|
Helga Szmuk
CARTA DE RECOMENDAÇÃO
NUMA CASA DE FAMÍLIA
|
|
XXIX – Carta de recomendação
Imre foi transferido para Haifa, na refinaria, como médico. Nós decidimos
nos casar, porque havia uma grande possibilidade de Imre ser mandado para
o Extremo Oriente. Nosso modo de pensar era completamente diferente dos
casais de tempos normais. Hoje eles pensam se casar para um futuro em
comum. Nosso pensamento e de milhares de outros jovens também era: vamos
nos casar antes da separação que podia ser para sempre. Meu pai estava de
licença por alguns dias e nos casamos sem cerimônia e sem convidados,
somente com o rabino, em 1941.
No meu casamento aconteceu um fato cômico. Meu pai não estava com a menor
vontade de que o rabino falasse muito e combinou dar-lhe mais dinheiro
para que realizasse uma cerimônia mais curta e também para que o sermão
aos noivos fosse breve. Mas lei é lei, e o rabino fez a pergunta que não
podia deixar de fazer: qual havia sido o meu dote? Meu pai, para se livrar
o mais rápido possível de tudo aquilo, respondeu apressadamente: “500
camelos, 200 ovelhas etc.”. Tudo foi registrado e documentado conforme
mandava a lei. Mas depois de muitos anos, já no Brasil, meu marido lembrou
que em caso de divórcio ele teria de devolver tudo para o meu pai. Mas,
onde conseguir tantos camelos e cabras? Felizmente os amigos prometeram
ajudá-lo a arrumar tudo isso caso ele quisesse se livrar de mim...
Alugamos um apartamento em Haifa perto do porto, numa região feia, quase
que exclusivamente árabe, com favelas (sukim), mas era barato. Também
tivemos nossos tempos de ser felizes e dar risadas.
Uma coisa que ficou para sempre em minha memória e também na de outras
pessoas foi uma menina judia húngara, mas bastante burra, que morava no
mesmo andar junto com um árabe. Ele batia nela e ela mostrava as marcas
para Imre. Ele perguntou:
– Porque você não larga ele?
Ela disse que não podia viver sem ele e que não sabia o que fazer. Imre
aconselhou-a a entrar no exército e fazer uma coisa útil na vida. Ela
respondeu que ela não queria servir na infantaria, somente na Real Força
Aérea, a RAF. Era impossível, pois na RAF eles aceitavam somente pessoas
de alta confiança e raramente alguém dos protetorados ou colônias. Mas
Imre, brincando (nunca pensou que isso fosse sério), falou:
– Eu tenho um primo que é general e ele vai te dar uma carta de
recomendação,
O primo dele, Laci Nemes era um soldado raso do mais baixo escalão. Um dia
o Laci veio jantar e a menina estava em nossa casa. Imre pediu a ele (tudo
em tom de brincadeira):
– Você daria uma carta de recomendação para nossa amiga?
Ele logo entendeu o humor das coisas e falou:
– Pois não!
Ele escreveu uma carta num papel de receituário do exército com o qual
Imre costumava pedir exame de fezes ou de urina. Ele assinou General Laci
Nemes e deu-a para ela. Ela não entendeu que era piada, foi embora e
mostrou o papel para os autoridades e....foi aceita!! Ninguém teve a
coragem de perguntar quem era este general Laci Nemes. Ela serviu na RAF,
casou-se com um oficial inglês, obteve a cidadania britânica e anos depois
encontrei-me com ela em Budapeste. Ela estava lá com o marido visitando os
parentes dela. Nunca ninguém soube do caso, e durante a guerra seria caso
para corte marcial! A burrice das pessoas não tem limite, e para não
mostrar ignorância, ninguém teve a idéia de perguntar.
É engraçado como a gente tinha vontade de rir e fazer palhaçadas numa
situação como a nossa. Bombas todas as noites, meu pai no mar nunca
sabíamos onde, e Imre prestes a ser mandado para longe. Rommel estava
perto, os árabes torcendo para ele travessar o canal de Suez e ocupar
Israel. Nenhum árabe entrou para o exército para ajudar os judeus.
Eu fiquei grávida do Peter e logo Imre recebeu a movement order, ordem de
transferência, para ser mandado para longe. Eu estava esperando meu filho
para fins de fevereiro de 1943 e por isso eles ainda não o haviam mandado
embora. Nós esperamos até o começo de março e o Peter não tinha
nascido ainda. Imre se foi e eu fiquei sozinha por muitos anos. Peter
nasceu em março, mas o pai dele já estava longe, em Cingapura, no 14º
Hospital Geral, mas nós não sabíamos onde ele estava. Era segredo e
somente muito mais tarde ele nos contaria que as cartas eram censuradas,
tinham de ser entregues abertas e escritas em inglês.
XXX – Peter
Peter nasceu em 14 de março de 1943, 10 dias depois que Imre foi embora.
Um parto difícil, de 24 horas, com fórceps e sozinha. Minha mãe veio ao
hospital e ficou chorando perto da minha cama, que horror!
– Coitada da minha filha, porque as mulheres precisam sofrer tanto?
Eu pedi ao médico que mandasse minha mãe embora para longe! Tive uma
infecção e febre alta, e fui uma das primeiras pessoas do mundo a receber
penicilina depois de Winston Churchill, que a tomou por causa de uma
pneumonia. O antibiótico, que ainda era segredo e somente o exército
inglês tinha algumas ampolas, salvou minha vida. Voltei para casa com um
filho recém-nascido. Graças a Deus, Peter era grande (mais de 9 meses), eu
tinha leite suficiente graças a uma instituição que eu nunca vou esquecer,
que se chamava tipat chalav... uma gota de leite.
Em cada bairro as enfermeiras e médicos dedicavam 24 horas aos
recém-nascidos. Davam conselhos, pesavam as crianças, se uma mãe ficasse
doente eles vinham visitá-la. Tudo de graça, com muito amor e muita
competência. Eu confiei o Peter 100% às mãos e aos conselhos deles. Eles
até me aconselharam a deixar o Peter dormir no carrinho à noite para não
precisar acordá-lo em caso de ataque aéreo e levar ele dormindo ao abrigo.
Assim Peter quase nunca saberia das bombas. Será que essas enfermeiras
existem ainda? Gostaria de saber.
Um dia um juiz veio à minha casa dizendo que era preciso abandonar o
apartamento em 24 horas. O prédio havia sido alugado, por mim e outras
pessoas, de um árabe muito rico, mas eu soube somente naquele dia que ele
não era dono de nada!! A propriedade era alemã e estava agora nas mãos dos
administradores ingleses, e ninguém tinha direito de ocupar essas
propriedades. E agora? Minha mãe alegou que não havia lugar para nós, mas
se ofereceu para ficar temporariamente com o cachorro. Ela achou uma
pensão para crianças pequenas muito boa no monte Carmel. Era muito caro,
todo salário que eu recebia do exército! Mas não tive outra saída. Peter
foi para lá e eu fui morar num hotel muito barato que era ocupado quase
que exclusivamente por prostitutas.
A Edith também morava lá, era o mais barato que existia na Kingsway, perto
do porto e sujeito ao bombardeiros constantes. Assim, eu ia procurar
emprego de dia e, de noite, visitar o Peter. Mas era impossível. Decidi de
sair da cidade e procurar um quarto numa cidade pequena, Naharia. Era
difícil achar lugar para alguém com um bebê e um cachorro bravio. Achei,
mas não falei do cachorro para os donos. Assim, me mudei com Peter para
Naharia.
XXXI – Sem ter para onde ir – de novo
Mais uma vez aprendi que males podem se tornar coisas muito melhores
depois que o vendaval passar. Em Naharia, achei um quarto na casa de uma
família, junto com o Peter e a Daisy. Eles permitiram também que eu usasse
a cozinha de vez em quando. Eles tiveram duas meninas gêmeas e em pouco
tempo fizemos uma amizade que seria duradoura.
As meninas adoravam o Peter. Elas comiam muito mal e o Peter, que estava
sempre com fome, foi um bom exemplo para elas, que às vezes escondiam a
comida na boca dele e ele adorava.
Eles me apresentaram a um vizinho médico que continuou me ajudando, como
as enfermeiras faziam em Haifa. Ele tinha um filho pequeno mas a mulher
dele não tinha leite. Eu dei leite para o menino e assim Peter e o menino
tornaram-se irmãos de peito. O médico era o irmão do famoso compositor
Weil, que fez a música para as obras de Brecht, a ópera dos Vinténs e
muitas outras. Depois que a guerra terminou ele vinha muitas vezes visitar
o irmão e nós nos conhecemos e o Berthold Brecht também.
Meu pai estava em Tobruk e Rommel, a ponto de invadir Israel. Meu pai nos
contou depois como ele ajudou os ingleses a decifrar os códigos dos navios
alemães. Ele usou a tática parecida com a utilizada para decifrar os
hieróglifos. Se um navio inimigo mandava uma mensagem era praxe perguntar:
você entendeu? Se a resposta fosse afirmativa, ele não repetia a mensagem;
se a resposta fosse ‘negativo’ ele repetia. Então ele já sabia as letras
de Ja (sim) e Nein (não) e assim por diante. Isto na época quando não
existia computador era muito valioso, e muitas rotas dos navios inimigos
foram descobertas.
Meu marido serviu ainda na famosa Burma road com o forgotten army,
exército esquecido, As cartas eram poucas e a gente sempre teve medo de
abrir o envelope com a temida mensagem, we regrett to inform you,
lamentamos informar... Os envelopes eram todos iguais, com o remetente HMS,
his majesty service, nada mais. O Peter tinha na mesa de cabeceira
a
foto do pai dele de uniforme. Toda noite, quando ia dormir, ele dava um
beijo na foto, mas ele não tinha a mínima idéia o que significava ABA,
papai. Quando andávamos na rua e ele via um soldado inglês com o mesmo
quepe do pai dele, ele o abraçava e dizia Aba! Os soldados ficavam sempre
emocionados, pois eles também haviam deixado os filhos em casa, longe de
lá.
Na praia havia um restaurante muito freqüentado pelos soldados. Os donos
adoravam o Peter, que sempre se sentava no colo de um soldado ou oficial e
eles compravam-lhe sorvete ou chocolate. Os donos chamavam o Peter de
garoto-propaganda deles. Muitos anos depois nós nos encontramos outra vez,
em São Paulo.
Um dia antes do ano novo cristão, chegou um navio cheio de imigrantes. O
prefeito nos avisou que o barco ia ancorar alguns metros longe da praia e
cada um de nós teria uma tarefa. A nós coube convidar alguns oficiais para
jantar no dia 31. A prefeitura providenciou tudo e muito uísque escocês
para deixar eles bem bêbados e com muito sono. Os donos do restaurante
deviam receber os passageiros molhados e trocar a roupa deles, e depois
haveria o ônibus já à espera para levar todos para um Kibutz ali perto.
Tudo ocorreu otimamente bem, todo mundo estava salvo no dia seguinte, 1o
de janeiro, nenhum inglês na rua, todos dormindo e o barco vazio,
abandonado, na frente de nariz deles. Mas novamente nós subestimamos o
serviço secreto dos ingleses: o alto comando das tropas em Naharia era
chefiado por um judeu!! Ele sabia de tudo. Além disso, tive muitos amigos
ingleses em Naharia que eram operadores de rádio. Eu não imaginava e nem
ninguém que eles seriam os primeiros operadores de radar do mundo. Em
Naharia funcionava o aparelho número 1. Eles sabiam bem antes de nós da
chegada do navio ou de qualquer outro navio ou avião. Mas também era
segredo de estado.
Tanta coisa nova durante a guerra! Penicilina, inseticida DDT, radar e no
fim a bomba atômica. Houve um começo epidemia de peste bubônica em Haifa,
que foi erradicada com DDT com a matança em massa dos ratos no porto.
Muitos outros navios chegaram e foram todos capturados, e os imigrantes
”ilegais” mandados para a ilha de Chipre. A comida em Naharia era mais
fácil de obter, quase tudo mundo tinha uma horta com verduras e frutas. Eu
recebia através do exército inglês pacotes da NAAF, Navy Army Airforce
shop, loja de suprimentos da Marinha, Exército e Força Aérea. Recebia
cigarros de primeira qualidade, uísque escocês etc. Eu não bebo e não fumo
e podia trocar essas preciosidades por comida, ovos, manteiga etc. Rommel
já estava no outro lado do canal do Suez e os árabes estavam festejando.
Eles não sabiam que caso os alemães vencessem, os árabes, que são semitas,
seriam portanto considerados uma raça inferior!! Mas a propaganda é a alma
do negócio. Aconteceu a invasão dos aliados em todas as fronteiras na
Europa e no dia 9 de maio a Alemanha se rendeu, incondicionalmente!!! FIM,
mas não para nós. o Imre estava lutando contra os japoneses e ainda havia
muita luta pela frente. Meu pai voltou, se aposentou e comprou o que era o
grande sonho dele, a Shipchandler shop na Palmers gate, em Haifa. Assim
ele podia estar em contato com a Marinha sem precisar viajar.
O casal onde eu morava precisou do meu quarto porque os parentes deles da
Europa estavam chegando. Outra vez sem onde ir.
XXXII – Numa casa de família
Cada vez que eu era forçada a me mudar eu ficava pensando no meu amigo em
Viena que disse: amigos que a gente acha mais tarde na vida não são
necessariamente menos valiosos. Os donos da casa me ajudaram a procurar
outra moradia para mim, conheciam todo mundo, foram uns dos fundadores da
pequena cidade. Assim, achamos um lugar para nós três. Desta vez, muito
luxo! Dois quartos conjugados, um quarto com fogão (de petróleo), mas eu
chamava isto quarto-cozinha. Num outro quarto uma moça também com um
filho, sozinha e, em outro, um casal com um cão da raça boxer.
O dono da casa adorava o Peter. Deu para ele um carrinho feito de uma
caixa de charutos com quatro rodas e um barbante para puxar. Depois o
carrinho perdeu as rodas, mas mesmo assim Peter puxava-o para todos os
lugares e dormia com ele.
Havia um problema. O dono da casa criava coelhos e a cada noite sumiam
alguns, que eram achados mortos em local afastado. O dono disse para mim
que só podia ser a Daisy, porque antes da minha chegada isso nunca havia
acontecido. Eu pedi a ele para construir uma casa mais alta, com pés, e
colocar um trinco. Cachorro não pode abrir trinco. Ele fez isso, MAS os
coelhos continuaram sumindo. Eu disse:
– Então a Daisy é inocente, pois é impossível que ela abra o trinco.
Mas ele insistiu que antes nunca tinha acontecido coisa parecida, nunca
era preciso trancar nada, até que um dia ele me chamou:
– Helga, venha comigo.
Era cinco ou seis horas de madrugada. O Peter havia levantado da cama e
levado a Daisy até os coelhos. Abriu o trinco para ela para ela se
servir!! Peter tinha dois anos de idade.
Na praia, a Daisy tomava conta do Peter. Quando eu entrava no mar, eu
colocava o Peter longe da água e a Daisy não deixava ele se levantar ou se
mexer do lugar, uma perfeita babá (ou melhor ainda). Eu me lembro também
de um episódio na praia que me tocou profundamente. Eu sempre levava o
Peter à praia de bicicleta e ele sentava numa cesta na frente, a Daisy
correndo atrás.
Um dia, na praia, eu pulava dentro da água quando eu senti que o único
botão que segurava a parte do sutiã do meu biquíni se soltou. A praia
estava cheia de soldados ingleses e eu fiquei numa situação muito
embaraçosa. Com uma mão segurava o sutiã, mas como ia levantar o Peter,
colocá-lo na bicicleta, e levar para casa tudo com uma só mão? Eu estava
esperando ver um monte de soldados dando risadas e se divertindo com a
situação. Mas outra vez subestimei os ingleses. Um jovem soldado se
aproximou, se abaixou, tirou o cadarço do sapato dele e, com muita
delicadeza, amarrou meu sutiã atrás. Isto me lembra da Ordem de Garter, a
ordem máxima que a rainha francesa conferiu a um oficial numa situação
parecida. Quando o oficial se abaixou para ajudar segurar a meia da rainha
sem lhe dirigir o olhar, ela disse: honni soi qui mal y pense! E deu o
Ordem máxima para o soldado (seja com vergonha o que pensa mal). Estas são
coisas que faz um exército ser respeitado, ao contrário do exército
vermelho, quando os soldados russos seqüestraram e violentaram as
mulheres.
A moça que morava no mesmo apartamento que eu também tinha um filho
pequeno, o pai do menino era um soldado inglês e não sabia que o menino
existia. A Frau Pauker não quis que ele soubesse. Ela serviu no exército e
quis ter um filho, mas com a responsabilidade somente dela! Uma mulher
muito corajosa, que eu espero ter conseguido criar o filho.
Nós dividíamos as tarefas. Eu trabalhava de dia dando aulas de ginástica
na escola local e ela tomava conta das crianças. De noite ela limpava
escolas e eu tomava conta dos dois. Não era fácil, mas nós não sentimos
que era tanto assim. Claro, não existia máquina de lavar, nem gás de
cozinha, mas as crianças sempre estavam limpas e bem alimentadas e, acho,
felizes também. Claro, o pai fazia falta, mas muitas crianças estavam na
mesma situação. Mas a maioria já começava a voltar da guerra, da Itália,
do Egito etc., mas Imre ainda estava longe.
(29 de março/2003)
CooJornal
no 308
Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br
|