XI – Anschluss, anexação
A Áustria não tinha exército, mas não precisava. Mussolini, um grande
amigo da Áustria e amigo pessoal do chanceler assassinado Dolfuss,
prometeu que em caso de uma invasão dos alemães ele mandaria tropas para o
Brenner Pass para defender a independência da Áustria! Uma boa piada, pois
ele foi o primeiro que declarou fidelidade a Hitler.
Fomos dormir no dia 12 e acordamos no dia seguinte com uma enorme bandeira
com a suástica tocando o nosso terraço. O que significava isto? Ligamos o
rádio e ouvimos: as tropas alemãs atravessaram a fronteira ao chamado dos
austríacos!!! Schuschnig foi preso e um substituto – um Gauleiter – foi
nomeado. Seu nome era Seiss Inquart. Os judeus são famosos por fazer as
melhores piadas nas épocas mais sérias da sua história. Eles chamaram o
Gauleiter de Scheiss Inquart (merda). O discurso dele até hoje me faz
tremer (64 anos depois). “Os capitalistas judeus arruinaram o país, mas
tudo vai mudar.” Ele cometeu um erro grave de gramática que somente Freud
pode explicar. Era um homem rude, sem nenhuma instrução e falou: “Se
juntem todos para acabar com os inimigos”. Em alemão seria Tretet alle
zusammen, mas ele falou: Tretet ALLES zusammen, que significa “Vamos
arruinar tudo”. A profecia (sem querer) virou verdade.
É muito estranho como indivíduos se comportam de modo completamente
diferente quando em grandes grupos. De repente o povo vienense, alegre,
pacifista, amante da música clássica e das artes virou fera da noite para
o dia. É preciso confessar o que todo mundo percebeu: as mulheres foram as
mais radicais, mais fanáticas.
Alguns dias depois, Hitler falava em praça pública e vi as mulheres se
jogando aos pés dele gritando ‘Heil, Hitler’. Uma delas gritou: eu quero
um filho do Fuehrer! Pode ser que tenha sido deste dia em diante que eu
passei a ter uma certa desconfiança das mulheres. Quem sabe alguém pode
explicar. O grande ator Charles Chaplin tentou: no filme O Grande Ditador,
Hitler (Hinkel, o nome fictício) não falava nada, somente palavras sem
nexo, e o povo aplaudia. Aquela foi uma das melhores sátiras que já vi na
minha vida.
Meu pai quis entrar na fábrica dele, mas na entrada foi barrado pelo
contador que trabalhava para ele há 20 anos. Agora ele tinha virado o dono
da fábrica. Eu fui barrada ao entrar na escola, tudo isto já no primeiro
dia. Mas dias piores estavam por vir.
XII – O dia seguinte
A partir desse dia aprendi muitas coisas. Primeiro: fiquei sabendo a que
eu pertenço. Sou judia e sempre serei. Não adianta se anular, querer
negar. Os genes e a raiz ficam para as gerações futuras, até o fim da
humanidade. Pode-se ter recebido muitos litros de água benta, mas não
adianta. Eu conheço pessoas que são descendentes de marranos, batizados
por muitas gerações, mas... não comem carne de porco, as mulheres acendem
velas sexta-feira, não ingerem álcool, e muitas outras coisas. É muito
estranho que nós nunca tenhamos freqüentado uma sinagoga, nunca fomos
discriminados e, coincidência ou não, todos os meus amigos eram judeus,
meus pais e avós se casaram com judeus (todos se disseram ateus). Meus
filhos no parque sempre acharam amigos judeus sem saber.
Muitas situações, até cômicas, ocorreram por causa disso. Alguns exemplos:
nosso zelador e, ao mesmo tempo, faxineiro do nosso prédio, tinha um filho
um pouco mais novo do que eu. Nós brincávamos juntos, apesar do
preconceito da minha mãe. No dia 14 de março, dois dias depois do
anschluss, ele veio à nossa casa e contou: eu sou judeu (empregado num
prédio de um nazista famoso), minha esposa não é, vou desaparecer daqui
para minha mulher e filho não sofrerem por minha causa. Encontrei-o pouco
tempo depois em Israel. Ele era um judeu ativo, membro da Betar (os
extremistas sionistas), por isso ele pôde fugir tão rápido, pois a
organização o ajudou. Meu pai era cidadão inglês e nós também, mas por
insistência da minha mãe ele optou pela cidadania austríaca!!! Como é
possível homens como meu pai, independentes, bem-sucedidos na vida, se
deixarem influenciar e dominar por uma mulher? Nunca recebi uma resposta.
Eu tive uma amiga, colega da classe, que se chamava Kitty Pasternak. Eles
tinham uma pequena quitanda numa rua perto da minha casa que vendia
frango, ganso (kosher). Minha mãe não tolerava a amizade com ela, “com
essa gente”.
Alguns dias depois uma bandeira americana estava no topo do prédio onde
eles moravam. O irmão do pai da menina era Joe Pasternak, o grande
produtor de Hollywood que descobriu Deanna Durbin e muitas outras estrelas
e astros. Ele simplesmente comprou o prédio todo e ninguém podia mexer com
a família dele, que era protegida pelo governo dos Estados Unidos. Ele foi
mais esperto e saiu da Áustria bem antes dos acontecimentos.
Preconceito era a bandeira daquela época. Uma outra amiga pensava que o
pai era judeu. Foi informada pela mãe que ela havia sido adotada e que não
era judia, mas ela disse:
– Se meu pai até agora nunca me deixou sentir que não sou filha dele,
então agora eu não vou deixar ele sentir que não sou filha dele, e eles
fugiram juntos (sorte dela, não passou a guerra na Áustria).
XIII – Pasternaks
Os Pasternaks foram embora logo: o tio mandou o visto, o dinheiro para a
passagem e “essa gente” foi embora. O prédio ficou com a bandeira dos
Estados Unidos. Muitos anos depois fui a Los Angeles e numa sinagoga
perguntei ao rabino se ele sabia me informar o que tinha acontecido com
eles. Ele logo me ajudou a contatá-los.
Foi uma festa! Eu ainda tenho o foto da classe onde eu estou junto da
Kitty, e dei para ela uma cópia.
As eleições que foram marcadas nunca aconteceram. Mas os judeus foram
obrigados de lavar as ruas e calçadas para remover a propaganda. Foi uma
visão horrível. Senhores e senhoras idosos se ajoelhando na calçada para
limpar o chão. MAS a elite de Viena, os artistas, colocaram a estrela de
Davi no peito e se juntaram aos judeus para também lavar as calçadas:
Magda Schneider, Theo Lingen, Raul Aslan, o grande Mephisto, Dagne Servaes
e muitas outros. Nunca vou esquecer isto! A classe dos artistas de teatro,
da ópera, do circo, a elite da humanidade. Eles, que sempre representaram
as dores e as felicidades do mundo, agora estavam se superando!
O Seiss (scheiss) Inquart que gritava contra os judeus “agiotas,
banqueiros” agora gritava: “Os judeus comunistas”. Outra vez os judeus
fizeram piadas. Uma frase que ficou foi “Se tem muita chuva, pouca chuva,
terremoto, qualquer coisa ruim, o culpado é o ciclista”. Para o judeu, a
única preocupação agora era sair do país. Mas como? Todo dinheiro, todas
as jóias, tudo dos judeus fora confiscado e ninguém queria acolher judeus
pobres.
(22 de fevereiro/2003)
CooJornal
no 303