A questão da Verdade em Lacan, que é da ordem da SPALTUNG do Sujeito, é limitada pela impossibilidade do Real (do Gozo e do Falo) e de suas conseqüências. Assim, postula-se:
a) A primeira versão da Spaltung do Sujeito no classicismo lacaneano dos Escritos (1966) refere-se à Verdade e ao Saber, exposta em Ciência e Verdade;
b) Isto redenominava a Spaltung do Sujeito, para Freud um fenômeno Inconsciente, determinante de sua clivagem enquanto Ego, por ser da ordem da 2a tópica e se dar entre o I(A) (para Lacan, Simbólico) e o Ego-Ideal (para Lacan, Imaginário);
c) Mas, em O Momento de Concluir (1977), esta Spaltung é re-dita pelo Lacan do Campo do Gozo (Campo Lacaneano), como fruto da disjunção básica entre "esse um" (S1) e "esse dois" (S2); colocando-se, portanto, de um lado o Sintoma (Verdade) e do outro, o Saber (Gozo);
d) Assim pensada, a Verdade é metafórica, sintomática e não-toda, ao passo que o Saber, via Fantasia, remete-nos à impossibilidade do Gozo;
e) Isto permitiu a este Lacan redefinir a Castração como sendo o «Saber impossível sobre o Gozo»;
f) E, a partir da inclusão abdutiva das referências a Wittgenstein e Von Neumann, Lacan estabeleceu, em O Momento de Concluir (1977), a inexistência da metalinguagem, procedimento já previsto por Ludwig Wittgenstein, de quem, a partir de seu Apodigma, no Tratactus Lacan tomou a categoria de Verdade em seu sentido lógico;
g) A letra, categoria fundamental da lógica do significante do Lacan clássico, é o suporte material deste procedimento, um agalma, por exemplo. Ela nos serve para explicar o processo de apropriação abdutiva de Lacan face a seus pensamentos informantes. Eles têm, para Lacan, valor genealógico e são apropriados sob o princípio abdutivo do desvio
da letra. O significante originário, por exemplo, um conceito hegeliano, será o suporte material de um conceito clínico em Lacan, será uma letra em seu valor significante, só que sofrerá um desvio abdutivo. Será reconceituado e uma vez assim feito, esta nova categoria, embora originariamente tomada a partir de um pensamento, transforma-se em algo novo que invalida o pensamento que lhe serviu de matéria-prima. Esta letra desviada é suporte do novo conceito e transforma-se no anti-pensamento. Exemplo disto é a reconsideração do pensamento lingüístico estrutural por Lacan a respeito da categoria de significante. Seu significante é de inspiração saussureana, reconceituado genealogicamente por Jakobson e transformado, em sua Lógica do Significante, que serve, por sua vez, de suporte para a equivalência entre ela e o processo primário freudiano e, com isto, alicerça a consideração de o Inconsciente pressupor a linguagem. A partir daí, isto se radicaliza na "lingüisterie" e na "alíngua", que vê a modalização do Real como condição da linguagem já que esta, como tudo o que é Simbólico, "dublava" o Real em sua ausência. Teremos aí a anti-lingüística, desvio da letra significante da lingüística, um novo suporte material para que se reconceitualize o Inconsciente freudiano. Por esta razão, o Lacan do classicismo, nos Escritos (1966), mais especificamente em Ciência e Verdade, aponta-nos as relações entre Psicanálise e Ciência como o caminho de uma lógica do significante que seja tomada como causa material de uma ciência que tem a Verdade como causa em sua práxis, para além da causa modal (formal). Ou seja:
"lsso, porém, será para esclarecer gue a Psicanálise (...) acentua seu aspecto de causa material. Assim se deve qualificar sua originalidade na Ciência. Essa causa material é, propriamente, a forma de incidência do significante como ai eu o defino"(cf. LACAN, Jacques, Escritos, RJ, Jorge Zahar Ed.,1988, pg.890);
h) Isto deverá esclarecer, de uma vez por todas, o oportunismo e a estupidez dos "físicos de plantão" "travestidos" de matemáticos que lêem Lacan com o "açodamento dos noventa dias", próprio da "performance" pós-moderna dos anos 90 em sua lide anti-intelectualista e, por não terem lido e/ou entendido a categoria de abdução em Pierce, compatibilizada por Jean Allouch como o processo significante próprio dos conceitos de Lacan, acham-no um "fraudador", simplesmente por fazerem uma equivalência literal e mimética entre Lacan e suas fontes. A lamentar, apenas o aplauso sensacionalista do anti-intelectualismo de certa mídia provinciana que na nadificação das "zero horas" cerra fileiras no aplauso à estupidez.
PRÓXIMO CAPÍTULO:A linguagem, a ate medieval e o Real