22/03/2003
Número - 307



 
Helga Szmuk




JUDEUS, NÃO
DÍVIDA: UM PIJAMA


 

XXV – Judeus, não

Agora vinham muitos navios “ilegais”. Era a última chance de escapar, mas os ingleses tornaram-se mais rígidos ainda. O Struma, um barco pequeno cheio de refugiados, foi afundado na costa da Turquia. Morreram todos. Muitos eram mandados para Chipre e tratados como prisioneiros. Meu pai salvou muitos da ilha “contrabandeando“ pessoas para Israel. Onde estavam os defensores dos direitos humanos? O Clero não fez nada. Os americanos nada mudaram nas leis de imigração, os ingleses afundaram o Struma.

A Argentina somente deixou entrar quem era católico! Os outros podiam morrer no oceano, nos navios. Todos eram culpados!! No Dia do Perdão eles deverão pedir perdão a Jeová, mas eu acho ele não vai perdoá-los nunca. Muitas pessoas me perguntam agora: você não pode perdoar? NÃO, não posso e ninguém me deu esse direito. Eu não perdi ninguém, não sofri quase nada, mas as mães que perderam os filhos, os maridos, os amigos, estas não me deram permissão para perdoar.

Muitos judeus responderam ao apelo dos aliados e entraram no exército. Meu marido (eu ainda não o conhecia), também, logo se alistou como médico, foi treinado num quartel-general em Jerusalém e se tornou membro do Royal Army Medical Corps, o corpo médico do Exército britânico. Meu pai entrou para a Marinha Real e logo teve o comando no mesmo navio que ele trouxe da Áustria ilegalmente, que foi rebatizado e depois outra vez!!

Uma moça checa de 18 anos foi mandada (como voluntária) para Europa como espiã. Ela falava diversas línguas e era a pessoa certa para a difícil tarefa. Ela foi lançada sobre território inimigo de pára-quedas. Pouco tempo depois foi descoberta e condenada à morte. Em homenagem a ela, meu pai pediu para darem ao navio o nome de “Hanna Senes” .


XXVI – Remédios israelenses

Quando meu pai viajava ninguém sabia onde ele se encontrava, por razões de segurança. Ninguém podia saber onde um navio estava no momento. Antes de embarcar ele recebia o sailing order, ordem de partida, um documento selado que somente podia ser aberto pelo comandante depois de zarpar. Mesmo assim o navio nunca tomava rumo direto, mas navegava sempre em zigue-zague para confundir o inimigo.

Minha mãe, em Haifa, recebia um bom salário do governo inglês e alugou um apartamento num lugar nobre na cidade. Um quarto com terraço e quitinete. Para mim era o maior luxo! Mas ela não quis dividi-lo comigo e preferiu me ajudar pagando o aluguel para uma família que alugou metade do quarto da filha para mim.
A menina se tornou uma grande amiga. Ela havia perdido um irmão, morto pelos árabes num ataque a um ônibus. Mais tarde me mudei para outro apartamento no mesmo prédio, onde uma família alugava um para quatro moças, ficando assim mais barato. Todas eram de Praga, muito inteligentes e cultas.

Toda comunicação com a Alemanha, Áustria, Checoslováquia, Hungria etc. foi completamente interrompida, e assim já faltavam algumas itens de primeira necessidade, como remédios! A Bayer e a Hoechst eram alemãs e os seus produtos não entravam mais no país. Assim, uma firma israelense (Hillel) começou a copiar os produtos.

Eu consegui um emprego como propagandista para explicar para os médicos o que significavam os novos nomes dos remédios. Eu falava diversas línguas e assim podia explicar para os médicos árabes tudo em inglês ou alemão. Não existia universidade de medicina nos países árabes e todos os médicos estudavam no exterior. Assim, foi fácil de achar uma língua comum. Eu gostava muito meu trabalho e viajava pelo interior do país (não existia mais perigo nas cidades árabes!!). Muitas vezes precisei pernoitar nas casas dos médicos. Alguns deles tinham três ou quatro ou mais esposas. Eu dormia com as mulheres e era muito estranho que não houvesse briga de ciúmes entre elas. Os filhos se davam muito bem, fora as pequenas brigas que acontecem entre cunhados e primos.

De manhã tomava café com um médico. As mulheres não falavam outra língua senão árabe. Quando a empregada trouxe o café da manhã e quis servir para o dono da casa primeiro, ele sempre falava que a convidada era a primeira. A expressão de surpresa, e depois risada, era uma coisa constante. Uma mulher servida primeiro?? Eu conversava muito com os médicos e eles me explicavam:
– Vocês, ocidentais, têm amantes, os filhos não são reconhecidos, em caso de morte a concubina fica desamparada. No nosso caso é muito mais justo.

Hoje, muito tempo depois, até hoje penso na sabedoria das palavras dele.


XXVII – Imre e Edith surgem na minha vida

Muitas vidas já foram perdidas. Marinheiros, pilotos e soldados. Todos jovens. Um dia um amigo do meu pai, o Capitão Sagy, me convidou para ir a um baile cuja renda seria em beneficio das viúvas de marinheiros. Os filhos do capitão, Vera e Gyury, eram mais ou menos da minha idade. Muito mais tarde, o Gyury se tornaria um herói nacional, como um dos principais participantes do resgate dos reféns em Entebe, Uganda.

Eu não estava com vontade de ir ao baile, a situação não era para ninguém se divertir, mas o Sagy insistiu, me convidou de ficar na mesa com ele e a família, e fui. Também aprendi com o meu pai a nunca dizer não! Nunca se sabe o que se poderia perder. É melhor um acontecimento não muito bom do que acontecimento nenhum. Que grande verdade! Minhas amigas com quem morava também insistiram para que eu fosse.

Muita coisa mudou nessa noite!! Fiquei pouco tempo, não gostei e voltei para casa para dormir. Pouco tempo depois a Vera ligou para mim dizendo para voltar à festa, que estava ótima, e havia um jovem médico na mesa deles que havia conhecido meu pai e tinha sido passageiro do Liesl. Eu me vesti e fui outra vez. À mesa estava Imre, meu futuro marido e pai dos meus filhos.

Nós dançamos e conversamos muito. Ele me contou que morava agora em Jerusalém no King David (que foi explodido depois), mas que tinha um pequeno apartamento em Tel Aviv perto do mar. Porém, o apartamento (alugado) era dividido com o irmão dele.

Haifa sofria bastante com os ataques aéreos e Tel Aviv é uma cidade aberta. Pensei ser uma boa idéia passar um fim de semana lá. Ele me deu a chave e prometemos um ao outro de nos encontrarmos outras vezes. Eu fui a Tel Aviv, abri a porta com a chave, mas para minha surpresa já havia uma moça ocupando o quarto. Eu tinha certeza de que ela era amante dele (ela pensou a mesma coisa de mim), mas o irmão dele também dava a chave para outras pessoas. A moça se chamava Edith e até hoje acho nunca vou ter amiga melhor. Nós passamos a guerra juntas, tivemos nossos primeiros filhos em Israel. Vivemos na Hungria juntas, atravessamos a fronteira praticamente juntas (com 24 horas de diferença). Minha neta até hoje veste as roupas das netas dela.

Imagine se eu não tivesse ido a este baile! O Peter foi na semana passada (2002) passar um fim de semana com ela e sua filha e netos.


XXVIII – Dívida: um pijama


Os bombardeios em Haifa estavam aumentando e nós decidimos, com a Edith, de ficar em Tel Aviv. Haifa era alvo dos alemães. Tinha refinarias, porto e tropas inglesas estacionadas. Procuramos um quarto num apartamento e nos mudamos para lá, junto com meu cachorro fox terrier. Imre ia me visitar diariamente, e Jotzo, o futuro marido da Edith, também. Mas eu ainda voltei para Haifa para trabalhar. Mesmo com a guerra e todos os problemas que nós tivemos, aconteceram algumas situações engraçadas. Uma das meninas checas com que eu morava era muito bonita e os rapazes eram loucos por ela. Um dia ela nos disse, com o sotaque típico dos checos, sobre um dos namorados dela: meu corrrrpo ele possuiu, mas minha allllllma nunca!!

Imre teve também uma prima que morava num Kibutz e o noivo dela era médico, também checo, e amigo do Imre. Eles estavam juntos há muito tempo mas não se casaram porque o Kibutz não tinha dinheiro para gastar com rabino etc. Ela ficou grávida e finalmente o Kibutz juntou uns 20 casais para uma cerimônia única e gastar pouco dinheiro. Fomos lá para assistir à cerimônia, mas para nossa surpresa o noivo estava embaixo da hipa com outra mulher!! Nós ficamos muito decepcionados e vimos a prima do Imre grávida assistindo tudo... rindo! Depois ela nos contou:
– Nós não queríamos ofender o rabino com a minha barriga de oito meses e então minha amiga foi me substituir e receber a bênção.

Tanto faz quem recebe a bênção, sempre faz bem. Interessante, nós sempre achamos algo para dar risadas. Um dia, já em Tel Aviv, e apesar de ter sido declarada cidade aberta, houve um bombardeio. Perto da nossa casa caiu uma bomba e nós não conseguimos abrir a porta, que ficou toda torta por causa da pressão. Um soldado inglês entrou pela janela e nos tirou de lá, colocando-nos num outro prédio mais seguro. Mas ele deixou o cachorro lá. Eu chorei e pedi a ele para ir buscar a Daisy. Ele foi e a salvou, mas no desespero ela rasgou o pijama da Edith. Até hoje, cada vez que me encontro com a Edith, ela cobra de mim um pijama com listras vermelhas!

A Edith terminou os estudos de engenharia química em Budapeste, depois da guerra. Tinha-os iniciado na Checoslováquia, mas teve de interrompê-los por causa da ocupação do país pelos alemães. Depois de nosso retorno à Hungria ela trabalhou com Imre no laboratório do hospital.

Imre era o chefe dela. Certo dia ela disse para o Imre que não estava muito a fim de trabalhar e que gostaria de passar um dia inteiro comigo, conversando como nos velhos tempos. Mas para isso era necessário de inventar uma doença.

Imre explicou para ela, em detalhes, como fingir estar com uma dor que poderia levar à suspeita de apendicite. Descreveu para ela como se comportar na frente do médico, como deveria reagir ao toque dele na barriga e na perna dela etc. Estava tudo combinado, Imre iria mandar um médico de manhã cedo para visitá-la, o qual deveria lhe dar um atestado para que ela ficasse livre o dia todo.

O médico chegou às sete da manhã e depois de examiná-la achou mesmo que ela sofria de dor de apêndice. Aconselhou-a a colocar gelo no local e ficar de cama em repouso para ver como “os sintomas iriam evoluir”.

Eu cheguei na casa dela às duas da tarde e encontrei-a ainda na cama com uma bolsa de gelo na barriga. Eu gritei para ela:
– Levanta rápido, que temos ainda algumas horas antes que as crianças cheguem da escola.

Ela respondeu:
– Mas o médico me aconselhou de ficar de repouso...

Ela acreditou na doença dela!!!



(22 de março/2003)
CooJornal no 307


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br