01/02/2003
Número - 300


 
Helga Szmuk



DA MINHA SACADA

 

Introdução

Muitos dos meus amigos e meus filhos há tempo vinham insistindo para que eu escrevesse as minhas memórias. Resolvi atendê-los – por que não? Afinal, são todos muito queridos. Fi-lo bem devagar, aos poucos, procurando recuperar tantos fatos da minha louca e atribulada vida, o que não é muito fácil nos meus 80 anos. Mas logo após os primeiros capítulos pedi a eles que corrigissem meus erros de português. Só que ninguém se prontificou a fazer isto para mim. Até entendo, pois sei como isso é enfadonho.

Meus alunos de inglês ou amigos da astronomia muitas vezes me pedem para corrigir seus textos em inglês. É sofrimento puro! Prefiro mil vezes escrever o artigo todo de novo (que é uma criação) do que corrigir coisas completamente erradas. E o meu português é tão cheio de erros que alguém teria de fazer isso.

Meu grande amigo novo, o Bob Sharp, nunca me pediu para escrever minhas memórias. Depois que mandei umas páginas para ele dar uma lida, pois eu queria saber o que ele achava – é jornalista, escrever e analisar textos faz parte do seu dia-a-dia. Pois o Bob fez as correções em tempo recorde e se prontificou a fazer o resto.

Nós nos conhecemos em circunstâncias estranhas e ao mesmo tempo divertidas. Eu escrevi para um jornal, para a seção destinada aos leitores fazerem suas reclamações, a respeito do péssimo hábito de se fumar em locais públicos, como nos shopping centers. O Bob replicou no jornal, me chamou de intolerante! Claro, ele fuma. Logo se formaram dois grupos de leitores em defesa ora dele, ora minha. No final, quem ganhou com isso foi o jornal e, principalmente, nós dois! Divertimo-nos bastante e eu ganhei um grande amigo e – assim acho – a mesma coisa aconteceu com ele!

Ontem, 12 de novembro (de 2002), ele esteve na minha casa para levar algumas fotos e escritos para serem escaneados e anexados às minhas memórias, e eu senti que poderia mostrar-lhe minha gratidão mostrando meus filmes em vídeo da minha grande paixão, os eclipses solares, e assim compartilhar com meu novo amigo algumas momentos muito preciosos da minha vida.

Na conversa, contei-lhe mais alguns episódios e coincidências da minha vida, e o Bob achou que eu devia continuar a escrever sobre este eventos divertidos e às vezes tão emocionantes. Eu sei que isto vai lhe trazer mais trabalho, mas foi ele que insistiu!

Nosso encontro é um dessas acontecimentos felizes da vida. Se ele não tivesse escrito para o jornal em resposta ao que fiz publicar, talvez esse livro não tivesse saído dos planos. Ou talvez demorasse muito mais.

O fato é que saiu, e sinto-me muito feliz por isso. Feliz por relembrar tantos fatos, tantas aventuras, pessoas que estão aqui, pessoas que já se foram, tudo, daqui, da minha sacada.                   


I – Áustria de 1922 a 1938

Eu nasci em Viena no começo da Grande Depressão que abalou o mundo quase todo, mas eu não me lembro de ter sentido coisa alguma. Meu irmão disse para mim muitos anos mais tarde: a diferença entre nós dois é que você é filha de pais pobres e eu sou filho de pais ricos (ele nasceu em 1918, no fim da Primeira Guerra Mundial, em Trieste, que ainda pertencia à Áustria; eu nasci em 1922, na Áustria pequena, um regime socialista). Minha mãe era de uma família tradicional de Viena, amigos pessoais de Sigmund Freud, de Gustav Mahler, Korngold, Dr. Billroth, Hanna Arendt e muitas outras personalidades da arte, ciência e música. Gostar de boa música era quase obrigatório, que estava ao alcance de todos. Ópera de Viena, as filarmônicas, teatro e os festivais de Salzburg fizeram parte da minha vida e de quase todo mundo. Na nossa casa falava-se diversas línguas, à mesa sempre havia alguém que falava Inglês, italiano, ou francês.

Meu pai, um capitão da Marinha, detestava Viena e eu falava inglês com ele e alemão com minha mãe. Meu pai comparava Viena do pós-guerra a uma prostituta velha e vivida, cheia de maquiagem e falando das conquistas do passado. E era exatamente assim. Tudo era passado, um passado de glórias, de brilho, de luxo, de conquistas de esplendor.

II – Meu pai

Meu pai era filho de um advogado de uma cidadezinha no interior da Hungria. Ele me contava que nunca tinha visto o mar, e a Grande Curva do Danúbio foi a fonte de fantasia que lhe levou os pensamentos até o mar. Havia um banco na margem do Danúbio e nele ele se sentava, e olhando para a água imaginava que cada gota vai até o Mar Negro e vai se misturar com a água salgada. Nunca podia imaginar o que a vida iria lhe trazer, que iria levar 2.000 refugiados de um campo de concentração, quase meio século depois, pelo mesmo caminho, até à liberdade.

O pai dele planejou-lhe o futuro: estudar advocacia e herdar o seu escritório. Mas aconteceu que o sonho dele não virou realidade. Ele conheceu uma pessoa que construía telescópios, relógios e relógios de sol. Meu pai o ajudava e ficou fascinado com o conhecimento desse senhor e a paciência em ensinar a ele como fazer tudo aquilo.

Ele disse para o meu pai:
– Siga sua vontade, faça o que você gostaria de fazer, mesmo contra todos e contra tudo.

Ele arrumou uma bolsa de estudos para meu pai na Academia Náutica em Fiume.

Com 14 anos de idade ele saiu da casa para estudar e realizar o seu sonho. O pai não quis saber e disse que não queria mais ouvir falar dele. Meu pai lhe disse:
– Não vou mais te atrapalhar, mas me promete que quando eu for comandar meu primeiro navio, tu vais comigo.

Promessa feita, nunca mais escreveu para os pais e com 23 anos de idade meu pai recebeu o titulo de capitão (o mais jovem capitão do mundo). E o pai dele era passageiro na primeira viagem... Meu avô me contou muitas vezes essa história e tinha muito orgulho do filho dele. Foi aquele senhor, Konkoly, o mentor de tudo, e hoje o Observatório da Academia Húngara de Ciências leva o seu nome. O site dos astrônomos também se chama Konkoly. Eu aprendi: a vida é imprevisível e coisas insignificantes e pessoas sem nenhuma fama ou destaque podem mudar nossa vida e às vezes a história.

A propósito, lembro-me também de uma coisa engraçada. Quando meu pai entrou para a Academia, ele teve como colega naquele ano um rapaz chamado Horthy. Ele depois se tornou almirante da frota austro-húngara. Naquele tempo eles ainda tinham mar. Quando Horthy veio ao Brasil, quase na mesma época em que meu pai esteve nos visitando, assinou os documentos como almirante. Um funcionário de alto escalão da Imigração brasileira perguntou a ele:
– Como o senhor pode ser almirante num país sem mar?

Ele respondeu:
– Vocês não têm ministro da Justiça?

O funcionário fitou-o demoradamente nos olhos, ensaiou dizer alguma coisa, mas felizmente nada mais fez.

Essa foi a minha vida de contrastes: minha mãe, de Viena e meu pai, aventureiro.
 

III – Infância

Estudei balé na Ópera de Viena. Fiz o teste de admissão com cinco anos de idade e, para surpresa de todos, fui aceita! Estudei com pessoas famosas como Willy Fraenzel, Tony Birckmayer e Reinhard, que muito mais tarde precisou fugir do regime nazista, foi para Hollywood e ficou famoso com a encenação do Midsummer Nights Dream, de Shakespeare.

Meu pai viajava e muitas vezes me levava com ele a bordo. E foi nesse tempo que eu fui mais feliz. Nas noites escuras ele me mostrava as estrelas (a navegação era quase exclusivamente visual), eu aprendi a usar o sextante, mas sempre continuei meus estudos com um professor no navio. Na volta, precisava fazer o exame numa escola pública. Minha mãe, que achava que Viena era o centro do mundo, insistiu para eu voltar para Viena e continuar na ópera e na patinação no gelo etc. Assim, minha vida era cheia de contrastes, mas muito divertida.

Minha carreira como atriz foi muito curta! Um dia uma amiga minha, cuja mãe era uma atriz famosa e amiga da Magda Schneider (mãe da Romy Schneider), me convidou, junto com a filha dela, para assistir os festivais em Salzburg e trabalharmos como extras num filme com a Magda Schneider. Foi fantástico! Assisti os festivais, as Filarmônicas de Viena e ficamos algumas horas filmando. A ação era a bordo de um navio, num lago, e tínhamos que abanar com um lenço para dizer adeus. A cena foi repetida muitas vezes.

Quando finalmente o filme ficou pronto meus pais convidaram todos os amigos, parentes etc. para assistir ao filme e ver a Helga como atriz. Mas, que surpresa! Eles cortaram exatamente esta cena e nunca fui vista!! Isto aconteceu nos anos 30 e eu tinha esquecido do nome do filme. Pouco tempo atrás – e 68 anos mais tarde –, visitei a Áustria com meu filho, nora e neta e, em Salzburg, encontrei a minha amiga que havia “filmado” comigo. E, finalmente, ela me disse qual era o título do famoso filme: Drei Maedel Haus, Casa das Três Meninas.

 

(01 de fevereiro/2003)
CooJornal no 300
  


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br