12/04/2003
Número - 310



 
Helga Szmuk




VIAGEM ATRIBULADA
IVAN

 

XXXVI – Viagem atribulada

Edith foi a Budapeste visitar os pais dela, mas pediu ao Joco para não ir, porque eles não os deixariam sair da Hungria. Mas com Joco em Israel eles não poderiam separar as famílias. Porém o Joco não agüentou e foi. Nós pensamos que já déramos nossa parte para a guerra e para tudo, e agora chega!! Mas o que se pode fazer? Imre não sabia nada da família dele, as cartas eram muito difíceis de chegar. Então decidimos ir à Hungria por duas ou três semanas até tudo se acalmar em Israel e depois voltar à nossa vida em Haifa. Mas Imre não podia mais sair legalmente, ele precisava se alistar. Então Imre foi honorably discharged from the British army, dispensado com honra do exército britânico e recebeu o posto de major. Com este documento nós fomos num caminhão do exército inglês até o aeroporto de Lud e embarcamos no primeiro avião para Chipre, Roma, Praga e finalmente Budapeste.

O avião era um pequeno Dakota (versão militar do Douglas DC-3) do exército, de dois motores a pistão, que viajava somente durante o dia. Paramos em Chipre, dormimos, e o piloto disse que ele estava se sentindo mal, com dor no braço e não podia continuar. Mas Imre comprou remédio para ele e no dia seguinte fomos para Roma, com escala em Atenas. Peter gostou da viagem, fez amizade com crianças da África do Sul, mas eu não estava gostando nada disso. O pequeno avião sacudia com cada sopro de vento e a viagem até Atenas, em vez de seis horas, demorou 10, pois pegamos forte vento de proa!! Mais uma noite e depois, para Roma.

Depois que pousamos, eles avisaram que o avião não seguiria mais para Praga porque tinha havido uma revolução na Checoslováquia e os comunistas estavam no poder! Esta era a minha terceira ou quarta revolução (mas não a última). E agora? Nós não tínhamos visto para a Itália. A bordo havia um casal com um menino de alguns meses na mesma situação que nós. Outra vez aconteceu que começamos uma amizade que durou até à morte dela há pouco tempo atrás.

As autoridades permitiram às mulheres e crianças ir para um hotel em Roma. A companhia pagou tudo, mas os homens ficaram retidos no aeroporto (Csampina). Decidimos, eu e Eva – que conheci no vôo – ficar no mesmo quarto com as crianças. Não falávamos uma palavra de italiano e assim começou nossa amizade.
Ligamos para o aeroporto e uma voz respondeu:
– Pronto?

Eva disse:
– Não, Csampina!

E assim foi, três ou quatro vezes, até aprendermos o que significava “PRONTO”.

Colocamos cobertores no chão para as crianças dormirem. Depois o gerente do hotel nos disse que ele pensou que essa gente nunca tinha dormido numa cama!! Na porta havia campainhas com os ideogramas de garçom para bebida, outro para limpeza do quarto etc. O Peter apertou todos de uma vez e seis empregados apareceram. Mas o Peter adorou a brincadeira.


XXXVII – Vida em Budapeste


A situação em Praga não mudou e parecia que nosso avião não ia mesmo continuar a viagem. Eles tinham medo que o governo comunista na Checoslováquia confiscasse o avião (e com toda razão). Os homens receberam visto para três semanas. Então, o que fazer agora? Meu pai ligou e disse para não continuarmos a viagem porque o Joco foi retido e não podia mais sair, exatamente como a Edith falou! Mas Imre estava ansioso em ver o que restou da família. Um irmão desapareceu logo no término da guerra, ninguém sabia como.

Nós saímos de Israel com salvo-conduto inglês e ninguém poderia nos reter na Hungria. Eva chorava o tempo todo; só queria ver o bonde amarelo em Budapeste mais uma vez, antes de morrer! Quantas vezes falamos depois sobre isso, que tudo era culpa da saudade dela do bonde amarelo! Os Ferenczi (Eva Gula e Tomy ) foram logo embora, de trem. Nós ficamos mais duas semanas. Imre estudou em Roma e conheceu cada canto lá. Fomos a Veneza e de lá pegamos o trem para Budapeste. Entramos na Hungria, Imre com documentos ingleses, eu e Peter com documentos palestinos. Entramos sem problema, MAS!!! Chegando em Budapeste eles avisaram que Imre nunca renunciou à cidadania húngara e portanto ele, a esposa e o filho são HÚNGAROS. Peter e eu não falamos uma única palavra em húngaro.

Fomos à casa do Nandor, irmão do Imre, casado com Ilonka e que tinha duas filhas, Flori e Silvia. Flori e Peter brigaram logo, eles não se entenderam, cada um com língua diferente. E o Peter chorou o tempo todo. Nós chegamos no dia 14 de março, dia do aniversario do Peter, 5 anos, mas 15 de marco é feriado nacional e todas as casas ostentavam a bandeira nacional. Peter estava certo de que era por causa do aniversário dele.

Um mês depois, no dia 17 de abril, as Nações Unidas declararam a independência do Estado de Israel. Meus pais estavam muito felizes e todo mundo festejou. Eu fiquei muito triste por precisar ficar lá, mas Imre não se importava, pois ele logo começou a trabalhar depois de revalidar o diploma dele pela segunda vez. A primeira, antes de entrar para o exército inglês, e agora na Hungria, porque o diploma dele era italiano. Mas essa não seria a última vez!

Procuramos um apartamento para alugar e eu fiquei grávida do Ivan. Nós chegamos à Hungria com uma pequena maleta de mão, nunca pensamos que íamos ficar oito longos anos. Meu pai mandou nossas roupas e outras coisas e disse para eu ir à companhia de navegação e perguntar se havia alguém que conhecesse o comandante Roth, para me ajudar a liberar a bagagem. De repente, o diretor da Maszovlet saiu da sala, dele olhou para mim e perguntou:
– Você é filha dele?

Falei que sim e ele me abraçou, beijou e chorou. Foi ele que me contou sobre o casamento de meus pais, que foi ele que tinha tomado conta do navio do meu pai enquanto ele ia se casar. Ele falou que ele teve tanta pena da minha mãe e sempre quis saber o que havia acontecido com ela e com o meu pai. Esses encontros são típicos de famílias de marinheiros, mas não deixam ser muito emocionantes cada vez que ocorrem.


XXXVIII – Ivan

Ivan nasceu no dia 24 de outubro de 1949 e Imre estava fora, mesmo que agora ele estivesse perto do filho que nasceu. Eu também fui sozinha para o hospital, deixando o Peter com vizinhos. O Peter foi ao cinema com eles e viu um filme em que o herói chamava-se Ivan. Ele então pediu que o irmão dele se chamasse Ivan e o outro nome Nandor, nome do irmão do Imre que desapareceu. Nós sempre falamos do futuro irmão ou irmã para ele. Nesta época não se sabia o sexo da criança na gravidez.

No meu quarto havia uma mulher que tinha perdido um filho num campo de concentração e agora havia dado a luz a outro. Ela estava muito feliz e a família dela também. Mas infelizmente dois meses depois ela morreu. Ela tinha câncer de mama e, contra os conselhos dos médicos, ficara grávida.

Logo, logo o irmão de Imre, Andor, dono da fábrica de peles que era dos pais deles, de um dia para outro não era mais dono. E um ex-empregado, que não entendia nada do negócio, se tornou diretor, e a fábrica foi estatizada, como muitas outras. Claro que em pouco tempo estava falida, completamente arruinada. Nós alugamos um apartamento perto do hospital onde Imre trabalhava e onde Edith também, no laboratório. Ela morava em frente.

Pouco tempo depois nos mudamos para Matiasfold. Imre tinha um colega médico, e a esposa também médica, que tinham o mesmo problema: dois filhos numa cidade sem possibilidade de brincarem ao ar livre. Eles decidiram alugarmos uma casa juntos. A casa pertencia a uma família rica e os comunistas não permitiram que eles morassem numa casa de luxo sozinhos. Construímos mais um banheiro e cozinha e nos mudamos para lá. Imre pegava ônibus ou bonde para trabalhar, saía de manhã e voltava à noite. Eu não falava húngaro e me sentia muito infeliz. O Peter também não falava húngaro, então nós o colocamos num jardim de infância no mesmo prédio do hospital do Imre (quando nós ainda morávamos em Budapeste). Depois de um tempo perguntamos à professora se o Peter já falava algumas palavras em húngaro, ela respondeu:
– Não, mas todas as outras crianças já sabem xingar em árabe!

Peter nunca perdeu o “r” gutural do hebraico.

Muitos anos depois essa questão de língua iria nos divertir muito. Sempre achamos graça da dificuldade que temos de nos expressarmos em uma única língua. Há palavras que sei melhor em alemão, o Peter tem palavras que ele sabe melhor em húngaro ou inglês, e assim por diante.

Quando freqüentamos lugares públicos, as pessoas geralmente prestam atenção à nossa conversa estranha e procuram descobrir que língua estamos falando. Claro, nós nos aproveitamos da situação e, de farra, tentamos confundi-las mais ainda.

Uma vez, nos Estados Unidos, começamos falar em português. As pessoas logo perceberam que se tratava de uma língua latina. Mas em seguida mudamos para húngaro. A expressão de espanto e curiosidade das pessoas era muito engraçada.

Uma vez, num avião, eu estava falando em húngaro com meu marido. Um dessas pessoas curiosas perguntou finalmente:
– Desculpem-me, mas gostaria de saber de que país vocês vêm?

Meu marido respondeu:
– Do Brasil.

Ela então comentou:
– Eu sabia que vocês estavam falando uma língua latina.

Foi mesmo muito engraçado...

Os invernos eram muito duros e o material para aquecimento não era suficiente. Nós aquecíamos o quarto depois do almoço somente, quando as crianças tinham voltado da escola; de manhã, sem aquecimento; limpar a calçada da neve de madrugada, senão a prefeitura multava; era tudo muito difícil. Magdi, uma jovem que também morava na casa, me ajudava com as tarefas e muitas vezes tomava conta das crianças. Nós nos encontramos agora, na nossa visita à Hungria em 2001. Foi muito emocionante.

Eu detestava a vida sob o regime comunista. Ninguém sabia quem era amigo ou inimigo, muitas pessoas fingidas e muitos dedos-duros. Eu não sabia ler em húngaro e meu pai me mandava livros e revistas em inglês, de astronomia, de assuntos banais. Mas um dia chamaram Imre na diretoria do hospital: eles disseram que eu estava recebendo material subversivo escrito em inglês. Ninguém soube quem falou isto. Só pode ter sido algum “amigo” íntimo nosso.

Um dia fomos ao cinema com amigos. Os filmes eram todos russos, nenhum filme americano, francês ou alemão. Era uma dessas fitas tendenciosas, chatas. Na saída me perguntaram:
– Como é, gostou do filme?

Eu respondi que não gostei. Então a pessoa parou no meio da calçada e apontou para mim:
– Fascista, reacionária!

Todas as noites quase todo mundo ficava diante do rádio escutando e Europa Livre, dos Estados Unidos. Era proibido, mas todo mundo escutava. Nesta hora as ruas ficavam vazias. Um dia a professora do Peter nos contou que ela ensinava, em geografia, Europa do leste, do norte, do sul e do oeste O Peter perguntou:
– E onde fica a Europa livre?

A professora ficou sem jeito e falou:
– Esta Europa não existe.

Mas o Peter insistiu:
– Meus pais escutam todas as noites a rádio de lá.

Sorte que a professora também escutava. Nós passamos a não falar mais nada na frente dos filhos.

Minha mãe veio me visitar, mas meu pai não, pois ele era muito conhecido e não queríamos nos arriscar. Minha mãe recebeu visto para um mês. Ficamos muito felizes. Mas ela se encontrou com este senhor que era o presidente da companhia de navegação e ele era quase surdo. Eles se encontraram num lugar público e falaram muito alto contra o regime comunista. No mesmo dia a polícia veio à nossa casa e foi dado um prazo de 48 horas para minha mãe sair do país. Tudo isto me deixou muito triste e infeliz

Eu lecionava na escola e em casa também, a única coisa que eu gostava. A esposa do primo do Imre era comunista e ela nos contou, com muito orgulho, que um dia ela trocava de roupa numa piscina pública e no banheiro ao lado ouviu duas moças falando mal de Stalin. Ela entrou no banheiro, pediu-lhes a identificação e elas perderam o emprego.

A gente sempre estava insegura com os amigos, pois nunca se sabia quem era amigo ou não. Parecia que todo mundo era a favor do regime, como todo mundo era a favor do nazismo na Alemanha, e antes a favor do imperador da Áustria. Um povo que sempre serviu aos outros, sempre submisso e falso. Típico das pessoas pequenas, pisar em que está embaixo e beijar a mão de quem esta em cima.

Nós andávamos tão desconfiados que o Imre proibiu nossos filhos de brincar com os filhos da vizinha, meninos loiros com olhos azuis, típicos de nazistas, até que um dia, num sábado... vimos eles, toda a família bem vestida, indo à sinagoga! Eu os encontrei muitas vezes em Nova York, quando ia visitar meu irmão.

A Edith teve uma menina, a Edna, e o Edwin ficou conosco enquanto ela estava no hospital. Ele veio à nossa casa sozinho, com uma sacola e disse:
– Vou ganhar uma irmã e fico com vocês agora.

Ele tinha quatro anos e meio. A mãe pôs ele no ônibus em Budapeste e disse para o motorista onde deixá-lo. Depois ele aprendeu o caminho.

Mesmo assim tínhamos tempo para brincadeiras e piadas. Uma vez, no aniversário do Imre, nossos vizinhos e amigos deram para ele uma enorme estátua de Stalin. Sabiam muito bem que ele teria o maior dor de cabeça para se livrar dela. Não podia jogar no lixo porque o lixeiro iria delatá-lo; não podia colocar escondida no banheiro: se viesse alguém do hospital nos visitar, não pode encontrar um Stalin no banheiro. Só teve um jeito: numa noite escura levamos a estátua de volta num carrinho para a pessoa que tão gentilmente nos cedeu o presente. Nós a colocamos no terraço deles, de quem o problema era a partir de agora! Mas tudo nesta vida tem um fim.

Inclusive para Ivan.

O jardim era enorme, frondoso, espaçoso, desenhado, cheio de lugares para se esconder e de mistérios. O menino e a menina brincavam no jardim. Como sempre faziam durante todos aqueles anos. Quando fazia frio, entravam. Havia silêncio dentro e à volta deles. Era outono e eles eram amigos.

Da cidade ouviram-se alguns tiros. Em frente ao portão um grande e preto carro parou. O menino e a menina correram. Ivan – os pais do menino gritaram – venha! Eles então entraram juntos no carro. Até logo – disse o menino à menina, e depois se foi. A menina ficou de pé, olhando para eles. Não entendeu nada. Só começou a chorar à noite, quando os tiros pareceram mais perto, e os tanques surgiram num dos cantos do jardim.

O menino tinha ido embora. Tinha oito anos. A menina faria 10 alguns dias depois no celeiro. Não havia nenhum pão, apenas tiros – e eles estavam com medo. E nos seus sonhos Ivan sempre voltava. A jogarem Moinho. A brincarem de esconde-esconde. Juntos.

Dez anos se passaram. Veio apenas um carta. Gostaria de vê-la – escreveu Ivan. Eu também – Jutka. Esqueci o húngaro – Ivan. Desculpe, eu não – Jutka.

Então, mais 20 anos. Sem carta, sem encontro. Os sonhos também não se realizaram. Apenas na vigilante consciência o menino permanece, o que falava húngaro, o querido, o único, o amigo. O Moinho, o aperto de mão, o esconde-esconde e o arbusto de rosas campestres. Então, um telefonema da mãe dele. Ivan estava esperando por ela. Ele continuava a esperar. Por ela? Por trinta anos? Ela agora estava esperando o sétimo filho. Não sonhava mais com Ivan. Somente um breve clarão, apenas a folhagem da castanheira, apenas o grito – Ivan! – permaneciam para sempre sob as árvores do outono...


(12 de abril/2003)
CooJornal no 310


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br