JACQUES LACAN, A NOVIDADE PERENE

A CASTRAÇÃO

O INCONSCIENTE

A PATERNIDADE: CONDIÇÃO ERÓTICA DA SEXUALIDADES

LACAN E A CIÊNCIA MODERNA - (Parte I)

LACAN E A CIÊNCIA MODERNA - (Parte II)

O DESVIO DA LETRA, O REAL E A VERDADE

A LINGUAGEM, A ARTE MEDIEVAL E O REAL


Guardiões do saber


JACQUES LACAN
- o moderno e a desconstrução -


CONCLUSÃO

Antônio Sergio Mendonça


Seminário proferido no âmbito do Centro de Estudos Lacaneanos - CEL - Instituto Psicanalítico.

      1 - O Pensamento de Lacan, propriamente dito

       Kojéve, juntamente com Koyré, seu mestre, herda a leitura, porém crítica, da Fenomenologia Alemã Pós-hegeliana. Isto porque Koyré, também russo, foi, como Heidegger, leitor de Husserl. Dessa forma, Kojève critica todo um painel da Fenomenologia Alemã pós-hegeliana, que vai de Husserl a Heidegger e Biswanger, respondendo também às objeções implícitas e explícitas (no caso de Heidegger) que este pensamento faria ao de Hegel, mais precisamente do "jovem Hegel", aquele de A Fenomenologia do Espírito, uma vez que este autor já estava morto. Aliás, em seu seminário, lia traduzindo do alemão, quando substituiu Koyré, A Fenomenologia do Espírito, de Hegel, página a página, respondendo, implicitamente, às discordâncias, por acaso havidas, entre Hegel e a Fenomenologia Alemã que lhe foi posterior.

       Por isto se deve a ele, na tradição filosófica e científica, a vertente não-peripatética, nem pré-socrática do pensamento ático. Ela se liga, na origem, à Maiêutica Platônica (os dois citados pensamentos participam de modalizações diversas da estética da verdade) e também à Maiêutica Dialogal, tida na origem pré-kantiana (este pensador sim, um cristão, neo-aristotélico, adepto, como aquele, da estética da suspensão do juízo), da dialética e da questão da Ciência, conforme nos foi proposta no século XVII, a partir do também cristão, pensamento de Descartes.

       Porém, a dívida hegeliana se dá, sobretudo, em relação a Leibnitz e sua Mônada, origem da categoria hegeliana do Espírito Absoluto (Geist), por tê-la historicizado e dotado de dinâmica (kinésis).

       A partir daí, Kojève vai advogar uma íntima relação com o pensamento dialético, pelo fato de tê-lo também dotado de seu conceito de Verneinung (Denegação), de negatividade. Esta dialética baseia-se, então, no silogismo disjuntivo e na identidade dos contrários e tem, como projeto científico e neo-iluminista, o uso crítico da razão negativa na formação da História como Ciência Universal.

       Já a Verdade, para Platão, é da ordem do Eidos, da Idéia, constituindo-se numa figuração visível da virtude, o que lhe dava o sentido escópico de ver e, também, de significar antiteticamente, vide por exemplo, o "pharmakon", onde a significação de "veneno" eqüivalia à de "remédio". Quanto à figuração humana, esta postula-se em tempo posterior, por isso a verdade platônica era reminiscente e o humano, uma figura deformante assentada no Eidolon. Contudo, se Platão herdou de Heráclito o daimon e o disse superior porque não desfigurado, logo, ao nível da significação antitética, que, no seu Crátilo, remete ao Demiurgo, esteticamente o "belo" eqüivalia ao "bem" e vice-versa, o que não foi compreendido pelo famoso "triângulo da excelência de Vico". Assim, Hegel verá, antes de Freud, hiperdeterminação onde Platão via inexistência de dualismo, porém a hiperdeterminação estava submetida à Kinéses e vigia, no lugar da ambigüidade não-dualista "belo/bem". Logo, teremos na sua lógica disjuntiva, o racional «real como expressões do todo espiritual comum, o Geist, que se manifesta por negação, como razão crítica da História.»

       Hegel mantém a suposição platônica do Espírito/Idéia ser uma Figura, isto é, universal e concreto ao mesmo tempo, sendo que, para ele, funde-se universal e concreto, ambos são realistas, pois, para Platão, a Idéia é o real reminiscente e, para Hegel, o racional também o é.

       Assim, o pensamento de Lacan terá como fontes históricas, refutadas por Kojève ou por ele incorporadas, a Fenomenologia Alemã hegeliana e pós-hegeliana, o pensamento de Koyré (mestre de Kojève) que, então, acompanhou com Heidegger o ensino de Husserl, culminando na publicação das Idéias Diretivas para uma Fenomenologia. Isto dotou Kojève do conhecimento do pensamento de Heidegger, precisamente do Heidegger de O Ser e o Tempo, por sorte também freqüentado por Lacan no após-guerra, e do conhecimento do texto de Koyré sobre Galileu e Descartes (também fonte de Lacan).

       Koyré, por sua vez, foi incorporado ao pensamento francês ao ministrar seu seminário sobre A Religião em Hegel e, daí em diante, se percebe a influência cristã, por via protestante, colocada em Lutero, que distingue a figura de Deus da figura do pai, a partir das questões reformistas da santidade.

       Logo, o que há de Lacan em oposição ao Antigo, enquanto pensamento, é Descartes e Hegel, e será através Koyré que Kojève, que o substitui no seminário na França, mudando-lhe o tema, que este passa a ser uma "Introdução à Fenomenologia do Espírito" do "jovem Hegel". Assim, dissemina na França, direta e indiretamente, as obras de Husserl, Heidegger e Biswanger, onde literalmente incorpora à leitura de Hegel os argumentos que, provenientes desta Fenomenologia Alemã, que lhe foi posterior, que lhe foi antagônico, refutando-os, como verdadeiro porta-voz de um Hegel morto, de um outrora "jovem Hegel", naquela época (juventude) ainda não famoso e autor também da Lógica de Jena. Além disto, as críticas que Kojève faz a Hegel, após elogiá-lo por se afastar da antropologia naturista dos gregos e da suposição de oposição ao Organon aristotélico de parte de uma dialética naturista, também comum à physis e à História, são transmitidas à constituição do pensamento de Lacan.

       Tais incorporações se deram ao pensamento de Lacan por volta dos anos 30, mas será em 1938, quando Freud escreveu o seu Moisés e o Monoteismo, que ele terá à mão o texto que completará a sua teoria de Moderno, ou seja, o que há de judaico na fundação do pensamento cristão, por distinção abissal para com o pensamento peripatético antigo aristotélico. Isto porque Freud ali revela, do pensamento judeu, o que este pretendia ocultar para sempre, ou seja, esquecer a existência de Moisés egípcio, a fixar no Real um Deus judeu, futuro, onipresente, não mediatizável por palavras e figuras (imagens) e, por vezes, tirânico moralmente (vide Sodoma e Gomorra) que poderia, por isto, nos lembrar de Iknaton.

       Kojève, após a sua refutação da equivalência lógico-substancialista entre Hegel e Aristóreles, suposta pela teoria-do-ente, em Heidegger, lê o "jovem Hegel" como teleologicamente melancólico, mas também autor de uma Antropologia do Desejo em A Fenomenologia do Espírito, a saber, na Dialética do Senhor e do Servo.

       A partir desta leitura, Lacan vai ver em Hegel "uma sublime histérica" porque atribui a Verdade ao Desejo de Saber, falicizou o Saber e, ainda, a partir das considerações do "jovem Hegel" na sua estética, no volume sobre o romantismo (alemão) vai também preconizar, após o decadentismo humano e a impossibilidade de manter em vigor a equivalência entre sensível e inteligível, (razão/sensibilidade) a Morte e não, o Fim da Arte.

       Por razões análogas, principalmente quando Queneau publica seus seminários sobre uma Introdução à Fenomenologia do Espírito, pós-mortem (1947), o que é enfatizado no apêndice da 2a edição, de 1968, Kojève, diante da presença das mesmas (Morte e Fim da Arte), para Hegel, prenúncio do "triunfo da barbárie e da demagogia" sobre o Espírito, prevê, ao contrário de Fukuyama e por motivos diversos, a Morte e não o Fim da História. Este Hegel "jovem", lido e revisto por Kojève, é o da Antropologia do Desejo, é ele que Lacan chama de Mestre Moderno (adotando a categoria de Moderno de Kojève e Koyré). Neste curso de Kojève, Lacan co-habita com o surrealista Breton, com Queneau, Hyppolite, Merleau-Ponty, Corbin (tradutor de Husserl e Heidegger para o francês) e com Bataille, que chamará Kojève de "Soberano", onde "Mestre" é diferente de "filósofo", um é autor e o outro seguidor (amigo/filia) do Saber - Sartre e Beauvoir vangloriam-se de não terem feiro o curso de Kojève... qualquer semelhança com Sartre ter-se tornado o ícone da "rejeição fascinada" do lacanismo na revista L'Esprit náo é mera coincidência... No encanto, Sartre participou da revista Tempos Modernos e esse tírulo problemiza-se, para Lacan, por ser uma revista de inspiração cristã. Não por este fato, mas pela presença de Sartre, porque a categoria de Moderno que ele infere de Kojève e Koyré, nesta ordem, significava a ruptura entre o pensamento antigo, dito peripatético, cujo último estertor é Aristóteles, seu Organon, sua physis e sua apropriação na Idade Média e o Mundo Cristão visto como o que rompeu com esta tradição antiga, postulando-se, a partir do pensamento católico do século XVII (Descartes) e do pensamento de fonte luterana a partir do século XIX, na relação do "jovem Hegel" com a Reforma.

       Entre "les deux" haveria como signo instaurador do Renascimento, século XVI, de modernidade, a representação matemática da Física, operada por Galileu, corrigido por Kepler, ponto de refutação propagandística e radical do fisicalismo aristotélico. Aliás, tanto Galileu quanto Hegel são, em princípio, neo-platônicos.

       A esta herança conceitual de Koyré e Kojève, Lacan irá acrescentar outro dado: o Moderno é a diferença entre o Cristão e o Antigo pelo que de judaísmo funda o Cristão (pensamento cristão), judaísmo cujo horizonte é o Talmud e a distinção radical entre a impossibilidade do Deus e a não-vinda do Messias e a possibilidade de vinculação do mito grego do Pai Morto à condição de profeta ou patriarca. Contudo, Descartes, o "jovem Hegel" e o Talmud serão a matéria-prima do Moderno e, mesmo assim, em "estado bruto", já que são completamente diferenciados do pensamento antigo aristotélico.

       Assim, Lacan adicionará à herança de Koyré e Kojève a revisão destes quatro termos (Galileu, Descartes, "jovem Hegel", Talmud) componentes da Teoria do Moderno, procedendo como segue:

       a) - corrigirá a questão do Sujeito da Ciência trazida por Descartes, via Koyré, que irá lhe propor uma questão maiêutica (platônica): ver a dúvida onde se esperava certeza e o efeito disto é o Je (Sujeito do Inconsciente freudiano, Sujeito da Ciência), pois, para Lacan, só se é onde não se está, e nisto segue Freud de O Ego e o Id, pois ali se disse: "onde for suposto o Id (Eros), lá estará (por miragem) o ego";

       b) - em relação a Hegel, ao "jovem Hegel", vai lê-lo como a "mais sublime das histéricas", a partir da conversão de A Fenomenologia do Espírito hegeliana em Antropologia do Desejo kojèveana (ficando Kojève como o "Soberano", no dizer de Bataille, no lugar designativo da mestria moderna (Dialética do Senhor e do Servo) por oposição ao Amo Clássico, discurso do Amo e do Escravo);

       c) - em relação a Galileu, exclusivamente lido por Koyré e assim adotado por Lacan, vai relativizá-lo do ponto de vista da Ciência, malgrado ter aprendido com este físico do ideal renascentista que o real era impossível. Matemizar a Física, tudo bem, faze-lo a partir da Kinésir (movimento) lei da inércia, vá lá, mas, a partir do último seminário A Topologia e o Tempo (1978, que estabelece com J.A. Miller e Alain Didier-Wiell), Lacan demonstra ser impossível a representação topológica (espacial) do Real, mesmo que os efeitos deste sejam matemizados (conceitualizados), isto porque, da consistência Imaginária só há representação topológica horizontal, o que prova que o retilíneo aristotélico correspondia ao imaginário do senso-comum; já que, dos matemas, simplificações conceituais, só se pode fazer representações espaciais e topológicas de natureza vertical, por serem simbólicas, ficando o tempo como o ponto de interseção entre as representações horizontais e verticais, a apontar em sua atemporalidade Inconsciente para o impossível de se mediatizar o Real. Mas o Real é, por esta razão, irrepresentável, inclusive topológica e espacialmente, pois é da ordem da não-iniciação, do impossível, da supremacia do Falo, enquanto os conceitos Simbólicos são contingentes (verticais) e a realidade Imaginária e consistente (horizontal) e, daí, são representáveis por suplência e especularidade, respectivamente.

       Lacan chega a esta conclusão apoiado em Wittgenstein, na não-existência da metalinguagem e afirma, com este lógico, o caráter não-todo da Verdade, a impossibilidade de dito (calar), bem como se apoia em Glotob Frege para afirmar a diferença relativa à série lógica entre o (zero) 0/1 (um), sendo o primeiro o que designa o impossível de representar e o outro, o que faz a cadeia significante na representação;

       d) - já em relação à cultura judaica, Lacan irá abonar integralmente, para tê-la como fundamento de sua concepção de cultura cristã, o Freud de Moisés e o Monoteismo (1938), porque este, ao fazer uma leitura heterodoxa do Talmud revelou o fundamento recalcado da mentalidade judaica, ou seja, a existência proposta, no nível de romance histórico, isto é, como lenda, por ele e por Thomas Mann, do Moisés egípcio, suposição posteriormente abonada cientificamente pelo antropólogo das religiões, Max Weber. Ali, distinguindo-se Deus imortal, fundador do monoteísmo, impossível de ser nomeado no texto freudiano - o faraó Iknaton, Osíris - de seu porta-voz, o Moisés egípcio, dito a partir de um pai impossível, impossível de encarnar o mito do Pai Morto, assassinado, pois foi como Moisés egípcio e não, como hebreu, que ele, porta-voz do Pai, foi assassinado pelas tribos semitas que libertou da escravidão, ao lhes tentar impor a severidade foraclusiva do Desejo. Este é o sentido do Moderno, para Lacan. Por isto, ele fala de um Mestre Moderno distinto de um Amo Clássico. A partir deste fundamento que absorve desde os anos 30, anterior à sua tese de doutoramento (1932, A Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade) concomitante à sua leitura de Freud, Lacan irá propor abdutivamente a constituição de seu pensamento. Logo, nos anos 50 e 60, irá incorporar a lingüística de forma abdutiva para tornar, posteriormente, a Psicanálise, uma anti-lingüística, como já vimos. Por motivos análogos à anti-pedagogia de Freud, distinguindo a acepção de Inconsciente para a filosofia e para a Psicanálise, Lacan irá apropriar-se, abdutivamente, como acabamos de ver, da tradição da filosofia, distinguindo-a da histeria e da Mestria, vai dizer que a Psicanálise é uma anti-filosofia. Na primeira assertiva, ser uma anti-lingüística, Lacan estava imerso no campo freudiano, mas, na segunda assertiva, já propõe, desde os anos 70, em O Seminário O Avesso da Psicanálise, que tem um capítulo com este nome, "O Campo Lacaneano", como o Campo do Gozo e, posteriormente, ao superar Galileu e sua hipótese matêmica, que recebe tanto da fantasia histérica quanto da sintomática metapsicologia freudiana (a Ciência), Lacan recusará, em nome das relações entre topologia, consistência, tempo e conceito, a suposição de uma Ciência ser, qual Galileu concebia a Física, uma relação de movimento a provocar a matematização do Cosmos (Universo). Assim, a Psicanálise tornou-se uma anti-matemática, por isto o pensamento final lacaneano propõe uma desconstrução dos Saberes que lhe informaram, assim como a Psicanálise freudiana já propusera a dissolução da cultura e foi por esta razão que Freud foi tido como pessimista.

       Nota: Hegel, em A Fenomenologia do Espírito, utilizou-se do termo Dialética do Senhor e do Servo (acepção medieval baseada em Lutero, inspirada em Calvino e retomada por Brecht em o Senhor Puntila e seu criado Matti), que se opunha à aristotélica Dialética do Amo (Mestre) Clássico.

       II- Teoria do Moderno em Lacan

       A primeira característica da teoria lacaneana da Ciência, segundo Jean-Claude Milner, refere-se à possível conexão entre Ciência e Psicanálise. Sendo a primeira essencial, mas jamais encarada como um ideal para a Psicanálise. Ou seja, a Psicanálise, por propor um Saber Inconsciente, é afetada, tanto na obra e na sintomática de Freud, quanto no traço matêmico-freudiano presente na obra de Lacan, pela questão, originariamente histérica, da Ciência. Contudo, isto não quer dizer duas coisas:

       1 - que, em seu nome, se abone uma Ciência do Absoluto conforme a tradição hegeliana-marxista da História;

       2 - que tenha como objetivo único e idealizado o Saber científico, tomado como mathesis universallis. Para tanto, foram escolhidas duas categorias das quais os historiadores da Ciência habitualmente se servem: sucessão e corte. Será, também, para se manter neste rumo que o autor tomará como base Koyré, este, sob a leitura de Kojève, seu discípulo, embora seja, paradoxalmente, Koyré que particularizará Kojève, como já se disse.

       A seguir nos é apresentada a relação entre os mais importantes axiomas e teoremas, ao modo dos geômetras, conforme a associação pretendida pelo autor, de acordo com o que se refere o presente texto:

       Teoremas de Kojève:

       - "há entre o mundo antigo e o universo moderno um corte";

       - "este corte vem do cristianismo"

       Teoremas de Koyré:

       - "entre a episteme e a ciência moderna existe um corte";

       - "a ciência moderna é a ciência galileana, cujo modelo é a física matematizada";

       - "matematizando seu objeto, a ciência galileana o despoja de suas qualidades sensíveis"

       Hipóteses de Lacan:

       - "os teoremas de Koyré são um caso particular dos teoremas de Kojève"

       Lemas de Lacan:

       a) "a ciência moderna constitui-se pelo cristianismo na medida em que ele se distingue do mundo antigo";

       b) já que o ponto de distinção entre o cristianismo e o mundo antigo provém do judaísmo, a ciência moderna se constitui pelo que há de judaico no cristianismo";

       c) "tudo o que é moderno é sincrônico à ciência galileana e só existe de moderno o que é sincrônico à ciência galileana" (cf. Jean-Claude Milner - A Obra Clara: Lacan, a Ciência e a Filosofia - RJ, Jorge Zahar Editor, 1996).

       Jean-Claude Milner, ao citar "A Instância da Letra no Inconsciente" e "A Ciência e a Verdade" (Escritos, 1966), tem a intenção de observar que a hipótese do Sujeito da Ciência, lá formulada por Lacan, passa pelo Cogito cartesiano e, em última análise, pela tese de que Descartes é o primeiro filósofo moderno por ter propiciado, pelo ordenamento de sua obra, aquilo que o nascimento da ciência moderna requer do pensamento, proposição esta que foi do interesse de Hegel e, por isto, apresentada por ele várias vezes. O cartesianismo ancora-se no Cogito, sendo dai inferido que o pensamento da ciência necessita daquilo de que o Cogito é testemunho. O citado autor, a partir disto, conclui que o traço cartesiano de Lacan se baseia no seguinte (já que, via Koyré, corrige Descartes em direção a Freud): o psicanalítico sujeito da Ciência apõe a platônica dúvida maiêutica onde havia a cartesiana certeza. Por isso, podemos dizer: "se Descartes é o primeiro filósofo moderno, o é pelo Cogito"; "Descartes cria o sujeito moderno"; "Descartes cria o Sujeito da Ciência"; "o sujeito freudiano, na medida em que a Psicanálise é intrinsicamente moderna, não poderia ser outra coisa senão o sujeito cartesiano (corrigido por Koyré)". O autor vê nisto uma relação de ordem discursiva cujo argumento se sustenta no fato de a física matematizada eliminar todas as qualidades sensíveis dos existentes, tanto que uma teoria do sujeito que pretenda responder a tal sujeito da ciência constituído segundo esta determinação, que é característica da ciência, não serão levadas em consideração, ou melhor, não serão levadas em conta as qualidades individuais e/ou empíricas, sejam as da ordem das propriedades de uma "bela alma" e nem tampouco as formais do sujeito transcedental kantiano, ou seja, se está formulando, na filosofia, o acéfalo sujeita de uma razão acéfala e se está a um passo da acéfalo (Je) do sujeito, a juízo de Lacan, do inconsciente freudiano.

       O Cogito faz emergir esse existente, cujo próprio pensamento é o mínimo múltiplo comum do todo pensamento possível, isto é, aquele que pode levar-me a concluir que existo, isto é, sobredetermina-se a esta acefalia um minimalismo lógico. Este existente chamado de Sujeito ($) por Lacan, corresponde ao gesto (atitude) da ciência moderna. Por isto, Lacan encerrou o Cogito em sua primeira enunciação e o fechou em si mesmo, ficando a conclusão "logo existo" apenas como o puro enunciado da premissa penso" e, desta forma, deixou assegurada a inexistência do pensamento sem qualidades, antes que a certeza cartesiana se estabelecesse para sempre ali e por isto lhe (é) aposta a dúvida maiêutica.

       Por esta razão, Lacan irá demonstrar que, esse pensamento sem qualidades, próprio da ciência moderna, é o mesmo que se apresenta necessariamente na fundação do Inconsciente freudiano. Isso podendo ser constatado (Traumdeutung) no fato de que existe pensamento no sonho, no chiste, nos tropeços da vida cotidiana. Aliás, Lacan associa, por diferença à Alienação (fato significante do $), o Cogito ao pensamento (como em Freud) e, este, ao Inconsciente. Haverá, ali, também, um Saber imagético que se articula, enquanto referência, ao sujeito (Je) e à Fantasia (Inconsciente): ($ <> D), equivalente à acefalia pulsional.

       Pode-se, conforme o mesmo autor, concluir, a partir do engano da tradição filosófica sobre o pensamento, se constituir da "consciência de si", isto é, pela via da proposição negativa: de que a "consciência de si" não é propriedade constitutiva do pensamento, ela se impõe, rapidamente, no Inconsciente; e, daí, se tem o teorema: "se existe pensamento no sonho, existe um Inconsciente"; e, ao mesmo tempo, obtém-se o lema: "o sonho é a via Real do Inconsciente"; e, por fim, se tem, dos dois últimos, a definição: "afirmar que existe Inconsciente eqüivale a afirmar: "isso pensa".

       Tal assertiva acima articula-se indubitavelmente ao freudiano: "Wo Es ÷ ar soll Ich werden", isto é, "onde estava suposto o Id, lá estará o Ego", ou então, "onde Isso está, se goza" (em versáo livre).

       Fica claro que Lacan acrescenta tal conclusão somente à proposição retirada de Descartes e estendida a Freud: "se existe pensar, existe algum sujeito". Para que o raciocínio seja verdadeiro é necessário existir sujeito, sabendo-se que não existe nem "consciência", nem "si", ainda que o pensamento constituinte do sonho e do tropeço seja em qualidade.

       Para Lacan, o Inconsciente de Freud não é estranho ao pensar, portanto, não é estranho ao sujeito de um pensar: se o fosse, a Psicanálise seria ilegítima e impossível como prática. Um Inconsciente estranho ao sujeito que pensa é o somático mas o somático não lida com a Verdade, nem com a palavra; sabe-se que a Psicanálise lida com a Verdade (Sintoma, S1) e com a palavra (Inconsciente, letra). O Inconsciente, enquanto a Psicanálise lida com ele, não é estranho ao sujeito, nem ao pensamento. Por outro lado, nem o sujeito, nem o pensamento requerem a consciência.

       Para finalizar as colocações do presente capítulo, apresenta-se a distinção entre o sujeito cartesiano e o sujeito freudiano. Enquanto para Descartes, o sujeito tem "consciência de si" como propriedade constitutiva, para a Psicanálise freudiana, a "consciência de si" torna-se somente uma marca da individualidade empírica, egóica, introduzida no sujeito pela tradição filosófica, algo pertinente ao Ego, à especularidade do semelhante. Para o autor, a compreensão que a Psicanálise tem do axioma do sujeito se mostra pela separação que ela provoca: 1) de um lado, a "consciência de si" pode, sem contradição, ser apenas suposta e não ser essencial; 2) de outro lado, a "consciência de si" não pode, sem contradição, ser suposta e não ser essencial, daí o nome de Ego me ser conveniente, tanto um como outro. A primeira colocação, só ela responde às exigências da ciência e se encontra nos limites fixados pelo axioma do sujeito, constituindo-se, pois, no legitimado sujeito da ciência.

       O balanço final realizado no presente texto estabelece: 1) a teoria da ciência adotada por Lacan é derivada de Koyré e Kojève; 2) a interpretação unitária de um Descartes erudito e metafísico baseia-se em Koyré; 3) a interpretação do Cogito é dependente de Gueroult, leitor de Descartes; 4) o axioma do sujeito e retomado, em homonímia ou sinonímia , da tradição pós-kantiana; 5) a hipótese do sujeito da ciência, a equação dos sujeitos, a interpretação de Freud que ela implica e a articulação dos conjuntos lógicos, são específicos de Lacan. E, finalmente, o mesmo balanço aponta para o título do capítulo que envolve a "Teoria do Moderno", a fim de designar o conjunto de proposições sobre a ciência e sobre o sujeito, querendo dizer que Lacan não faz uma teoria da ciência, nem uma epistemologia, mas uma "doutrina da ciência", obtida pela desconstrução abdutiva dos saberes que informaram a sua constituição.

       III. A Ciência e a Verdade no Lacan do Simbólico

       Lacan inicia sua aula inaugural na École Normale Superiéure (1965/66) ao questionar sobre a possibilidade de ter sido, no ano anterior, fundamentado o status do sujeito na Psicanálise. Relembra, ainda, que foi estabelecida uma estrutura que dava conta do chamado "estatuto da divisão" ou Spaltung do sujeito. Esta Spaltung era situada na práxis analítica como a lugar privilegiado do sujeito e era, também, manifestada e constantemente reconhecida no cotidiano do analista, pois sua movimentação vem do reconhecimento do Inconsciente e do que Freud denominou "psicopatologia da vida cotidiana", ou seja, do Inconsciente como formação.

       Mas, para que o analista pudesse saber o que acontecia em sua práxis, não lhe bastava o fato de a Spaltung ser também de natureza corrente, materializada e nem que isto se tenha constituído em paradoxo. Era preciso, então, que se efetivasse uma redução demorada e decisiva que constituía o "objeto" de uma Ciência em seu nascimento. Para Lacan, a epistemologia deveria ter dado conta disso, mas falhou nesse sentido ao não eleger a "mutação decisiva que, por intermédio da física, fundou a Ciência no sentido moderno", que foi a física de Galileu.

       A Ciência moderna assumiu, pois, essa posição de destaque, observa Lacan, devido a uma mudança radical de estilo no tempo de seu progresso e na forma rápida de sua expansão no mundo. Por esse motivo, Lacan propõe que se faça uma necessária modificação na posição do sujeito como inaugural na ciência, no sentido de que a ciência reforce, cada vez mais, essa posição e, para tanto, tomará como guia o pensamento de Koyré, que singulariza, para tal, os teoremas de Kojève. É de Kojève que se infere sua leitura de Galileu e Descartes, é de Kojève que se infere sua leitura do "jovem Hegel" de Jena.

       Ao se dirigir mais atentamente àquilo que ele chama de "vocação de ciência" da Psicanálise, enfoca o fato de que, no ano anterior, ter sido tomado como fio condutor do referido tema, um determinado momento da sua constituição do sujeito. Havendo, ali, portanto, um momento do sujeito na História, que correspondia ao momento da ciência, tempo que nada mais era senão o da inauguração do Cogito cartesiano. Era o tempo em que o sujeito se constituía como acéfalo do pensamento, dito da ciência e, com isto, se tinha a pretensão de rechaçar todo saber e se fundar para o sujeito um certa ancoramento no ser lógico e, também, acéfalo da ciência. Este foi o procedimento que nos legou o século XVII, dito "século do talento", a partir do pensamento cristão de Descartes. Esse rumo que norteou o pensamento de Lacan culminou na revisão da Spaltung (divisão do sujeito freudiano), divisão que se dá, para ele, já agora, entre a Ciência e a Verdade, entre o Saber e a Verdade e que foi redita em 1977 como a Spaltung existente entre "esse hum/S1 e "esse dois/S2" (cf. Momento de Concluir, 1977), conquanto Freud a tivesse concebido entre Ideal-de-Ego e o Ego-Ideal.

       Assim, Lacan voltou-se para a reformulação da 2a tópica freudiana (Ego, Superego e Id) para introduzir uma retomada do sujeito tido numa divisão constitutiva e não (mais) com o estatuto garantido de expressão do aparelho psíquico. Isso nos levava ao princípio de realidade e a perder a discordância em Freud, qual seja: de que se, por uma justaposição de textos, (segundo técnica de leitura de Lacan) houvesse (fosse possível) uma noção de realidade, ela de um lado, incluía a realidade psíquica e, de outro, uma realidade que fosse (fizesse) da realidade psíquica o correlato ao sistema percepção/consciência, como Freud o supusera no Projeto. O princípio de realidade complementa, ali, Lacan, deverá ser lido exatamente como a experiência do sujeito da ciência o aprova, ou seja, como limitador do, também, princípio do prazer que, por isto, limitará o Gozo. A partir disso, a reflexão de Lacan se dirige para o fato inevitável de que não é possível se pensar "que a Psicanálise como prática, gue o Inconsciente, o de Freud, como descoberta, houvessem tido lugar antes do nascimento da ciência, no século do talento, o século XVII" (cf. Escritos, p.871). Portanto, se a fundação da Psicanálise e sua conseqüente ou simultânea descoberta do conceito de Inconsciente por Freud só puderam ocorrer ap6s o nascimento da ciência, isto foi motivado, não pelo pretenso rompimento de Freud com o cientificismo positivante de sua época, mas sim, pelo fato de o vínculo de Freud com esse chamado cientificismo que marcou o rumo de sua obra, ter-lhe sido essencial e não contingente, como alguns precisam pensar, isto lhe veio de herança da Fantasia Histérica, basta consultar o seu "sonho botânico" e foi tomado como Sintoma por Freud. Pode-se ousar dizer que, intrinsicamente à fiel ligação de Freud com este cientificismo, há o deparar-se com o fato, por via histérica, de que havia um sujeito da ciência, cuja relação com o Saber era do ordem do Cogito e que isto é logicamente correto. A prova pode ser encontrada no seu rompimento com Jung, que tinha como objetivo místico "restabelecer um sujeito dotado de profundezas", o que significava um sujeito constituído de uma relação natural e orgânica com o Saber, relação dita arquitípica, "cuja redução mística" não é compatível com o Saber que permite a Ciência Moderna: a Suposição de Saber.

       Ao centrar seu pensamento na relação entre Psicanálise (diga-se também o lugar do analista) e o sujeito da ciência, Lacan afirma que "o sujeito sobre quem operamos em Psicanálise só pode ser o sujeito da Ciência" e que isso tem implicações possivelmente paradoxais. Neste sentido, esclarece que qualquer tentativa ou até mesmo tentação de fazer com que a ênfase recaia sobre o Homem, arquétipo do Romantismo, é o mesmo que insistir que haja uma "ciência do homem", certamente que isso é uma recorrência ao erro, pois: "Não há ciência do homem, porque o homem da ciência não existe, mas apenas o sujeito da ciência" (cf. Escritos, p.873).

       Neste texto, Lacan eqüivale formalmente o equívoco pedagógico construtivista, dito "estruturalista genético" de Piaget, ao racismo mental de Lévy-Brühl. Com isto, ele parece nos querer advertir da incompatibilidade de Piaget com o pensamento estruturalista de Lévi-Strauss, que é um crítico de Lèvy-Brühl. Para Lévi-Strauss, há um paralelismo lógico entre o pensamento dito "selvagem" do poeta, do dito "primitivo", do "bricoleur" e o do "engenheiro", metáfora da ciência ocidental a partir de Leonardo da Vinci, a juízo de Koyré. Assim, não há superioridade lógica no "engenheiro" em relação ao "bricoleur", ou seja, do cientista em relação ao poeta, e sim, diversidade lógica. Lacan aqui aproxima esta distinção do paralelismo disjuntivo de Spinoza que a adotava e que dispunha sobre a relação entre "loucura e sanidade". O "louco" não era, neste autor, nem o "bricoleur" em Lévi-Strauss, tidos como "ilógicos" mas sim como possuidores de uma lógica paralela, disjuntiva, à suposição de "normalidade". O que é abonado pelas reflexões de Canguilhem sobre a insustentabilidade da distinção entre "normal" e "patológico". Contudo, se Piaget fala do pré-verbal e o verbal é, para ele, lógico-construtivo, ao pré-verbal só resta, malgradas as semânticas, o lugar equivalente ao que Lévy-Brühl prescrevia para o seu "pré-lógico". Até porque, se os considerarmos pré-lógico ou pré-verbal, os pensamentos místicos e magias, isto é para Lacan , neste mesmo texto, efeito da denegação quando esta universaliza, por ilusão, o juízo de existência freudiano. E remete, por equivalência à suposição psicótica do pré-edípico, prisioneiro que estaria da opção pela Verwerfung em detrimento da Bejahung narcísica instauradora da Lei do Pai.

       Bem diferente será o que sucede com a lingüística, que tem sua incidência sobre o sujeito falante (e não sobre o sujeito da ciência) e portanto, sua função será dar prioridade ao significante sobre a significação, adotando, para tal, uma estrutura de exclusão do sujeito. Daí se poder dizer que a linguagem comporta a possibilidade de se fazer nela (e/ou com ela) uma poética, que não terá nada a ver com o se fazer alguma referência ao espírito do poeta ou à sua encarnação.

       Lacan afirma que é com a lógica ligada ao sujeito e não com a ligada à gramática propriamente dita em sua formalização, que se dá a relação teórica que seria compatível com o sujeito da ciência. Ela é chamada Lógica Moderna, que é uma tentativa de "suturar" o sujeito da ciência, sendo que o teorema de Godel demonstraria claramente o seu fracasso. Lacan diz que se a Lógica Moderna fracassa ao tentar "suturar" o sujeito da ciência, este, o sujeito da ciência, continua sendo um correlato da ciência, mas um correlato antinômico, já que a ciência mostra-se definida pela impossibilidade do esforço de suturá-lo. Só haverá ciência se for produzido genealogicamente um campo de Saber (Gozo) que, face à remissão ao impossível (Real), não necessite suturá-lo pois a sutura é do significante que o representa e não, do sujeito. Por isso a compara textualmente à lógica do significante, que é adstrita ao Simbólico.

       Lacan chama a atenção para o fato de haver, em rodo o estruturalismo, uma relação com a chamada "ciência humana" e dela advir a suposição da possibilidade de ser nela introduzido um sujeito que, para ele, é tido como portador de determinada especialidade, exatamente por se tratar daquele que indica o signo de Moebius, cuja Lógica (topológica) e o "oito interior". Com isso, ele pretende salientar que o sujeito, nesta concepção, está em exclusão lógica, que é interna a seu objeto. E, com a intenção de exemplificar isto, vai voltar seu interesse para esse estruturalismo enquanto tomado em sua relação com a obra de Claude Lévi-Strauss. Nesse sentido, Lacan se atém na relação que ela se propõe apresentar entre os valores percetivos e uma matemática do significante, sendo esta última, exatamente a que é própria de toda a ciência atual. Sabendo-se que, em toda a ciência atual, o Saber é separado do sujeito e, portanto, ficando claro que a pretendida relação não pode ser demonstrada, pois é inviável o seu desenvolvimento. Só que esta separação, em Claude Lévi-Strauss, tem que se disfarçar na "exclusão do sujeito" e, em Lacan, face ao Je (sujeito do Inconsciente), ela se manifesta, inclusive e principalmente, face à inclusão do sujeito, efeito paradoxal de sua Spaltung. Ainda se referindo ao mesmo autor, Lacan explica que, após ele ter retirado a combinatória nas Estruturas Elementares de Parentesco, vai deixar o sujeito para sempre excluído logicamente, isto é, fora da tal combinatória, exatamente quando afirma ser possível a um "dado informante" (termo usado pelos etnólogos) poder sozinho traçar o gráfico lévi-straussiano, sendo que isso, para Lacan, que dizer o sujeito, aí, tem apenas uma existência do ponto de vista egóico, que é reconhecida logicamente por uma estrutura que remete ao modelo lógico e não, à empiria.

       Referindo-se ainda a Lévi-Strauss, precisamente sobre sua análise da gênese do Miro, nas suas Mitológicas, Lacan comentará que essa análise não fornece a natureza lógica do sujeito no e do Mito, pois é limitada pelo talento do "sujeito informante", que só pode deixar sua marca, ao mesmo tempo que puder reconhecer a sua existência de sujeito mitólogo (cf. Barthes), através dos instrumentos, isto é, rituais que o consagram como tal, ficando ele, assim, de fora da estrutura, justamente por aquilo que deveria ser o motivo de nela estar interiorizado, o que Lacan conclui fazendo incidir criticamente os princípios de Von Neumann sobre as assertivas de Claude Lévi-Strauss (cf Escritos, p.876).

       Lacan afirma, em seguida, que o objeto da gênese do Mico só é possível por se relacionar com o sujeito da ciência e que, para tanto, o seu "informante" deveria reduzir sua presença, nesta gênese, a um lugar análogo ao do sujeito da ciência. A partir disso, Lacan questiona se ainda há a possibilidade de ser sustentada a oposição entre ciências, exatas conjecturais (estas últimas não se constituem nas "ciências humanas", pelo contrário, para ele, são ciências apostas); tem-se que levar em conta que a conjectura, diz ele: "é passível de um cálculo exato (de probabilidade) e (...) que esta exatidão se baseia apenas no formalismo que separa axiomas e leis de agrupamentos de símbolos" (cf. Escritos, p.877).

       Por este motivo, parece a Lacan que, desde o surgimento da ciência moderna (século XVII) nos foi elucidado algo que diz respeito ao lugar de "objeto" da e na ciência e para que a questão, sobre a posição da Psicanálise diante da ciência possa ter uma solução, é preciso que seja modificada a própria questão do objeto na e da ciência.

       Quanto ao "objeto" na Psicanálise, ele está diretamente referido à função que o objeto a tem na própria Psicanálise do campo freudiano.

A ciência da Psicanálise seria, então, não só o reconhecimento da logicidade algébrica do objeto a, ou seja, do Saber sobre o objeto a, mas, também, de não haver Saber possível sobre o Gozo. Essa dúvida, diz Lacan, deve ser evitada porque o objeto a tem sua inserção apenas a partir da divisão do sujeito (Spaltung), pela qual este é estruturado, devendo qualquer análise partir da concepção de que a práxis analítica implica no sujeito da ciência e este, no reconhecimento da Castração: "não haver um Saber possível sobre o Gozo".

       A imagem que Lacan usa, qual seja: "abertura do sujeito na Psicanálise" é por ele evocada com a intenção de que ela contenha, de modo reduzido, aquilo que deve ser apreendido; o que o sujeito recebe, ali, da Verdade. A via a isso já foi esboçada por Freud no "Wo Es war, soll Ich werden", "onde estava suposto o Id, lá estará o Ego" e Lacan iniciou o seu traçado apontando que se deve observar que a Verdade e o Saber estão em lados opostos, distintos, a primeira remetendo, via metáfora, ao Sintoma, ao símbolo e, o segundo, via metonímia, ao Desejo, à Fantasia e ao Gozo-Real. A resolução desta dupla inscrição, "matemicamente" proposta, terá lugar ou não na sua topologia. Ao responder isto, Lacan dedicará seu último seminário: A Topologia e o Tempo (1978). A Conferência de Lacan em homenagem a Freud (1955) intitulada "A Coisa Freudiana", é também por ele abordada, neste texto, "A Ciência e Verdade" (Escritos, p.869), com o objetivo de uma vez mais mostrar que a via aberta por Freud não tem outro sentido senão o que em sua obra (a obra lacaneana) é retomado, qual seja: o de que o "Inconsciente é estruturado como uma linguagem". Esse sentido foi explicitado na referida conferência, quando Lacan fez uso da prosopopéia: "Eu a verdade, falo..." cujo esclarecimento foi fundamentalmente obtido da seguinte forma: "se, a verdade fala... é porque não há fala senão na linguagem". Ainda para elucidar essa questão, Lacan apresenta a pergunta formulada por Daniel Lagache dirigida à viabilidade do "verdadeiro do verdadeiro". E confrontando Verdade/Saber, mostra que a Verdade se funda no fato de que há fala e de que também não se dispõe de outro meio de faze-lo. E remete seus leitores à afirmação da não-existência da metalinguagem. Complementando, enfim, seu ensinamento: "O Inconsciente é estruturado como uma liraguagem", ele está dizendo o verdadeiro sobre Freud, pois se "a verdade fala"... é porque o Inconsciente a diz, e foi o legado freudiano que possibilitou que, no Inconsciente, a Verdade falasse, por ser não-toda. Esse lugar de impossibilidade do "verdadeiro do verdadeiro", que culminou na inexistência da metalinguagem, isto é, a constatação do Inconsciente freudiano, de que a Verdade é não-toda, aponta para o mesmo lugar de constituição do recalque originário (Verdrängung), ou seja, aquele constituído por um "desvio das necessidades do homem pelo fato dele falar", ou melhor dizendo, aquele advindo da Spaltung, que se forma entre a satisfação (Ananké) e demanda (Eros), é o Desejo que a diz como hiância (separação).

       Resta-nos, nesta conclusão, apresentar mais três temas destacados no texto de Lacan. Assim, inicialmente ficará demonstrada a indissociabilidade entre Inconsciente e Verdade, temas "suturados" pela Castração, ou seja, a Verdade juntamente com o Cogito (pensamento) estão no Inconsciente, onde o sujeito ($) se afanisa, por lá ser escrito de forma acéfala e pulsional como Je (sujeito da ciência).

       E isto refuta, como se verá, a suposição do "verdadeiro do verdadeiro", diz-nos, para tal, Lacan:

      "essa falta do "verdadeiro do verdadeiro", que exige todos os fracassos que a metalinguagem constitui no que ela tem de falsa aparência, é propriamente o lugar de Urverdrangung, do recalque originário, que atrai para si todos os outros - sem contar outros efeitos retóricos para cujo reconhecimento disposmos apenas do sujeito da ciência" (cf. Lacan, Jacques, Escritos, 1966, p.882, edição brasileira)

      Posteriormente, Lacan apoiará esta convicção em sua insistência radical entre esta Urverdrängung (recalque originário), a Verneinung (denegação) e a Verwerfung (foraclusão paterna). Eis o que nos dirá Jacques Lacan:

      "Quanto ao que ocorre com a ciência, não é de hoje que posso dizer o que me parece ser estrutura de suas relações com a verdade como causa (sintoma), já que nosso progresso neste ano deve contribuir para isto. Abordá-la-ei através da estranha observação de que a prodigiosa fecundidade de nossa ciência (a da Psicanálise) deve ser interrogada em sua relação com o aspecto que sustentaria a ciência, ou seja, de que, da verdade como causa, ela não quer saber nada [lugar de logicização do objeto a como semblante do Real no Discurso do Analista, a indicar o lugar de não-Saber como condição da suposição de saber]. Reconhece-se aí a formulação que dou da Verwerfung ou foraclusão [do Nome-do-Pai] - que viria juntar-se aqui à Verdrängung, recalque [originário] e à Verneinung, denegação. Sem dúvida, o que dissemos aqui das relações da Vrewerfung com a psicose, especialmente como foraclusão do Nome-do-Pai, vem aí opor-se, aparentemente, a essa tentativa de demarcação estrutural.

No entanto, percebemos que uma paranóia bem sucedida apareceria como encerramento da ciência, caso a Psicanálise fosse chamada a representar essa função e, quando, por outro lado, reconhecemos que a Psicanálise é essencialmente o que reintroduz na consideração científica o Nome-do-Pai, iremos reencontrar aó o mesmo impasse aparente, mas passaremos a ter a sensação de que a partir desse mesmo impasse progredimos, e de que poderemos ver destacar em algum lugar o quiasma
[figura de retórica comum ao classicismo e ao maneirismo, à falicidade e à anamorfose] que lhe pareceria criar obstáculos. (cf.idem,ibidem, p.883).

       E assim a freudiana consideração da Transferência como singularidade de acesso ao Inconsciente saber psicanalítico e sua "paranóia bem sucedida" colocam, para o sujeito da ciência em Psicanálise, em cena a Verdade em sua relações com a suposição de Saber, como causa formal deste discurso. Assim, Lacan ressalta:

      "Talvez o ponto atual em que se encontra o drama [atual] do nascimento da Psicanálise e a astúcia que nele se esconde (...) devam aqui ser levadas em consideração, pois não fui eu quem introduziu a fórmula da paranóia bem sucedida. De cerro me será preciso indicar que a incidência da verdade como causa da ciência deve ser reconhecida sob este aspecto de causa formal"(cf. idem, ibidem, p.883/890).

       Contudo, Lacan irá articular a suposição Transferencial de Saber à Verdade não-toda como causa formal e à existência da linguagem como pré-condição do Inconsciente, ou seja, tomará o significante como causa material desta causa formal. Eis Lacan:

      "Isso, porém , será para esclarecer que a Psicanálise, ao contrária, acentua seu aspecto de causa material. Assim se deve classificar sua originalidade na ciência. Essa causa material é propriamente, a forma de incidência do significante como ai o defino"(cf. idem, ibidem, p.890).

       E, finalmente, encontramos como letra, como suporte material da ação Simbólica e da motivação Real desta causa material - o significante sobre a causa formal da Verdade e a distinção, precisada por Lacan, entre a natureza do Falo e a impossibilidade de Real. Este será o limite da ciência psicanalítica para Lacan:

      "Concluirei, voltando ao ponto de onde parti, a divisão do sujeito. Lembraremos onde Freud o desata: na falta do pênis na mãe em que se revela a natureza do Falo. O sujeito divide-se ai, diz-nos Freud com respeito à realidade, ao mesmo tempo vendo abrir-se a fenda (abismo) contra o qual se protegerá de uma fobia (objeto fobígeno transformado pela fantasia sádica, em objeto-fetiche) e, por outro lado, cobrindo-o com a superfície em que erigirá o fetiche. De um lado extraímos o "pas-de" (nada de) do "pas-de-pénir" (falta de pênis) a ser posto(a) entre parênteses, para transferi-lo(a) (deslocá-lo(a)) para o "pas-de-savoir" (o não-Saber, o "não ter que saber") que não é senão "pas-hesitation" (a não-hesitação) presente na neurose". (cf. idem, ibidem, p.892).

       Portanto, para além do Lacan do Simbolismo, será a herança freudiana da Spaltung do Sujeito (S/) que provocará as disjunções básicas fundamentais, a saber: a) a existente entre o Discurso do Analista e o Discurso do Mestre, ou seja, entre Saber (S2) e Verdade (S1) sintomática; b) a existente entre Ciência e Real, isto é, entre Sintoma (metáfora, Verdade) e Gozo (Saber). Tais ocorrências tornam impossível a metalinguagem e a totalização da Verdade, bem como a "cientificização" do Real, seja por via matêmica, seja por via topológica.


ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universitária Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS).
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