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Helga Szmuk
NA NOVA TERRA
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XLIV – Na nova terra
O que íamos fazer com cinco dólares no bolso? Mas lá estavam os anjos da
guarda da HIAS, Hebrew Immigrant Aid Society, Sociedade Hebraica de
Ajuda ao Imigrante, uma organização judaica que nos recebeu e nos acalmou,
prometendo toda a ajuda que precisássemos. E assim foi. Eles nunca nos
abandonaram até nós irmos nos lugares certos para recomeçar a vida. Escola
para as crianças, até esporte na Hebraica de graça. Empréstimo de dinheiro
e tudo o que foi possível e impossível para nos ajudar. Muitas vezes fico
pensando por que somente os judeus têm a capacidade de ajudar no momento
certo, no lugar certo? Os outros com os slogans idiotas como Natal Sem
Fome, uma bobagem. Somente o Natal? Ninguém nunca deve passar fome. Claro,
meu marido até à morte nunca cobrou um centavo de um paciente que tivesse
uma carta da HIAS ou qualquer outra organização judaica, mas isto era
muito pouco em comparação como que recebemos em amor, recomendações
certas, pessoas competentes.
Fomos levados de ônibus para o Brás, a um acampamento para refugiados. Mas
a moça da HIAS nos acompanhou. Nunca mais ela nos perdeu de vista.
Mulheres e homens dormiam separados num lugar sujo e muito barulhento,
mulheres amamentando filhos, trocando fraldas e gritando. Eram pessoas do
nordeste do Brasil, da Espanha, de Portugal e também muitos judeus do
Egito. Foi o Gamal Abdel-Nasser que os expulsou, mas se eles tinham algum
dinheiro, nós não tínhamos nada.
Certo dia veio um médico para examinar todo mundo. Quando ele examinou o
Imre e reconheceu o nome dele (Imre tinha muita coisa publicado na Lancet,
famosa publicação médica), ele perguntou:
– O que você esta fazendo aqui?
Imre respondeu que não tinha outro jeito, com o diploma dele sem validade
no Brasil e sem dinheiro.
Ele disse:
– A partir de amanhã você é contratado do governo para dar aula no
Hospital das Clinicas, na seção de medicina nuclear.
O médico era o Dr. Decours, que há pouco foi homenageado pelo aniversário
de 90 anos. Mais tarde ele apresentou Imre ao dono de um laboratório
clínico que estava procurando um sócio. Obtivemos dinheiro emprestado das
organizações judaicas, mas em seis meses nós conseguimos devolver tudo.
Li num jornal que uma escola de inglês estava procurando pessoas que
falavam inglês, mas não era necessário falar português. Uma semana depois
eu já estava empregada. As crianças na escola, o Ivan na escola pública e
o Peter no Santo Américo, sem pagar nada. Eles são padres húngaros e
ajudaram o Peter até ele conseguir fazer os exames de adaptação para poder
entrar numa escola brasileira. Os padres sabiam que éramos judeus e nunca
fizeram a mínima distinção entre ele e os outros alunos. Também nunca
esqueceríamos este gesto tão generoso.
Logo alugamos um apartamento em Higienópolis e compramos móveis à
prestação. Esta foi a primeira e penúltima vez que compramos alguma coisa
à prestação. Uma amiga de uma amiga da minha mãe foi fiadora para nós.
Compramos um jogo de lençóis para cada cama. Assim, era preciso lavar e
passar no mesmo dia. Eu ia trabalhar no Yazigy de noite para poder cuidar
da casa e dos meus filhos durante o dia. Mas eu gostava imensamente disso.
Meus colegas eram ótimos amigos, aprendi muito ao lecionar lingüística, e
era um ambiente extraordinariamente bom para mim.
Até hoje não consigo ter pena das pessoas “pobres”. É pobre quem quer! Nós
não tínhamos ninguém, nenhum dinheiro, não falávamos a língua, mas nunca
fomos “pobres” ou culpamos o governo pelo nosso “fracasso”. Também não
posso perdoar outras comunidades bem ricas, igrejas etc., que dão um prato
de sopa e acham que isto é ajuda. “Não dar peixe, mas ensinar pescar!!”
A segunda e última vez que compramos à prestação foi para a pequena casa
na Vila Olímpia. Foi um empréstimo da Caixa Econômica. No começo cada
prestação era um grande sacrifício, meu salário inteiro era para pagá-las
e o salário do Imre para comer. Mas pouco tempo depois começou a grande
inflação e nossa prestação era fixa. Foi a primeira e última vez na nossa
vida que ganhamos com a inflação, mas nós já tínhamos perdido tantas vezes
tudo que eu acho tínhamos o direito de ter um lucro sem muito esforço.
Meu pai morreu em Israel e minha mãe veio morar conosco, mas também morreu
logo. Imre e Laci se foram no mesmo ano.
Tudo o que passei na vida vem-me à mente como em ondas, às vezes mais
fracas, outras mais fortes. Um dessas ondas é a que me faz lembrar dos
heróis anônimos, gente que ajuda sem nada pedir em troca.
Quando uma bomba acertou o prédio onde eu morava com a Edith em Tel-Aviv,
um soldado inglês nos salvou pela janela e nos levou para um lugar seguro.
Mas depois se emocionou com meu choro e voltou para salvar o cachorro,
ainda durante o bombardeio. O cachorro depois faria a alegria do meu
filho, que nesta época não tinha nascido ainda e eu tampouco era casada.
Eu nunca soube o nome do soldado, nunca mais o vi na minha vida. Mas isto
mostra que não todos os soldados que usam uniforme vão para a guerra
somente para matar.
Eu pessoalmente detesto uniformes, qualquer um. Tenho pavor de ver pessoas
uniformizadas, inclusive sócios de clubes defendendo as cores da camisa
etc., mas foi também um policial em Hamburgo que trouxe Ivan de volta
quando ele se perdeu no porto. Um policial alemão! Eu também tenho
preconceitos!
Uma vez fomos de navio de Santos a Manaus e paramos em Salvador, Recife,
Belém etc. Meus filhos haviam-me pedido para lhes trazer um berimbau da
Bahia. O navio fora fretado por um grupo de médicos para a realização de
um congresso flutuante (idéia do Imre e minha).
Ao chegarmos a Salvador, vimos um vendedor ambulante nos cais, como que
esperando o navio atracar. Era desses vendedores cheio de bugigangas para
vender, como correntes coloridas, braceletes, um monte de coisa.
Desembarcamos e Imre foi logo lhe dizendo que queria comprar um berimbau.
Só que ele não tinha o rústico instrumento ali, precisava buscá-lo em
casa, que ficava bem perto. Apenas não poderia fazer isso naquele momento,
disse, pois perderia o melhor movimento do dia.
Mas Imre, para não desapontar os filhos, ofereceu-se para vender a
mercadoria enquanto ele ia buscar o berimbau prometido. O homem ficou meio
desconfiado no começo, relutou, mas acabou concordando e foi até em casa.
Imre colocou então as correntes no pescoço, os braceletes no pulso e, no
meio de cestas com bugigangas, começou a vender.
Todos os passageiros conheciam Imre, tinham-no como médico sério,
pesquisador famoso, e divertiram-se a valer, cada um comprando alguma
coisa. Imre não sabia o preço de nada e cobrou três ou cinco vezes mais do
que o preço justo. Todos os médicos a bordo queriam ser fotografados junto
com Imre vendendo braceletes e correntes, e pagaram sem reclamar.
Quando o homem voltou apressado com o berimbau na mão, certamente
preocupado como seu “negócio”, quase desmaiou quando viu aquele o dinheiro
na caixinha e a mercadoria toda vendida.
Foi o único bom negócio que Imre fez na vida dele!
E teve a história dos Szmuks num bordel...
Um dia estávamos voltando de um passeio na Ilha Bela, na balsa. Como
sempre, eu fiquei na ponte de comando, com o piloto — coisa de filha de
comandante de navio... — e o Imre em outro lugar qualquer da embarcação.
Ele perguntou a um senhor se conhecia algum hotel em São Sebastião, que
prontamente lhe deu um endereço. Chegamos ao tal hotel, nos registramos e
saímos em seguida para almoçar, sem termos nos alojado de fato.
Ao voltarmos, porém, notamos que o hotel não era exatamente o que
esperávamos... Havia mulheres pelas janelas com os seios à mostra e por aí
vai. Eu disse para o Imre:
— Eu não volto mais para esse hotel! Pague a conta e vamos embora para
outro.
Imre entrou, perguntou quanto era e lhe cobraram uma hora e meia de
“diária”. Só que meu nome já estava lá, registrado direitinho!
Imre disse:
— Se os nossos filhos um dia vierem a este hotel, pelo menos saberão que
sua mãe já esteve aqui antes!!!
Nunca rimos tanto!.
(02 de maio/2003)
CooJornal
no 313
Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br
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