05/04/2003
Número - 309



 
Helga Szmuk




CORAGEM DO COMANDANTE ROTH
IMRE E PETER, DIÁLOGO DIFÍCIL


 

XXXIII – Coragem do comandante Roth

Agora meus pais vinham nos visitar a cada fim de semana. Chegavam sexta-feira e ficavam até sábado à noite. Peter ganhava muitos presentes além do amor dos avós, que compensava a falta do pai. Um cavalo de madeira que nós batizamos de Diógenes e o famoso “galgal”, que somente Peter sabia o que significava!!! Uma simples roda de madeira! Mas era o mundo. Esta roda era o volante de direção de um carro, o manche de um avião, a roda do leme de um navio. Com ela Peter percorria o mundo inteiro com a fantasia dele. Muitas vezes penso nisso quando vejo os filhos dele com milhares de brinquedos caríssimos, mas sem precisar usar a fantasia. Mas os tempos são outros. Os filhos dele sabem os segredos do computador, também um mundo enorme.

Meu pai, que era muito conhecido por todo mundo, entrava e saía do porto com um simples aceno da mão sem precisar mostrar documentos. Chipre estava cheio de imigrantes ilegais sem perspetiva de ir para Erez, em Israel, num futuro próximo. Apesar da Declaração de Balfour já existir. A promessa de um lar. Mas meu pai fez viagens diárias para Chipre com alguns empregados do porto. Chegando na ilha ele emprestou as documentos dele e dos seus empregados para os prisioneiros. Na volta meu pai passava pela entrada do porto com um simples Good morning e eles respondiam com um Good morning, capitain Roth, sem que ele precisasse mostrar documentos. Assim, centenas de judeus foram “trocados” e trazidos para a liberdade, mas ele também fez a mesma coisa com crianças. Crianças nascidas em Israel, portanto com todos os direitos de cidadãos, foram para Chipre (que coragem dos pais deles!), trocaram os documentos com outras crianças e ficaram na ilha. Depois eles começaram a chorar (foi tudo ensinado e repetido antes):
– Deixaram-nos aqui! Nossos pais nos esqueceram aqui!

Eles não falavam outra língua senão o hebraico, então era óbvio que eram sabres (o nome de pessoa nascida em Israel). Claro que sempre havia um adulto acompanhando tudo. É fantástico como a união de pessoas pode superar coisas quase impossíveis. As mães estavam esperando no Palmers gate chorando (lágrimas de crocodilo):
– Meu Janquele! Meu Izhaquele! Deixaram você na ilha! O barco foi embora sem esperar para vocês!

Claro o barco era todo tripulado por judeus e um dos oficiais ficava com as crianças.
A pessoa mais importante da minha vida nesses tempos foi ... O CARTEIRO. A gente esperava 24 horas para ele aparecer. Se passasse pela frente da casa sem parar, de um lado uma grande decepção, de outro um grande alívio pelo medo dessa carta que ninguém tinha coragem de admitir e pronunciar: we regret to inform you...  até a Daisy esperava por ele, junto com o grande inimigo dela, o boxer de nossa vizinha. Os dois se odiavam, mas quando o carteiro vinha eles se juntavam para fazer um escândalo. É exatamente como os homens: um inimigo comum faz eles se entenderem.

Cartas, a vida se desenvolvia através das cartas. Uma longa espera e algumas palavras curtas; “estou bem, estou com saudade de vocês, espero que tudo acabe logo”. Mas estes palavras foram tão importantes!!! Mais tarde Imre me contou que ele também esperava ansiosamente as cartas, eu falava para ele de cada dente que nascia na boca do Peter, cada passo que ele dava, mas ele não recebeu minhas cartas por muito tempo. Até que um dia ele se deitou na cama e o companheiro do quarto, um médico, estava lendo as cartas dele. Imre percebeu que a letra lhe era familiar. As cartas eram escritas por MIM! Como era possível? O colega dele contou que estava recebendo já algum tempo cartas de alguém, falando do filho deles (ele não tinha filhos). Então eles desvendaram o mistério. Imre era o Capt. Szmuk 14th GH (general hospital); o outro era o filho do general Smuts, Capt. Smuts 17th GH. Meu ‘4’ era parecido com ‘7’, e por isso ele recebia minhas cartas. E, por coincidência, ambos se encontravam num acampamento na Burma road, no fim do mundo, o Forgotten army!!


XXXIV – Quase acabou

Finalmente, a grande notícia. Os americanos usaram a bomba atômica! Isto significava o fim do sofrimento e salvamento de milhares de ingleses e americanos. Outra vez a grande e triste verdade: melhor um fim assustador do que um susto sem fim. Para nós era a salvação. Meu marido depois me contou como os japoneses eram cruéis. O hospital, com uma grande cruz vermelha no telhado, foi bombardeado. Meu pai navegava num comboio e na frente dele um navio da Cruz Vermelha foi afundado. A gente precisa saber dos detalhes antes de julgar.

Para nós era o fim de perigo iminente, mas não o fim da separação. Por causa da crueldade e do tratamento desumano dos japoneses aos prisioneiros de guerra, havia muitos feridos e doentes ainda nos hospitais, e demorou ainda um ano até que ele finalmente pudesse regressar.

Imre escreveu que estava a caminho de casa. A data foi esperada durante quatro anos e meio. Peter vestiu a seu roupa nova especialmente guardada para este momento, o de quando ele fosse conhecer o pai. Eu tinha certeza que ele ia reconhecê-lo logo, eu sempre lhe mostrava as fotos dele, contava tudo o que estava nas cartas. Nós fomos juntos com meu pai até à estação de trem em Haifa. Minha mãe preparou o almoço em casa.

O trem de Suez chegou! Muitos soldados saíram, nós olhamos para todos os lados, esperamos até o último soldado descer e...nada! Que decepção! Nesta época o telefone funcionava precariamente e celular não existia nem na mais fértil imaginação! Fomos para a casa dos meus pais cabisbaixos, sem poder explicar para o Peter o que havia acontecido. Minha mãe abriu a porta com um sorriso grande e perguntou onde estava Imre. Ninguém sabia. O almoço, sem uma palavra, quase não desceu pela goela de ninguém. De repente, de tarde, às 5 horas, a campainha tocou. Imre chegou!! Nesta época o telefone internacional ainda não estava restabelecido, pois durante a guerra tinha sido cortado por razões de segurança nacional.

O que havia acontecido? Outra vez, na situação mais séria e triste, a decepção de todos nós e especialmente do Peter teve uma explicação engraçada, quase tragicômica.

Em Suez, antes do embarque no trem, a inspeção era muito rigorosa. Os ingleses temiam atentados dos dois lados, dos judeus e dos árabes. Os judeus, que cobravam agora o cumprimento da Declaração de Balfour e os árabes, porque não queriam um Estado de Israel. Mas os árabes eram donos do petróleo!

Imre comprou para o Peter um pequeno carro feito de lata que tinha uma corda tipo mola e uma chave de dar corda. Parece que Imre brincava com este carrinho antes de colocar na caixa e quando os oficiais da alfândega a abriram, a corda se liberou e, com um barulho enorme, ligou o motorzinho de brinquedo. Imre contou que nesse instante os árabes se esconderam em baixo da mesa, pularam pela janela, saíram correndo! Os heróis perderam a compostura...Com toda esta confusão, o trem partiu e o próximo sairia dali a algumas horas mais tarde somente.


XXXV – Imre e Peter, diálogo difícil

O grande problema foi que Peter e Imre não tinham uma língua comum. Peter falava alemão comigo e com os avós dele e iwrit com as crianças vizinhas e no jardim de infância. Ele era uma criança muito inteligente e sabia sempre com quem falar em que língua, nunca errou. Meu pai sempre se enganava, utilizava a língua errada: com os árabes falava húngaro, comigo árabe etc. Ele me chamava em alemão DER Helga, o que é masculino, e meu irmão DIE Paul, feminino. Mas o Peter, nunca.

Imre falava húngaro (mal) e agora há muitos anos falava somente inglês. Ele tinha 18 anos quando saiu da Hungria e nunca mais voltou. O irmão dele, Laci, a mesma coisa. Eles vieram para Israel no mesmo navio, os dois entraram para o exército e de repente se encontraram em Cingapura, mera coincidência. Laci voltou bem antes que Imre e gostava muito do Peter. Era um segundo pai para ele. Depois de muitas histórias para contar, fomos para Naharia. Minha mãe chorou! É interessante, ela que nunca foi capaz de mostrar afeto por nós, agora adorava o Peter. Ele gostava muito de ficar uns dias no monte Carmel com eles e podia fazer o que quiser, sem limites ou restrições. Logo minha mãe, que sempre nos reprimiu por causa de desordem, até fomos castigados duramente e humilhados. Peter podia tirar os livros do estante, jogá-los no chão, tirar tudo das gavetas, e minha mãe achava graça.

Porque teria ela mudado tanto....Eu perguntei e ela disse que agora ela não tinha mais responsabilidade. Mas eu acho não era essa a razão. Ela nunca sentiu responsabilidade conosco, sempre estivemos nas mãos de empregadas e babás, que por sinal foram ótimas, gostávamos muito delas e elas de nós. Eu acho simplesmente que ela era uma mulher extremamente infeliz no casamento, apesar de meu pai ter feito tudo para agradá-la, até renunciar ao mar. Mas mesmo assim ela nunca estava satisfeita

Em Naharia, cometemos o primeiro grande erro. Peter sempre dormiu comigo no mesmo quarto, ele não me largava um momento. Quando eu ia ao banheiro ele batia na porta com força para poder entrar e agora, de repente, Imre estava ansioso por ficar sozinho comigo. Peter foi transferido para o outro quarto. Eu nunca vou esquecer o choro desesperado dele a noite toda. Então começou o ciúme entre os dois. Imre tinha ciúmes dele, que ficou para sempre.

Em Naharia não era possível trabalhar e nós voltamos para Haifa. A Edith estava feliz, também morava em Haifa e estava grávida. O Joco também estava ausente (no Oriente Médio, em Aberdan). Alugamos um apartamento com consultório na cidade e o Laci foi morr conosco. A Edith trabalhava com um veterinário amigo de meus pais. Eu me lembro quando eles “fabricavam” vitamina A e a Edith usava o grampo do cabelo dela para empurrar a massa dentro do frasco.

Imre começou com o consultório dele. Muitos clientes árabes e judeus. Às vezes, de noite, ele precisava ir a um bairro de árabes que era muito perigoso, mas eles foram buscá-lo e cuidavam dele. Os Moraot estavam outra vez em andamento, tiros de ambos os lados. Uma vez Imre estava olhando para fora, na janela, e uma bala quase o atingiu.

No mesmo prédio morava um casal com o nome de Moscovits. O dia todo as pessoas traziam material (fezes e urina) para exame. Um dia um sujeito veio com um pacote e disse que era para os Moscovits. Eu pensei que nosso vizinho não estava em casa e disse:
– ”Eu entrego”.

De noite desci à casa deles e entreguei o pacote. Ele abriu-o e que surpresa: cheio de “matéria” para exame, com um cheiro insuportável.

Parecia inacreditável. Nós três juntos, com Laci e meus pais na mesma cidade. Há quanto tempo isso não acontecia? Mas não seria para durar muito. Quase todos os dias uma bomba explodia perto do porto, jogadas pelos judeus e pelos árabes, de noite, a partir das oito horas, havia toque de recolher, ninguém podia sair na rua. O Shipchandlershop do meu pai ficava perto da entrada do porto e o vidro rachava semanalmente por causa das explosões. O seguro não quis mais pagar o conserto. Mas fora isso, tudo em perfeita “paz”. Até que um dia, em marco 1948, na nossa caixa de correio havia uma carta, desta vez do Estado de Israel: uma convocação para dentro de 72 horas servir no Hagana, o exército israelense.



(05 de abril/2003)
CooJornal no 309


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br