15/03/2003
Número - 306



 
Helga Szmuk




SALVANDO JUDEUS
JUDEUS E ÁRABES UNIDOS


 

XXII – Salvando judeus

Eu tive permissão para viajar para Haifa e me encontrar com meus pais. Meu pai já fora liberado com ajuda dos autoridades israelenses. Era a primeira vez que nossa família estava reunida, mas por pouco tempo. Minha mãe disse:
– Nunca mais na nossa vida teremos direito de nos queixar: tudo mundo salvo, livre e nem uma bofetada recebemos dos nazistas.

Que grande engano. Pouco tempo atrás me queixei que a qualidade e tamanho do papel higiênico havia diminuído! A tal maquiagem dos produtos! É parte da natureza humana nos esquecermos das coisas ruins, temos exigências, insatisfações e ambições. É maravilhoso como o tempo (a coisa mais preciosa no universo) cura tudo ou quase tudo.

Então meu pai e alguns passageiros do navio contaram a grande aventura. Meu pai tinha medo de que, ao ser descoberto pelas autoridades inglesas, todo mundo poderia ser mandado de volta. Então ele teve a idéia de destruir todos os documentos de todos para que ninguém soubesse o nome original de ninguém. Mas ele desconfiava que se pedisse aos passageiros para fazer isso, sempre teria alguém que ira guardar em segredo algum documento ou uma carta para um parente. Ele disse para os passageiros para entregar tudo para ele, pois ia guardar os documentos até à chegada. Assim que ele ficou em poder de toda documentação que pudesse provar a origem do navio e seus passageiros, jogou tudo no mar. Melhor perder as documentos do que a vida.

Depois ele deu aulas de remo para os jovens. Ele calculou que na calada da noite, a umas 10 milhas da costa, ele podia deixar tudo mundo ir para os botes salva-vidas, com os jovens na frente remando e os velhos e crianças atrás. Ele também deu aula de como se orientar pelas estrelas, seguir a Polaris até chegar a um ponto previamente combinado com os autoridades israelenses. Mas antes de ter dado o comando de abandonar o navio, salvas de advertência de um destróier inglês deu a eles ordem de parar imediatamente. Meu pai mandou parar as máquinas. Os ingleses subiram a bordo e....com uma lista de TODOS OS PASSAGEIROS, com nome origem e tudo. Ninguém sabe como aconteceu isto O serviço secreto dos ingleses não é famoso apenas por causa dos filmes e livros de espionagem, é eficiente mesmo.

Os passageiros não foram mandados de volta por que os israelenses assumiram um compromisso de deixar eles entrarem no país, mas deduzindo da quota (já muito pequena) o número de passageiros do ano seguinte. Mas mesmo assim foram considerados ilegais até a criação do Estado de Israel.

Meu futuro marido e pai dos meus filhos também estava entre os passageiros. Ele era médico e não lhe foi permitido exercer a profissão. Somente depois de ter servido no exército inglês é que ele foi anistiado, ”perdoado”. Que ridículo! O único país do mundo onde eles poderiam entrar mesmo ilegalmente e escapar da morte e do campo de concentração.

O pai dele deixou os quatro filhos estudar no exterior para escapar das leis ridículas da Hungria – e ainda tem gente que fala dinheiro não traz felicidade...Felicidade, não, mas pode comprar estudo no exterior, visto para qualquer país do mundo, além de muitas outras coisas.


XXIII – De novo no comando

Todos os passageiros foram levados até um Kibutz e receberam roupas e comida, e podiam ficar quanto tempo quisessem. Mas cada um estava ansioso para começar vida nova. Meu pai ensinava no Kibutz como criar carpas num país onde quase não tem pasto e gado, muito caros para manter. Peixe em tanques é econômico, usa pouco espaço e tem muita proteína.

Meu irmão recebeu visto para os Estados Unidos, outra despedida. Ele foi com o último navio de passageiros que viajou através do Oceano Atlântico antes da guerra. Meus pais nunca mais se encontraram com ele e eu, somente 28 anos depois. Eu havia aprendido que filha de marinheiro não chora na despedida – que grande engano! Chorei muito, até hoje eu sinto a dor de quando ele foi embora outra vez.

Meu pai logo recebeu o comando de outro navio da linha Porchard. Eu fiquei mais um tempo na escola e depois fui para Haifa. A saudade do mar era grande demais.
Meu pai tinha um colega, um capitão da frota israelense, alemão não-judeu. Ele tinha dois filhos também estudantes da náutica. Ganharam do pai um iate de presente que se chamava “Precuria”. No mesmo dia em que meu pai recebeu o comando de um navio, fui convidada para a inauguração. Houve comida e bebida a bordo, tudo do bom e do melhor. Mas eu já tinha combinado com os dois filhos do Capitão Peach (ou Pitch, não me lembro bem), de ir com eles para Beirute na viagem inaugural do iate. De noite, a bordo do navio, meu pai e eu jogávamos comida e bebida dentro do pequeno iate para nossa viagem.

No outro dia fomos embora. Ancoramos em Beirute, uma cidade linda, a Paris do Oriente Médio. No dia seguinte voltamos para casa mas – que grande surpresa!! Outra vez salvas de advertência da frota inglesa, tiros para o ar. O que havia de errado conosco? Nada, somente a Segunda Guerra Mundial havia eclodido e meus amigos marinheiros eram alemães!! Foram presos, mas eu pude entrar no porto. O pai deles também foi preso. A vida dá suas voltas...Então meu pai responsabilizou-se por eles e garantiu que não eram inimigos, e assim ficaram livres da prisão. Mas não podiam trabalhar, pois a Alemanha era inimiga. Isto é guerra! Os melhores amigos se tornam inimigos oficiais mesmo contra a vontade.


XXIV – Judeus e árabes unidos

As viradas da vida! Alguns meses atrás meu pai era prisioneiro na mesma cadeia e agora o governo britânico aceitava a sua palavra como garantia para pôr em liberdade um amigo dele. Mas essa virada não seria a única. Nós recebíamos constantes ataques dos árabes na escola em Talpiot e de repente pararam. Meu irmão havia ido me visitar uma vez num sábado e seu táxi recebeu pedradas dos árabes e também dos judeus fanáticos por ter andando de carro no Shabat.

A refinaria em Haifa foi minada e não descobriram quem era o culpado. Os ingleses, então, aplicaram uma punição coletiva. Por cada litro de gasolina nós pagávamos 1 centavo a mais para compensar o prejuízo. Uma vez nos estávamos no ponto final com meu pai para pegar um ônibus e meu pai se recusou de pagar o tal centavo. O ônibus não saiu do ponto. Houve muita gente se oferecendo pagar para meu pai, mas ele disse:

– Punição coletiva não existe no código penal. Vocês outra vez se abaixam e fazem a vontade dos governantes mesmo sendo uma injustiça. É por isso que seus parentes morrem nos campos de concentração. Eu não vou pagar e não permito que alguém pague por mim.

Alguns meses depois acharam o culpado: um inglês vestido de árabe foi descoberto pelo serviço secreto israelense! Tudo isso para provocar ódio entre judeus e árabes. O lema dividir e governar! Mas tudo acabou de um dia para outro, os interesses dos ingleses agora eram outros. Os judeus e árabes deviam se unir e lutar ao lado dos ingleses.

A guerra começou, eu era a única menina na escola com os pais em Israel. Havia uma outra menina de Viena, cujos pais foram levados de Chipre para Xangai, mas pelo menos não ficaram no inferno. A partir de então não havia mais comunicação com A Europa. A Polônia foi invadida e finalmente os ingleses declararam guerra aos alemães.

Como muitas vezes antes e também mais tarde a regra é: melhor um fim assustador do que um susto sem fim. Quando a bomba atômica caiu sobre o Japão sentimos a mesma coisa.


(15 de março/2003)
CooJornal no 306
  


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br