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Helga Szmuk
DA MINHA SACADA
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Introdução
Muitos dos meus amigos e meus filhos há tempo vinham insistindo para que
eu escrevesse as minhas memórias. Resolvi atendê-los – por que não?
Afinal, são todos muito queridos. Fi-lo bem devagar, aos poucos,
procurando recuperar tantos fatos da minha louca e atribulada vida, o que
não é muito fácil nos meus 80 anos. Mas logo após os primeiros capítulos
pedi a eles que corrigissem meus erros de português. Só que ninguém se
prontificou a fazer isto para mim. Até entendo, pois sei como isso é
enfadonho.
Meus alunos de inglês ou amigos da astronomia muitas vezes me pedem para
corrigir seus textos em inglês. É sofrimento puro! Prefiro mil vezes
escrever o artigo todo de novo (que é uma criação) do que corrigir coisas
completamente erradas. E o meu português é tão cheio de erros que alguém
teria de fazer isso.
Meu grande amigo novo, o Bob Sharp, nunca me pediu para escrever minhas
memórias. Depois que mandei umas páginas para ele dar uma lida, pois eu
queria saber o que ele achava – é jornalista, escrever e analisar textos
faz parte do seu dia-a-dia. Pois o Bob fez as correções em tempo recorde e
se prontificou a fazer o resto.
Nós nos conhecemos em circunstâncias estranhas e ao mesmo tempo
divertidas. Eu escrevi para um jornal, para a seção destinada aos leitores
fazerem suas reclamações, a respeito do péssimo hábito de se fumar em
locais públicos, como nos shopping centers. O Bob replicou no jornal, me
chamou de intolerante! Claro, ele fuma. Logo se formaram dois grupos de
leitores em defesa ora dele, ora minha. No final, quem ganhou com isso foi
o jornal e, principalmente, nós dois! Divertimo-nos bastante e eu ganhei
um grande amigo e – assim acho – a mesma coisa aconteceu com ele!
Ontem, 12 de novembro (de 2002), ele esteve na minha casa para levar
algumas fotos e escritos para serem escaneados e anexados às minhas
memórias, e eu senti que poderia mostrar-lhe minha gratidão mostrando meus
filmes em vídeo da minha grande paixão, os eclipses solares, e assim
compartilhar com meu novo amigo algumas momentos muito preciosos da minha
vida.
Na conversa, contei-lhe mais alguns episódios e coincidências da minha
vida, e o Bob achou que eu devia continuar a escrever sobre este eventos
divertidos e às vezes tão emocionantes. Eu sei que isto vai lhe trazer
mais trabalho, mas foi ele que insistiu!
Nosso encontro é um dessas acontecimentos felizes da vida. Se ele não
tivesse escrito para o jornal em resposta ao que fiz publicar, talvez esse
livro não tivesse saído dos planos. Ou talvez demorasse muito mais.
O fato é que saiu, e sinto-me muito feliz por isso. Feliz por relembrar
tantos fatos, tantas aventuras, pessoas que estão aqui, pessoas que já se
foram, tudo, daqui, da minha sacada.
I – Áustria de 1922 a 1938
Eu nasci em Viena no começo da Grande Depressão que abalou o mundo quase
todo, mas eu não me lembro de ter sentido coisa alguma. Meu irmão disse
para mim muitos anos mais tarde: a diferença entre nós dois é que você é
filha de pais pobres e eu sou filho de pais ricos (ele nasceu em 1918, no
fim da Primeira Guerra Mundial, em Trieste, que ainda pertencia à Áustria;
eu nasci em 1922, na Áustria pequena, um regime socialista). Minha mãe era
de uma família tradicional de Viena, amigos pessoais de Sigmund Freud, de
Gustav Mahler, Korngold, Dr. Billroth, Hanna Arendt e muitas outras
personalidades da arte, ciência e música. Gostar de boa música era quase
obrigatório, que estava ao alcance de todos. Ópera de Viena, as
filarmônicas, teatro e os festivais de Salzburg fizeram parte da minha
vida e de quase todo mundo. Na nossa casa falava-se diversas línguas, à
mesa sempre havia alguém que falava Inglês, italiano, ou francês.
Meu pai, um capitão da Marinha, detestava Viena e eu falava inglês com ele
e alemão com minha mãe. Meu pai comparava Viena do pós-guerra a uma
prostituta velha e vivida, cheia de maquiagem e falando das conquistas do
passado. E era exatamente assim. Tudo era passado, um passado de glórias,
de brilho, de luxo, de conquistas de esplendor.
II – Meu pai
Meu pai era filho de um advogado de uma cidadezinha no interior da
Hungria. Ele me contava que nunca tinha visto o mar, e a Grande Curva do
Danúbio foi a fonte de fantasia que lhe levou os pensamentos até o mar.
Havia um banco na margem do Danúbio e nele ele se sentava, e olhando para
a água imaginava que cada gota vai até o Mar Negro e vai se misturar com a
água salgada. Nunca podia imaginar o que a vida iria lhe trazer, que iria
levar 2.000 refugiados de um campo de concentração, quase meio século
depois, pelo mesmo caminho, até à liberdade.
O pai dele planejou-lhe o futuro: estudar advocacia e herdar o seu
escritório. Mas aconteceu que o sonho dele não virou realidade. Ele
conheceu uma pessoa que construía telescópios, relógios e relógios de sol.
Meu pai o ajudava e ficou fascinado com o conhecimento desse senhor e a
paciência em ensinar a ele como fazer tudo aquilo.
Ele disse para o meu pai:
– Siga sua vontade, faça o que você gostaria de fazer, mesmo contra todos
e contra tudo.
Ele arrumou uma bolsa de estudos para meu pai na Academia Náutica em Fiume.
Com 14 anos de idade ele saiu da casa para estudar e realizar o seu sonho.
O pai não quis saber e disse que não queria mais ouvir falar dele. Meu pai
lhe disse:
– Não vou mais te atrapalhar, mas me promete que quando eu for comandar
meu primeiro navio, tu vais comigo.
Promessa feita, nunca mais escreveu para os pais e com 23 anos de idade
meu pai recebeu o titulo de capitão (o mais jovem capitão do mundo). E o
pai dele era passageiro na primeira viagem... Meu avô me contou muitas
vezes essa história e tinha muito orgulho do filho dele. Foi aquele
senhor, Konkoly, o mentor de tudo, e hoje o Observatório da Academia
Húngara de Ciências leva o seu nome. O site dos astrônomos também se chama
Konkoly. Eu aprendi: a vida é imprevisível e coisas insignificantes e
pessoas sem nenhuma fama ou destaque podem mudar nossa vida e às vezes a
história.
A propósito, lembro-me também de uma coisa engraçada. Quando meu pai
entrou para a Academia, ele teve como colega naquele ano um rapaz chamado
Horthy. Ele depois se tornou almirante da frota austro-húngara. Naquele
tempo eles ainda tinham mar. Quando Horthy veio ao Brasil, quase na mesma
época em que meu pai esteve nos visitando, assinou os documentos como
almirante. Um funcionário de alto escalão da Imigração brasileira
perguntou a ele:
– Como o senhor pode ser almirante num país sem mar?
Ele respondeu:
– Vocês não têm ministro da Justiça?
O funcionário fitou-o demoradamente nos olhos, ensaiou dizer alguma coisa,
mas felizmente nada mais fez.
Essa foi a minha vida de contrastes: minha mãe, de Viena e meu pai,
aventureiro.
III – Infância
Estudei balé na Ópera de Viena. Fiz o teste de admissão com cinco anos de
idade e, para surpresa de todos, fui aceita! Estudei com pessoas famosas
como Willy Fraenzel, Tony Birckmayer e Reinhard, que muito mais tarde
precisou fugir do regime nazista, foi para Hollywood e ficou famoso com a
encenação do Midsummer Nights Dream, de Shakespeare.
Meu pai viajava e muitas vezes me levava com ele a bordo. E foi nesse
tempo que eu fui mais feliz. Nas noites escuras ele me mostrava as
estrelas (a navegação era quase exclusivamente visual), eu aprendi a usar
o sextante, mas sempre continuei meus estudos com um professor no navio.
Na volta, precisava fazer o exame numa escola pública. Minha mãe, que
achava que Viena era o centro do mundo, insistiu para eu voltar para Viena
e continuar na ópera e na patinação no gelo etc. Assim, minha vida era
cheia de contrastes, mas muito divertida.
Minha carreira como atriz foi muito curta! Um dia uma amiga minha, cuja
mãe era uma atriz famosa e amiga da Magda Schneider (mãe da Romy
Schneider), me convidou, junto com a filha dela, para assistir os
festivais em Salzburg e trabalharmos como extras num filme com a Magda
Schneider. Foi fantástico! Assisti os festivais, as Filarmônicas de Viena
e ficamos algumas horas filmando. A ação era a bordo de um navio, num
lago, e tínhamos que abanar com um lenço para dizer adeus. A cena foi
repetida muitas vezes.
Quando finalmente o filme ficou pronto meus pais convidaram todos os
amigos, parentes etc. para assistir ao filme e ver a Helga como atriz.
Mas, que surpresa! Eles cortaram exatamente esta cena e nunca fui vista!!
Isto aconteceu nos anos 30 e eu tinha esquecido do nome do filme. Pouco
tempo atrás – e 68 anos mais tarde –, visitei a Áustria com meu filho,
nora e neta e, em Salzburg, encontrei a minha amiga que havia “filmado”
comigo. E, finalmente, ela me disse qual era o título do famoso filme:
Drei Maedel Haus, Casa das Três Meninas.
(01 de fevereiro/2003)
CooJornal
no 300