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Helga Szmuk
SALVANDO JUDEUS
JUDEUS E ÁRABES UNIDOS
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XXII – Salvando judeus
Eu tive permissão para viajar para Haifa e me encontrar com meus pais. Meu
pai já fora liberado com ajuda dos autoridades israelenses. Era a primeira
vez que nossa família estava reunida, mas por pouco tempo. Minha mãe
disse:
– Nunca mais na nossa vida teremos direito de nos queixar: tudo mundo
salvo, livre e nem uma bofetada recebemos dos nazistas.
Que grande engano. Pouco tempo atrás me queixei que a qualidade e tamanho
do papel higiênico havia diminuído! A tal maquiagem dos produtos! É parte
da natureza humana nos esquecermos das coisas ruins, temos exigências,
insatisfações e ambições. É maravilhoso como o tempo (a coisa mais
preciosa no universo) cura tudo ou quase tudo.
Então meu pai e alguns passageiros do navio contaram a grande aventura.
Meu pai tinha medo de que, ao ser descoberto pelas autoridades inglesas,
todo mundo poderia ser mandado de volta. Então ele teve a idéia de
destruir todos os documentos de todos para que ninguém soubesse o nome
original de ninguém. Mas ele desconfiava que se pedisse aos passageiros
para fazer isso, sempre teria alguém que ira guardar em segredo algum
documento ou uma carta para um parente. Ele disse para os passageiros para
entregar tudo para ele, pois ia guardar os documentos até à chegada. Assim
que ele ficou em poder de toda documentação que pudesse provar a origem do
navio e seus passageiros, jogou tudo no mar. Melhor perder as documentos
do que a vida.
Depois ele deu aulas de remo para os jovens. Ele calculou que na calada da
noite, a umas 10 milhas da costa, ele podia deixar tudo mundo ir para os
botes salva-vidas, com os jovens na frente remando e os velhos e crianças
atrás. Ele também deu aula de como se orientar pelas estrelas, seguir a
Polaris até chegar a um ponto previamente combinado com os autoridades
israelenses. Mas antes de ter dado o comando de abandonar o navio, salvas
de advertência de um destróier inglês deu a eles ordem de parar
imediatamente. Meu pai mandou parar as máquinas. Os ingleses subiram a
bordo e....com uma lista de TODOS OS PASSAGEIROS, com nome origem e tudo.
Ninguém sabe como aconteceu isto O serviço secreto dos ingleses não é
famoso apenas por causa dos filmes e livros de espionagem, é eficiente
mesmo.
Os passageiros não foram mandados de volta por que os israelenses
assumiram um compromisso de deixar eles entrarem no país, mas deduzindo da
quota (já muito pequena) o número de passageiros do ano seguinte. Mas
mesmo assim foram considerados ilegais até a criação do Estado de Israel.
Meu futuro marido e pai dos meus filhos também estava entre os
passageiros. Ele era médico e não lhe foi permitido exercer a profissão.
Somente depois de ter servido no exército inglês é que ele foi anistiado,
”perdoado”. Que ridículo! O único país do mundo onde eles poderiam entrar
mesmo ilegalmente e escapar da morte e do campo de concentração.
O pai dele deixou os quatro filhos estudar no exterior para escapar das
leis ridículas da Hungria – e ainda tem gente que fala dinheiro não traz
felicidade...Felicidade, não, mas pode comprar estudo no exterior, visto
para qualquer país do mundo, além de muitas outras coisas.
XXIII – De novo no comando
Todos os passageiros foram levados até um Kibutz e receberam roupas e
comida, e podiam ficar quanto tempo quisessem. Mas cada um estava ansioso
para começar vida nova. Meu pai ensinava no Kibutz como criar carpas num
país onde quase não tem pasto e gado, muito caros para manter. Peixe em
tanques é econômico, usa pouco espaço e tem muita proteína.
Meu irmão recebeu visto para os Estados Unidos, outra despedida. Ele foi
com o último navio de passageiros que viajou através do Oceano Atlântico
antes da guerra. Meus pais nunca mais se encontraram com ele e eu, somente
28 anos depois. Eu havia aprendido que filha de marinheiro não chora na
despedida – que grande engano! Chorei muito, até hoje eu sinto a dor de
quando ele foi embora outra vez.
Meu pai logo recebeu o comando de outro navio da linha Porchard. Eu fiquei
mais um tempo na escola e depois fui para Haifa. A saudade do mar era
grande demais.
Meu pai tinha um colega, um capitão da frota israelense, alemão não-judeu.
Ele tinha dois filhos também estudantes da náutica. Ganharam do pai um
iate de presente que se chamava “Precuria”. No mesmo dia em que meu pai
recebeu o comando de um navio, fui convidada para a inauguração. Houve
comida e bebida a bordo, tudo do bom e do melhor. Mas eu já tinha
combinado com os dois filhos do Capitão Peach (ou Pitch, não me lembro
bem), de ir com eles para Beirute na viagem inaugural do iate. De noite, a
bordo do navio, meu pai e eu jogávamos comida e bebida dentro do pequeno
iate para nossa viagem.
No outro dia fomos embora. Ancoramos em Beirute, uma cidade linda, a Paris
do Oriente Médio. No dia seguinte voltamos para casa mas – que grande
surpresa!! Outra vez salvas de advertência da frota inglesa, tiros para o
ar. O que havia de errado conosco? Nada, somente a Segunda Guerra Mundial
havia eclodido e meus amigos marinheiros eram alemães!! Foram presos, mas
eu pude entrar no porto. O pai deles também foi preso. A vida dá suas
voltas...Então meu pai responsabilizou-se por eles e garantiu que não eram
inimigos, e assim ficaram livres da prisão. Mas não podiam trabalhar, pois
a Alemanha era inimiga. Isto é guerra! Os melhores amigos se tornam
inimigos oficiais mesmo contra a vontade.
XXIV – Judeus e árabes unidos
As viradas da vida! Alguns meses atrás meu pai era prisioneiro na mesma
cadeia e agora o governo britânico aceitava a sua palavra como garantia
para pôr em liberdade um amigo dele. Mas essa virada não seria a única.
Nós recebíamos constantes ataques dos árabes na escola em Talpiot e de
repente pararam. Meu irmão havia ido me visitar uma vez num sábado e seu
táxi recebeu pedradas dos árabes e também dos judeus fanáticos por ter
andando de carro no Shabat.
A refinaria em Haifa foi minada e não descobriram quem era o culpado. Os
ingleses, então, aplicaram uma punição coletiva. Por cada litro de
gasolina nós pagávamos 1 centavo a mais para compensar o prejuízo. Uma vez
nos estávamos no ponto final com meu pai para pegar um ônibus e meu pai se
recusou de pagar o tal centavo. O ônibus não saiu do ponto. Houve muita
gente se oferecendo pagar para meu pai, mas ele disse:
– Punição coletiva não existe no código penal. Vocês outra vez se abaixam
e fazem a vontade dos governantes mesmo sendo uma injustiça. É por isso
que seus parentes morrem nos campos de concentração. Eu não vou pagar e
não permito que alguém pague por mim.
Alguns meses depois acharam o culpado: um inglês vestido de árabe foi
descoberto pelo serviço secreto israelense! Tudo isso para provocar ódio
entre judeus e árabes. O lema dividir e governar! Mas tudo acabou de um
dia para outro, os interesses dos ingleses agora eram outros. Os judeus e
árabes deviam se unir e lutar ao lado dos ingleses.
A guerra começou, eu era a única menina na escola com os pais em Israel.
Havia uma outra menina de Viena, cujos pais foram levados de Chipre para
Xangai, mas pelo menos não ficaram no inferno. A partir de então não havia
mais comunicação com A Europa. A Polônia foi invadida e finalmente os
ingleses declararam guerra aos alemães.
Como muitas vezes antes e também mais tarde a regra é: melhor um fim
assustador do que um susto sem fim. Quando a bomba atômica caiu sobre o
Japão sentimos a mesma coisa.
(15 de março/2003)
CooJornal
no 306
Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br
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