JACQUES LACAN, A NOVIDADE PERENE

A CASTRAÇÃO


Guardiões do saber


JACQUES LACAN
- o moderno e a desconstrução -


O INCONSCIENTE

Antônio Sergio Mendonça


Seminário proferido no âmbito do Centro de Estudos Lacaneanos - CEL - Instituto Psicanalítico.

I. A acepção pré-freudiana

       Sua origem provém do discurso da filosofia (de HERBART) e era, em alemão, designado pela palavra UNBEWUSST. No entanto, aquele dado desconhecido da consciência e/ou da racionalidade não teve relação alguma com o conceito freudiano, pois, Freud apenas o identificou com a mesma palavra.

II. O Inconsciente e o campo freudiano

       O Inconsciente, enquanto conceito psicanalítico, surge no campo freudiano, ou seja, no campo matêmico conceitual inaugurado por Freud, ainda no século XIX. Ali, quando da publicação da TRAUMDEUTUNG (Interpretação dos Sonhos), Freud vê o sonho como sua formação "prínceps". O autor austríaco, por esta razão, aproximou o Saber Inconsciente do Sujeito da Ciência por serem ambos, como a pulsão, acéfalos. Em Freud, esta categoria (Inconsciente) se hiperdetermina a duas outras, inicialmente, que são: a Histeria (1895) e a Transferência (1912). De seus célebres Estudos sobre a Histeria inferiu, para além da hipótese hipnótica, do método catártico, de Breuer e da Salpêtrière, a escuta dos lapsos inconscientes presentes nos relatos de suas analisandas histéricas e que seriam responsáveis pela conversibilidade comportamental e pela origem traumática da "sintomática" neurótica das mesmas. Desta "talking cure", isto é, «cura pela palavra» deduz, a partir de tê-la "aprendido" com as histéricas Anna O. e Elizabeth von R., sua forma de acesso à escuta do Inconsciente, que é denominada, por ser considerada seu estilo, de "Associação Livre".

       Contudo, o Freud que, após 1920 abandonou seu "biologismo" e sua teoria traumática em favor do Édipo e da Castração, passou a considerar o Inconsciente como um efeito da Castração e da hiperdeterminação de seus dois procedimentos básicos: a VERDRÄNGUNG (recalque originário) e a VERNEINUNG (denegação). Caberá, pois, ao recalque, cujo efeito imaginário-objetal denomina-se REPRESSÁO, afastar, desviar da Consciência a Fantasia Perversa por transformá-la em Fantasia Inconsciente que, por seu turno, irá universalizar o Gozo como fálico. Caberá, então, à denegação que incide sobre a Bejahung (Afirmação Primordial) dizer, na forma de linguagem, não à função fálica, fazendo desta construção Pré-Consciente (em Freud) a condição do Inconsciente. Logo, para o citado campo freudiano, só haverá Inconsciente no ser que fala.

       Será, aliás, esta construção pré-consciente freudiana que servirá de modelo ao lingüista Roman Jakobson (em seu célebre estudo sobre A Afasia) para relacionar condensação e deslocamento (procedimentos do Pré-Consciente pertencentes à lógica do processo primário) e as figuras de retórica conhecidas como Metáfora e Metonímia. No entanto, o que irá caracterizar, indubitavelmente, o Inconsciente freudiano, serão suas características metapsicológicas e, dentre elas, sua conformação tópica. Para Sigmund Freud, o Inconsciente é um conhecimento científico porque metapsicológico e responderia, tomando na sua origem dezenovesca o sonho como "modelo", à intenção de cientificização possível do aparelho psíquico. Para tal, como qualquer outro conceito metapsicológico, seria dotado de:
1) Locatividade singular, por isto é organizado em tópicas. Freud formulou duas tópicas a este respeito e pretendeu integrá-las em seu Resumo de Psicanálise nos anos 20;
2) Economia, o que também se confirma, pois nele a parcialidade pulsional incorporou a economia libidinal do mesmo modo que o fez o Masoquismo Primordial. Este é responsável pela incorporação da libido no circuito pulsional, que é parcial e econômico por restringir o prazer pelo desprazer;
3) e, por fim, a Dinâmica, uma vez que, nem interna e sequer externamente, o Inconsciente é estático. Age sobre a Transferência que o atualiza e lhe é exterior, conquanto lhe seja forma de acesso e, tomando-se o sonho como "modelo", vê-se a ação transformadora da elaboração secundária sobre o trabalho do sonho e ambos serem provocados pelo resto diurno. Logo, o caráter tópico do Inconsciente resulta, no pensamento de Freud, da influência diacrônica da Neurologia e da Psicofisiologia e tem, por efeito, a produção de uma Psicopatologia. Caracteriza a configuração do Inconsciente em camadas superpostas, conquanto hiperdeterminadas, e pretende "acomodar" os diferenciados efeitos de das Ding (a Coisa freudiana), ou seja, o impossível objeto do Desejo, perdido para sempre, na acepção freudiana, e a simbologia da realidade pulsional.

       Quer-se com isto mostrar um funcionamento diferenciado dos efeitos da relação de princípios entre prazer e realidade. Esta preocupação, em Freud, remontava ao século XIX e com esta locatividade ele pretendia indicar um papel especial e singular do Inconsciente no aparelho psíquico. Já do ponto de vista do processo econômico do Inconsciente, este é responsável, no nível da realidade psíquica, pela circulação e repartição quantificável da energia pulsional. Considera-se, nesta característica, o investimento pulsional sobre o aparelho psíquico a partir de três procedimentos:
a) sua mobilidade (que é efeito de sua dinamicidade);
b) sua afetação, no que se refere aos efeitos pulsionais do e no Inconsciente;
c) seu contra-investimento, que, por oposição, suscita a separação e age sobre a Neurose de Transferência (em seus mecanismos psíquicos) e constitui o princípio catártico da "ab-reação". E seu dado dinâmico significa, no texto freudiano, a dialética não-negativa do Inconscienre e, assim, irá qualificar o modo de ação permanente do Inconsciente e provocar a reação de uma força que lhe é contrária e incide sobre o Ego. Por isto Janet, relido por Freud, irá articular esta dinamicidade à origem Inconsciente da "clivagem" do Ego. Mas, este termo, como se sabe, antes de fazer parte da 2a tópica do Inconsciente freudiano caracterizou, por diferença a um auto-erotismo anatômico e biologista, o narcisismo dito secundário por Freud, por distinção ao outro, primário, tipificado pelo seu caráter auto-erótico. A articulação do Inconsciente com a pulsionalidade, dita, então, por Freud, "pré-genitalidade do libido", e com a tópica do Inconsciente (Das Es) é de 1915, ao passo que a miragem especular do narcisismo secundário é datado e, com ela, a sua primeira Teoria do Ego, de 1914.

       Todavia, inicialmente, para desenvolver a sua hipótese tópica (locativa) e não a funcional (dinâmica e econômica), sendo ambas componentes da Metapsicologia freudiana, Freud a formulou como sendo composta pelo Consciente, pelo Pré-Consciente e pelo Inconsciente. Do primeiro, seriam afastadas as Fantasias Perversas, estas seriam reelaboradas pelos mecanismos de condensação e deslocamento (comuns ao processo primário, lógica do aparelho psíquico) denominados de "Regime do Inconsciente". Estes relacionar-se-iam, por seu turno, com a Neurose e com a Transferência. Assim, se uma imago coalescida se desfizer, por ação da condensação, será inconscientizada; mas, se for fixada em Sentido, será Neurose. O mecanismo de condensação, pré-consciente, é designado pela palavra alemã VERDICHTUNG. Já o mecanismo de deslocamento, também pré-consciente, equivale à Transferência de Sentido e não só estará na origem freudiana do termo transferência (1912, ÜBERTRAGUNG), forma de acesso e de atualização do Inconsciente, e como tal será antecedido (em Freud) pela categoria de Resistência (1895, Estudos sobre a Histeria), mas também é responsável pela localização no Inconsciente propriamente dito, do produto transformado da Fantasia Perversa. Ambos, de forma hiperdeterminada, compõem o Pré-Consciente. E o Consciente (vazio de sentido), o Pré-Consciente ("Regime do Inconsciente") e o Inconscienre (lugar para onde se desloca o não-exteriorizável da Fantasia Perversa), de maneira sobredeterminada, irão compor a 1a tópica freudiana. O termo deslocamento é designado em alemão pela palavra VERSCHIEBUNG e é paradoxal porque se, por um lado, recalca, por outro poderá permitir que se burle a censura.

       Mas será na 2a tópica do Inconsciente que Freud formulará sua, também, segunda teoria do Ego. Esta se compõe de Ego, Superego e Id que estão hiperdeterminados. O Ego é, desde o narcisismo secundário, um corpo Imaginário (consistente) de miragem e sofre a ação do Superego que é ali o representante não da REPRESSÁO, como pensam alguns incautos, que também e ao mesmo tempo a vêem como sinônimo de CASTRAÇÃO, tida, neste mister, como amputação imagética, e sim, da figura paterna, masculina, transmitida pela mãe, dita Desejo de Mãe, com valor de identificação viril. Sua açáo é limitadora, recalcante e incide sobre o Ego "seccionando-o" em Ideal-de-Ego, que cumpre a função que acabamos de descrever, e em Ego-Ideal, que corresponde, atribuído ao falante e/ou a outrem, à imagem de semelhante. Já o mítico Id, que posteriormente será utilizado em O Mal-Estar na Civilizacão de forma extensiva articulado ao Desejo e à agressividade (presentificando a Psicanálise na Cultura), é formada por Eros (que inclui PSICHÉ) e Tânatus, ambos em permanente tensão. E, aí, dar-se-á a presença, em seus efeitos, da Pulsão e do Narcisismo sobre o Inconsciente. O Masoquismo erógeno-pulsional presente, por ação do objeto pulsional, em Tânatus, será modificado pelo Masoquismo Primordial de que Narciso dotou Eros, por ação da Bejahung, e produzir-se-á no lugar da pulsional Fantasia Perversa, a universalidade da Fantasia Inconsciente a transmitir o Gozo fálico. Por estas razões, Lacan escreverá a Fantasia Inconsciente com o mesmo materna (representação conceitual) da Pulsão e verá o Ideal-de-Ego como representante, através do Superego, no Inconsciente, do lugar de Outro, ali Desejo de Mãe, e o dirá simbólico nesta representação do Outro pelo acéfalo pulsional sujeito do Inconsciente e da Enunciação (Je), assim, este sujeito inscrever-se-á, por via já dita simbólica, no Desejo do Outro.

       Já o Ego-Ideal, por ser a representação Inconsciente, embora com efeitos de Sentido, de consistência Imaginária, do Sujeito e do semelhante, quando na especular e imagética posição de objeto, por isto será imaginário. Mas, o Ego, por cindir-se em ambos e situar-se entre o simbólico Ideal-de-Ego e o Imaginário Ego-Ideal habitará o Sentido, pois este articula Simbólico e Imaginário. E o Superego, nesta tentativa de articulação das duas tópicas, o que já nos remete ao Resumo de Psicanálise (onde o Ideal-de-Ego é Simbólico), registra-se no Simbólico por ali representar os efeitos da Lei Paterna e Perseverante no Inconsciente, cabendo ao Id (Isso, Es) permanecer Simbólico, já que o Inconsciente freudiano para Lacan é "Simbólico puro", embora seja, inclusive, efeito de um simbolismo narcísico e pulsional. Restanos, por enquanto, dizer que, segundo Sigmund Freud, o Inconsciente jamais foi considerado o objeto Real, epistêmico, ou o nome que se queira dar, da Psicanálise, pois nela a Coisa Freudiana (das Ding - Projeto (Entwurf), 1896) é um objeto para sempre perdido do Desejo e que provoca o fato de haver, entre outras estruturas, o Inconsciente, por não haver, paradoxalmente, objeto que satisfaça o desejo humano, por isto dito histérico e insatisfeito, razão última, a seu juízo, de nosso mal-estar civilizatório.

III. O Inconsciente não-freudiano: Jung, o surrealismo e o estruturalismo

       Paralela e historiograficamente à obra freudiana surgiu, com ares de dissidência, a chamada "Psicologia dos Símbolos" e/ou "Psicologia Profunda" de Jung. Este autor lastreava sua concepção arquetipal de símbolo (s) numa lógica expressiva que, estilisticamente, se realizava por sinédoqüe ("pars totalis"). Desse modo, num raciocínio típico de uma lógica expressiva e substancialista, lógica do silogismo disjuntivo, mostrava-nos imagens, "metáforas" que eram "expressões e/ou manifestações" de um imanentismo de quatro elementos básicos: TERRA, AR, AGUA E FOGO.

       Estas "metáforas imagéticas" atuavam como partes que expressavam a predominância destes ou de um destes elementos. E sua realização, próxima do símbolo figural de Goethe, foi por Freud considerada um equívoco, uma mera manifestação conteudística e mística do Inconsciente. Isto malgrado e/ou apesar de Freud, então um jovem médico vienense, ter sido atraído para a questão do Inconsciente e, consequentemente da Psicanálise, após assistir à conferência sobre a "Filosofia Romântica da Natureza" em Goethe. E Jung foi, inicialmente, mais até do que Fliess, mais do que Jones, e, obviamente, do que o húngaro Ferenczi, tido, por uns tempos, como seu discípulo dileto...

       Já a outra tentativa de se fazer passar pelo Inconsciente freudiano leva-nos ao encontro de André Breton e da francesa e surrealista "escrita automática". Esta também não foi considerada, como pretendiam os surrealistas, como equivalente ao funcionamento do Inconsciente freudiano. Não foi, pois, reconhecida como tal por Freud, este jamais a considerou, como o pretendido, como uma espécie de "gramática do sonho", sendo, pelo Mestre de Viena, até tida como mais próxima do Inconsciente arquetipal junguiano. Aliás, à exceção de seu estudo sobre a GRADIVA de W. Jensen, cuja imagem de musa foi cultuada, a juízo de CHADWICK, pelos jovens surrealistas, o "gosto estético" de Freud era mais clássico: SOFOCLES, SHAKESPEARE, THOMAS MANN, DOSTOIÉVSKI, H.HEINE, LEONARDO DA VINCI, etc. Entretanto, vai ser Jacques Lacan, ao estudar em sua tese de doutoramento, nos anos trinta, as psicoses, bem como o bovarismo (cf. A Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade), que se aproximará, não de Breton e de seu Carnets, mas de Salvador Dali e de seu "método paranóico". O incrível é que o excelente pintor surrealista René Magritte que, em manifestação estética da pulsão escópica "pictorizou" o freudiano Rochedo da Castração no seu quadro Castelo dor Pirineus, não parecia nutrir maiores simpatias pela psicanálise.

       A próxima contribuição foi pós-freudiana, mas contemporânea à fundação do campo freudiano por Lacan. Este chegou mesmo a ter sua visão do Inconsciente freudiano confundida com esta concepção de natureza lingüística, e, ter sido, apressadamente, malgrado seu respeito, discordância e oposição à teoria da Antropologia Estrutural de um Claude Lévi-Strauss, considerado como adepto e/ou integrante do "boom" do Estruturalismo, então em voga. Para a base formalista da lingüistica estrutural, que havia através da fonologia exportado seu modelo plausível para a Antropologia, o Inconsciente era uma forma implícita, desconhecido logicamente do falante e paradigmático. Mas seria, paradoxalmente, a sua lógica implícita que permitiria a dupla articulação da língua por um falante, língua entendida enquanto modalidade (estrutura) de linguagem, o saussureano dito: linguagem + lingua =fala. Assim exportado, implícito e logicamente determinante, o "lnconsciente estruturalista" tornava-se a condição da linguagem, como se não fosse a linguagem uma formação do Inconsciente e sim ao contrário. Mas, para o Lacan do campo freudiano, a linguagem é que era a condição do Inconsciente. Visto isto, constatamos que, por esta razão, tendo a lógica do pré-consciente como sua dinâmica, é que o Inconsciente terá a linguagem como sua pré-condição. Lacan toma isto da teoria de Jakobson sobre A Afasia por transformá-la abdutivamente (Pierce). Pois, se para Saussure, no dualismo indissociável do signo lingüístico a palavra, signo verbal, fundava-se e fundava a imotivação do significante (por isto Roland Barthes, por exemplo, ao escrever sobre as relações entre Semiologia e Lingüística, assume perspectiva oposta à de Saussure), para a Fonologia de Jakobson, vide conferência no M.I.T., seria o significante que fundaria a palavra. Lacan, então, estabelece (cf. Écrits 1966) sua alteração do algoritmo sígnico de Saussure: S/s (significante sobre significado) e hiperdetermina, na constituição das figuras reativadas da retórica (Metáfora e Metonímia) os mecanismo pré-conscientes de condensação e deslocamento. E, estamos, então, a um passo da inauguração da concepção lacaniana de Inconsciente conforme o campo do Gozo (cf. O Avesso da Psicanálise), ou seja, o campo lacaneano.

IV. O Inconsciente conforme Lacan: a fundação do Inconsciente-Real pelo campo lacaniano

       Dito, de saída, "estruturado como uma linguagem", por tê-la como pré-condição situado ao lado do COGITO, do PENSAMENTO, articulando ALIENACÃO, AFÂNISE e SENTIDO, o Inconsciente freudiano será, inicialmente, para Lacan, puro simbólico. E ao lado da função e/ou lugar de Psicanalista, das línguas, dos sintomas, dos chistes, dos "atos falhados", será considerado como uma das "formações do Inconsciente". É tido como um dos quatro conceitos fundamentais da teoria freudiana por Lacan. Ele vai-nos dizer que o Inconsciente é, então, de Freud, e, ele (Lacan), apenas o disse simbólico, ou seja, como já se disse, que tinha a linguagem como pré-condição. Vai fazê-lo em Bonneval (Colóquio) ao acrescentar, no pouco tempo que lhe deram para falar, que «o Inconsciente era o que faltava ao homem para restabelecer sua relação com a verdade» (não-toda); disse também que sendo os psicanalistas os destinatários do Inconsciente, por isto dele faziam parte, até porque a Transferência é que era a atualização do Inconsciente. O Inconsciente, por ser Discurso do Outro, por ali ter que ser buscado o Desejo do Homem, daí o aforismo da terceira identificação ao objeto causa de Desejo (objeto a): "O Desejo do Homem é o Desejo do Outro", deve ser buscado na enunciação dos discursos. O Inconsciente no campo freudiano também caracterizava esse capítulo da história de um falante (sujeito) que é censurado por ser ocupado por um "fingimento" histérico (desejo insatisfeito) ou marcado por um espaço em branco (significante zero, vazio). E se é dito que o Inconsciente é o Discurso do Outro é Somente para que se indique, no mais além, a distinção entre o simbólico reconhecimento do Desejo e o neurótico desejo de reconhecimento. O Inconsciente é a exterioridade lógica do simbólico, da linguagem que, como pré-condição, faz do homem um "animal simbólico". Por esta razão, toda a estrutura da linguagem, a ser descoberta pela experiência analítica, remete ao Inconsciente, que é, para Freud, o que dizemos. Nele, no Inconsciente, o sujeito fala, porque o símbolo o fez homem. Parodiando-se a Análise Leiga Freudiana, poder-se-ia dizer que a prática psicanalítica, do ponto de vista do Inconsciente, não deixa a representação de nenhuma de nossas ações fora do seu campo. Logo, no Inconsciente freudiano haverá sempre a incidência de um significante novo.

       E serão o equívoco, a pluralidade dos sentidos e a homofonia que, no nível do significante, o irão caracterizar. Por isto, se o simbólico é a representação do Desejo no Campo do Outr, a lógica do Inconsciente, dita por Freud lógica do processo primário e/ou "regime" do Inconsciente é, para Lacan, a lógica do significante. Por isso, o falante que é afetado pelo Inconsciente é o mesmo que irá constituir o sujeito de um significante, pois:
a) explicita, nisto, que a linguagem é a condição do Inconsciente;
b) e o Saber Inconsciente nos demonstra que, em algum lugar, d'Isso, no Outro se sabe. E aí, no Seminário, livro 20, Encore (Mais, Ainda), o Inconsciente tem indicado o seu caráter Real (impossível), não sem antes observarmos que ele testemunha um saber singular no que este, em grande parte, escapa ao falante. Mas, voltando-se ao caráter Real do Inconsciente, Lacan nos disse que este Real aí em jogo é o mistério do Inconsciente, por sê-lo do corpo falante. Vai designá-lo pela homofonia "l'une-bévue", que é uma versão fonético-francesa do termo alemão utilizado por Freud: UNBEWUSST, Lacan irá dizê-lo Real como o próprio significante. Até porque aplica-se ao Inconsciente o dito pelo Mestre de Paris sobre o significante, ou seja, se ele é Real, o Rela não é o significante. Neste momento, dirá que o Inconsciente é de Lacan e que Freud fundou apenas um campo matêmico (conceitual). Articulará o conceito de Inconsciente não só com a Transferência, mas também com o binômio Resistência/Desejo do Psicanalista.

       Falta-nos agora falar das relaçães entre o Inconsciente-Real e a presença do psicanalista. O analista está presente em suas relações com o Inconsciente no lugar renegatório de objeto a, posto ser este perverso, uma vez que dali a estrutura (Real, Simbólico, Imaginário e Sintoma não se fecha. Deste lugar, a posição do analista manifesta-se enquanto Sintoma, lugar de entrelaçamento estrutural, 4o nó, suplência metafórica relativa ao Nome-do-Pai simbólico, 4o nó do Gozo e faz emergir a dica função: Desejo do Psicanalista. Será o objeto a (causa de Desejo) um dos conceitos próprios do campo do Gozo, do campo matêmico fundado por Lacan, ao lado da OUSIA (incorporeidade) pré-socrática do FALO, do(s) Nome(s) do Pai e de Outra Mulher. E para o pensamento de Lacan, conceituar, antes de ser requisito da ciência, é uma arte. Irá equivaler o conceituar ao Sintoma, já que deve ser bem-dito, pois "ama-se o Sintoma como a si próprio". Só a escrita (écriture), desde o estudo de Lacan sobre o symptôme (santificação do Sintoma) em Joyce ("Le saint-homme"), efeito de Sublimação que é, corna-se a possibilidade e/ou a garantia do lugar de farsa ática que deve ser incorporado pelo analista. Este, neste mister, por sua vez, se irá distinguir do "fingimento" histérico, da autocracia autoral do Senhor (Mestre) e da impostura perversa. E se, para Lacan, o sublime, mítico e verdadeiro amor provocou o defrontar-se com a lírica e provençal arte cortesã do medievo, antes na obra freudiana, a autenticidade do amor era de Transferência (Suposição de Saber). Mas, conforme a leitura de Lacan de um Genet nada santo, a questão desejante irá incidir sobre a perversidade ao revelá-la sob os auspícios da comédia em Aristófanes. Lacan, aliás, em O Momento de Concluir (cf. Seminário inédito, 1976), irá lamentar-se de o caminho freudiano para a psicanálise ter sido trágico, deveria ter sido cômico (Aristófanes) e convocado, na sua perspectiva de degradação da cultura, morte da História por Kojève, aposta na Antropologia do Desejo em Hegel.

       Concluindo, dir-se-ia que a categoria de Inconsciente-Real articula-se com a função Desejo do Psicanalista, enquanto desejo de máxima diferença, inclusive sexual, por emanar de sua função sintomática onde, por ficção, o sexo é Sintoma quando não pertencente à mesma classe lógica do sujeito; assim o Homem tem como Sintoma uma mulher por desejá-la sob o signo da diferença sexual (cf. Seminário O Sintoma, 1975/1976, inédito). Isto leva o analista, no lugar de causa desejante, dita "causação" desejante, a também articular-se, do lugar de semblante do Falo, à falta Real (manque). Assim procedendo, irá ofertar como suporte do mais-gozar do analisando o seu (do analista) desejo de máxima diferença, inclusive sexual, para que possa do Inconsciente (Real) - L'une-bévue, Unbewusst, destacar, como seu, porque originariamente proposto ao analista como mais-gozar, um Cozo particularizado que terá valor de Sintoma-Real, só que "dublado" pelo Simbólico, dito, então, S1 (Significante-Mestre) , Sintoma Fundamental (sinthome). Esta é a significação possível do Inconsciente-Real produzido no campo do Gozo, uma Alíngua Real (lalangue) no campo lacaniano.

PRÓXIMO CAPÍTULO: A PATERNIDADE: CONDIÇÃO ERÓTICA DA SEXUALIDADE


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
coojornal@coojornal.com.br