18/04/2003
Número - 311
Da minha sacada:
01- Áustria de 1922 a 1938
02- Calmaria
03- Elite
04- Anschluss
05- Trauma de campainha
06- Em Israel
07- Judeus e árabes unidos
08- Remédios israelenses
09- Sem para onde ir
10- Coragem do Comte Roth
11- Viagem atribulada
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Helga Szmuk
REVOLUÇÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO
NA ÁUSTRIA, LIVRES
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XXXIX – Revolução e contra-revolução
Um dia nós acordamos com tiros!! Outra vez? Sim, outra vez. Era 23 de
outubro de 1956, véspera do aniversário do Ivan. Outra revolução! Os
húngaros se levantaram contra a ocupação russa. A grande estátua de Stalin
foi derrubada, o povo na rua, os estudantes cantando canções patrióticas e
o povo, que nós pensávamos ser todo comunista, agora estava do lado da
revolução. As pessoas queimaram os documentos do partido comunista na rua
e cada um mostrou agora a verdadeira face. Foi rápido demais. Nenhuma
resistência, os tanques foram embora. O cardeal Minszenty falava no rádio,
ele que nunca abrira a boca durante a ocupação, como também nenhum cardeal
falou durante a ocupação da Áustria. Imre Nagy foi declarado
primeiro-ministro e tudo parecia correr às mil maravilhas.
Nós não acreditamos muito nisso. Ao contrário, estávamos com medo do povo,
que era conhecido como anti-semita e submisso por centenas de anos. Fácil
e bonito demais. Mas alguns dias depois os tanques voltaram com toda
força, eles agora sabiam quem era amigo e quem era inimigo! Foi um
movimento de xadrez da primeira classe.
Não havia comida. Fila para pão, leite, até fósforos. Peter uma vez foi de
madrugada entrar numa fila para o pão e quando chegou em casa não tinha
mais quase nada. Estava com tanta fome que comeu quase tudo no caminho. Eu
não desejo que ninguém passe por isso, filho com fome.
Nós tivemos um pouco de sorte, preparamos uma festa para o aniversário do
Ivan e assim tivemos bolo, doce etc., mas tudo acabou logo. O irmão do
Imre, o Nandor, pai da Flori e Szilvia, estava numa fila de pão e um
tanque russo chegou atirando em tudo e em todos, e acertou ele. Gravemente
ferido, foi levado para o hospital onde Imre trabalhava, mas morreu. O
segundo irmão. Foi por causa dele que o Imre voltou para a Hungria. As
filhas ficaram em nossa casa porque era um pouco menos perigoso do que na
cidade onde elas moravam Muitas vezes pensei ser bom que os pais do Imre
não estivessem mais vivos, para não precisarem passar por isso. É cruel
demais. Imre ficou inconsolável.
O Lacy tinha vindo para Hungria pouco tempo depois de nós, os irmãos
sempre estavam juntos. Chegaram no mesmo navio de Israel, encontraram-se
em Cingapura e infelizmente morreram em pouco tempo, um depois do outro.
Mas ainda tinha muito tempo pela frente. O Laci não agüentou o regime
comunista, a fábrica dos pais não era mais deles, era solteiro e ficava
mais fácil atravessar a fronteira a pé. Foi para Bélgica, onde ele se
casou com uma belga e tiveram o filho Charly.
Eu nunca conheci meus sogros. Mas minha cunhada viveu muitos anos junto
com eles e se lembrava muito melhor das histórias envolvendo a família do
nossos maridos. A mãe do meu se chamava Antonia Braunstein. Em alguns
documentos consta Bronstein; em outros, Branstein.
Meu marido nasceu numa cidade bem pequena que na época pertencia à
Hungria, depois à Romênia, à Áustria, à Rússia etc. Quando no Brasil
perguntavam a ele onde havia nascido e ele dizia o nome da cidade —
Marmorossziget —, todo mundo logo perguntava:
— Em que país?
A resposta sempre foi a mesma:
— Não sei!!
A mesma coisa aconteceu com os documentos. Foram traduzidos para tantas
línguas que ninguém sabe exatamente como se pronuncia corretamente o nome
da cidade.
A mãe dele contava, e tudo mundo na família sabia, que ela tinha um irmão
(uma ovelha negra), que uma dia desapareceu. Ninguém sabia o tinha
acontecido. Muitos anos depois a família recebeu uma carta dele dizendo
que estava bem e que havia mudado de nome. Ele agora era Trotsky, Leon
Trotsky.
O resto da história tudo mundo conhece, mas muitas tragédias se sucederam
até hoje. E na Hungria ninguém disse nada sobre ele na época do ditador
Stalin, que foi o seu maior inimigo até a sua morte em 1940.
XL – Fuga em mente
Nós agora pensávamos muito em fugir. Tínhamos muito mais medo dos húngaros
do que dos russos. O cardeal Minszenty, que falou tanto durante os poucos
dias de “liberdade’’, estava agora asilado na embaixada americana, de onde
nunca mais saiu até o fim definitivo do regime comunista. Eva, com quem
nós viajamos no avião para a Hungria, passou todas as férias com a família
dela, no mesmo lugar onde nos moramos. Eles alugaram uma casa no outro
lado da rua. Nossa amizade se fortaleceu, as crianças ficaram amigas
também e o Wessel Pisti passou as férias com eles. O dono da casa onde
eles moravam era um funcionário da companhia ferroviária e ele viajava
diariamente a Viena de trem. Eva e a família, com a ajuda dele, fugiu para
Viena.
Depois nós queríamos fazer a mesma coisa, mas sem a Edith, nunca!!
Combinamos tudo até os mínimos detalhes. Iríamos passar a última noite na
casa da Edith, que morava perto da estação de trem. Depois de atravessar a
fronteira nós entregaríamos para o guia a metade de um lenço cortado ao
meio, para mostrar que chegamos bem: a minha cunhada ficaria na nossa casa
até receber a metade do lenço. Seria ela quem salvaria nossas fotos e
alguns objetos de estimação. Nós não contamos nada para o Ivan, para que
ele não dissesse nada a ninguém. O diploma do Imre e algumas poucas jóias,
o cônsul da Inglaterra levou para a casa dele e depois para Viena, para a
casa da Ruth.
Chegou o dia. Dormimos pouco e depois o homem foi nos buscar (tudo isso
custou muito dinheiro). Rasgamos o lenço e a metade ficou com a Edith. O
guia não sabia de nada disso.
XLI – Na Áustria, livres
Fomos até a estação ferroviária, que ficava perto da casa da Edith. Sem
nada, somente as crianças tinham quatro ou cinco roupas, uma em cima da
outra. Era dezembro e fazia frio. A viagem era longa, ninguém falou nada.
Pouco antes da fronteira, desembarcamos. Com o guia, fomos a uma casa de
camponeses. Eles também receberam muito dinheiro. As crianças foram dormir
cedo.
Antes da meia-noite, o guia nos acordou e fomos a pé ate à fronteira.
Nevava muito e ouvimos tiros ao longe. Um caminho sem fim através da neve
no escuro, já não me lembro quanto tempo demorou. Para nós parecia uma
eternidade. Até que enfim na nossa frente havia sinal de luzes. Eram os
militares da Áustria!! Estávamos salvos. Um dos policiais disse para o
Ivan:
– Não precisa ter medo, estamos aqui para ajudar.
Deram chocolate e leite quente para as crianças e para nós. Chegamos até
um acampamento do exército e descansamos. Então eu quis revelar ao Ivan o
que tinha acontecido. Mas a resposta dele foi:
– Eu sempre soube de tudo.
Entregamos a metade do lenço para o guia e no dia seguinte Edith e as
crianças fizeram o mesmo caminho. Chegar até Viena, de trem, nos custou
todo o resto do dinheiro que tínhamos. O dinheiro húngaro não valia nada.
Chegamos à casa da Ruth, no mesmo prédio onde eu nasci e de onde saí em
1939. Agora era dezembro de 1956.
Descansamos, dormimos, e no outro dia Edith ligou. Chegaram bem, estava na
casa de um tio do Joco, um homem muito rico, todo mundo conhecia a firma
dele, um ateliê de modas muito famoso. Mas nunca vi uma pessoa tão
pão-duro como ele. Deu para eles e as crianças roupas velhas, usadas!!
Depois nós usamos estas roupas para limpar o chão do apartamento onde nós
moramos.
Estávamos decididos a ir para os Estados Unidos. O Paul insistiu e ficamos
muito ansiosos por finalmente começar uma vida nova. A Edith e o Joco não
tinham ninguém nos EUA, então eles se inscreveram num grupo que seria
levado para lá.
Estávamos certos de que a reunião no consulado seria rápida. Mas, outra
vez, tudo foi diferente. Era a época da “caça às bruxas” nos Estados
Unidos, sob a liderança do senador Joseph R. McCarthy, do Partido
Republicano, mesma época em que Charles Chaplin foi expulso do país sob a
alegação de ser comunista e o casal judeu Julius e Ethel Rosenberg foi
condenado à morte por espionagem a favor dos russos.
Fomos ao consulado e o cônsul perguntou se nós alguma vez na vida tínhamos
sido membros do partido comunista. Imre disse sim. Claro, na Hungria não
se podia ter emprego sem ser membro do partido. Foi-nos negado o visto. Um
amigo do meu pai nos ofereceu um apartamento vazio que tinha comprado mas
ainda não havia usado. Ele comprou camas, fogão e tudo mais para nós e nos
mudamos para lá. Os outros emigrantes dormiam em acampamentos e é claro
que Edith e a família se mudaram para o nosso apartamento. Todos os amigos
deixaram os filhos conosco porque nos tínhamos todo o conforto e os pais
precisavam providenciar vistos e documentos.
Outra vez a piada do globo terrestre: não tem outro? Era difícil, mas não
impossível. Mais países ajudaram refugiados do comunismo do que do
nazismo. Estranho mas verdadeiro.
As crianças freqüentavam a escola. A Joint, uma organização judaica,
pagava por tudo. Comida em restaurante, roupa nova para as crianças e para
os adultos.
Aconteceu uma coisa muito engraçada. Muitos judeus converteram-se para o
catolicismo na Hungria, mas os católicos não ajudaram em nada. Então eles
fingiram de ser judeus para receber ajuda. Foi a primeira vez na minha
vida em que vi alguém quer ser judeu! Mas se enganaram Muitos filhos se
chamavam Júnior, e judeu nenhum chama o filho de Júnior! Também pediram de
dizer o Shema Israel e não sabiam. Essas crianças nunca acharam lugar na
sociedade. Os judeus não as queriam mais e os não-judeus não as aceitaram.
Chamavam eles de judeus. Era um conflito muito grande e muitos deles,
depois de crescidos, tornaram-se bons judeus.
A Edith e família foram embora e nós ficamos, mas meu irmão tinha certeza
de que logo o Macarthy fosse afastado, mas Imre não quis mais esperar. Com
duas crianças, estava na hora de começar uma vida nova. Meu pai escreveu
dizendo para tentarmos o Brasil, o país do futuro. Ele esteve no Brasil em
1903 com um veleiro, o Charles Dickens. Mas ele esqueceu que se passara
mais de meio século. Fomos ao consulado e já ouvimos a primeira mentira.
Imre perguntou se o diploma dele era válido no Brasil e o cônsul disse que
sim, mas não era verdade.
É fantástico como nosso “patrocinador”, o tal amigo do meu pai, nos
tratou. Além do apartamento inteiro mobiliado, ele ainda trouxe brinquedos
para as crianças. Um trem elétrico! Todas as crianças de meus amigos
ficaram brincando na chão com os sapatos pesados com que atravessaram a
fronteira a pé na neve. Ninguém tinha dinheiro para comprar outros, e
desse modo eles riscaram completamente o chão novo em folha! Edith e eu
tentamos limpar com as roupas doadas pelo tio rico do Joco, mas em vão.
Estava riscado mesmo, mas ele disse que não tinha importância, pois ia
mandar fazer novo Cascolac.
Meu pai tinha a fábrica em frente à delegacia da polícia e sempre levava
cigarros e chocolate para os presos. Minha mãe passou por muita vergonha
quando na rua os ex-presos cumprimentavam meu pai com um alto e sonoro
“Bom-dia, comandante” e faziam o mesmo das janelas da prisão. As frutos da
popularidade existem até hoje: meus amigos aqui no Brasil ainda se lembram
como éramos privilegiados em Viena.
(18 de abril/2003)
CooJornal
no 311
Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br
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