garantia da prevalência do Édipo. Édipo é identificação, é Gozo Fálico, e a Castração tem que produzir o Pai Imaginário. Em vários momentos da obra de Lacan, dos anos 50 e 60, ela é sinônimo de Pai Imaginário que significa Pai-Ideal, Pai Imaginário, como condição do Real do Pai.
A Castração coloca a questão fundamental da análise para Lacan, que lhe faz dizer, em 1966, que tudo se cura pelo Sintoma, pelo luto do Pai-Ideal. Luto este, impossível na psicose porque ali não há ação do Pai Simbólico; luto possível na Neurose, na medida em que ela for reconduzida à Castração do Pai; e luto anulado na perversão, na medida em que o desmentido do Pai Simbólico vem do Real (Lacan chama isto de déni, para distinguir do sentido comum da palavra desmentido, em francês démenti).
Assim operando, Lacan coloca-nos diante da questão da Castração: é o Sujeito referido ao Real que ocupa o lugar do Outro. Ele se dissocia do lugar da falta de objeto, que é Imaginário e que abrigará a falta simbólica. A Castração constitui o Ego, i(a), objeto imaginário (para Lacan, Ego e moi são a mesma coisa). O Ego, constituído como identificação ao semelhante, no Estádio do Espelho, se torna na Castração lugar de resolução do objeto imaginário, consistente, semelhante.
Então, a Castração provoca uma equivalência entre o Pai Imaginário e o Ego. Portanto, a Castração, para Lacan, é a equivalência entre o Pai Imaginário, o Pai-Ideal e o Ego. Em jargão lacaneano: falta simbólica + objeto imaginário.
Esta é a posição de Lacan sobre a Castração em 1957.
Mas, no Seminário intitulado «Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise», que é um Seminário que foi proferido após sua questão com a IPA, chamada por ele de excomunhão, por ter inflingido a dogmática "religiosa" da instituição que não o acolheu, Lacan muda de opinião. Fazendo um parêntese histórico: jamais chegou a retornar à IPA, porque a Sociedade Francesa de Psicanálise, da qual ele fazia parte, pediu sua filiação à IPA e esta colocou como condição, entre outras, o não credenciamento de Lacan e de Françoise Dolto. Lacan, então, neste momento, interrompe o seu Seminário sobre «Os Nãos-do-Pai» para tentar resgatar Freud no que ele dizia ser a sua inoperância, uma vez que a IPA, ajuízo dele, cultuava a figura de Freud, mas era inteiramente leiga (para usar um termo de Freud, cf. «A Análise Leiga»), em relação à sua obra. E a prova de que a IPA cultuava apenas a figura de Freud e não a sua obra, foi a existência daquela absurda sociedade em torno do "Homem dos Lobos", presidida por Anna Freud (que o chamava de nosso "Homem dos Lobos"), que o condenou à consolidação de sua psicose. «Os Nãos-do-Pai» seria o seu Seminário do ano de 1963, cujo título era um trocadilho homofônico com o sentido de "pato", de "logro", que poderia ser vertido para o português como "pai logrado". Este Seminário seria retomado anos depois com o nome «Os Nomes e/ou as Versões do Pai».
Voltando à Castração: em 1964, Lacan profere o Seminário «Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise», onde ele dota a categoria da Castração de outra característica, reconfigurando o que também Freud já vira como uma característica da Castração, que é o automatismo de repetição. Lacan está preocupado, ali, em distinguir os efeitos da Verdrängung, recalque originário, dos efeitos da Verwerfung, foraclusão do Nome do Pai. Então, ele vai recorrer a Aristóteles, à "Lei das Quatro Causas", e vai retirar de lá dois termos: autômaton e tiquê. Tiquê é o "encontro faltoso com o Real" e, este "encontro faltoso com o Real" é que teria a ver com aquilo que Freud, redenominando Breuer e Otto Rank, um, com o "trauma histérico" e o outro com o "trauma do nascimento", tentou dar conta e não conseguiu, que é a própria categoria de trauma. Este "encontro faltoso com o Real" comparece sempre em lugar deslocado, diferente no nível da Verdrängung, do recalque originário, diferente da Verwerfung, da foraclusão do Nome do Pai, porque o Real, nesta última, comparece sempre no mesmo lugar. Então, quem faz com que esta repetição se dê, mas sempre em outro lugar, é o autômaton, que nada mais é do que a redefinição do automatismo de repetição e que tem, para Lacan, a estrutura da pulsão.
A partir daí, Lacan vai-nos fornecer uma outra visão, que só será consolidada nos anos 70, que trata dos efeitos da Castração. A Castração seria efeito, neste momento de sua obra, do Édipo, que se passaria no 4o tempo da Estrutura, porque ela converteria a identificação viril, o Pai Simbólico, o Gozo Fálico vigente no Édipo no Pai Imaginário do Pai-Ideal, do Pai Imaginário. Aí seria colocada a grande questão clínica da Psicanálise, que é a questão do Real do Pai, que é um conceito fundamental na Clínica de Lacan. Real do Pai não é Pai-Ideal, e não é Pai-Real, que é ou Privador na perversão, ou Severo na psicose. Real do Pai é a possibilidade ou não de fazer luto do Pai-Ideal, e esta possibilidade só existe na Neurose. Lacan, entáo, vai ver isso, juntamente com o "modo de tratamento" do incesto - incesto no lugar do recalque do parricídio como proibição, distinção entre Lei e Desejo no Édipo, incesto como "a parte que te cabe neste latifúndio". Se o incesto é proibido, então o sujeito é interditado em relação ao incesto e, portanto, o sujeito é privado do incesto. Isto é Castração, para Lacan. Para suprir isto é inventado o Pai-IdeaI: na Histeria, ele será Potente; na obsessividade, ele será Servil. Aliás, a bem da verdade, ao ler o Hamlet de Lacan em «O Desejo e sua Interpretação», de 1959, fica claro que a configuração da Fantasia, na sua relação com o Sintoma é que será histérico ou obsessivo pois não há um ser histérico ou um imanente histérico ou um ser obsessivo ou um imanente obsessivo. É a configuração da Fantasia, na sua relação com o Sintoma que é histérica ou obsessiva. O que há é a constituição da predominância da Fantasia na histeria e a predominância do Sintoma na obsessividade.
A histérica supõe que o Desejo a requer e quer esquecer a morte, porque nela o recalque tem valor de esquecimento. Neste caso, a Interpretação tem que ser dada como Silêncio, como recomposição. A histérica, então, tem que esquecer a impotência e/ou a morte do Pai. Consequentemente, tem que colocar neste lugar o Pai-Ideal e supor um desejo de potência neste Pai-Ideal, que se chamará Pai Potente, embora, ao indagar-se sobre a sua questão desejante, dirige a Freud o Desejo de Saber e isto lhe propiciou: a) a inferição da Transferência, tida posteriormente, como suposição de Saber; b) a Interpretação (Desejo do Piscanalista) interrogativa que deu conta da identificação básica de Dora.
Já a obsessividade, referida ao ódio ao Desejo, tem, para Lacan, Hamlet como grande metáfora, porque ali tem-se que recalcar a questão do Pai Severo, psicotizante, reclamar uma vendetta e, ao mesmo tempo, preservar a mãe, pseudo-objeto amoroso cúmplice dele, porque Hamlet, apesar de não ter participado do assassínio do pai, participara da Fantasia de incesto e de parricídio: a primeira em relação a da e a segunda, tendo-a como cúmplice. Ele, então, tem que odiar o Desejo, porque este rememora a súplica deste Pai Morto, literalmente um fantasma (ghost) e supor que a morte o requer. Por isso, o obsessivo resvala para o lugar de morto: ele mortifica o Outro para não se dar conta da relação sintomática em
relação ao pai e para que o Outro não lhe indague sobre o Gozo. Isto porque o Desejo de Mãe, que se assenhora de seu Desejo, fazendo-o abrir mão deste, condena-o à servidão. Logo, ele, mais do que ninguém, supõe que a Castração é sua e o Sintoma é relativo ao pai, por isso coloca a morte no lugar do Desejo (Gozo). E preciso fazer esta distinção porque existe uma confusão em relação a isto, já que o obsessivo não coloca o Saber, nem no lugar do Desejo, nem no lugar da morte. Quem coloca o Saber no lugar do Desejo é a histérica, daí o Desejo de Saber; quem coloca o Saber no lugar da morte é o Discurso Universitário. O obsessivo coloca simplesmente a morte no lugar do Desejo, supondo-se sujeito em relação a essa morte, como se isso fosse possível, assim, assiste a sua vida do lugar de "morto".
Esta questão do Real do Pai pode, sem sombra de dúvida, configurar um diagnóstico, porque a existência da possibilidade de Real do Pai é a evidência de recalque originário. Lacan não abandonará esta questão até o final de sua obra, o que demonstra a sua grande importância. Desta maneira, estas estruturas colocam-nos na expectativa da possibilidade de luto do Pai-Ideal. Esta é a grande contribuição da teoria lacaneana sobre a Neurose, ainda adstrita ao campo freudiano. É o Lacan que quer resgatar "o fio da meada da verdade freudiana".
Por outro lado, a inexistência de possibilidade de Real do Pai é evidência ou de paranóia ou de fetichismo. No primeiro caso, este Real do Pai não é possível porque este pseudo-falante ("salsicheiro") diante de uma evidência foraclusiva, dita "traumática", que é a fenda Imaginária, recorre ao Nome do Pai para restaurar sua sintomática e este Nome do Pai não está, nem nunca esteve, inscrito ali. Ele se depara, então, com o Pai Severo e, como diz Lacan no Seminário III, para a amar o delírio como se fosse ele mesmo. Esta foraclusão do Nome do Pai impede que ele faça luto do Pai-Ideal, até porque, rigorosamente, ele nem chegou a constituir este Pai-Ideal, porque não há Castração na psicose.
Já na perversão, no sentido fetichista, ao desmentir (déni) este Pai-Ideal na sua forma histérica - porque o fetichista parte do objeto fobígeno e este objeto fobígeno se caracteriza pela evitação prévia da angústia, por ser "sentinela avançada" contra a Angústia, não admitindo, em momento algum, a evidência do Desejo insatisfeito, criando, então, uma Fantasia universal da Fantasia Sádica, para fazer deste fetiche a suposição de "satisfação" deste objeto. Assim, ele nem recorre à possibilidade de fazer luto do Pai-Ideal e de suas "inconveniências", que são: a Angústia de Castração e o Desejo insatisfeito.
Lacan, nos «Escritos», vai reconfigurar a teoria da Castração a partir da questão da metáfora paterna, porque nesta, o Desejo de Mãe (DM) e o Nome do Pai Simbólico, dariam conta das condições edípicas da Castração. No entanto, será somente em 1974/75, já próximo ao final do sua obra, no Seminário intitulado RSI, que foi inspirado em dois textos de Freud («A Psicologia das Massas e Análise do Ego» e «O Ego e o Id») que Lacan vai configurar o Édipo como sinônimo de 2a identificação, (identificação ao traço unário do Nome do Pai) e a Castração na 3a identificação, porque só esta responde à questão Inconsciente: "o Desejo do homem é o Desejo do Outro".
Neste momento, Lacan já ultrapassa os limites do campo freudiano, ultrapassando os limites de reconfiguração de redefinição da Castração para Freud.
Em 1976, Lacan vai fazer com que a Castração nos faça deparar com duas questões fundamentais: a questão da sexuação e, com a questão do Sintoma, já que ele formula a questão da sexuação no Seminário sobre «O Sintoma», que tem como subtítulo «O Saber do Psicanalista». Ali fica óbvio que o Sintoma Fundamental, que ele chama de S1, que é a marca que o Nome do Pai, através do Desejo de Mãe, coloca no sujeito. O Pai imaginário, ou a equivalência entre falta simbólica e objeto imaginário, ficou conhecido como sua formulação inicial da Castração, isto deu lugar à diferença sexual e, finalmente, a concebeu nos termos das fórmulas quânticas da sexuação: "para todos há função fálica, há pelo menos um que diz não à função fálica". O primeiro lugar corresponde ao Sintoma do Homem; o segundo lugar, de Denegação, participa do Sintoma do Homem e faz exceção feminina a este Sintoma: é o lugar de objeto a ocupado pelas mulheres na Castração. Lacan também a disse, em 1966, como sinônimo de Privação do Incesto.
Lacan, a partir daí, vai que dizer que Sintoma é a classe lógica do sexo à qual não se pertence. Sendo assim, uma mulher é Sintoma para o Homem, porém o contrário não é verdade, porque a mulher não é inteiramente, no sentido lógico, aquilo a que não pertence o Homem, já que ela participa do Gozo Fálico e o Homem não participa, em momento algum, do Gozo do furo. Então, ele não é um Sintoma para uma mulher, ele é, a juízo de Lacan, uma "devastação". Uma "aflição" se ela é apaixonada, uma "devastação" se ela o ama, porque não há saída para uma mulher diante da questão do Homem. Se todos forem "homens", não haveria o heteros da discórdia, não haveria diferença. E quem faz o homem deparar-se com esta diferença, com este heteros, é uma mulher que ele toma, por isto, como o seu Sintoma, pois ela impede que o Homem permaneça no mal-entendido entre o Sintoma do Homem e o estatuto da homossexualidade. Ela, então, vai formular uma questão - e isto Lacan promove desde de 1966 - um tanto quanto complexa: ela, qual uma histérica, deseja ser desejada por um Homem. O Homem é aquele que, por sua vez, deseja alguém do sexo ao qual ele não
pertence, logo, o Homem tem, conforme Lacan diz num dos seus últimos seminários, «O Momento de Concluir», tesão para amar e a mulher ama para ter tesão. A histérica tem tesão e não faz a mínima questão nem de amar, nem de ser amada, a não ser pelo Pai Potente, ela faz questão é de ser desejada por um Homem. Quem faz questão de ser amada, no sentido de demanda, é psicótica.
Então, neste sentido, Lacan vai-nos dizer que a mulher, além de querer ser desejada por um Homem, ela quer ser amada e, como se fosse pouco, ao mesmo tempo. Ele aí retoma a clássica questão freudiana: "afinal, o que quer - no sentido de deseja, porque a palavra alemã está no campo semântico de Wunsch - uma mulher?" Para Lacan, ela deseja o impossível, porque, ao formular isto, ela deseja o Real.
Além disso, Lacan atualiza a sua teoria da Castração diante de seu penúltimo Seminário «L'Une-bévue», que é a forma francesa e homofônica de pronunciar a palavra alemã Unbewusst. Ali ele formulará o seu derradeiro conceito de Castração, que seria apenas o reconhecimento de que ha um impossível Saber sobre o Gozo. Este é o conceito que o campo lacaneano nos lega de Castração: pode-se admitir a Castração do Pai, que é a única que há, no momento em que pode-se dar conta de que há um impossível Saber sobre o Gozo, que não é nem sexo, nem Desejo. O "primeiro e clássico Lacan", do campo freudiano, já distinguiu claramente Desejo de sexo: sexo é Imaginário, anatômico; Desejo é da ordem da Fantasia. Mas, este Lacan do campo lacaneano (que é um capítulo do Seminário «O Avesso da Psicanálise», significando ali campo do Gozo) quer estabelecer um campo conceitual próprio, distinto do campo matêmico fundado por Freud. Se o campo marêmico fundado por Freud tinha como conceitos fundamentais o Inconsciente, a pulsão, a Repetição e a Transferência, o campo lacaneano tem por conceitos fundamentais o Nome do Pai, o objeto a, Mulher e o Gozo, e nenhum destes conceitos existe na obra de Freud.
Então, assim formulado, Lacan propõe uma teoria sobre o Gozo, que, repetindo, não é nem sexo, nem Desejo. E, para Lacan, a questão do Sintoma, na Psicanálise, passa pela identificação de um Gozo particularizado para o sujeito no Inconsciente, Gozo este remetido ao analista, desde a Fantasia imaginária, na forma de mais-gozar. Este Lacan não trabalha mais com a Proposição de 9 de outubro, não trabalha mais com a Teoria do Passe, passando a trabalhar, agora, com a categoria de Sintoma Real.
PRÓXIMO CAPÍTULO: O INCONSCIENTE