I - Koyré
a) Episteme (pensamento) antigo: Ático, mundo clássico, socrático, cuja formulação derradeira é a física peripatética de Aristóteles =› projeta-se como um reconhecimento eidético do mundo sensível =› atinge o apogeu na Idade Média e no Pré-Renascimento.
Ciência moderna, diferente que é historiograficamente, pré-renascentista, atrita-se com a Inquisição, remete ao Humanismo como mentalidade que imagetiza a matematização da Física, tornando-a compatível com o Ideal Clássico de circularidade. Seu exemplo básico são os círculos matemáticos de Galileu e seu pensamento estético, sua preferência por Ariosto, seu esquecimento da teoria de Kepler (mais profícua que a sua), pois esta incorpora a elipse na órbita dos planetas, sobredeterminando a circularidade clássica e o ideal retilíneo (assim deformado, por anamorfose, qual As Meninas, de Velásquez), ou seja, do ponto de vista da perspectiva e da ótica (visão, escopia) e associado ao Maneirismo, isto por via estética, isto é, à moda de Torquato Tasso e sua Jerusalém Libertada.
b) Este corte (diferença) faz afluir Galileu como modelo da ciência moderna, que não passaria de uma física matematizada que despoja seu objeto (o cosmos) de qualidades imaginárias, sensíveis, consistentes, já que estas eram próprias da observação sensível da experiência inerente à peripatética física aristotélica.
c) Koyré, para chegar a tal conclusão, corrige a declinação epistemológica do cartesiano cristão, do sujeito da ciência do Cogito, explicitando-lhe a origem maiêutica, isto é, apondo a dúvida onde havia a certeza diante de um Saber logicamente acéfalo. Assim, Lacan retoma-o nos Escritos (1966), relacionando este Saber ("corrigido", simbolizado, agora não-todo), à Verdade e esta, com a Ciência. Logo, para Lacan, apõe-se a dúvida face ao também acéfalo Je (Sujeito do Ics), onde cartesianamente houvera a certeza. O momento da ciência moderna é, pois, inaugurado, conforme o que Jean-Claude Milner denomina de "primeiro classicismo" de Lacan (o dos Escritos) «... par Descartes e que é chamado de Cogito. Este...nos levou a formular nossa divisão experimentada do Sujeito (S1/S2) (aqui ainda), como divisão entre Saber (Gozo) e Verdade (Sintoma)...»
II - Kojève
Obs: Koyré, no pensamento de Lacan sobre a ciência, é lido à luz do pensamento historicizado de Kojève.
Assim vê-se
d) que entre o mundo (História e mentalidade) Antigo (Idade Clássica helência) e o universo (mundo, ciência, mentalidade e história) moderno há (realmente) um corte;
e) que ele advém do cristianismo, seja do cristianismo do século XVII católico e cartesiano (sujeito da ciência), seja do cristianismo da Reforma Protestante, alemã, cujo modelo hegeliano é Lutero, e determinado na fantasia histérica sublime de Hegel, produzindo também o Discurso do Mestre Moderno na sua correta acepção, diferente do Mestre Ático (aristotélico, Discurso do Amo Clássico) e que se define não como Dialética do Senhor e do Escravo, e sim como Dialético do Senhor e do Servo (modelo medieval, lido pela reforma alemã, anti-papal, cristã, mas não católica).
III - Lacan
HIPÓTESE: Embora Kojève leia Koyré, este é que particulariza Kojève. E assim invertendo a relação determinante do pensamento de ambos, Lacan sintetiza esta hipótese nos aforismos ou lemas com valor de axioma que se seguem:
f) é ciência moderna que distingue Saber e Verdade, S1 e S2, a verdadeira Spaltung do $ e daí se corrige Freud, para quem a cisão e/ou divisão estará, por efeito do superego, descrita por ação deste na 2a tópica (1915 e no Resumo de Psicanálise), entre I(A), Ideal-de-Ego, Simbólico, para Lacan, e Ego-Ideal [i(a)], Imaginário para Lacan, produtos da divisão do Ego, este entendido não como pólo do narcisismo secundário (1914, Freud, Introducáo ao Narcisismo) e sim, como miragem especular de um duplo não unheimlich (conforme O Ego e o Id), mas semelhante, fonte da agressividade rivalizante (conforme o Seminário 3, As Psicoses e Escritos); momento este, que data da origem dos anos 30 e é consolidado nos Escritos chama-se "O Estádio do Espelho (Formação do Ego)", remete ao cristianismo cartesiano e ao luteranismo também cristão, implícito na Dialética do Senhor e do Servo da Fenomenologia do Espírito do jovem Hegel e distingue-se do antigo socrático e medievalmente peripatético, entronizado pelo Papado, pela Inquisição e pela Universidade Medieval, ou seja, do pensamento físico de Aristóteles;
g) todavia, esta distinção é suportada pelo que de judaísmo há no cristianismo, ou seja, pelo que de judaísmo provém o cristianismo para propor a ciência moderna e aí Lacan inclui Freud, porque não se trata do judaísmo do Talmud, mas de sua revisão pelo freudiano Moisés e o Monoteísmo, assim como o Hegel luterano, em sua sublime histeria, fora revisto pela "Antropologia do Desejo" de Kojève. Nesta leitura, que destaca o "esquecimento judaico", o Moisés egípcio, que "tantos dissabores causou a Freud", conquanto esse fosse apoiado, nesta convicção lendária e ficcional pelo romance histórico de Thomas Mann e, posteriormente, demonstrado por este macro-antropólogo das religiões que foi Max Weber. Então, Freud distingue para sempre a imortalidade de um Deus Real (o judeu, Yahwé), do caráter Inconsciente do Deus hebreu (que é de fato cristão, associado ao "religare", conjugada pelo "não matarás" edípico do Moisés hebreu) e o "mito da imortalidade", assassínio do Pai, mesmo Real como o da horda primitiva (cf. Totem e Tabu). E, para Lacan, também severo (Real) como o de Hamlet, Imaginário (potente) como o da histérica, etc. Por isto, Freud retoma no Sujeito do Inconsciente, dito por Lacan, Je, no Esquema L e desprovido pulsionalmente de Ego, o projeto cartesiano, já corrigido por Hegel/Kojève como particularidade de Koyré/Descartes e, desde então, dito Sujeito da Enunciação.
Assim Lacan, por fim, situará seu pensamento para além dos classicismos, seja o dos Escritos (1966), seja o do Encore (1975) e para além do moderno, cujo modelo sobredeterminante é GaliIeu: "tudo o que é moderno é sincrônico à ciência de Galileu". Portanto, o que se aprende nos "manuais" como Clássico é, na realidade, Antigo, vide a civilização helênica; o que se aprende como Idade Antiga é, na realidade, a ciência conforme a mentalidade medieval, vide a expansão do peripatetismo aristotélico e o que aprendemos como Clássico é, na realidade, Moderno, vide Galileu.
Já Lacan situar-se-ia não numa pós-modernidade, mental ou historiograficamente pós-industrial, mas na desconstrução do pensamento moderno sem o que, paradoxalmente, não formularia o seu e, na dissolução por degradação da cultura, onde se adicionaria O Balcão, de Genet, ao Mal-Estar freudiano. Logo, seu pensamento valeu-se abdutivamente da lingüística para se propor como uma anti-lingüística; da filosofia para, crivando-a com a mestria e também com a histeria da questão da ciência, herdadas do cristianismo, dizer da Psicanálise que ela era uma anti-filosofia; e, por fim, malgrado Galileu ser ícone, em sua matematização da física, da ciência moderna, vale-se do matema (matematização conceitual) para dizer que a Psicanálise, face à questão temporal e topológica proposta pelo Tempo e pelo Real, seria, também, uma anti-matemática.
IV - A Desconstrução
O Lacan dito clássico, o Lacan dos Escritos, privilegia, na questão simbólica, a linguagem como condição do Inconsciente. Isto foi possível porque se operaram, em seu pensamento, dois procedimentos:
1o) grande conhecedor da história da lingüística, conhecimento que ia do formalismo russo de Petrogardo, São Petersburgo (1910), até a lingüística cartesiana de Chomski, anos 60/70, Lacan utilizou-se, para fazer "uma ponte" entre a lingüística e o pensamento de Freud sobre o sonho, sobre o Inconsciente (Traumdeutung) e a 1a tópica, do pensamento de Jakobson, para a partir dele modificar o algoritmo do signo saussereano. No seu célebre estudo sobre A Afasia, Jakobson, ao contrário do biologismo de Freud sobre o mesmo tema, associou as figuras do regime do Inconsciente, presentes na Interpretação dos Sonhos freudiana, ou seja: a condensação e o deslocamento, às figuras reativadas da retórica clássica: a metáfora e a metonímia. E embora não abrisse mão do dualismo lingüístico, daí metáfora/condensação, metonímia/deslocamento, propiciou a Lacan, que corrigiu este dualismo, hiperdeterminando condensação e deslocamento e, conseqüentemente, metáfora e metonímia, lançar mão do primado da linguagem, tornando-a como lógica do Pré-consciente, do regime do Inconsciente, composta de condensação e deslocamento, pertencente à lógica do processo primário e equivalente à sua lógica do significante. Ao adotar tal perspectiva, estabeleceu que a linguagem, assim concebida, era a condição Simbólica do Inconscienre, por isto o disse, então, "estruturado como uma linguagem" chegou a essa conclusão por optar pela fonologia de Jakobson e não, pelo significante, imagem acústica indissociável da imagem mental (significado) na composição do signo, conforme As Fontes Manuscritas do Curso de Lingüística Geral, de Ferdinand de Saussure, estabelecidas por Robert Godel. Por isto, dado o privilégio do signo verbal no pensamento saussureano, onde é exemplo de palavra, Saussure vê a língua tendo a linguagem como sua estrutura Inconsciente e implícita, pois linguagem = língua - fala (parole, discurso). E, para ele, por esta razão, a palavra funda o significante. Em Jakobson, adotado por Lacan, encontramos já a assertiva inversa;
2o) é o significante que funda a palavra, logo, do ponto de vista da imotivação do signo lingüístico, o significante é o responsável por ela, já que do ponto de vista da arbitrariedade do signo, prevista por Saussure, a significação remete não ao contexto externo e sim ao significante. Por isto, com Saussure, a significação remete não ao contexto externo e sim ao significante. Por isto, com Saussure, a Saussure da segunda parte do Curso, Jakobson tem razão, o significante funda a palavra. Lacan vai dizê-lo representante, lugar-tenente, Simbólico, ao passo que o Imaginário e a consistência responderiam pelo caráter contextual do significado. Desta maneira, Lacan subverte o signo saussureano, que era uma estrutura de exclusão do sujeito, já que o homem era falado pela linguagem, e toma este significante como o que representa, já incluindo, este Sujeito para outro significante. Logo, vai inverter o algoritmo saussureano e dizê-lo S/s (significante/significado). Assim, Lacan apropriou-se abdutivamente da lingüística para inverter a sua máxima, ou seja, que o Inconsciente era condição da linguagem e o fez ao propor como efeito de Real incidente sobre a linguagem, enquanto condição do Inconsciente, a histericização da linguagem, por isto fundada, a seu juízo, por uma Verneinung, enquanto juízo de existência, por uma denegação, já que se para ele só há Inconsciente no ser que fala, a linguagem é a sua verdadeira condição e é a denegação que o faz falar. Aplica os efeitos do conceito de denegação à tópica do Pré-consciente e conclui pela histericização da linguagem, dita "lingüisterie". Daí evolui, para se dar conta, que esta linguagem tendente, graças à denegação, à histericização, o era também, em face dos empuxos de Real que ali ocorriam como efeitos de impossibilidade, de uma "lalangue" (alíngua). No lugar da língua, a alíngua, no lugar do Inconsciente motivador, a linguagem pré-condicional deste, no lugar do paradigma lingüístico, a Verneinung como juízo de existência; eis aí os efeitos em Lacan, inclusive clínicos (lógica do significante, lógica metaforonímica do Sintoma, lógica metonímica do Desejo) de sua anti-lingüística. Isto depois de abdutivamente ter incorporado o conceito de significante que originado do Crátilo platônico fora tematizado pela lingüística saussureana.
Em seguida, em sua obra, tomando-se por base Encore e O Avesso da Psicanálise, Lacan vai-se apropriar de dois movimentos conceituais cristãos da filosofia. Assim, incorpora, a partir da tradição cartesiana do século XVII, o Sujeito da Ciência e sua acefalia, mas, no entanto, contrapõe-lhe a dúvida dialogal, maiêutica e platônica, e encontra como resposta o freudiano Sujeito do Inconsciente, Je; apõe a dúvida onde Descartes previra a certeza. Isto foi possível porque apreendeu de Koyré as relações entre Descartes e o pensamento científico do século XVII, ou seja, corrigiu a declinação epistemológica do Sujeito da Ciência cartesiano, Sujeito do Cogito, apondo-lhe a dimensão platônica, anti-aristotélica, da leitura de Koyré para, via sócrates, torná-lo "compatível" com o pensamento freudiano. Por isto, apropriou-se abdutivamente do Sujeito da Ciência cartesiano para produzir o Sujeito do Inconsciente freudiano. Será também da tradição cristã, que redenomina antropologia ática, que este mesmo Lacan irá se valer para a produção do Discurso da Histérica: histeria do Desejo de Saber. Assim, vai-se debruçar, por influência de Kojève, na leitura do jovem Hegel, para ele "a mais sublime das histéricas", de Jena, para quem o Desejo é o desejo do Desejo, já que desejar é um ato, por isto vai lê-lo a partir do seminário de Kojève, de quem é discípulo. E o "soberano" Kojève, no dizer de Bataille, lê, na Fenomenologia do Espírito, a Dialética do Senhor e do Servo, malgrado o também aluno Hyppolite traduzi-la conforme a tradição clássica, confundindo-a com o Discurso do Amo Clássico enquanto Dialética do Senhor e do Escravo. Na versão recente para a língua francesa feita por Lefèbvre, ressaltando-se a importância do cristianismo alemão vinculado à reforma do medievalismo e de Lutero, vai-se traduzir esta dialética por Dialética do Senhor e do Servo fundando-se, neste Hegel, para Lacan, o Discurso da Histérica. Contudo, a leitura de Kojèveiève estende a história à reflexão da Estética hegeliana sobre o Romantismo Alemão e à morte da arte e adiciona à Dialética do Senhor e do Servo o tema da morte da história, ressaltado por Queneau, enfatizado na 2a edição (1968) do seminário de Kojève sobre a Fenomenologia do Espírito, de onde se conclui o primado temático de urna Antropologia do Desejo. Será este Hegel, lido por Kojève, o "modelo do Discurso do Mestre Moderno", já que ele incorpora o judaísmo do Moisés freudiano como suporte do cristianismo católico e reformista de Descartes e Hegel para se contrapor ao peripatetismo clássico-medieval da física aristotélica. Vê-se, portanto, que Lacan se apropriou abdutivamente da tradição filosófica de Platão, Descartes e Hegel para fundar (abdutivamente) os conceitos teóricos-clínicos de Sujeito do Inconsciente, Discurso da Histérica e Discurso do Mestre e, ao articular o discurso da filosofia ora à psicose, no livre-arbítrio kantiano, ora ao Discurso Universitário, lugar de onde ele produz suposição de Saber, à custa de apor o intelecto (razão) no lugar da morte, ora em seus melhores momentos, à histeria hegeliana, jamais ao Discurso do Mestre, porque para a autoria deste, o gozo não tem serventia. Portanto, do ponto de vista do primado da suposição de Saber, da Spaltung entre S2 (Saber) e S1 (Sintoma), conforme o Discurso do Mestre, a Psicanálise é uma anti-filosofia.
Lacan herda, contudo, de seu modelo científico de homem moderno, Galileu, a experiência de matematização da física. Ele, que já herdara de Freud o Sintoma deste, que fora a fantasia das histéricas: a Ciência, já a dissera do ponto de vista do Saber Inconsciente e disjunta da Verdade, nos Escritos (cf. "Ciência e Verdade" e O Momento de Concluir), e vai acompanhar a leitura que Koyré faz do pensamento estético de Galileu. Ali é dita uma preferência por Ariosto e seu modelo clássico que, segundo Yuri Lotman, caracteriza a estética da identificação, da mímesis, em detrimento da Jerusalém Libertada de Torquato Tasso, maneirista, exceção ao classicismo ainda no século XVI e que contrapunha o fálico ao místico. Da presença deste místico, Galileu, equivocadamente, inferia a diferença linear da observação sensível na física aristotélica, não se dando conta, por isso não entroniza Kepler, que ali não havia uma estética da linearidade, e sim do elíptico, onde ele preferia ver, qual Leonardo da Vinci e seu retrato de Homem, o circular. Acontece que, do ponto de vista da física não-aristotélica, que ele tanto encarnou, as órbitas não eram lineares, nem circulares, eram elípticas, como Kepler havia previsto, assim como esteticamente a imaginação não era apenas geométrica e fálica, era também mística e elíptica. Marcado por este Kepler, lido por Koyré, Lacan não vai conseguir transpor, para a experiência científica da psicanálise, mesmo depois de superada a tradição metapsicológica e freudiana, a matematização do campo matêmico desta ciência. E, embora os matemas sejam simplificação de relações conceituais, eles devem ser representados topologicamente e aí surgem dois empecilhos: o Real e o Tempo. Se o fossem, a Psicanálise seria uma ciência clássico-moderna no sentido de Galileu. A topologia é um conhecimento escópico, visual, espacial e representa os dados consistentes de natureza imaginária enquanto horizontais; os dados contingentes, matêmicos, conceituais, de natureza simbólica, de forma vertical. Só que o Inconsciente é atemporal e o Real é impossível de ser representado.
Assim, o Tempo e o Real não são espacializáveis topologicamente, porque no Real o tempo é o da não-duração, e ele, enquanto tal, é impossível de se mediatizar. Logo, não há como estender a confirmação topológica da representabilidade matêmica para além do Simbólico e o Falo, enquanto Saber do Gozo, permanece irrepresentável, fazendo com que falte até o significante que deveria representá-lo na escrita do Sintoma: $‹›a. Logo, não se pode esperar a representabilidade espacial do Sintoma-Real, do Inconsciente-Real, do Falo enquanto verdadeiro objeto do Desejo e do descompasso entre o tempo futuro do Sintoma, o tempo do futuro anterior da tragédia e a atemporalidade inconsciente. Lacan não pode repetir, nas relações entre A Topologia e o Tempo, o princípio da matematização da experiência científica presente em Galileu e na sua física, isto porque, face ao caráter não-todo da Verdade, por ele incorporado de Wittgenstein, remete-a à impossibilidade do Real. Assim, do ponto de vista do primado da Ciência, o pensamento lacaneano irá operar também a desconstrução da física de Galileu e de seu princípio matemático, tornando, portanto, ao limitar a eficácia de sua opção matêmica que se torna, por isso, sinônimo de conceitual, uma anti-matemática. Nestes três movimentos vigorou o principio da desconstrução, pois importou abdutivamente o Saber lingüístico para superá-lo, fazendo o mesmo com o Saber filosófico e com o Saber matemático, isto porque no campo lacaneano do Gozo sempre existiram duas tensões a serem respeitadas:
1a) a revisão da Spaltung freudiana, que deixa de ser entre I(A) e i(a) por força do Superego e passa a ser entre Saber e Verdade (Sintoma), entre S1 e S2, conforme, por exemplo, O Momento de Concluir (1977);
2a) aquilo que Catherine B. Clément, no seu Lendas e Vidas de Jacques Lacan, sempre ressaltou: de um lado sua herança freudiana, científica, matêmica, de origem metapsicológica e cujo limite foi o impasse topológico face ao Real e ao Tempo e, de outro, enfatizando-se ali o Lacan do L'une-bévue, da homofonia sobre o freudiano Unbewusst (Inconsciente), destacaríamos a sua face "clown", ligada ao Campo do Gozo, onde se destacam Mulher, as mulheres, os Nomes e/ou Versões do Pai e o objeto a. Este Lacan "clown", conforme textos tão distantes como aquele sobre O Balcão, de Genet, e O Momento de Concluir (1977), não só dizia ser o mundo um bordel, palco da degradação da cultura no primeiro deles, mas também "se ressentia" da opção de fundação da Psicanálise por Freud ter sido trágica e não ser lastreada na Comédia, na farsa ática de Aristófanes, autor a que também compara Genet, pois assim ter-se-ia dado o encontro mais cedo com a Antropologia do Desejo hegeliana. E last, but not least... se Freud apostou, diante do impossível objeto do Desejo humano, que marcava este como insatisfeito para sempre, em O Mal-Estar na Cultura e também na impossibilidade de Ensinar e Governar (formas de paranóia), isto significou, ali, um pessimista projeto de Dissolução da Cultura; mas Lacan vai, a nosso juízo, mais longe, pois diante do "racismo que vem do futuro" e ameaça paranoicamente a Psicanálise com o triunfo das religiões, ele previu a Degradação da Cultura. E, para fazê-lo, teve que, virando as costas para a tradição iluminista e para o humanismo romântico, tão caros ao mid cult e a Alain Finkelkraut, propor um pensamento baseado no princípio da desconstrução dos Saberes de que se apropriou abdutivamente para formulá-lo.
PRÓXIMO CAPÍTULO:LACAN E A CIÊNCIA MODERNA - A questão do tempo e suas diferenças em relação ao sintoma, à consistência, ao inconsciente, ao real e à questão da ciência (Parte II)