25/04/2003
Número - 312



 
Helga Szmuk




BRASIL, PAÍS DO FUTURO
SUSTO ANTES DA VIAGEM

 

XLII – Brasil, país do futuro

A Edith e família já estavam nos Estados Unidos e eles pensavam que em pouco tempo nos também estaríamos lá. Quando finalmente decidimos ir para o Brasil, quisemos comprar a passagem de navio com o dinheiro que meu pai ainda tinha em Viena e deu-o todo para nós. Era suficiente somente para a passagem de quatro pessoas classe turista numa cabina só no porão do navio. Mas quando Imre quis pagar, a companhia não aceitou o schilling da Áustria. Queriam somente dólar e agora tínhamos 48 horas para pegar o navio ou ficar mais alguns meses em Viena. Mas nós estávamos aflitos para começar nossa vida de novo, agora com dois filhos que precisavam de estudos, e rápido! Imre foi ao consulado do Brasil e contou o nosso problema. Um senhor escutou tudo e perguntou:
– O sr. se chama Szmuk?

Imre respondeu que sim. Ele disse ao Imre:
– Eu conhecia seu pai muito bem. Também sei que ele sustentou mais três estudantes judeus em Roma além dos quatro filhos dele. Não tem problema. Quanto precisa?

Meu marido não quis acreditar: Disse que era muito dinheiro (eu acho era mais ou menos 1.500 dólares). Ele tirou o talão de cheque, deu uma folha assinada e preenchida com US$ 2.000. Deu o nome e endereço dele em Viena, um hotel onde ficaria por mais alguns dias. Morava em Rio de Janeiro. Imre sabia que nos tínhamos aquele valor, só que em schilling, e aceitou. Mas Imre tinha conseguido trocar o dinheiro do meu pai e não precisava mais da ajuda daquele senhor. Quando já estava com as passagens na mão, Imre foi ao hotel para devolver o dinheiro. MAS!!! O Sr. Bodnay (ou Bodnar, não me lembro mais) já tinha saído e viajado para o Brasil. Imre então rasgou o cheque, colocou-o num envelope e deixou-o com o gerente do hotel.

Muitos anos depois o tal senhor passava na frente do Laboratório Bioclínico, na Rua Peixoto Gomide, em São Paulo, que era nosso, e viu o nome do Imre na parede. Ele entrou e viu o Imre. Meu marido não queria acreditar! Ele perguntou:
– Você recebeu o cheque de volta?

A resposta foi:
– Eu não me lembro mais, mas também não me interessa o mínimo!

Ele estava feliz que nossa família tivesse achado o lugar certo neste mundo.

Foi o pai do Imre que, sem contar para ninguém, havia custeado os estudos de alguém desconhecido, e agora foi o seu filho e a família dele que receberam de volta o seu gesto.

Não foi a primeira vez na vida que aconteceu comigo. Já no Brasil, eu herdei uma quantia pequena de uma prima na Alemanha, mas não tive vontade de viajar até lá e pedi ao meu irmão para fazer isto. Eu precisava de uma declaração do Consulado da Alemanha com minha autorização. Fui à Av. Faria Lima, no consulado, com todos meus documentos e deixei meu carro num shopping center perto. Na volta fiz algumas compras na Lojas Americanas e voltei para casa. Ao chegar, percebi que havia deixado minha sacola, com todos os documentos, no shopping center. Meu marido foi comigo lá e não acharam nada no estacionamento. Mas nas Lojas Americanas, sim: uma senhora levou a sacola para a seção de perdidos e achados. Lá estava minha sacola com todos os documentos. Eu perguntei quem foi a pessoa que entregou e me disseram que foi uma senhora de idade, mas que estava com muita pressa e não deixou o nome.

Passaram-se muitos anos, meu marido já tinha falecido e fui com alguns amigos passar o fim de ano no Paraguai, num hotel. No aeroporto, encontrei uma amiga que também havia ido e que estava acompanhada de uma amiga. Elas foram ao free shop e eu fui atrás delas. Não comprei nada, mas quando saí percebi que a amiga da minha amiga pagou a mercadoria mas deixou-a na esteira. Eu peguei-a e gritei para ela, mostrando o pacote, mas ela não me ouviu. Como eu sabia que íamos ficar no mesmo hotel, coloquei a compra na minha bolsa. Chegando ao hotel, entreguei-a para ela e conversamos. Ela disse que estava muito feliz de não ter perdido o pacote. Então eu contei para ela o que tinha acontecido comigo nas Lojas Americanas. Ela perguntou:
– Sua sacola era azul?

Falei que sim. Pois FOI ELA que a encontrou e entregou ao perdidos e achados – oito anos antes!

Outra história parecida. Um dia fui pegar meu marido no laboratório, de carro. Na Avenida Paulista começou a chover torrencialmente e um pneu do meu carro furou! O que fazer? Imre estava esperando por mim na esquina, não tinha como avisar a ele. De repente um rapaz jovem parou, desceu do carro e trocou o pneu. Eu não sabia como agradecer, mas ele não quis saber de agradecimento. Quando cheguei em casa contei para Peter a história. Ele disse:
– Já está pago. Fiz a mesma coisa hoje. Troquei o pneu de uma senhora na mesma hora, na chuva, numa outra rua.

É a pura verdade! Não sei se é coincidência ou não, mas aconteceu. Também não sei que estranha lei de compensação é esta. Mas eu acredito firmemente nela. Mas não se pode fazer favores e coisas boas para ser recompensado ou para chegar ao céu, não! Somente se for feito espontaneamente, sem pensar em receber qualquer coisa em troca.

Quando estávamos em Viena, Imre não agüentava ficar sem fazer nada, mas como não tinha licença para trabalhar, o fez de graça no hospital Allgemeine Krankenhaus. Quarenta e oito anos depois fomos com Ivan e a família dele a Viena. Ivan levou um tombo e ficou com muitas dores. Fomos sem pensar (foi uma amiga do banco que indicou) ao Allgemeine Krankenhaus. Recebemos atendimento de graça por um médico refugiado da Ucrânia.

XLIII – Susto antes da viagem

Finalmente chegou o dia de viajar outra vez. Cada vez nós pensamos que seria a última vez. Fomos de trem para Hamburgo e ficamos uma noite num pequeno hotel perto do porto para esperar o embarque no navio Claude Bernard. De noite nós jantamos no hotel e Ivan foi ao banheiro. Imre foi com ele e deixou-o lá, mostrando-lhe como voltar. Mas o tempo passou e Ivan não voltava. Ficamos preocupados e Imre foi ao banheiro para ver o que tinha acontecido. Mas o banheiro estava vazio, ninguém ocupava nenhum dos lugares. E agora? Ao nosso redor somente água e píeres. Avisamos os donos do hotel, mas eles também não acharam o Ivan. Então eles ligaram para a polícia, e a resposta foi:
– Sim, achamos um menino perambulando pelos cais e ele disse apenas o nome do navio, Claude Bernard.

Em menos de cinco minutos um carro da polícia chegou com o Ivan. Ainda um grande susto no último dia no velho continente, mas hoje lembro-me sempre da situação e vejo como é bom ensinar às crianças a confiar na polícia em vez de falar mal dela. Eu também já passei por uma situação parecida, em Viena, e foi a polícia que me devolveu para meus pais também.

O navio era muito bonito, grande, mas nós ficamos bem em baixo, com muitos refugiados espanhóis, portugueses, muitas crianças, sujeira e gritaria. Mas eis que veio um garçom com flores e nos pediu que o acompanhássemos. Ele nos levou para duas cabinas de primeira classe: meu pai havia escrito para o comandante e ele agiu imediatamente.

Ivan e Peter atravessaram o oceano Atlântico a nado! Eles entravam na piscina de manhã e saíam somente à noite! Compramos um livro para aprender português mas aprendemos o português de Portugal. “Até à vista!”, tivemos um “cão” e não “cachorro” etc. Mas não faz mal, a gente aprenderia depois, outra vez “na marra”.

Chegamos em Santos, mas antes passamos pelo Rio de Janeiro, que é um espetáculo que a gente nunca esquece na vida. A cidade mais linda do mundo! Eu já passei por muitos portos na minha vida, mas o Rio de Janeiro visto do mar é inesquecível!! Mesmo com todos os problemas de uma vida nova com dois filhos, sem falar a língua, sem conhecer uma única pessoa, não foi tirado de nós o grande prazer de ver a cidade mais bonita do mundo.


(25 de abril/2003)
CooJornal no 312


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br