15/02/2003
Número - 302


 
Helga Szmuk




APRENDIZADO
13 DE MARÇO DE 1938

 

VIII – Aprendizado

Em Viena a adoração pelas artes, teatro, música clássica fazia parte da vida de todo mundo. Era comum minha mãe ter discussões longas com nossa empregada a respeito de uma peça de teatro ou de um cantor de ópera. Ela também me acompanhou muitas vezes ao Ice Ring, o ringue de patinação no gelo onde todos as alunas de balé precisavam também treinar patinação artística. Muitas vezes nossa empregada me criticou por ter feito um movimento errado ou dado um passo fora do ritmo.

Lembro-me que certa vez houve uma apresentação e o chanceler estava assistindo-a. Eu era a mais jovem e no fim do balé em grupo todos nós formamos um número 25 (era o aniversário de alguma coisa). Eu deveria fazer uma pirueta e depois me abaixar de frente para o chanceler com a perna esticada para trás e a mão na frente, com um “cumprimento” profundo para o chanceler. Só que depois da pirueta eu perdi o rumo não sabia mais o que era frente ou trás, esquerda ou direita, e fiz exatamente o contrário. O cumprimento foi com a perna levantada atrás, quase no rosto do chanceler e meu rosto virado ao contrário. Foi um desastre, mas ele não ligou. Entendeu muito bem o que havia acontecido comigo e me deu um grande beijo e abraço.

Nós morávamos bem perto de onde Beethoven escreveu sua Nona Sinfonia. No caminho para a escola nós brincávamos, conversávamos dando risadas etc., mas sempre que passávamos na frente da casa de Beethoven, todos nós o fazíamos em silêncio, ninguém levantava a voz. Todos os anos assistíamos à missa de meia-noite na igreja de Santo Estéfano para ouvir as vozes dos meninos de Viena. Vozes angelicais, uma disciplina incrível, como era também o coro de balé na Ópera. O mestre de balé era um semideus! Mas ele era um grande mestre mesmo e merecia todo nosso respeito e admiração.

Também era obrigatório fazer estágio num circo, para conhecer todos os lados do palco e da arte de dança e representação. Foi uma época em que aprendi muito. Tenho a maior admiração pelas pessoas do circo. Disciplina, trabalho duro e perfeição! Eu tenho um certificado que guardo com muito orgulho, de quando vivi seis meses com esta gente maravilhosa, e tirei um diploma que me permite trabalhar em qualquer parte do mundo. Nós fomos não somente alunos da Ópera do Estado em Viena, fomos também empregados.

Muita gente fala hoje que tenho sorte de receber uma pensão vitalícia da Áustria, mas o que eles não sabem é que eu quase nunca brincava quando criança. Aprendi disciplina e pontualidade desde os cinco anos de idade. E a carreira é muito curta e a minha nem chegou a começar, pois precisei parar e fugir. Meu pai também teve laços com o circo: ele transportava o famoso Circo Hagenbeck, com leões e elefantes no navio. Eu também viajei uma vez junto com eles e mesmo na viagem todos faziam exercícios diariamente. O filho do Hagenbeck foi morto por um leão, uma tragédia.

Na escola, precisávamos estudar a vida de todos os compositores e o pior eram as óperas de Wagner, com os nomes complicados das sagas de Nibelungens, o que eu nunca consegui decorar. Até que um dia alguém da família do dono do nosso prédio morreu e ele nos mandou um aviso da morte com os nomes dos filhos e primos dele. Aqui estavam todos os heróis do Ring do Nibelungen: Astrid, Siegfried etc.. Nós nos divertimos bastante com isto.
 

IX – Elite

Minha mãe pertencia a uma elite, mas uma elite de intelectuais. Em Viena não existiam ainda os “novos ricos”. Ao contrário, o lema sempre foi: mostrar menos do que você tem, gastar menos do que podia, nunca usar jóias durante o dia. Mas houve uma outra espécie de snobismo. Minha mãe não gostava da minha amizade com a Ruth, que morava no mesmo prédio, simplesmente porque a mãe dela ouvia música popular no rádio. Música popular em Viena era Johann Strauss, Lanner etc. Uma amiga dela ficou noiva de um dentista e minha mãe ficou chocada como era possível ele pronunciar a palavra “hunger” (fome) com um sotaque de polonês. Eles se casaram e viverem juntos mais de 50 anos. Mas minha mãe era esquerdista, também era chique!! Meu avô, que sentava no mesmo banco da escola (pública) com Sigmund Freud, nos contou, com orgulho, que foi preso como esquerdista na faculdade. Também, quando meu irmão trazia notas baixas da escola, meu avô dizia:
– Eu estudava de noite com luz de vela!!

Meu irmão sempre dizia que nosso maior pecado era de ter luz elétrica...

Por outro lado, minha mãe, que nasceu em 1896, dizia com orgulho que nunca na vida dela vivera sem telefone ou sem água quente e fria. Ela estudava no conservatório de música de Viena e as professores dela eram grandes mestres. Assim, ela e as colegas dela foram convidados por Gustav Mahler para assistir o concerto dele e aplaudir!! Em nossa casa sempre tinha música de câmara, quartetos, trios, e músicos famosos, como Korngold, freqüentavam nossa casa.

Meu irmão Paul foi obrigado a estudar violino e eu sempre ouvi dizer que ele era um segundo Mozart. Muitos anos depois, em Nova York, ele me contou que ele detestava o violino e não tinha talento nenhum. Mas o Korngold levou minha mãe ao hospital quando meu irmão nasceu, porque meu pai estava lutando num navio na Primeira Guerra Mundial. Ela contou que eles estavam tocando a quatro mãos quando sentiu as dores. Meu irmão e eu também sempre pensamos que o Korngold era pai dele, por isso a mania de pensar que ele era um gênio... Nós nunca vamos saber. Um grande contraste com meu pai, que nunca ia a um concerto ou ópera, e detestava todo este snobismo que, a meu ver, também teve o seu charme.
 

X – 13 de março de 1938

Treze de março de 1938. O dia em que tudo mudou, nossa vida afundou, aconteceu o impossível. Mas vamos começar por um dia antes, 12 de março. De manhã eu ia à escola, de tarde tinha lições de balé na ópera. De noite, às 7 horas, saí da ópera pela última vez na minha vida. Mas nada, absolutamente nada pareceu diferente naquele dia. No bonde, vi poucas pessoas na rua, menos do que costume, mas isto não significava que alguma coisa estava diferente. Meu pai também foi pela última vez na vida dele para a fábrica de mármore. Nosso jantar em família no terraço do nosso apartamento também foi o último. Por que nenhum vidente esperto disse nada? Eles não são tão espertos?

Uma semana mais tarde deveria haver eleições na Áustria, mas todo mundo já sabia que os social-democratas iam ganhar outra vez. Algumas faixas de propaganda, letras escritas no chão com giz com a sigla dos social-democratas. Bem poucas pessoas sabiam da grande mudança que haveria no dia seguinte. O partido nazista estava proibido, ninguém sabia exatamente quantos membros (todos na ilegalidade) existiam, mas nós pensávamos que era um número insignificante. O dono de nosso prédio, que também era dono do prédio vizinho, era um desses membros. Nós sabíamos disso, mas nunca fez parte da nossa formação delatar, dedurar uma pessoa. Ele não podia nos mandar sair, tínhamos pouco a falar um com o outro, meus pais simplesmente mandavam o cheque do aluguel a cada mês, só isso. Foi ele que depois avisou meus pais que meu irmão estava em perigo e nos aconselhou escondê-lo. Nosso prédio foi um dos primeiros que tiveram a bandeira nazista na janela.

Ele sabia de tudo, era uma pessoa culta, lecionava alemão na faculdade, escreveu livros, enfim, diferente da plebe que gritava na rua “Fora com os judeus!”. Agora vamos falar do dia seguinte, 13 de março.

 

(15 de fevereiro/2003)
CooJornal no 302
  


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br