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Helga Szmuk
UMA HISTÓRIA ESTRANHA - OU ENGRAÇADA?
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XLV - Uma história estranha — ou engraçada?
Minha mãe nos contou que ela tinha um tio, por parte de mãe. A família se
chamava Schultz. Esse tio, quando tinha 17 anos, tirou dinheiro do cofre
do pai dele, que descobriu. Na nossa família isso era uma coisa
inaceitável, impossível e ninguém quis perdoá-lo. Por isso, o pai (avô da
minha mãe) comprou-lhe uma passagem para a Argentina, só de ida, e
ordenou-lhe que mudasse o sobrenome. Ele foi para lá e fez a troca de
Schultz para Lutz.
Pouco tempo depois ele já era sócio de uma firma grande, logo comprou
terras e ficou rico. Em 1903, quando minha mãe tinha 14 anos, ele a
convidou para visitá-lo. Minha mãe foi sozinha de navio à Argentina (nesta
época uma menina fazer uma viagem transoceânica sozinha...) e ficou um ano
lá com ele.
Ela logo passou a falar, além de alemão, inglês, francês e italiano,
também espanhol. Quando ela veio ao Brasil, no primeiro dia já não tinha
dificuldade em se comunicar e lia o Estado de S. Paulo todos os dias.
Depois de um ano ela teve uma briga com o tio e voltou para Viena. Ele
havia deserdado minha mãe, e quando o "tio rico" veio a Viena, levaram-no
para me ver patinar no gelo, imaginando que ele fosse se apaixonar por mim
e mudar de idéia. Mas, nada feito.
Pouco tempo atrás, disse-me meu irmão, em Nova York:
— Você é uma péssima patinadora no gelo! Nós não herdamos NADA!...
Muitos anos depois, quando meu pai morreu, minha mãe veio para o Brasil
morar conosco. Certa vez fomos ao centro e ela viu a Ótica Lutz Ferrando.
Ela disse que essa era a firma do tio dela e que o Ferrando era o tal
sócio dele. Ela me contou que se apaixonou perdidamente pelo Ferrando, e
que essa foi uma das razões pela qual o tio mandou-a de volta.
Quando tio Schultz foi para Buenos Aires, ele quis esquecer todo o seu
passado e se tornou um católico devoto mesmo sendo um ex-judeu
circuncisado e um sem-escrúpulos que roubou o dinheiro do pai. Mas ele era
o único ladrão da família e também o único que ficou rico. Quando ele
morreu, minha tia herdou o dinheiro e foi à Argentina para recebê-lo,
escapando do regime nazista em Viena. A filha dela — minha prima —
casou-se com um americano e se mudou para Nova York, para perto da casa do
meu irmão.
Ela nos contou várias histórias, como o tio Rudolf sempre se sentar na
primeira fila da igreja e receber o corpo e a alma de Cristo. Claro,
nossas duas famílias tornaram-se inimigas, minha mãe nunca mais falou com
a irmã quando o tio Rudolf disse que ela é que seria a herdeira. Isso é o
que sempre acontece quando o dinheiro não é ganho honestamente.
Meu tio havia ficado cego e minha tia morrera ainda jovem, de câncer da
mama. Ele casou-se de novo — com todo aquele dinheiro foi fácil arranjar
alguém para cuidar de um velho cego. Só que o dinheiro esvaiu-se
rapidamente. Isso também é muito comum!
Mas antes disso eles passaram férias num hotel dos mais caros nos Alpes
austríacos, e fomos visitá-los. Ao chegarmos, havia polícia no hotel e
todos tinham de se identificar: minha tia havia perdido um anel de
diamantes no apartamento, que provavelmente fora ato de um ladrão. Eu era
bem pequena, não sabia o que estava acontecendo e fui até uma janela para
ver a neve nas montanhas. Nisso olhei para baixo e vi no telhado em frente
alguma coisa que brilhava. Era o anel dela! Ela deve tê-lo deixado cair ao
se debruçar na janela.
Quando eu estava em Nova York a filha dela, minha prima, contou-me toda
aquela história e me deu o anel. Ela disse:
— Ele devia ter ficado para você.1Assim, o anel está até hoje comigo e foi tudo o que sobrou de uma grande
fortuna e de famílias divididas.
(10 de maio/2003)
CooJornal
no 314
Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br
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