08/03/2003
Número - 305


 
Helga Szmuk




NOVOS AMIGOS
MEU PAI CHEGA


 

XVIII – Novos amigos

Eu estava muito feliz por ter escapado do inferno, mas triste por ter perdido meus amigos e amigas, meus pais, professores etc. O pai de um amigo do meu irmão, que era psiquiatra, disse-me:
– Os amigos que a gente encontra mais tarde na vida não são necessariamente menos valiosos do que os primeiros.

Uma verdade que até hoje não esqueci. Encontrei, perdi, encontrei novos amigos no decorrer do tempo, reencontrei os antigos, é muito bom!! Na nossa família é normal a gente se afastar fisicamente, mas nós nos amamos no mesmo jeito. Mas neste momento eu ainda não sabia disso. Um exemplo: quando fomos mandados embora da nossa casa, meus pais deixaram alguns objetos que são insubstituíveis com a mãe da Ruth. Fotos da família, algumas colheres e garfos da minha mãe com o nome dela gravado, um presente de casamento dos pais da Ruth. Um retrato, uma pintura da minha mãe quando ela estava grávida do meu irmão etc.

A mãe da Ruth trabalhava nos correios. Ela mandou todas essas preciosidades para o Paul em pacotes cheios de roupa velha com remetente falso, caso fosse aberto pelas autoridades. E tudo chegou bem! Eu e meu irmão dividimos tudo e eu as guardo com muito amor. O shliach, o rapaz de uns 20 anos que nos acompanhou até Israel, não é meu melhor amigo?

Nós chegamos em abril, no dia do Passover (Páscoa dos judeus) em Israel, depois de uma viagem de seis dias. Mas significava o começo de uma nova etapa na minha vida.

XIX – Em Israel

Finalmente cheguei em Erez, Israel. Paul estava no porto esperando por mim. Uma felicidade sem fim. Todas as crianças foram levadas para a escola em Talpiot, entre Jerusalém e Belém. Mas eu recebi a permissão de ficar um dia com meu irmão e com uma tia. Meu irmão era motorista de táxi durante a noite e um amigo dele, de Viena, de dia. Nós fomos à casa dessa tia, que era uma prima do meu pai. Ela chamava Nadya Stein e era presidente da WIZO (Women’s International Zionist Organization). Ela também trabalhou muito para conseguir me salvar e foi ela que escolheu a escola para mim.

Ela viajava muito pelo mundo inteiro dando palestras e tentando mudar a atitude das nações em aceitar imigrantes e principalmente em Israel. É muito triste que fosse necessário fazer isto. Se um navio naufraga todo mundo ajuda sem fazer perguntas, se alguém se acidenta numa montanha, eles mandam helicópteros e bombeiros para salvar. Mas durante os pogroms na Polônia, na Rússia e agora na Áustria e Checoslováquia, NADA foi feito.

Meu pai nos contava que quando ele servia no navio Ultonia, da Cunard Line, em 1907/1908, eles levaram muitos passageiros judeus da Rússia e da Polônia ilegalmente para os Estados Unidos. Também, era proibido levar mulheres grávidas, porque assim se a criança nascesse, ela teria a nacionalidade americana, ou se nascesse no navio (o que aconteceu muitas vezes), a nacionalidade britânica. Meu pai dava preferência a essas mulheres. Quem sabe quantas milionárias e gente famosa está hoje entre eles. Mas infelizmente nada mudou. Meu irmão estava na ilegalidade, mas o desejo dele era de ir para os Estados Unidos.

No dia seguinte, meu irmão me levou para Talpiot. A escola era completamente nova e tinha alguns banheiros que ainda nem estavam prontos. Em cada quarto, quatro meninas, que falavam alemão para nos sentirmos mais à vontade, mas eles perceberam que assim nunca iríamos aprender Iwrit e colocaram quatro nacionalidades diferentes em cada quarto. Assim foi rápido, nós aprendemos “na marra” e não havia língua comum senão o iwrit. É engraçado, eu aprendi todas as línguas que falo (são muitas) na marra, sem nunca ter tido uma única lição de línguas!


XX – Período difícil mas divertido

A diretora da escola era a esposa de Bem Zwi, o ministro do Trabalho. Eu cheguei na escola um dia antes do Pessach, mas nada de Mazot: somente pão e outras coisas “proibidas”. A maioria das meninas vinha da Europa Central e não se importava com isso. Nós estudávamos quatro horas e trabalhávamos outras tantas no campo e no jardim, com as galinhas (eu levava diariamente os ovos para o Alto Comissário). Ele era escocês e o palácio dele ficava na frente da nossa escola, numa colina. Nossa vista era para o Mar Morto e no meio, o deserto. Muitas caravanas passavam durante o dia, nos dávamos água para eles. Mas de noite recebíamos pedradas, às vezes tiros.

Cada menina ficava uma noite fazendo Svmira (observação) junto com um Gafir (guarda). O Gafir era um estudante da Universidade de Jerusalém ou do Conservatório de Música de Jerusalém. Sempre houve disputa entre nós sobre quem ia ficar de Symira com alguém! Cada uma de nós tinha um preferido. É engraçado como a juventude pode levar tudo na brincadeira. Todas nós escapamos do inferno, todas nós estávamos sem pais ou parentes, alguns meses nos separaram da Segunda Guerra Mundial, mas nós brigávamos sobre em companhia de quem íamos defender nossa escola.

O Alto Comissário tinha uma guarda escocesa, alguns soldados de kilt (saia escocesa) na frente do prédio andando para cima e para baixo. Nós ficávamos horas e horas deitadas no chão, de costas, para verificar se ele usavam ou não roupa de baixo. Feliz juventude!

Nós trabalhávamos muito. Debaixo do sol do deserto, de cabeça baixa com ferramentas pesadas, na terra dura. Mas nós plantávamos tudo o que precisávamos para nosso sustento. Frutas, verduras, vendemos tulipas, rosas, ovos. Nunca chovia, toda água precisava ser trazida de baixo da terra. Tínhamos frango, galinha, tudo!! Não comprávamos nada. O céu era maravilhoso. Podíamos ver grande parte do hemisfério sul e também o norte. Agora eu entendia porque os árabes que “navegavam” no deserto olhavam para o céu. Quase todas as estrelas têm nome árabe –. Antares, Aldebaran, Deneb e outras.

O céu era sempre azul. Mas um azul irritante, nada mudava, nenhuma nuvem. Estéril, monótono. A natureza em geral é variável e imprevista, mas não neste lugar. No rádio não havia previsão de tempo, pois não era preciso, era sempre igual. Um amigo meu chamava as nuvens de “nuvens Metro Goldwin Mayer”. Nos filmes o céu nunca é todo azul, sempre há algumas nuvens brancas como fundo. Que contraste!
Nossa escola era um oásis no deserto. Alguns centenas de metros para a frente não tinha nada. Os árabes pediam esmolas, não tinham residência fixa, mas os lideres, donos de poços de petróleo, viviam em abundância e luxo. Eu aprendi para o resto da minha vida que água é uma preciosidade. Podemos viver com muito pouca água e ainda assim viver bem.


XXI – Meu pai chega

Nós nunca podíamos sair da escola, era muito perigoso. Íamos todas juntas para Jerusalém ouvir música no Conservatório e muitas vezes os estudantes de música foram à nossa escola para podermos nos deliciar com a música de Mozart, Beethoven, Schubert etc. Também o médico vinha nos visitar regularmente. Coisa do primeiro mundo. Eu tive sorte: o filho de um amigo da minha mãe, que era professor de Química na universidade, teve permissão de me levar para sair muitas vezes. Fomos visitar Belém, o suposto lugar da natalidade. Era uma cidadezinha muito charmosa, pequena, e parece que nada mudou, apesar de eles venderem pedaços da cruz há 2.000 anos! Não posso imaginar o peso desta cruz!! Além de madonas em ouro, em prata, em pedra, para todos os bolsos. Religião sempre será um bom negócio. Mas o que não vi foi Papai Noel!! E Jesus também não. Nada de neve, menos ainda de trenó, nem árvore de natal, não existem pinheiros nesta região. E nem a roupa do Papai Noel!! Num calor de 40 graus...

A festa de natal também é festa, como quase todas as relacionadas com astronomia. No Brasil a festa de São João é celebrada no dia 24 de junho, quando ocorre o solstício do inverno. As pessoas acendem fogueiras, se reúnem e dançam. No hemisfério norte o mesmo fenômeno acontece no dia 21 de dezembro. Na Noruega, Suécia e Finlândia eles celebram o solstício da mesma maneira. Eles cumprimentam os primeiros raios de sol. Com o passar do tempo virou a festa do nascimento de Cristo. A neve ficou, o trenó também, mas Jesus Cristo não tem nada a ver com isso.

Um dia me chamaram no escritório: era um telefonema. O navio do meu pai havia chegado, mas meu pai fora preso. Mas isto não me deixou triste, pois era prisioneiro dos ingleses, com advogado e toda comunidade judaica do seu lado. É outra coisa.

 

(08 de março/2003)
CooJornal no 305
  


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br