22/02/2003
Número - 303


 
Helga Szmuk



ANSCHLUSS

 

XI – Anschluss, anexação

A Áustria não tinha exército, mas não precisava. Mussolini, um grande amigo da Áustria e amigo pessoal do chanceler assassinado Dolfuss, prometeu que em caso de uma invasão dos alemães ele mandaria tropas para o Brenner Pass para defender a independência da Áustria! Uma boa piada, pois ele foi o primeiro que declarou fidelidade a Hitler.

Fomos dormir no dia 12 e acordamos no dia seguinte com uma enorme bandeira com a suástica tocando o nosso terraço. O que significava isto? Ligamos o rádio e ouvimos: as tropas alemãs atravessaram a fronteira ao chamado dos austríacos!!! Schuschnig foi preso e um substituto – um Gauleiter – foi nomeado. Seu nome era Seiss Inquart. Os judeus são famosos por fazer as melhores piadas nas épocas mais sérias da sua história. Eles chamaram o Gauleiter de Scheiss Inquart (merda). O discurso dele até hoje me faz tremer (64 anos depois). “Os capitalistas judeus arruinaram o país, mas tudo vai mudar.” Ele cometeu um erro grave de gramática que somente Freud pode explicar. Era um homem rude, sem nenhuma instrução e falou: “Se juntem todos para acabar com os inimigos”. Em alemão seria Tretet alle zusammen, mas ele falou: Tretet ALLES zusammen, que significa “Vamos arruinar tudo”. A profecia (sem querer) virou verdade.

É muito estranho como indivíduos se comportam de modo completamente diferente quando em grandes grupos. De repente o povo vienense, alegre, pacifista, amante da música clássica e das artes virou fera da noite para o dia. É preciso confessar o que todo mundo percebeu: as mulheres foram as mais radicais, mais fanáticas.

Alguns dias depois, Hitler falava em praça pública e vi as mulheres se jogando aos pés dele gritando ‘Heil, Hitler’. Uma delas gritou: eu quero um filho do Fuehrer! Pode ser que tenha sido deste dia em diante que eu passei a ter uma certa desconfiança das mulheres. Quem sabe alguém pode explicar. O grande ator Charles Chaplin tentou: no filme O Grande Ditador, Hitler (Hinkel, o nome fictício) não falava nada, somente palavras sem nexo, e o povo aplaudia. Aquela foi uma das melhores sátiras que já vi na minha vida.

Meu pai quis entrar na fábrica dele, mas na entrada foi barrado pelo contador que trabalhava para ele há 20 anos. Agora ele tinha virado o dono da fábrica. Eu fui barrada ao entrar na escola, tudo isto já no primeiro dia. Mas dias piores estavam por vir.

 XII – O dia seguinte

A partir desse dia aprendi muitas coisas. Primeiro: fiquei sabendo a que eu pertenço. Sou judia e sempre serei. Não adianta se anular, querer negar. Os genes e a raiz ficam para as gerações futuras, até o fim da humanidade. Pode-se ter recebido muitos litros de água benta, mas não adianta. Eu conheço pessoas que são descendentes de marranos, batizados por muitas gerações, mas... não comem carne de porco, as mulheres acendem velas sexta-feira, não ingerem álcool, e muitas outras coisas. É muito estranho que nós nunca tenhamos freqüentado uma sinagoga, nunca fomos discriminados e, coincidência ou não, todos os meus amigos eram judeus, meus pais e avós se casaram com judeus (todos se disseram ateus). Meus filhos no parque sempre acharam amigos judeus sem saber.

Muitas situações, até cômicas, ocorreram por causa disso. Alguns exemplos: nosso zelador e, ao mesmo tempo, faxineiro do nosso prédio, tinha um filho um pouco mais novo do que eu. Nós brincávamos juntos, apesar do preconceito da minha mãe. No dia 14 de março, dois dias depois do anschluss, ele veio à nossa casa e contou: eu sou judeu (empregado num prédio de um nazista famoso), minha esposa não é, vou desaparecer daqui para minha mulher e filho não sofrerem por minha causa. Encontrei-o pouco tempo depois em Israel. Ele era um judeu ativo, membro da Betar (os extremistas sionistas), por isso ele pôde fugir tão rápido, pois a organização o ajudou. Meu pai era cidadão inglês e nós também, mas por insistência da minha mãe ele optou pela cidadania austríaca!!! Como é possível homens como meu pai, independentes, bem-sucedidos na vida, se deixarem influenciar e dominar por uma mulher? Nunca recebi uma resposta.

Eu tive uma amiga, colega da classe, que se chamava Kitty Pasternak. Eles tinham uma pequena quitanda numa rua perto da minha casa que vendia frango, ganso (kosher). Minha mãe não tolerava a amizade com ela, “com essa gente”.

Alguns dias depois uma bandeira americana estava no topo do prédio onde eles moravam. O irmão do pai da menina era Joe Pasternak, o grande produtor de Hollywood que descobriu Deanna Durbin e muitas outras estrelas e astros. Ele simplesmente comprou o prédio todo e ninguém podia mexer com a família dele, que era protegida pelo governo dos Estados Unidos. Ele foi mais esperto e saiu da Áustria bem antes dos acontecimentos.

Preconceito era a bandeira daquela época. Uma outra amiga pensava que o pai era judeu. Foi informada pela mãe que ela havia sido adotada e que não era judia, mas ela disse:
– Se meu pai até agora nunca me deixou sentir que não sou filha dele, então agora eu não vou deixar ele sentir que não sou filha dele, e eles fugiram juntos (sorte dela, não passou a guerra na Áustria).


XIII – Pasternaks

Os Pasternaks foram embora logo: o tio mandou o visto, o dinheiro para a passagem e “essa gente” foi embora. O prédio ficou com a bandeira dos Estados Unidos. Muitos anos depois fui a Los Angeles e numa sinagoga perguntei ao rabino se ele sabia me informar o que tinha acontecido com eles. Ele logo me ajudou a contatá-los.

Foi uma festa! Eu ainda tenho o foto da classe onde eu estou junto da Kitty, e dei para ela uma cópia.

As eleições que foram marcadas nunca aconteceram. Mas os judeus foram obrigados de lavar as ruas e calçadas para remover a propaganda. Foi uma visão horrível. Senhores e senhoras idosos se ajoelhando na calçada para limpar o chão. MAS a elite de Viena, os artistas, colocaram a estrela de Davi no peito e se juntaram aos judeus para também lavar as calçadas: Magda Schneider, Theo Lingen, Raul Aslan, o grande Mephisto, Dagne Servaes e muitas outros. Nunca vou esquecer isto! A classe dos artistas de teatro, da ópera, do circo, a elite da humanidade. Eles, que sempre representaram as dores e as felicidades do mundo, agora estavam se superando!

O Seiss (scheiss) Inquart que gritava contra os judeus “agiotas, banqueiros” agora gritava: “Os judeus comunistas”. Outra vez os judeus fizeram piadas. Uma frase que ficou foi “Se tem muita chuva, pouca chuva, terremoto, qualquer coisa ruim, o culpado é o ciclista”. Para o judeu, a única preocupação agora era sair do país. Mas como? Todo dinheiro, todas as jóias, tudo dos judeus fora confiscado e ninguém queria acolher judeus pobres.
 

(22 de fevereiro/2003)
CooJornal no 303
  


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br