A relação entre a Arte Medieval, literariamente representada, a linguagem "metaforonímica" e a impossibilidade do Real nos faz deparar com a questão da heterossexualidade conforme foi definida por Jacques Lacan em L'Etourdit, e, também, com o binômio erastes/erômeno como o Mestre de Paris o apresenta, a saber, em seu Seminário a respeito da Transferência. Contudo, em L'Etourdit é dito que "heterossexual é quem ama as mulheres" independentemente de seu sexo, e no citado seminário sobre a Transferência nos é indicado que o dito binômio erastes/erômenos nos revela uma dupla possibilidade:
a) a impossibilidade do amor, isto porque o amador (amante), aquele que ama, não pode falar do amor, sua relação é da ordem do silere latino, nem tampouco da Coisa Amada;
b) indica a presença do que Sigmund Freud denominou de "Amor pela Verdade", ou seja, do Amor de Transferência. Este, é ali atribuído a Sócrates e tem valor de Suposição de Saber. Dele advém uma outra relação com o amor, que esta mais além do fato de haver a Suposição de Saber dada por Agaton a Sócrates, com valor de Verdade, por este, saber de seu desejo por Alcebíades. Agora se trata de uma nova ilação possível da relação erastes/erômenos. Nela erastes (o que ama) só pode falar de seu amor por erômenos/ a Coisa Amada. Então, não fala do amor, mas fala do amor (seu) pela Coisa Amada. Em suma, fala-se do amor através da nomeação da Coisa Amada. Portanto, só se pode falar do amado, uma vez que o amante (aquele que ama) não pode falar auto-referencialmente do próprio amor. A primeira destas concepções tem uma conotação latina, helenista, remete-nos ao poeta lírico Ovídio e irá, no medievo, dar origem ao Amor-Cortês, também poético e lírico, de natureza provençal, comum também ao sublimatório petrarquismo, onde se conjuga a impossibilidade da Dama, tida e vista enquanto [A] Mulher impossível. Já a segunda destas indicações é Ática (em sua genealogia) e tem, posteriormente, repercussão, helênica que é, no medievo. Ali, por incorporar-se às tradições celta, gaélica e bretã, irá dizer de uma outra modalização do Amor-Cortês, só que consagrada como reparação da paternidade, seja-o por via mística (a lenda do Graal), seja-o por via fálica (a lenda de Excalybur), e isto é posto nos termos de o cavaleiro amar, após a renúncia e a glorificação, heterossexualmente a dama, por ter sido, antes, por esta desejado. E assim realiza, por antecipação, algo análogo ao que Lacan, no seminário A Relação de Objeto, atribuiu a Don Juan, o "agalma" entre as mulheres, o "donzel", "belo-desejado", isto porque esta criação literário-seiscentista era um personagem, via Tirso de Molina, do Século do Talento (XVII). E seu talento maior era "ser amado pelas mulheres" já que as amara, uma a uma (cf. Encore). Ele era ali, naquela hora e naquele lugar, reciprocamente amado pelas mulheres.
Em seguida, faremos um elenco das posições do texto plural lacaneano sobre o Amor-Cortês. E, neste aludido elenco, iremos observar não só a genealogia, mas também o caráter sincrônico, ambos constitutivos da concepção de Lacan sobre o Amor-Cortês. Deste modo, começaremos pelo L'Etourdit (1973) e pelo Encore (1975) e, após recorreremos à contribuição de Nata Minor(1975), concluindo com o Sintoma (1977). Portanto:
Em 1973, na página no 8 de L'Etourdit, Lacan nos afirma:
«A relação com o sexo se definirá, então, não pela existência de um significante anatômico e único que designasse a sexualidade, como foi suposto por Freud, nem por uma escolha necessariamente fundada em qualquer anatomia, mas por algo que acumule "ausência e non-sense" ("lab-sens").»
Com isto, ele ali colocava em cena os dados necessários para que se entendesse de que modo o Nome-do-Pai iria implodir [A] Mulher, a partir do acossamento feito à suposição do "verdadeiro feminino" (suposição de só haver diferença, [JA], diferentemente, contudo, da paranóica obrigação feminina) e introduzir, pulverizando [A] Mulher, o objeto a, cujo lugar na Castração designava as mulheres, uma a uma. Então, na página 24 do mesmo texto de Lacan, temos a articulação que é feita com a dama, objeto a, vinculando o Amor-Cortês à emanação do heteros da discórdia. Assim é dito: "O Amor-Cortês e relativamente todos os efeitos, literários ou não, do discurso cavaleiresco, vige no reconhecimento do Estatuto de Homossexual, como o Imaginário Estatuto do Homem em seu confronto com o heteros da discórdia" (sem dúvida, trazido pela servidão da dama). Ao que se seguiu no Encore, em 1975, edição brasileira, página 65:
"O Amor-Cortês era uma maneira toda refinada de suprir a ausência (a impossibilidade), a inexistência da relação sexual, fingindo que somos nós (outrora, os cavaleiros) que lhe opomos obstáculos. É verdadeiramente a coisa mais formidável que jamais se tentou. Mas como denunciar a seu fingimento (sua dissimulação)? Em vez de se ficar por aí boiando no paradaxo de o Amor-Cortês ter aparecido na época feudal, os materialistas deveriam ver nele uma magnífica ocasião de, ao contrário, mostrar como ele se enraizava no discurso da fidelidade à pessoa, da fealidade. Em última análise, a pessoa é sempre soberana (no sentido kojèveano do termo), é o Discurso do Mestre (Dialética hegeliana do Senhor e do Servo). O Amor-Cortês é, para o homem (até um cavaleiro) cuja Dama (pessoa) era inteiramente, no sentido mais servil do termo (servir, servir-se e ser servida) a sujeita (do amor), a única maneira de se sair com elegância da inexistência da relação sexual (ou o Amor não é uma forma princeps de suplência, por vir a suprir, da inexistência da relação sexual?) - relação que não há" sendo, segundo, mais ainda, Lacan, este é o verdadeiro fato significante novo trazido no e pelo discurso da cavalaria medieval.
Agora, uma vez estabelecida a relação entre o Amor-Cortês, o Discurso do Mestre e a heterossexualidade, isto pela implosão da suposição de contrato homossexual pelo heteros da discórdia trazido pela dama, Lacan vai-nos indicar, em seguida, o momento de afloramento deste amor, e isto de acordo com a página 79 do Encore (1975):
«O Amor-Cortês aparece na exato momento em que "l'âmusement" (a alma-divertimento) havia caído nesta espécie de sonho impossível, dito de "feudalidade" (fidelidade ao Rei), a este nível de lado das mulheres (damas), já havia algo que não poderia mais de modo algum funcionar»
Com isto contrapõe "fealidade" a "feudalidade". O próximo passo de Lacan será, tanto no Seminário A Ética da Psicanálise, quanto na página 78 do Encore (1975) vincular certa modalidade de Amor-Cortês, a provençal e lírica, ao "mito do Amor" e, ainda seguindo Lacan, Michel Silvestre o articulará à Sublimação. Já Lacan o estenderá à maneirista anamorfose, que, segundo Koyré, faz em Torquato Tasso e sua Jerusalém Libertada a evocação das órbitas elípticas de Kepler, dita e tida como deformação da imagem pictórica. Lacan, neste momento, nos ensinará que ao vir em suplência da inexistência da relação sexual, este amor irá supri-la como o "verdadeiro amor". E nesta, ama-se a alma, explicita-se o fato de a relação sexual não ser "escritível" na estrutura. Nele, portanto, o "sexo não entra", não conta, ali "ama-se a alma" (o espírito, Geist). Trata-se, pois, como se disse, do "mito do Amor" que tem origem lírico-provençal, presença petrarquista e camoniana, e sendo sublimatório, nele amar-se-á "o próprio amor", ali vige Ovídio e sua lírica helenista. Porém, em 1976, no Seminário O Sintoma (Le Sinthome) é, novamente, embora de forma indireta, trazida à baila a relação érastès/erômenos. Neste momento, Lacan destacará que entrega, se houve, foi do cavaleiro às damas (mulheres) e foi "uma a uma", heterossexual, por conseguinte, e deu-se como logiciza Lacan: nos termos do objeto a (objeto causa de desejo), onde por esta "uma dama" ser do Pai, o Sujeito se perderá ao defrontrar-se com o fato de que o seu Sintoma é uma "mulher-dama". Por isto, repetiremos com Lacan:
«Permita-me dizer que o Sintoma (Sinthome) é o sexo a que não pertenço. (Para o cavaleiro)... uma mulher. Uma mulher é Sintoma para todo Homem, já que o Sintoma (Sinthome) se caracteriza pela não equivalência (sexual).»
Refazendo este percurso ressaltaremos que, desta forma enunciado, a heterossexualidade do Amor-Cortês de presença medieval celta, gaélica e bretã é da ordem da conjugação de érastès/erômenos não sob a helenista ótica de Ovídio que destaca a impossibilidade do Amor e da Cousa Amada serem falados, mas sob a ótica diferencial do duo Eros/Psiquê, que é fundado pela erótica e narcísica Lei do Pai e cuja significação resgatada nos é apresentada pelo poema de Fernando Pessoa. Lacan irá, também, em referências existentes no Seminário A Ética da Psicanálise, insistir na articulação do "mito do Amor", amor sublime amor, com a West Side estória emanada das lírico-provençais Cantigas de Amor que via como efeito do resguardo e da inacessibilidade sexual da dama, o sofrimento, a "coita do amor" do trovador. Se esta concepção vinga-se como única, Lacan teria abonado a equivalência entre este sublimatório amor e a "suposição do verdadeiro feminino". Contudo, ao destacar a variante heterossexual do Amor-Cortês, Lacan nos faz defrontar com a inexistência do "verdadeiro feminino". É que tanto quanto a Verdade, uma mulher é semi-dita entre o Falo e o furo, é não-toda. E só serão semi-ditas por uma fala que está na dependência erótica da função paterna, se esta se manifestar em sua Lei de dupla face. Faces de proibição e Desejo. Ou seja, trata-se do Nome-do-Pai como instituidor do Símbolo, do Não-do-Pai, desde que não seja perversificado pela dupla aposição da Virtude e do Prazer no lugar do Gozo (isto seria, respectivamente, o psicótico sujeito sem-nome e o sadiano desejo anônimo). Por isto, este nome paterno promete somente a sua diferença, seu nome equivoca para não recair em logro patológico, e isto é feito em nome de sua própria e feminina Lei, a Lei de Lacan instaurando o feminino de Freud, daí nos dizer na página 132 de seu texto Viena ou do lugar de Nascimento, Nata Minor:
«o feminino do Pai (Lei Paterna) é o Feminina de Freud (identificação edípica e viril), trata-se de um feminino como arco botante e traço de alguma revolta secular, de alguma certeza secreta parricida, que vem em suplência à morte inaceitada, inaceitável. O Feminino, não a homossexualidade (psicótica obrigação feminina), a imortalidade (joyceana), mas não a megalomania, o Real (impossível), mas não a realidade» (consistência imaginária).
Isto se explica pelo fato de que, como efeito narcísico da Bejahung, o Nome-do-Pai (Simbólico) implodiu, na diferença opositiva entre esta e a VERWERFUNG, [A] Mulher, para que esta jamais viesse a consolidar a foraclusão da função paterna, e a transformou em mulheres, não-todas, e uma das mulheres "espelho velasqueano" dos estilhaços cujo espectro pictórico compõe o desenho neutro do objeto a na Castração. Figuração das mulheres, outrora damas.
Concluindo, diríamos que a deformação, anamorfose, imagética e pictórica inaugurada pela ótica da junção do espelho em As Meninas de Velásquez, assim lida por Lacan por diferença da interpretação foucaultiana, estará também presente nas pinturas de Bosch e Brüegel, e, sobretudo e intencionalmente, na reversão do figurativismo presente no cubismo de Pablo Picasso, o que levou pan-maneiristas com Spypher e Curtius a ver a arte pictórica moderna como neo-maneirista. Esta anamorfose se distingue, entretanto, da escopia barroca, de sua alegoria de fundo reformista (Dürer), dita "ato de ver", "agalma", representação da morte na "regulação da alma pela escopia corporal" (cE. Bernini/Encore). Resta ainda ser lembrado que remonta ao medievo duas outras implicações do amor, comentadas por Lacan nos Seminário III e XX (As Psicoses e Encore). Elas são típicas de uma modalidade de amor oriunda do ático pré-socrático. Estarão presentes no "daimon heraclítico" e no "daimon superior" platônico, nelas o sujeito que ama é levado para "fora de si". Esta modalidade é reconsiderada no medievo e ali articulava possessão, paixão, teor demoníaco e passionalidade. Basculava entre o teor demoníaco (já cristianizado) e a evangélica devoção num mesmo e antitético campo semântico. Assim, quando fálica, a possessão era tida como "bruxaria", e como tal condenada ao extermínio pela Inquisição, sendo, também, vista como histeria e/ou "loucura" e eqüivalia, no discurso dos alienistas, quando ainda não eram "psiquiatras" à "loucura" enquanto expressão de presença "endemoniada". Por esta razão, pouco depois, em 1981, no século XVII, a histeria era tida como "passionalidade uterina", daí seu sentido etimológico, isto por SYDENHAM, e, no século XX, BRIQUET ainda insistirá neste equívoco que foi combatido por CHARCOT, BREUER e FREUD, mas ali a passionalidade uterina produzia a catarse histérica como um "estar fora de si". E, embora o êxtase barroco, a representação da morte pela "regulação da escopia corporal" se consagrasse, vide Santa Tereza de Ávila e San Juan de la Cruz, ao culto da "ejaculação mística", alucinação verbal e pictórica não-psicótica, era confundido com a "santidade" e também rido como um "estar fora de si". Por isto, nem sempre este culto à estesia apresentou, em liame social, tão nítida diferença, já que suas modalidades chegavam, constantemente, a ser confundidas entre si. E isto ocorreu a tal ponto que Joana D'Arc as acumulou: foi "bruxa" ex-comungada para os ingleses e "mártir" santificada para os franceses.
Logo, o Amor-Cortês terá dupla inscrição conceitual, será ora a impossível fala sublimatória do Amor em Ovídio, redita no culto medieval à [A] Mulher, ou seja, "miro do Amor", ora a predestinada referência ao "elogio da heterossexualidade" escrito pelo romance de cavalaria e por Don Juan, que não é um discurso das mulheres, mas pelas mulheres.
NOTA: Para não dizer que não se falou de Heterossexualidade
Conforme Jacques Lacan em Le non-dupes errant (1973/1974) o amar poderá operar a contingente formalização do Simbólico e dar lugar ao Amor de Transferência, o freudiano amor pela verdade, e assim dará conta das relações ali existentes entre o Saber [JA], o Inconsciente e a Verdade (Sintoma). Mas, poderá, também, imaginarizar o amor e tal procedimento se diferencia do imaginário do Amor.
A imaginária idealização do Amor, dita literalmente por Lacan: "a forma imaginária quando tomada como modalidade de Amor é da ordem do que se supõe (imaginariamente) como tendo pertinência às relações entre amor, Gozo e morte. Assim, neste limite, poderemos ter a versão alegórico/melancólica do amor barroco, amor à representação da Coisa (das Ding, objeto para sempre perdido) e isto será sempre da ordem do Daimon Heraclítico e Platônico, "do ficar fora de si", da estesia barroca, em suma. Poderemos, também, ver ali a presença da abstinência sublimatória característica do Amor-Cortês provençal, onde [A] Mulher inexistente preside a conjugação da impossibilidade latina do amor preconizada por Ovídio, que ali verterá a também impossibilidade da relação sexual, limitando-a com a elegância, através do signo petrarquiano do "mito da amor". Ali, ama-se o próprio amor. Na Alegoria barroca tem-se a benjaminiana Fênix amorosa pela amada morta. Restará ainda, conforme o texto lacaneano anteriormente citado, a indicação de uma paixão que é sinonímia histérica do imaginário do amar. Este, estará presente na tradição bovárica do "morrer de amor" das heroínas romântico-realistas. Trata-se no "amor-paixão" das
relações entre angústia (Castração), desejo insatisfeito (modalização do Gozo), Inconsciente e Desejo de Saber. Trata-se, portanto, da suposição imaginária do Amor como versão fálica das histéricas e passionais relações, no também ficar "fora de si", existentes entre o Desejo de Potência e a "decepção fálica". Logo, não se deve esquecer a necessidade de inclusão, a partir de outros textos lacaneanos, a saber: A Ética da Psicanálise, O Desejo e sua Interpretação e A Transferência, do amor trágico de Antígona, índice da ética da Psicanálise. Este, por se referir também ao Saber, ao Inconsciente e ao Gozo, será relativo ao meio Simbólico do Amor. Contudo, não se pode dizer que a heterossexualidade edípica (cf. exposta no Seminário A Relação de Objeto), que Don Juan de Marco (também exposto no mesmo Seminário) e que o Amor-Cortês de matriz celta, não tragam o signo da heterossexualização do Amor. Como tal serão pertinentes, além do já citado Seminário A Relação de Objeto, o L'Etourdir e o Seminário O Sintoma e jamais poderão indicar o demonstrativo, seja da imaginarização do Amor, seja do imaginário do Amor. Na leitura da narrativa Ibérico-Peninsular denominada de O Amadis de Gaula este reducionismo só seria possível se dali fosse apartada sua questão fundamental e crucial: "a recomposição da paternidade". Esta é um traço comum entre as tradições culturais galega e gaélica, é um traço comum à epifania joyceana. Aliás, o "lamentável" é que trabalhos teóricos que assim procedem evoquem justamente o Seminário Le non-dupes errant (1973/1974)...
Tudo isto porque a teoria lacaneana do Amor não se resume a estes Seminários anteriormente citados. Ela deve, também, ser buscada em A Relação de Objeto, em A Ética da Psicanálise, em L'Etourdit em O Desejo e sua Interpretação, em RSI e em A Transferência. Assim poderíamos evitar este mal-entendido. O que não se entende é porque banir a heterossexualidade do Amor quando o heterossexual é por excelência o que ama as mulheres...
Se o Amor é que vem em suplência à inexistência da relação sexual, esta é suprida ora pela Verdade (Sublimação), ora pela Suposição de Saber (Transferência), ora pela representação do objeto impossível enquanto morto (alegoria barroca), ora pelo "não abrir mão de seu próprio desejo" (tragédia ática), ora pela paixão (histeria), ora pelo amor pelas mulheres (heterossexualidade).
PRÓXIMO CAPÍTULO:Conclusão - O pensamento de Lacan, propriamente dito