02/05/2003
Número - 313



 
Helga Szmuk




NA NOVA TERRA


 

XLIV – Na nova terra

O que íamos fazer com cinco dólares no bolso? Mas lá estavam os anjos da guarda da HIAS, Hebrew Immigrant Aid Society, Sociedade Hebraica de Ajuda ao Imigrante, uma organização judaica que nos recebeu e nos acalmou, prometendo toda a ajuda que precisássemos. E assim foi. Eles nunca nos abandonaram até nós irmos nos lugares certos para recomeçar a vida. Escola para as crianças, até esporte na Hebraica de graça. Empréstimo de dinheiro e tudo o que foi possível e impossível para nos ajudar. Muitas vezes fico pensando por que somente os judeus têm a capacidade de ajudar no momento certo, no lugar certo? Os outros com os slogans idiotas como Natal Sem Fome, uma bobagem. Somente o Natal? Ninguém nunca deve passar fome. Claro, meu marido até à morte nunca cobrou um centavo de um paciente que tivesse uma carta da HIAS ou qualquer outra organização judaica, mas isto era muito pouco em comparação como que recebemos em amor, recomendações certas, pessoas competentes.

Fomos levados de ônibus para o Brás, a um acampamento para refugiados. Mas a moça da HIAS nos acompanhou. Nunca mais ela nos perdeu de vista. Mulheres e homens dormiam separados num lugar sujo e muito barulhento, mulheres amamentando filhos, trocando fraldas e gritando. Eram pessoas do nordeste do Brasil, da Espanha, de Portugal e também muitos judeus do Egito. Foi o Gamal Abdel-Nasser que os expulsou, mas se eles tinham algum dinheiro, nós não tínhamos nada.

Certo dia veio um médico para examinar todo mundo. Quando ele examinou o Imre e reconheceu o nome dele (Imre tinha muita coisa publicado na Lancet, famosa publicação médica), ele perguntou:
– O que você esta fazendo aqui?

Imre respondeu que não tinha outro jeito, com o diploma dele sem validade no Brasil e sem dinheiro.

Ele disse:
– A partir de amanhã você é contratado do governo para dar aula no Hospital das Clinicas, na seção de medicina nuclear.

O médico era o Dr. Decours, que há pouco foi homenageado pelo aniversário de 90 anos. Mais tarde ele apresentou Imre ao dono de um laboratório clínico que estava procurando um sócio. Obtivemos dinheiro emprestado das organizações judaicas, mas em seis meses nós conseguimos devolver tudo.

Li num jornal que uma escola de inglês estava procurando pessoas que falavam inglês, mas não era necessário falar português. Uma semana depois eu já estava empregada. As crianças na escola, o Ivan na escola pública e o Peter no Santo Américo, sem pagar nada. Eles são padres húngaros e ajudaram o Peter até ele conseguir fazer os exames de adaptação para poder entrar numa escola brasileira. Os padres sabiam que éramos judeus e nunca fizeram a mínima distinção entre ele e os outros alunos. Também nunca esqueceríamos este gesto tão generoso.

Logo alugamos um apartamento em Higienópolis e compramos móveis à prestação. Esta foi a primeira e penúltima vez que compramos alguma coisa à prestação. Uma amiga de uma amiga da minha mãe foi fiadora para nós. Compramos um jogo de lençóis para cada cama. Assim, era preciso lavar e passar no mesmo dia. Eu ia trabalhar no Yazigy de noite para poder cuidar da casa e dos meus filhos durante o dia. Mas eu gostava imensamente disso. Meus colegas eram ótimos amigos, aprendi muito ao lecionar lingüística, e era um ambiente extraordinariamente bom para mim.
Até hoje não consigo ter pena das pessoas “pobres”. É pobre quem quer! Nós não tínhamos ninguém, nenhum dinheiro, não falávamos a língua, mas nunca fomos “pobres” ou culpamos o governo pelo nosso “fracasso”. Também não posso perdoar outras comunidades bem ricas, igrejas etc., que dão um prato de sopa e acham que isto é ajuda. “Não dar peixe, mas ensinar pescar!!”

A segunda e última vez que compramos à prestação foi para a pequena casa na Vila Olímpia. Foi um empréstimo da Caixa Econômica. No começo cada prestação era um grande sacrifício, meu salário inteiro era para pagá-las e o salário do Imre para comer. Mas pouco tempo depois começou a grande inflação e nossa prestação era fixa. Foi a primeira e última vez na nossa vida que ganhamos com a inflação, mas nós já tínhamos perdido tantas vezes tudo que eu acho tínhamos o direito de ter um lucro sem muito esforço.

Meu pai morreu em Israel e minha mãe veio morar conosco, mas também morreu logo. Imre e Laci se foram no mesmo ano.

Tudo o que passei na vida vem-me à mente como em ondas, às vezes mais fracas, outras mais fortes. Um dessas ondas é a que me faz lembrar dos heróis anônimos, gente que ajuda sem nada pedir em troca.

Quando uma bomba acertou o prédio onde eu morava com a Edith em Tel-Aviv, um soldado inglês nos salvou pela janela e nos levou para um lugar seguro. Mas depois se emocionou com meu choro e voltou para salvar o cachorro, ainda durante o bombardeio. O cachorro depois faria a alegria do meu filho, que nesta época não tinha nascido ainda e eu tampouco era casada.

Eu nunca soube o nome do soldado, nunca mais o vi na minha vida. Mas isto mostra que não todos os soldados que usam uniforme vão para a guerra somente para matar.

Eu pessoalmente detesto uniformes, qualquer um. Tenho pavor de ver pessoas uniformizadas, inclusive sócios de clubes defendendo as cores da camisa etc., mas foi também um policial em Hamburgo que trouxe Ivan de volta quando ele se perdeu no porto. Um policial alemão! Eu também tenho preconceitos!

Uma vez fomos de navio de Santos a Manaus e paramos em Salvador, Recife, Belém etc. Meus filhos haviam-me pedido para lhes trazer um berimbau da Bahia. O navio fora fretado por um grupo de médicos para a realização de um congresso flutuante (idéia do Imre e minha).

Ao chegarmos a Salvador, vimos um vendedor ambulante nos cais, como que esperando o navio atracar. Era desses vendedores cheio de bugigangas para vender, como correntes coloridas, braceletes, um monte de coisa. Desembarcamos e Imre foi logo lhe dizendo que queria comprar um berimbau. Só que ele não tinha o rústico instrumento ali, precisava buscá-lo em casa, que ficava bem perto. Apenas não poderia fazer isso naquele momento, disse, pois perderia o melhor movimento do dia.

Mas Imre, para não desapontar os filhos, ofereceu-se para vender a mercadoria enquanto ele ia buscar o berimbau prometido. O homem ficou meio desconfiado no começo, relutou, mas acabou concordando e foi até em casa. Imre colocou então as correntes no pescoço, os braceletes no pulso e, no meio de cestas com bugigangas, começou a vender.

Todos os passageiros conheciam Imre, tinham-no como médico sério, pesquisador famoso, e divertiram-se a valer, cada um comprando alguma coisa. Imre não sabia o preço de nada e cobrou três ou cinco vezes mais do que o preço justo. Todos os médicos a bordo queriam ser fotografados junto com Imre vendendo braceletes e correntes, e pagaram sem reclamar.

Quando o homem voltou apressado com o berimbau na mão, certamente preocupado como seu “negócio”, quase desmaiou quando viu aquele o dinheiro na caixinha e a mercadoria toda vendida.

Foi o único bom negócio que Imre fez na vida dele!

E teve a história dos Szmuks num bordel...

Um dia estávamos voltando de um passeio na Ilha Bela, na balsa. Como sempre, eu fiquei na ponte de comando, com o piloto — coisa de filha de comandante de navio... — e o Imre em outro lugar qualquer da embarcação. Ele perguntou a um senhor se conhecia algum hotel em São Sebastião, que prontamente lhe deu um endereço. Chegamos ao tal hotel, nos registramos e saímos em seguida para almoçar, sem termos nos alojado de fato.

Ao voltarmos, porém, notamos que o hotel não era exatamente o que esperávamos... Havia mulheres pelas janelas com os seios à mostra e por aí vai. Eu disse para o Imre:
— Eu não volto mais para esse hotel! Pague a conta e vamos embora para outro.

Imre entrou, perguntou quanto era e lhe cobraram uma hora e meia de “diária”. Só que meu nome já estava lá, registrado direitinho!

Imre disse:
— Se os nossos filhos um dia vierem a este hotel, pelo menos saberão que sua mãe já esteve aqui antes!!!

Nunca rimos tanto!.


(02 de maio/2003)
CooJornal no 313


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br