08/02/2003
Número - 301



 
Helga Szmuk



INFÂNCIA, REVOLUÇÃO E MORTE
CALMARIA

 


IV – Infância, revolução e morte

Nesta época a vida em Viena continuava como se nada tivesse acontecido, o império não existia mais, o governo era socialista, a vida era confortável, o governo cuidava de tudo ou quase tudo. Escola de graça para todos, seguro saúde também, teatros e música. Ninguém falava de um pintor de paredes que havia tomado posse na Alemanha. Ele estava muito longe!!

Um dia meu pai foi me buscar de carro na Ópera mas chegou duas horas depois, não tinha luz (lampiões) na cidade, os relógios nas torres pararam e a cidade estava cheia de barricadas. Mas chegamos em casa sãos e salvos. Uma revolução, os trabalhadores fizeram greve geral, mas o exército usou força e atirou nas casas populares. Esses apartamentos eram alugados para os trabalhadores com um aluguel barato. Eram bem confortáveis, com quarto, cozinha, banheiro, água potável na torneira, playground etc. Muitas das minhas colegas da classe moravam lá.

Em casa, falei com minha amiga que morava e ainda mora no mesmo prédio:
– Que maravilha! Não haverá aula amanhã, nem depois de amanhã, somente daqui a duas ou três semanas!

O chanceler Dolfuss foi assassinado, muitas de minhas colegas perderam o pai e as casas populares ficaram crivadas de balas.


V – Um casamento estranho

Eu era ainda muito jovem, sem experiência na vida. Pouco sabia eu quantas revoluções iria presenciar na minha existência! Sorte que a gente não saiba o futuro. Este episódio foi o começo do fim. Os trabalhadores, que pensaram estar vivendo num país social-democrático, viraram fascistas, direitistas. Que decepção, o governo atirar nos trabalhadores! Que barbaridade! Mas a vida continuou. Eu fiz mais uma viagem com meu pai, minha mãe chorou de novo por ficar sozinha, dizia que era vítima da profissão do meu pai. Mas ela se casou com ele sabendo tudo de antemão.

Muitos anos depois alguém me contou a história do casamento dos meus pais. Parece piada, se não fosse sério demais. Esta pessoa, que também é comandante de navio, me contou que quando meu pai chegou em Liverpool com um carregamento de gado, os animais, que haviam ficado doentes durante a longa viagem, vomitaram, e o mau cheiro tomou conta do navio. As autoridades não deixaram o navio entrar no porto e meu pai foi obrigado a lançar ferros 3 milhas fora. Ele pediu a este senhor, que também estava com seu navio ancorado, para tomar conta do navio dele porque ele estava indo a Viena para se casar e voltaria logo. Este velho marinheiro me contou que quando viu meus pais chegarem, soube que aquilo não ia dar certo. Minha mãe chegou com 25 malas cheias de vestidos de noite, sapatos de salto alto e... com o piano!! Um Boesendorfer, uma coisa preciosa. Ela imaginava que ia se casar com um comandante de navio de luxo, nunca de um barco cheio de animais vomitando. Minha mãe me contou que ela ligou para o pai dela e disse:
– Quero voltar, não vou agüentar.

Ela ficou quatro anos no navio! Hoje eu entendo melhor o rosto triste, de infelicidade, da minha mãe. O que para mim era o céu, para ela e muitas outras era o inferno. Mas isto é que faz a vida interessante e divertida.


VI – Os judeus na Áustria

Os judeus na Áustria nem sabiam que eram judeus. Sempre foram grandes patriotas, lutaram na guerra, perderam seus filhos e maridos defendendo a pátria! Meu avô materno era advogado do imperador e tinha livre acesso ao castelo (ele estava presente quando o filho dele, Rudolf, se suicidou). Ele também defendeu a Casa dos Habsburgos quando o outro filho do imperador desapareceu num navio com toda a tripulação. Na Áustria do meu tempo ninguém perguntava que religião ou credo você tinha. Nas escolas, o ensino de religião não era obrigatório e pouca gente assistia às aulas. Os judeus eram altos funcionários no governo, cientistas, músicos, artistas. Os judeus contribuíam para o progresso e para as artes (depois eles continuariam com essa contribuição nos Estados Unidos).

Mas agora vem o grande engano que eu aprenderia somente mais tarde. O sorriso e a “tolerância” com os judeus, era tudo falso. Cada judeu teve um ou mais amigos que se declararam anti-semitas. MAS VOCÊ É DIFERENTE! Isso nós chamamos depois “der Haus jude”, o judeu da casa. Na Hungria houve numerus clausus. Isto queria dizer que somente um pequeno número de judeus podia estudar. Até hoje não posso entender por que os judeus toleravam isso e não foram embora de vez. Eles eram antes de tudo húngaros, depois judeus. Muitos deles estudaram na Áustria, onde ninguém sabia qual a sua religião.

Meu marido Imre também era húngaro, estudou medicina fora do país e não voltou mais. Não quis mais saber dos compatriotas. Eu perguntei a muitos deles, depois que tudo passou, por que eles ficaram num país onde não eram bem vistos. A resposta era quase sempre a mesma: acabamos de comprar um apartamento, um carro, uma geladeira, um lustre antigo, etc. Nós chamamos isto política da geladeira. Eles pagaram com a vida por isso. A gente aprende sempre mais nos tempos difíceis. Eu aprendi a não “amar” coisas. Coisas não tem valor. Somente vidas humanas têm. Mas às vezes, o dinheiro.

Houve um ano em que nós quisemos alugar uma casa no Tirol, nos Alpes austríacos. Minha mãe escreveu para uma imobiliária recomendada e disse, entre as várias informações e condições recebidas, que éramos judeus. Isso para não termos surpresas desagradáveis ao chegar lá. A resposta do agente imobiliário foi: no verão não faz mal!! Claro, o dinheiro dos judeus no verão era muito importante... Desde aquele tempo, cada vez quando meu irmão o eu fazíamos alguma coisa errada, dizíamos, como num código só nosso, “No verão não faz mal”, ou seja, vale tudo...


VII – Calmaria

Depois disso veio a calmaria antes da tempestade. O novo chanceler foi eleito, o Dr. Schuschnigg, um homem culto, moderado, professor da Universidade de Viena. Além disso era casado com uma judia. Tudo parecia estar resolvido. Que grande engano! É estranho que as pessoas nunca queiram acreditar nas coisas ruins. Schuschnigg era um homem fraco, que gostava de dar a outra face, nunca acreditou que para manter a paz é preciso se preparar para a guerra! Grande verdade. Os ingleses também não estavam preparados e por isso ficaram vulneráveis. Muitos anos depois aprendemos com a bomba atômica sobre Hiroshima que somente com superioridade de armas pode-se evitar a guerra, infelizmente.

Alguns anos (poucos anos) nós vivemos outra vez na rotina, Escola, balé, amigos, concertos, teatro, Salzburg. Meu pai sempre nos contava histórias das viagens dele e nós, meu irmão e eu, ficávamos atentos e com vontade de viver assim como ele.
Nós passávamos as férias nos Alpes austríacos. Quando eu tinha três anos de idade, meus pais me deixaram sozinha brincando perto de um lago gelado. Eu jogava pedras na água e de repente caí dentro d’água. Mas neste momento Deus, ou Alá, ou Jeová, mudou os acontecimentos de muitas pessoas. Um rapaz de 18 anos, camponês, passava numa bicicleta e viu o que tinha acontecido. Ele não pensou duas vezes. Jogou-se na água e me salvou. Só depois meus pais perceberam o que havia se passado. Depois do susto, meu pai perguntou ao rapaz o que ele queria mais na vida (dinheiro não pode pagar o ato dele}. Ele não pensou muito e disse que gostaria muito de estudar em Viena e aprender uma profissão.

Meu pai tinha amigos na polícia (ele tinha uma fábrica em frente à secretaria da segurança pública, igual a mim, que hoje também moro em frente à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, muita coincidência!). Ele contou a história e pediu conselhos a eles, que imediatamente ofereceram uma bolsa de estudos para o rapaz aprender a decifrar e analisar as impressões digitais. Em poucos anos ele ficou famoso como especialista no assunto e a polícia de toda a Europa o consultava. Foi ele também que depois salvaria a vida do meu irmão das ameaças do nazismo.

Setenta anos depois viajei para o Texas, para uma star party, festival de estrelas em que astrônomos se reúnem principalmente para observar eclipses, num lugar deserto e afastado de tudo, no topo das montanhas Davis. Entrei num pequeno motel de beira da estrada e, ao me registrar, o dono, um senhor inglês, ao ver meus documentos me perguntou se eu havia nascido mesmo na Áustria, porque ele era da Inglaterra e tinha passado muitas férias na Áustria, nos Alpes. Ele me falou o nome da aldeia: Portschach am Worthersee!!!! Exatamente o lugar onde eu caí na água. Este senhor tinha mais ou menos a idade do meu irmão. Ele se lembra exatamente do que aconteceu. Meu irmão ligou para ele e eles descobriram que brincaram juntos no mesmo verão no topo de uma montanha nos Alpes.

 

(08 de fevereiro/2003)
CooJornal no 301
  


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br