10/05/2003
Número - 314



 
Helga Szmuk




UMA HISTÓRIA ESTRANHA - OU ENGRAÇADA?


 

XLV - Uma história estranha — ou engraçada?

Minha mãe nos contou que ela tinha um tio, por parte de mãe. A família se chamava Schultz. Esse tio, quando tinha 17 anos, tirou dinheiro do cofre do pai dele, que descobriu. Na nossa família isso era uma coisa inaceitável, impossível e ninguém quis perdoá-lo. Por isso, o pai (avô da minha mãe) comprou-lhe uma passagem para a Argentina, só de ida, e ordenou-lhe que mudasse o sobrenome. Ele foi para lá e fez a troca de Schultz para Lutz.

Pouco tempo depois ele já era sócio de uma firma grande, logo comprou terras e ficou rico. Em 1903, quando minha mãe tinha 14 anos, ele a convidou para visitá-lo. Minha mãe foi sozinha de navio à Argentina (nesta época uma menina fazer uma viagem transoceânica sozinha...) e ficou um ano lá com ele.

Ela logo passou a falar, além de alemão, inglês, francês e italiano,  também espanhol. Quando ela veio ao Brasil, no primeiro dia já não tinha dificuldade em se comunicar e lia o Estado de S. Paulo todos os dias.

Depois de um ano ela teve uma briga com o tio e voltou para Viena. Ele havia deserdado minha mãe, e quando o "tio rico" veio a Viena, levaram-no para me ver patinar no gelo, imaginando que ele fosse se apaixonar por mim e mudar de idéia. Mas, nada feito.

Pouco tempo atrás, disse-me meu irmão, em Nova York:
— Você é uma péssima patinadora no gelo! Nós não herdamos NADA!...

Muitos anos depois, quando meu pai morreu, minha mãe veio para o Brasil morar conosco. Certa vez fomos ao centro e ela viu a Ótica Lutz Ferrando. Ela disse que essa era a firma do tio dela e que o Ferrando era o tal sócio dele. Ela me contou que se apaixonou perdidamente pelo Ferrando, e que essa foi uma das razões pela qual o tio mandou-a de volta.

Quando tio Schultz foi para Buenos Aires, ele quis esquecer todo o seu passado e se tornou um católico devoto mesmo sendo um ex-judeu circuncisado e um sem-escrúpulos que roubou o dinheiro do pai. Mas ele era o único ladrão da família e também o único que ficou rico. Quando ele morreu, minha tia herdou o dinheiro e foi à Argentina para recebê-lo, escapando do regime nazista em Viena. A filha dela — minha prima — casou-se com um americano e se mudou para Nova York, para perto da casa do meu irmão.

Ela nos contou várias histórias, como o tio Rudolf sempre se sentar na primeira fila da igreja e receber o corpo e a alma de Cristo. Claro, nossas duas famílias tornaram-se inimigas, minha mãe nunca mais falou com a irmã quando o tio Rudolf disse que ela é que seria a herdeira. Isso é o que sempre acontece quando o dinheiro não é ganho honestamente.

Meu tio havia ficado cego e minha tia morrera ainda jovem, de câncer da mama. Ele casou-se de novo — com todo aquele dinheiro foi fácil arranjar alguém para cuidar de um velho cego. Só que o dinheiro esvaiu-se rapidamente. Isso também é muito comum!

Mas antes disso eles passaram férias num hotel dos mais caros nos Alpes austríacos, e fomos visitá-los. Ao chegarmos, havia polícia no hotel e todos tinham de se identificar: minha tia havia perdido um anel de diamantes no apartamento, que provavelmente fora ato de um ladrão. Eu era bem pequena, não sabia o que estava acontecendo e fui até uma janela para ver a neve nas montanhas. Nisso olhei para baixo e vi no telhado em frente alguma coisa que brilhava. Era o anel dela! Ela deve tê-lo deixado cair ao se debruçar na janela.

Quando eu estava em Nova York a filha dela, minha prima, contou-me toda aquela história e me deu o anel. Ela disse:
— Ele devia ter ficado para você.1Assim, o anel está até hoje comigo e foi tudo o que sobrou de uma grande fortuna e de famílias divididas.


(10 de maio/2003)
CooJornal no 314


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br