Estas questões têm a ver com o projeto de desconstrução em e de Lacan, tornando-se, então, a Psicanálise, uma anti-matemática. Por quê?
Porque se o conceito é "minimalizado" em suas relações e estas são simplificadas no matema, parece dar-se uma versão atual mais complexa a um projeto de ciência que ainda guarda a marca do moderno de Galileu que, por sua vez, representou a matematização da física. Agora, por hipótese, representar-se-ia a matematização do aparelho psíquico ou dos conceitos fundamentais que permitem a produção deste aparelho psíquico. No entanto, a questão temporal vai criar embaraços à "confirmação" plena dessa cientificização.
A opção pelo matema será uma resposta própria que Lacan dará àquilo que foi a fantasia histérica, que se tornou o Sintoma de Freud, presente no seu "sonho botânico", ou seja: a questão da ciência, embora tenha respondido primeiramente a esta questão pela metapsicologia, na sua tese de doutoramento, quando queria fazer do bovarismo uma entidade metapsicológica que estaria para a psicose, assim como o sonho estivera para o Inconsciente e o aparelho psíquico para o Saber inconsciente.
Lacan, a partir da lógica matemática, fará a crítica à teoria da refutação de Karl Popper, adotando parcialmente a teoria da argumentação de Bertrand Russell, assim como adotará a teoria de Frege sobre a suspeição e o número (treze) e o seu conceito de Verdade será incorporado pela categoria de Verdade a partir da inexistência da metalinguagem, proposta pelo Tratactus de Wittgenstein. Nesse projeto, Lacan terá de levar em conta a possibilidade, como já se disse, de matemizar, para relacionar e simplificar os conceitos, mas só depois de representá-los espacialmente, topologizá-los e, para fazê-lo, ele terá que guardar respeito, nesta representação imagética, às características próprias de cada um dos registros que regem estes conceitos. Assim, a representação, por exemplo, da consistência imaginária, terá que ser horizontal, porque ela é compatível com o retilíneo, com o plano, com o euclideano, com a observação empírica do sensível, de uma natureza peripatética e aristotélica. Já a contingência simbólica, que "dubla" a impossibilidade do Real, que estabelece a marca lógica do possível, esta seria vertical. Então, teríamos que ter construções topológicas que dessem conta de relações horizontais, de relações verticais e da articulação entre ambas.
Mas permanece, para a Psicanálise, até porque o Tempo Lógico é o Estilo de Lacan, a questão temporal. Como situar esta questão diante desta contingência, diante desta imanência e diante da impossibilidade incorpórea do Real, seja vendo-se no Real pulsional e mortal a fundação da simbólica atemporalidade do Inconsciente, seja vendo-se no Real o seu tempo de não-duração, que é ditado pelo fato de que é idêntico a si mesmo! Então, o tempo vai ter que articular impossibilidade, contingência e consistência: representação vertical, não-representabilidade, não-mediatização e representação horizontal, ainda que espacial.
Neste ponto descobrimos várias modalidades de intervenção temporal. A intervenção temporal compatível com a contingência simbólica é o après-coup, é a posteridade, é o tempo do Sintoma, é o tempo referente à relação que se dá, através da metáfora, entre o Sujeito barrado e o Nome do Pai. Este tempo pode-se dar em posterioridade: "será tido", ou em anterioridade, ancestralidade: "terá sido". É um tempo determinado pela lógica temporal da Tragédia, dita "futuro anterior". Na posteridade, estará a percepção de Edipo, de seu infortúnio; na ancestralidade, estava a percepção de Tirésias, porque ele era porta-voz da Moira, da predestinação. Este tempo é compatível com a verticalização espacial.
Por outro lado, se formos ao terreno do Imaginário, encontraremos Cronos regido por uma cronologia positivante, evolutiva, de princípio, meio e fim; presente, passado e futuro. Nesta temporalidade consistente de apreensão imagética do sensível, isto é, também, compatível com a representabilidade horizontal. No entanto, no pólo de articulação, no nexo de articulação, ditado pelo objeto a em seu lugar de Verleugnung, ponto de suspensão, e pelo seu caráter estrutural entre verticalidade e horizontalidade, entre Simbólico e Imaginário, entre contingente e consistente, que seriam planos do Sentido, trazidos à cena pelo objeto a e que, no entanto, escapam a este Sentido porque têm uma fundação Real, lá encontraríamos um tempo do Inconsciente do Lacan do "primeiro classicismo", tempo do Inconsciente do Freud lido por Lacan, onde a não-negatividade gera a atemporalidade. Eles restariam como Simbólico puro, mas com efeitos Imaginários, já que o Inconsciente é um dos efeitos do recalque, da denegação, vale dizer, da Castração, é o efeito Simbólico secundária da Castração; já seu efeito de predomínio Imaginário, no campo do Sentido, seria a neurose, pelo menos nos moldes da Interpretação freudiana clássica. Poderíamos, também, neste ponto de entrecruzamento entre a verticalidade e a horizontalidade, situar a atemporalidade do Inconsciente. Até aí o esforço matemico consegue um equivalente na espacialização topológica. No entanto, este próprio objeto a, ao ser o ponto de intersecção entre Inconsciente e Sintoma, que remonta ao Lacan de Bonneval - "lnconsciente é o que escapa ao Sujeito para restabelecer a sua relação com a Verdade", que é não-toda e sintomática, este "escape" não é só daquilo que é recalcado, porque recalque, para Lacan, é recalque do Real - então, este objeto a, este ponto de entrelaçamento que, na Fantasia Perversa, é recalcado e transformado em fantasia Inconsciente, tem algo de sua origem, de sua ancestralidade, que escapa ao Simbólico. No seu limite simbólico, na sua presença na fantasia fundamental - ele é tela protetora do Real, mas ele é, também, referente ao objeto pulsional. E, esse caráter Real do objeto a que o funda, que é o caráter Real do significante, assim como a lógica do significante é a sua lógica, no plano Simbólico, esta lógica do significante vai, por isso, dublar o caráter Real do objeto a. Lacan vai-nos chamar a atenção para o fato de que há algo impossível, nesta representação, que não é, como se poderia pensar à primeira leva, a atemporalidade do Inconsciente, mas sim, o tempo de não-duração do Real. O Real é não-mediatizável, é incorpóreo e não-representável, inclusive topologicamente. Por inversão da Durée bergsoniana, supostamente adotada por Proust enquanto "busca do tempo perdido", teríamos aqui uma espécie de "non-durée", tempo de "não-duração" do Real.
Então, a estrutura é composta de Real, Simbólico e Imaginário e Sintoma, assentados no objeto a. Logo, Real, Simbólico e Imaginário e Sintoma teriam que ter representabilidade topológica, bem como as suas relações e trocas, mas o seu ponto de assentamente, o objeto a, que é dado na estrutura como semblante do Falo, já remete a um ponto de não-representabilidade porque é impossível e, também, porque é da ordem do tempo de não-duração. Então, se isto ocorre, esta matemização, que foi produto da apropriação abdutiva a partir de Soury, a partir da visão lógico-conceitual oriunda da matemática e assentada na lógica simbólica por Lacan, isto também é desconstruído, porque o autor se vale de sua radical noção de conceito como matema para mostrar que há um espaço, já que de topologia se trata, que o Simbólico lógico deste matema não recobre. Este espaço é o espaço de não-duração do Real e ele não recobre porque a impossibilidade deste espaço do Real é determinado pelo seu campo de não-duração. Então, Lacan se vale da matemática, abdutivamente, para criar o próprio estatuto do conceituar. Conceituar, para ele, no entanto, deixa de ser mera ciência e tornar-se, como diz literalmente, uma arte, a arte sintomática de bem-dizer. Por isso, o conceituar só é apreensível na ordem da equivalência ao Sintoma, pois o Sintoma é que é bem-dito. Mas, deste Real que invade o Simbólico, nesta arte, neste ato poético, guarda-se o silêncio do Real, e este é irrepresentável, inclusive, topologicamente.
Então, é por ser relativo ao primado do Falo que este Real é relativo ao Campo do Gozo, enquanto Campo Lacaneano, enquanto Gozo-Real, Saber do qual nada se sabe, e após ser aposto no lugar deixado vazio pelo Assassínio da Coisa, por força da Afirmação Primordial, é que este Real como Falo também se torna, simultaneamente, relativo ao tempo de não-duração. Portanto, o verdadeiro objeto do Desejo, representado por um X no matema da metáfora, o que mostra ser o referido matema incapaz de representá-lo, como já fora incapaz de representá-lo no matema do Sintoma. Neste ponto, alguns "lacanianos", quando leitores "pedestres" de Lacan, dizem apenas que falta um significante no Campo d A, que é o significante que representa o Real. Na verdade, falta um representante no Campo do A que é o significante que representa a ausência do Falo (Nome do Pai), porque o Falo é de tal ordem faltante que o seu próprio representante também ali faltará e é isto que mostra uma diferença entre quem se deu conta do Lacan do Campo do Gozo e quem continuará "brincando" de "Lacan simbólico", preso ao seu "primeiro classicismo".
Também no matema das relações entre metáfora, metaforização e metonímia não aparece o objeto a como aquilo que ele é: semblante do fato de o Falo, inexistente, por tornar-se o verdadeiro objeto do Desejo. Por isto, na matemização da metáfora, aparece um X, uma incógnita, um enigma, o que prova ali a irrepresentabilidade deste primado do Falo. Se o Falo é aticamente da ordem da physis, da ousia incorpórea e pré-socrática, o Falo não pode ser substituído, o que seria um equívoco análogo ao equívoco de Galileu, no sentido de que a physis grega é inomeada, é incorpórea, tendo-se tornado uma "segunda natureza", a natureza como algo que escapa à cultura, natureza na concepção romântico-alemã de Goethe, que tanto encantou Freud e que o levou à Psicanálise.
Não há, pois, equivalência deste Real de Lacan com nenhum biologismo, com nenhuma anatomia, isto é óbvio, porque ele diz que o Real não é energia. Mas nenhuma físico-química matemização da natureza (isto é Filosofia Alemã), dota-o de Kinésis, como Hegel, de movimento, procurando encontrar numa dialética, uma lógica comum entre a natureza e a história e, a partir daí, a propõe como Marx, como ciência do Absoluto (Universal), sejam o Espírito e/ou a História, ou ambos, o marco desta cientificidade.
Então, esta é a questão que subsiste, esta é a questão que regionaliza e relativiza a ciência e que é muito bem definida por Lacan, ao dizer que "a Psicanálise é a ciência do que falta ao Homem" e o que falta ao homem é o Falo. Portanto, a Psicanálise é ciência desde que não tenha que (se) dar conta ao prestar contas da representabilidade conceitual ou topológica do que falta ao homem, em última e derradeira instância: o Falo como núcleo de um Gozo do qual nada se sabe a não ser que ex-siste. É por isto que a Psicanálise é conceitualmente uma desconstrução, porque ela teve que trazer a matemática à cena para mostrar a sua relativização, sua não-universalidade.
A Psicanálise não é um a priori, ela não exclui nada a priori, por isto que ela não pode ser explicada por uma lógica para-consistente, porque não se trata apenas de não dizê-la aristotélica, de dizê-la paralela, como o paralelismo disjuntivo de Spinoza; por isto que ela não pode ser explicada por uma lógica para-completa, que seria uma lógica de exceção. Ou seja, não se trataria apenas de não dizê-la hegeliana, nem disjuntiva, quer dizer: uma lógica que desse conta daquilo que foge à universalidade, isto é apenas o território de Freud, ou seja, apenas a Castração de Freud: paratodização + exceção feminina à paratodização, fórmulas quânticas da sexuação, todas são uma região Simbólica da Psicanálise, não são a psicanálise. Isto requereria uma lógica para-completa, "para todos há função fálica; há pelo menos um que diz não à Função Fálica", mas esta daria conta apenas do modo de ser Simbólico da Castração e do Campo do A. Dizer que a Psicanálise é uma lógica do predomínio do contingente, que leva à dissolução do consistente, é dizê-la uma lógica para-consistente, mas a Psicanálise não é apenas uma lógica do Sentido, ela não é uma articulação paralela e disjuntiva entre o Simbólico e o Imaginário, representada, para tal, topologicamente. Ela remete à intra-duzibilidade, à não-mediatização, à não-simbolização, à impossibilidade do Real. E desde Ciência e Verdade (Escritos 1966), Lacan, ali apontando a Spaltung do Sujeito como referente à disjunção básica entre Saber e Verdade, mostra-nos que, para a Psicanálise, na origem do Cogito, dito Pensamento, está a linguagem e, para além desta, invocando Heidegger, estaria o indizível (Real), pois é não-passível de cientificização apenas o que advém do Real. Assim, a Psicanálise já pode experimentar o significante lingüístico por este suprir, em suplência, a ausência do Real, para transformá-lo na simbólica lógica do significante e, depois, desconstruiu a lingüística e afirmou-se como uma anti-lingüística. O primado da lógica do significante serviu apenas para aprofundar o seu momento de precisão, de que a "linguagem era a condição do Inconsciente".
Ao dar-se conta da tradição de Hegel e da tradição de Descartes, tradição católico-cristã e tradição cristã-reformista, tradição do século XVII, que remonta ao século XIII cristão e medieval, que faz exceção ao medieval peripatético-aristotélico, e tradiçào do século XIX, que também retorna ao medieval, a Psicanálise pode lançar o Discurso do Mestre e a partir dele a disjunção irredutível entre o Saber e a Verdade, que é a base da também disjunção irredutível entre Sintoma e Gozo. Mas a Psicanálise, estabelecido isto, pode fundar as distinções entre o Discurso do Amo C1ássico, o Discurso do Mestre Moderno e o Discurso da Histérica. Isto serviu para que a Psicanálise desse conta da Antropologia do Desejo e reencontrasse uma via ática que não a de Freud: a via da Comédia de Aristófanes (a via ática de Freud foi a da Tragédia de Sófocles). Mas, isto fez com que a Psicanálise, posteriormente, ao corrigir o Sujeito Cartesiano em nome da Maiêutica, produzisse o Sujeito do Inconsciente em Freud e, para isto, Descartes teve que ser revisitado, em Lacan, por Koyré. Já invocando Kojève havia o seu Espírito Absoluto e preferiu-se vê-lo como um momento de histeritização, ao dizer que o "Homem deseja o próprio desejo", porque é um ser-para-a-morte que, depois, transformou-se na questão a Hegel atribuída da "morte da História", como resposta a um possível triunfo da "barbárie". Neste momento já temos, como se disse, a leitura de Kojève. A Psicanálise não fez senão, com Hegel e Descartes - só que Hegel reconfigurado por Kojève - utilizar-se da filosofia para ser uma anti-filosofia, retomando, aliás, o desapreço de Freud por aquela.
A Psicanálise fez o mesmo com a lógica matemática, o que o levou à experiência conceitual-matêmica em seu extremo topológico, mas este extremo revelou a impossibilidade de se representar, quer matêmica, quer topologicamente, o Real. A espacialização da algebrização matêmica esbarrou na não-mediarização do impossível.
Então, do ponto de vista teórico, a Psicanálise se torna uma desconstrução. Se ela se torna uma desconstrução do ponto de vista teórico, ela se torna um Saber difícil de ser "capturado", porque ela se torna um Saber que se erige em nome do não-Saber, condição prévia não só do Discurso do Psicanalista, mas também da possibilidade de ultrapassagem do paranóico e originário Saber suposto Sujeito, pela transferencial Suposição de Saber. Há algo ali que não pode ser sabido jamais, e isto é muito difícil de ser aceito, porque assim se radicaliza a questão da falta Real: a falta Real, que poderia acontecer no Inconsciente, como a Simbólica "falta interior" e que, em Freud, significava apenas, histericamente, seu reverso fantasmático: o desejo insatisfeito, pois das Ding como objeto impossível demonstra, no nível de seu efeito, a dissolução da cultura, porque não há objeto que satisfaça o desejo humano (e deste fato provém o histérico desejo insatisfeito).
No entanto, Lacan diz um pouco mais do que isto: onde Freud vê a dissolução, ele vê a degradação da cultura; onde Freud vê a existência de um impossível objeto que satisfaça o desejo humano, Lacan vê a impossibilidade de o sujeito humano lidar com uma falta para sempre estabelecida, que é a falta Real, o que faz com que qualquer ilusão que ele construa de ordem fantasmática só possa ter, como disse Freud, futuro enquanto tal. O que faz também com que a Psicanálise eticamente não autorize em seu nome nenhuma política, nenhuma administração de bens no sentido do Estado (do governar), nenhuma moral e nenhuma ideologia. Isto torna a Psicanálise algo profundamente rejeitado no âmbito da cultura, e ela só existe ainda porque conseguiu, embora exista há pouco mais de cem anos, ter-se transformado num Sintoma na cultura. Mas, até quando? Esta é que é a questão!
Em Freud havia pessimismo cético com um toque de otimismo iluminista por apostar na unificação de Eros, ou de esperança, se preferirem. Não há pessimismo em Lacan, não aquele pessimismo atribuido a Freud - o que não é verdade, senão ele não apostaria em Eros - pois Lacan não aposta, Lacan constata.
Uma Psicanálise, então, não comporta uma visão de mundo, não comporta uma crença, isto é magia, é juízo denegatório da morte, a Psicanálise não comporta "uma profissão nem de fé". A Psicanálise fica num não-lugar, o que seria ótimo, se se tratasse de um pensamento utópico, mas como ela é também uma anti-utopia, já que o JA não poderia ser signo do Amor, uma vez que a relação sexual nem existe, para ela, e não há também Outro (A) do Outro (A), ela se torna, então, algo extremamente difícil de nomear.
O TEMPO EM HEIDEGGER
Heidegger usa os termos da melancolia para fazer a crítica da negatividade e fazer a crítica da negatividade usando-se os termos da melancolia é ser melancólico. Lacan chega a dizer textualmente "fazer do Ser o Não-Ser é não se perguntar o que esse Não-Ser deve à realidade da morte". Esta frase é endereçada a Heidegger.
Heidegger interessa a Lacan simplesmente para mostrar, na perspectiva ôntica do Heidegger mais novo, do Heidegger que Kojève traz para a França, como pertinente ao Ser e depois ao espaço recoberto pela poesia, o espaço do impossível.
Lacan não precisa de Heidegger para estabelecer o Real, mas sim para estabelecer a tensão entre o Real e o Simbólico, a tensão entre algo que é dito de forma deformante, que é o Ente e algo que não pode ser dito, que é o Real. Em Lacan, não haveria a experiência do Ser e Heidegger coloca a experiência do Ser como uma possibilidade. Essa possibilidade se localiza no poético, se localiza no indizível, é como se você estivesse dizendo, em termos de Lacan, que algo do Real seria, em termos de argumentação, correspondente ao indizível, pudesse comparecer no Simbólico, mesmo como ocorrência, e gerar uma experiência possível. Então, deixaria de ser impossível. Mais do que o não-dito, o Real, para Lacan, é impossível.
Heidegger, que se opõe à metafísica, é também parte da anti-filosofia de Lacan. Os conceitos de recolhimento, de Dasein, de ôntico são caros a Lacan, mas simplesmente para transformá-los em benefício da Psicanálise, na configuração, por exemplo, da exceção lógica do Feminino, na configuração da tensáo entre ilusáo e impassível, vale dizer, entre Imaginário
(Sentido)e Real.
Concluindo esta parte, diríamos que a Psicanálise desconstrói os Saberes que a constituíram porque ela está sempre "mirando o Real", porque o Real é uma "terra à vista", daí a expressão "lituraterre" que Lacan usou em 1981. A Psicanálise termina por desconstruir as suas bases de pensamento no momento em que estas se revelam, apesar de abdutivamente transformadas em conceitos, insuficientes para cientificizá-la. Isto já é uma conseqüência da questão da Ciência em Lacan: a Ciência como uma contingência conceitual topologizável verticalmente, mas que cessa (porque quem não cessa de não se escrever é o Real) diante da impossibilidade do Real.
Sendo assim, o caminho da Ciência é árduo e cria a questão do "homem moderno". Para a Ciência trata-se, na Psicanálise, do corte entre o Cristianismo e o Mundo Antigo, a partir do Judaísmo revisto por Freud como elemento fundante deste Cristianismo. E o que leva Lacan a ver para onde aponta este fundamento judaico da questão cristã da modernidade é que a Ciência é contingente, seja pela via de Descartes, do Sujeito da Ciência, sei a pela via de Hegel, do Desejo de Saber e, portanto, se é contingente, é Simbólica. Essa é, em síntese, em Lacan, o limite da questão científica, diante da evidência do impossível Saber do Gozo.
E se Jean-Claude Milner (A Obra Clara), numa tentativa pedagógica, reconhece que a obra de Lacan restou inacabada, tenho aqui uma posição mais radical: não é inacabada no sentido de Lacan não tê-la acabado, e sim, no sentido de que ela, ou qualquer outra obra que se pretenda científica, é impossível de ser acabada, na medida em que se funda, paradoxalmente, na suposição que ela mesma desmistifica, de uma Ciência Universal e Absoluta. Não foi Lacan que a deixou inacabada por ter desconstruído os seus pressupostos, porque o que Lacan nos deixou como lição é que a Psicanálise é uma teoria pendular, ela que tem que ser reinventada a cada vez que se propõe como questão, ela está como o maneirista pêndulo de Kepler, entre o retilíneo e a circularidade, mas nem mesmo o elíptico dá conta do impossível desta diferença para com o Real, apenas o representa esteticamente como a contra-cena entre o fálico e o místico, legado do século XVI.
PRÓXIMO CAPÍTULO:O Desvio da letra, o Real e a Verdade