29/03/2003
Número - 308



 
Helga Szmuk




CARTA DE RECOMENDAÇÃO
NUMA CASA DE FAMÍLIA


 

XXIX – Carta de recomendação

Imre foi transferido para Haifa, na refinaria, como médico. Nós decidimos nos casar, porque havia uma grande possibilidade de Imre ser mandado para o Extremo Oriente. Nosso modo de pensar era completamente diferente dos casais de tempos normais. Hoje eles pensam se casar para um futuro em comum. Nosso pensamento e de milhares de outros jovens também era: vamos nos casar antes da separação que podia ser para sempre. Meu pai estava de licença por alguns dias e nos casamos sem cerimônia e sem convidados, somente com o rabino, em 1941.

No meu casamento aconteceu um fato cômico. Meu pai não estava com a menor vontade de que o rabino falasse muito e combinou dar-lhe mais dinheiro para que realizasse uma cerimônia mais curta e também para que o sermão aos noivos fosse breve. Mas lei é lei, e o rabino fez a pergunta que não podia deixar de fazer: qual havia sido o meu dote? Meu pai, para se livrar o mais rápido possível de tudo aquilo, respondeu apressadamente: “500 camelos, 200 ovelhas etc.”. Tudo foi registrado e documentado conforme mandava a lei. Mas depois de muitos anos, já no Brasil, meu marido lembrou que em caso de divórcio ele teria de devolver tudo para o meu pai. Mas, onde conseguir tantos camelos e cabras? Felizmente os amigos prometeram ajudá-lo a arrumar tudo isso caso ele quisesse se livrar de mim...

Alugamos um apartamento em Haifa perto do porto, numa região feia, quase que exclusivamente árabe, com favelas (sukim), mas era barato. Também tivemos nossos tempos de ser felizes e dar risadas.

Uma coisa que ficou para sempre em minha memória e também na de outras pessoas foi uma menina judia húngara, mas bastante burra, que morava no mesmo andar junto com um árabe. Ele batia nela e ela mostrava as marcas para Imre. Ele perguntou:
– Porque você não larga ele?

Ela disse que não podia viver sem ele e que não sabia o que fazer. Imre aconselhou-a a entrar no exército e fazer uma coisa útil na vida. Ela respondeu que ela não queria servir na infantaria, somente na Real Força Aérea, a RAF. Era impossível, pois na RAF eles aceitavam somente pessoas de alta confiança e raramente alguém dos protetorados ou colônias. Mas Imre, brincando (nunca pensou que isso fosse sério), falou:
– Eu tenho um primo que é general e ele vai te dar uma carta de recomendação,

O primo dele, Laci Nemes era um soldado raso do mais baixo escalão. Um dia o Laci veio jantar e a menina estava em nossa casa. Imre pediu a ele (tudo em tom de brincadeira):
– Você daria uma carta de recomendação para nossa amiga?

Ele logo entendeu o humor das coisas e falou:
– Pois não!

Ele escreveu uma carta num papel de receituário do exército com o qual Imre costumava pedir exame de fezes ou de urina. Ele assinou General Laci Nemes e deu-a para ela. Ela não entendeu que era piada, foi embora e mostrou o papel para os autoridades e....foi aceita!! Ninguém teve a coragem de perguntar quem era este general Laci Nemes. Ela serviu na RAF, casou-se com um oficial inglês, obteve a cidadania britânica e anos depois encontrei-me com ela em Budapeste. Ela estava lá com o marido visitando os parentes dela. Nunca ninguém soube do caso, e durante a guerra seria caso para corte marcial! A burrice das pessoas não tem limite, e para não mostrar ignorância, ninguém teve a idéia de perguntar.

É engraçado como a gente tinha vontade de rir e fazer palhaçadas numa situação como a nossa. Bombas todas as noites, meu pai no mar nunca sabíamos onde, e Imre prestes a ser mandado para longe. Rommel estava perto, os árabes torcendo para ele travessar o canal de Suez e ocupar Israel. Nenhum árabe entrou para o exército para ajudar os judeus.

Eu fiquei grávida do Peter e logo Imre recebeu a movement order, ordem de transferência, para ser mandado para longe. Eu estava esperando meu filho para fins de fevereiro de 1943 e por isso eles ainda não o haviam mandado embora. Nós esperamos até o começo de março e o Peter não tinha nascido ainda. Imre se foi e eu fiquei sozinha por muitos anos. Peter nasceu em março, mas o pai dele já estava longe, em Cingapura, no 14º Hospital Geral, mas nós não sabíamos onde ele estava. Era segredo e somente muito mais tarde ele nos contaria que as cartas eram censuradas, tinham de ser entregues abertas e escritas em inglês.


XXX – Peter

Peter nasceu em 14 de março de 1943, 10 dias depois que Imre foi embora. Um parto difícil, de 24 horas, com fórceps e sozinha. Minha mãe veio ao hospital e ficou chorando perto da minha cama, que horror!
– Coitada da minha filha, porque as mulheres precisam sofrer tanto?

Eu pedi ao médico que mandasse minha mãe embora para longe! Tive uma infecção e febre alta, e fui uma das primeiras pessoas do mundo a receber penicilina depois de Winston Churchill, que a tomou por causa de uma pneumonia. O antibiótico, que ainda era segredo e somente o exército inglês tinha algumas ampolas, salvou minha vida. Voltei para casa com um filho recém-nascido. Graças a Deus, Peter era grande (mais de 9 meses), eu tinha leite suficiente graças a uma instituição que eu nunca vou esquecer, que se chamava tipat chalav... uma gota de leite.

Em cada bairro as enfermeiras e médicos dedicavam 24 horas aos recém-nascidos. Davam conselhos, pesavam as crianças, se uma mãe ficasse doente eles vinham visitá-la. Tudo de graça, com muito amor e muita competência. Eu confiei o Peter 100% às mãos e aos conselhos deles. Eles até me aconselharam a deixar o Peter dormir no carrinho à noite para não precisar acordá-lo em caso de ataque aéreo e levar ele dormindo ao abrigo. Assim Peter quase nunca saberia das bombas. Será que essas enfermeiras existem ainda? Gostaria de saber.

Um dia um juiz veio à minha casa dizendo que era preciso abandonar o apartamento em 24 horas. O prédio havia sido alugado, por mim e outras pessoas, de um árabe muito rico, mas eu soube somente naquele dia que ele não era dono de nada!! A propriedade era alemã e estava agora nas mãos dos administradores ingleses, e ninguém tinha direito de ocupar essas propriedades. E agora? Minha mãe alegou que não havia lugar para nós, mas se ofereceu para ficar temporariamente com o cachorro. Ela achou uma pensão para crianças pequenas muito boa no monte Carmel. Era muito caro, todo salário que eu recebia do exército! Mas não tive outra saída. Peter foi para lá e eu fui morar num hotel muito barato que era ocupado quase que exclusivamente por prostitutas.

A Edith também morava lá, era o mais barato que existia na Kingsway, perto do porto e sujeito ao bombardeiros constantes. Assim, eu ia procurar emprego de dia e, de noite, visitar o Peter. Mas era impossível. Decidi de sair da cidade e procurar um quarto numa cidade pequena, Naharia. Era difícil achar lugar para alguém com um bebê e um cachorro bravio. Achei, mas não falei do cachorro para os donos. Assim, me mudei com Peter para Naharia.


XXXI – Sem ter para onde ir – de novo

Mais uma vez aprendi que males podem se tornar coisas muito melhores depois que o vendaval passar. Em Naharia, achei um quarto na casa de uma família, junto com o Peter e a Daisy. Eles permitiram também que eu usasse a cozinha de vez em quando. Eles tiveram duas meninas gêmeas e em pouco tempo fizemos uma amizade que seria duradoura.

As meninas adoravam o Peter. Elas comiam muito mal e o Peter, que estava sempre com fome, foi um bom exemplo para elas, que às vezes escondiam a comida na boca dele e ele adorava.

Eles me apresentaram a um vizinho médico que continuou me ajudando, como as enfermeiras faziam em Haifa. Ele tinha um filho pequeno mas a mulher dele não tinha leite. Eu dei leite para o menino e assim Peter e o menino tornaram-se irmãos de peito. O médico era o irmão do famoso compositor Weil, que fez a música para as obras de Brecht, a ópera dos Vinténs e muitas outras. Depois que a guerra terminou ele vinha muitas vezes visitar o irmão e nós nos conhecemos e o Berthold Brecht também.

Meu pai estava em Tobruk e Rommel, a ponto de invadir Israel. Meu pai nos contou depois como ele ajudou os ingleses a decifrar os códigos dos navios alemães. Ele usou a tática parecida com a utilizada para decifrar os hieróglifos. Se um navio inimigo mandava uma mensagem era praxe perguntar: você entendeu? Se a resposta fosse afirmativa, ele não repetia a mensagem; se a resposta fosse ‘negativo’ ele repetia. Então ele já sabia as letras de Ja (sim) e Nein (não) e assim por diante. Isto na época quando não existia computador era muito valioso, e muitas rotas dos navios inimigos foram descobertas.

Meu marido serviu ainda na famosa Burma road com o forgotten army, exército esquecido, As cartas eram poucas e a gente sempre teve medo de abrir o envelope com a temida mensagem, we regrett to inform you, lamentamos informar... Os envelopes eram todos iguais, com o remetente HMS, his majesty service, nada mais. O Peter tinha na mesa de cabeceira a foto do pai dele de uniforme. Toda noite, quando ia dormir, ele dava um beijo na foto, mas ele não tinha a mínima idéia o que significava ABA, papai. Quando andávamos na rua e ele via um soldado inglês com o mesmo quepe do pai dele, ele o abraçava e dizia Aba! Os soldados ficavam sempre emocionados, pois eles também haviam deixado os filhos em casa, longe de lá.

Na praia havia um restaurante muito freqüentado pelos soldados. Os donos adoravam o Peter, que sempre se sentava no colo de um soldado ou oficial e eles compravam-lhe sorvete ou chocolate. Os donos chamavam o Peter de garoto-propaganda deles. Muitos anos depois nós nos encontramos outra vez, em São Paulo.

Um dia antes do ano novo cristão, chegou um navio cheio de imigrantes. O prefeito nos avisou que o barco ia ancorar alguns metros longe da praia e cada um de nós teria uma tarefa. A nós coube convidar alguns oficiais para jantar no dia 31. A prefeitura providenciou tudo e muito uísque escocês para deixar eles bem bêbados e com muito sono. Os donos do restaurante deviam receber os passageiros molhados e trocar a roupa deles, e depois haveria o ônibus já à espera para levar todos para um Kibutz ali perto.

Tudo ocorreu otimamente bem, todo mundo estava salvo no dia seguinte, 1o de janeiro, nenhum inglês na rua, todos dormindo e o barco vazio, abandonado, na frente de nariz deles. Mas novamente nós subestimamos o serviço secreto dos ingleses: o alto comando das tropas em Naharia era chefiado por um judeu!! Ele sabia de tudo. Além disso, tive muitos amigos ingleses em Naharia que eram operadores de rádio. Eu não imaginava e nem ninguém que eles seriam os primeiros operadores de radar do mundo. Em Naharia funcionava o aparelho número 1. Eles sabiam bem antes de nós da chegada do navio ou de qualquer outro navio ou avião. Mas também era segredo de estado.

Tanta coisa nova durante a guerra! Penicilina, inseticida DDT, radar e no fim a bomba atômica. Houve um começo epidemia de peste bubônica em Haifa, que foi erradicada com DDT com a matança em massa dos ratos no porto.

Muitos outros navios chegaram e foram todos capturados, e os imigrantes ”ilegais” mandados para a ilha de Chipre. A comida em Naharia era mais fácil de obter, quase tudo mundo tinha uma horta com verduras e frutas. Eu recebia através do exército inglês pacotes da NAAF, Navy Army Airforce shop, loja de suprimentos da Marinha, Exército e Força Aérea. Recebia cigarros de primeira qualidade, uísque escocês etc. Eu não bebo e não fumo e podia trocar essas preciosidades por comida, ovos, manteiga etc. Rommel já estava no outro lado do canal do Suez e os árabes estavam festejando. Eles não sabiam que caso os alemães vencessem, os árabes, que são semitas, seriam portanto considerados uma raça inferior!! Mas a propaganda é a alma do negócio. Aconteceu a invasão dos aliados em todas as fronteiras na Europa e no dia 9 de maio a Alemanha se rendeu, incondicionalmente!!! FIM, mas não para nós. o Imre estava lutando contra os japoneses e ainda havia muita luta pela frente. Meu pai voltou, se aposentou e comprou o que era o grande sonho dele, a Shipchandler shop na Palmers gate, em Haifa. Assim ele podia estar em contato com a Marinha sem precisar viajar.
O casal onde eu morava precisou do meu quarto porque os parentes deles da Europa estavam chegando. Outra vez sem onde ir.


XXXII – Numa casa de família

Cada vez que eu era forçada a me mudar eu ficava pensando no meu amigo em Viena que disse: amigos que a gente acha mais tarde na vida não são necessariamente menos valiosos. Os donos da casa me ajudaram a procurar outra moradia para mim, conheciam todo mundo, foram uns dos fundadores da pequena cidade. Assim, achamos um lugar para nós três. Desta vez, muito luxo! Dois quartos conjugados, um quarto com fogão (de petróleo), mas eu chamava isto quarto-cozinha. Num outro quarto uma moça também com um filho, sozinha e, em outro, um casal com um cão da raça boxer.

O dono da casa adorava o Peter. Deu para ele um carrinho feito de uma caixa de charutos com quatro rodas e um barbante para puxar. Depois o carrinho perdeu as rodas, mas mesmo assim Peter puxava-o para todos os lugares e dormia com ele.
Havia um problema. O dono da casa criava coelhos e a cada noite sumiam alguns, que eram achados mortos em local afastado. O dono disse para mim que só podia ser a Daisy, porque antes da minha chegada isso nunca havia acontecido. Eu pedi a ele para construir uma casa mais alta, com pés, e colocar um trinco. Cachorro não pode abrir trinco. Ele fez isso, MAS os coelhos continuaram sumindo. Eu disse:
– Então a Daisy é inocente, pois é impossível que ela abra o trinco.

Mas ele insistiu que antes nunca tinha acontecido coisa parecida, nunca era preciso trancar nada, até que um dia ele me chamou:
– Helga, venha comigo.

Era cinco ou seis horas de madrugada. O Peter havia levantado da cama e levado a Daisy até os coelhos. Abriu o trinco para ela para ela se servir!! Peter tinha dois anos de idade.

Na praia, a Daisy tomava conta do Peter. Quando eu entrava no mar, eu colocava o Peter longe da água e a Daisy não deixava ele se levantar ou se mexer do lugar, uma perfeita babá (ou melhor ainda). Eu me lembro também de um episódio na praia que me tocou profundamente. Eu sempre levava o Peter à praia de bicicleta e ele sentava numa cesta na frente, a Daisy correndo atrás.

Um dia, na praia, eu pulava dentro da água quando eu senti que o único botão que segurava a parte do sutiã do meu biquíni se soltou. A praia estava cheia de soldados ingleses e eu fiquei numa situação muito embaraçosa. Com uma mão segurava o sutiã, mas como ia levantar o Peter, colocá-lo na bicicleta, e levar para casa tudo com uma só mão? Eu estava esperando ver um monte de soldados dando risadas e se divertindo com a situação. Mas outra vez subestimei os ingleses. Um jovem soldado se aproximou, se abaixou, tirou o cadarço do sapato dele e, com muita delicadeza, amarrou meu sutiã atrás. Isto me lembra da Ordem de Garter, a ordem máxima que a rainha francesa conferiu a um oficial numa situação parecida. Quando o oficial se abaixou para ajudar segurar a meia da rainha sem lhe dirigir o olhar, ela disse: honni soi qui mal y pense! E deu o Ordem máxima para o soldado (seja com vergonha o que pensa mal). Estas são coisas que faz um exército ser respeitado, ao contrário do exército vermelho, quando os soldados russos seqüestraram e violentaram as mulheres.

A moça que morava no mesmo apartamento que eu também tinha um filho pequeno, o pai do menino era um soldado inglês e não sabia que o menino existia. A Frau Pauker não quis que ele soubesse. Ela serviu no exército e quis ter um filho, mas com a responsabilidade somente dela! Uma mulher muito corajosa, que eu espero ter conseguido criar o filho.

Nós dividíamos as tarefas. Eu trabalhava de dia dando aulas de ginástica na escola local e ela tomava conta das crianças. De noite ela limpava escolas e eu tomava conta dos dois. Não era fácil, mas nós não sentimos que era tanto assim. Claro, não existia máquina de lavar, nem gás de cozinha, mas as crianças sempre estavam limpas e bem alimentadas e, acho, felizes também. Claro, o pai fazia falta, mas muitas crianças estavam na mesma situação. Mas a maioria já começava a voltar da guerra, da Itália, do Egito etc., mas Imre ainda estava longe.



(29 de março/2003)
CooJornal no 308


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br