01/03/2003
Número - 304


 
Helga Szmuk




TRAUMA DA CAMPAINHA
ADEUS À ÁUSTRIA


 

XIV – Trauma da campainha

Somente judeus que tinham parentes ricos no exterior ou gente famosa como Freud, Einstein, Stefan Zweig e muitas outros não tiveram problemas de achar lugar onde para emigrar. Inclusive, Einstein disse que na época da guerra tinha medo que algum espião pudesse estar infiltrado nas conferências que eles davam em ídche. Muitos refugiados eram cientistas judeus que estavam envolvidos em pesquisas. Logo o grande coreógrafo e mestre Max Reinhardt foi convidado pela Metro Goldwin Mayer para trabalhar em Hollywood. Ele ficou famoso e rico. A atriz Hedy Lamarr (o nome dela era Hedy Kiesler), estrela do Filme Ecstasy (Êxtase), também foi logo contratada por Pasternack. O pai dela, Kiesler, era um banqueiro em Viena e amigo do meu pai.

Um dia o filho do dono do prédio tocou nossa campainha, o que nunca havia acontecido antes em 16 anos. Assustada, minha mãe abriu a porta. Isto também foi um dos traumas que nós nunca deixamos de ter. Cada toque de campainha era pânico. Será a Gestapo? Será que vamos ser levados para um campo de concentração? Nós chamamos isto até hoje de trauma da campainha. Ninguém que não passou por isto pode entender. Mas o filho do dono veio simplesmente nos avisar para esconder meu irmão porque no dia seguinte ia haver uma revista em nosso prédio para ver se não havia judeus ou comunistas escondidos.

Que coisa estranha. Um nazista da primeira, e mesmo assim teve um pouco de consciência. E, de fato, no dia seguinte foram procurar meu irmão, mas ele não estava mais em casa. Naquele momento todo mundo estava em pânico e Paul precisava sair do país o quanto antes (ele tinha 21 anos e era simpatizante da esquerda).

Eu nunca entendi por que o filho do dono do nosso prédio avisou-nos que o Paul deveria sair logo de casa, pois estavam indo até lá atrás ele. Aproveitamos e avisamos ao pai da Ruth, que foi embora na mesma noite. Essa pessoa que nos avisou era sabidamente um nazista, há muito tempo, para quem judeu ou comunista era sinônimo de palavrão. Por que eria ele feito isso? Seria a consciência? Ou foi uma coisa muito comum naquele tempo, “todos os judeus são porcos, mas vocês são diferentes, são judeus da casa”? (Haus juden). Não sei e nunca vou saber. Quem sabe um psicólogo possa dar uma explicação para isso. O fato é que Paul foi salvo. Por um herói anônimo.

Comunistas: todo mundo sabe qual a minha opinião sobre comunismo ou qualquer outro regime totalitário. Mas nos anos 1938—1939 os comunistas salvaram muita gente! Eles arriscaram a vida para esconder pessoas em perigo.

Eu posso entender por que Hitler sempre falava em judeus-comunistas. Não havia outra alternativa: ou fascismo, ou comunismo.

O Paul tinha um amigo e o pai (adotivo) dele escondeu muitos jovens. Desconfiava-se que era amigo dos comunistas. Ninguém sabia exatamente quem era ou quem tinha sido simpatizante, era perigoso demais. Mas ele mandou o filho para a Suécia, com a ajuda do rei daquele país, para não pôr em perigo a sua vida. Ninguém ali era judeu.

Muitos anos depois de termos atravessado a fronteira para a Áustria, íamos com freqüência à casa desse amigo do Paul. O pai adotivo já havia morrido. Mas em Israel eu recebi dele muitas cartas de conforto e encorajamento. Seu nome era Dr. Rieder, um médico psiquiatra para jovens delinqüentes. Mais um herói anônimo.

Então meus pais se lembraram do meu salvador que trabalhava na polícia. Ele teve uma idéia: meu irmão se chama Paul Georg Roth, ou P.G. Roth. P.G era a sigla para Partei Genosse, membro do Partido. Sem falsificar nada, sem precisar mentir, ele colocou o nome assim PG Roth e conseguiu o passaporte, mas o problema seguinte era o visto. Mas, para onde? Os judeus também faziam suas piadas: um judeu foi a uma papelaria, pediu um globo terrestre, virou-se para todos os lados e pediu: o Sr. não tem outro?

Não existia lugar onde ir. Todo mundo tinha muita pena dos judeus, mas ninguém abria as portas para alguém sem dinheiro. Então meu pai teve uma idéia genial. Um ato que salvou não apenas nossas vidas, mas a de milhares de pessoas. Ele a ofereceu ao governo de Israel, que nessa época era a Palestina sob domínio inglês. Cada ano somente uma pequena quantidade de judeus podia emigrar para Israel (para agradar os árabes), uma quota muito pequena. Era quase impossível ser um dos escolhidos. Meu pai propôs levar judeus através do Danúbio, de barco, até o Mar Negro e depois para Israel (tudo ilegalmente). Em troca: um visto para o filho e a filha dele. A proposta foi aceita mas meu irmão não recebeu o visto, porém eles o levaram ilegalmente para fora da Áustria e depois para Palestina.

Paul já tinha um visto para os Estados Unidos esperando por ele (através da Maçonaria). Mas a quota também já estava completa e foi necessário esperar seis ou oito meses. De qualquer modo, ele podia esperar, em segurança, em Israel. Eu recebi um visto e uma bolsa de estudos por dois anos num dos melhores colégios internos para meninas, com tudo pago.

Nós morávamos no segundo andar e no terceiro havia uma família de judeus que foi expulsa do prédio. Logo um amigo do dono do nosso prédio se mudou para o apartamento, um nazista na ilegalidade. Eram o pai, mãe e uma filha mais jovem do que eu. Claro que eles não nos cumprimentavam e a filha não falava conosco.

Uma noite eu estava na janela, como sempre olhando para as estrelas, era face norte e a Ursa maior, linda como sempre, estava na minha frente. Eu podia ouvir o trem passar e sempre conferia o horário com meu relógio sideral. Meu pai me ensinou como ler pelas estrelas a hora mais certa do universo. Eu fazia isto todas as noites e sempre descobria alguma coisa nova bonita no céu.

Nesta noite aconteceu uma coisa diferente. De repente, ouvi um barulho muito forte em cima, a janela de cima se abriu e um objeto grande e pesado caiu no escuro até em baixo. Foi o novo morador que cometeu suicídio porque pensou que ia ser nomeado pelo menos ministro ou qualquer coisa parecida. Mas os alemães não confiavam nos austríacos e ninguém ganhou uma posição de destaque. Entretanto, o cara não morreu! Uma árvore amorteceu o choque e depois ficou paraplégico. Mais tarde minha amiga Ruth me escreveu dizendo que infelizmente ele teve sorte e não precisava servir na guerra. Mas o castigo veio depois: a filha Gerda foi para a Inglaterra depois da guerra e casou-se com JUDEU!! Os netos do homem são judeus!! Maior castigo ele não podia ter recebido.


XV – Deixar a casa


Agora era a nossa vez de sair da nossa casa. Paul já tinha ido embora graças ao meu pai. Eu nunca vou esquecer quando nós e minha amiga Ruth ficamos na janela, e Paul e o pai dela viraram na esquina, o pai da Ruth para nunca mais voltar. A mãe dela era católica e os pais haviam se divorciado, como em muitos casamentos mistos feitos para salvar os filhos, mas nem sempre conseguiam.

O pai da Ruth tinha um irmão em Antuérpia, um negociante de lapidação de diamantes. Uma sorte de poucos, ter um irmão rico no exterior! Ele atravessou a fronteira ilegalmente e chegou são e salvo à Antuérpia. Mas depois da invasão dos alemães todos os judeus foram mortos.

Eu gostava muito dele, sempre nos ajudou fazer o dever da casa, eu adorava ficar com a Ruth e a família dela, uma família simples mas muito unida foi separada por causa do nazismo, embora não fossem os únicos.

Nós precisamos sair e fui morar com um velho tio que tinha sido casado com minha tia. Eles se divorciaram antes que eu nascesse, mas mesmo assim o tio me convidou para morar com ele. Era um velho ranzinza que amava na vida somente sua coleção de selos. Meus pais foram morar com um casal de primos da minha mãe. Também terminou em tragédia, pois os dois eram primos entre si. Tinham um filho de 19 anos, de um lado um gênio, mas de outro lado uma criança, falava com dificuldade, molhava as calças, mas que até os 18 anos nunca tirou uma nota mais baixa do que 10.

Ele fora um dos poucos escolhidos para uma bolsa de estudos na Universidade de Jerusalém, pois a quota não dependia dos judeus, mas dos ingleses, devido ao mandato que tinham da Palestina. Ele foi buscar o seu passaporte e precisava assinar um documento (eu também tive de fazer isso), que NUNCA mais poria os pés na Áustria. Ele perguntou:
– Mas, e se o regime mudar um dia?

Eles deram-lhe um tiro e ligaram para os pais dele buscar o corpo. Meus pais ficaram tão traumatizados que nunca se recuperaram desse choque. Os pais dele não queriam mais viver, se recusaram a emigrar, mas com a insistência da minha mãe eles concordaram em passar os restos de suas vidas com um irmão em Riga, a capital da Lituânia. Mas lá os alemães entraram também e mataram todos os judeus.

Eu não sei até agora como eu agüentei tudo isso. Quando vejo hoje adolescentes se queixando que os pais não estão lhes dando liberdade suficiente, ou que o namorado esqueceu do aniversário delas, confesso que fico com uma inveja enorme!!


XVI – Falta de comida

Eu morava com meu tio no centro de Viena, no Schwarztenberg platz, que era também o lugar onde Hitler costumava falar gritando... Ele se hospedara num hotel que ficava na mesma praça onde meu pai fora contratado para fazer uma reforma do mármore. A placa com o nome da firma – uma placa de bronze – ainda estava lá. Meu pai disse que, se soubesse, deixaria as parafusos soltos para a placa de bronze e mármore caírem na cabeça do Fuehrer.

Outra vez deveria processar os videntes que não nos avisaram. Muita gente fugiu para Checoslováquia, Hungria, mas meu pai sempre disse que era bobagem, porque em pouco tempo eles também seriam anexados. E aconteceu. Um ano após a Áustria foi a vez da Checoslováquia, e era sempre uma sexta-feira o dia da ação. Por quê? Superstição? NÃO! Simplesmente o parlamento nos outros países fechava de sexta à tarde até segunda-feira, quando se reunia de novo e eram tomadas decisões que aconteceriam somente nos dias seguintes É o preço da democracia!! Mas vale a pena? Sim, vale. Da mesma forma que a ingratidão é o preço da generosidade, valendo a pena também. A Polônia foi invadida numa sexta-feira, dando início à Segunda Guerra Mundial.

Em Viena as mulheres gritavam Wir danken unserem Fuehrer, nós agradecemos ao nosso fuehrer! Mas pouco tempo depois quando manteiga, leite, ovos, queijo desapareceram dos prateleiras (os alemães levavam tudo para Alemanha), as mesmas mulheres colocaram cestas vazias na cabeça e gritaram: agradeçamos ao nosso fuehrer!!

Pouco tempo depois, quando toda nossa família já estava em segurança e fora do país, e meu pai podia outra vez comandar um navio, ele disse: ich danke meinem Fuehrer, eu agradeço ao nosso fuehrer. Por que se não fosse Hitler nós ficaríamos para sempre em Viena, e meu pai a detestava.
 

XVII – Adeus à Áustria

Finalmente chegou o dia de ir embora, deixar a Áustria. Quando meus pais moravam em Trieste, Paul tinha uma babá italiana. Ele sempre teve a foto dela na mesa de cabeceira. No dia em que Hitler chegou, ela ligou da Itália dizendo que a casa dela estava aberta para todos nós. Então eu viajei de trem até Trieste para de lá pegar o navio. A babá ligava quase cada semana para nós e assim ela foi esperar por mim na estação. Quando embarquei com outras 20 crianças, já sentada na janela, veio minha amiga Evi me trazer uma pequena lembrança: uma caixinha de prata com meu nome gravado.

Não podíamos levar nada conosco senão a roupa no corpo. Nem dinheiro, nem jóia. Essa caixa foi a única coisa que levei e que eu dei para minha nora Piri há pouco tempo. Ela vai guardá-la para a Marina, minha neta. Nós encontramos a Evi no ano passado (2001), em Salzburg – também na estação de trem!

Um rapaz israelense foi mandado de Israel para nos buscar e acompanhar. Que coragem e heroísmo! Entrar no inferno para ajudar 20 meninas a escapar. A quota anual de vistos concedida foi estabelecida pelos ingleses! Cada visto servia para uma família e não para uma pessoa. Como os judeus queriam salvar o máximo de pessoas possível, para não desperdiçar vistos eles colocavam para cada menina uma família inteira (fictícia). A “família” era completamente estranha para mim. Eu tinha 16 anos e não me era permitido casar, MAS me entregaram uma “filha“ de 14 anos. Eu depois me encontrei com ela em Haifa, já grávida e bem casada.

Antes de chegar à fronteira, o rapaz (shliach, que significa “mandado”) implorou-nos que, se por acaso alguém tivesse dinheiro ou jóias ou qualquer coisa “proibida”, que os jogasse pela janela agora, senão todos poderiam ser mandados para um campo de concentração. Eu guardei a caixinha na calcinha. Passamos a fronteira e respiramos ar puro pela primeira vez depois de um ano e um mês de inferno.

Era abril de 1939. Em Trieste, Gusti, a ex-babá, estava esperando por mim, aos prantos. Meus pais haviam ficado para trás, mas estavam felizes por seus filhos estarem salvos. Isto me lembra uma frase do maior filósofo alemão (na minha opinião), Willhelm Busch, em 1819: Tornar-se pai é a coisa mais fácil do mundo, mas SER pai é difícil. Eu acho que meus pais provaram isto.
 

(01 de março/2003)
CooJornal no 304
  


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br