|
Helga Szmuk
COINCIDÊNCIAS
EPÍLOGO
|
|
XLVI – Coincidências
Eu, pessoalmente, não acredito muito em coincidências, mas algumas vezes
elas acontecem e jogam nossas crenças por terra. O dono do hotel no Texas
e a nossa infância nos Alpes austríacos, isto, sim, é coincidência pura,
mas outras coisas. como o encontro do comandante do navio que tomou conta
da embarcação do meu pai, não é tanto assim. Marinheiros sempre se
encontram, como se diz, mas acho também que as pessoas comunicativas fazem
mais amizades e, portanto, têm mais oportunidades de encontrar outras
pessoas em lugares “estranhos”.
Um exemplo: quando eu ia para o Guarujá semanalmente, de ônibus, nunca
tomava o ônibus para o Guarujá, mas o para Santos. A viagem é mais longa,
mais complicada, mas valia a pena. Os passageiros para o Guarujá são
paulistas, fechados, ninguém fala com ninguém. Já para Santos os
passageiros são santistas, gente de beira-mar, mais comunicativa, mais
aberta e mais interessante.
Eu adorava a travessia de balsa e numa dessas ocasiões fiz uma
interessante amizade. Uma senhora me perguntou o que podia ver no Guarujá.
Ela era esposa do comandante de um navio inglês que estava ancorado em
Santos. Convidei-a a vir à minha casa, depois peguei um táxi e a levei
para conhecer Guarujá. Poucos dias depois recebi uma carta com um convite
para viajar ao Rio de Janeiro e a Salvador, junto com meu marido, a bordo
do cargueiro.
Outra vez estava no ônibus para Santos e ao meu lado havia um senhor. Nós
conversamos e ele se apresentou: Eckermann. Eckermann? O nome para mim é
um sonho! O grande escritor alemão Goethe, meu grande ídolo, um dos
maiores expoentes da língua alemã de todos os tempos, tinha um amigo
íntimo com esse nome. Existem cartas que os dois trocaram por muitos anos
e eu adorava lê-las. Eu perguntei a este senhor, “O senhor sabe quem era
Eckermann?”. Ele respondeu que não. Depois me contou que o bisavô dele
veio da Alemanha, de uma cidade chamada Weimar. Inacreditável! Goethe
nasceu em Weimar, era ministro do Parlamento.
Eu o aconselhei a se comunicar com o Instituto Goethe, em São Paulo, ou
com o consulado da Alemanha, com os documentos dele para esclarecer tudo
aquilo. Algumas semanas depois ele me ligou: era mesmo o bisneto do grande
Eckermann. Pouco tempo depois houve uma celebração em Weimar de um
aniversário da morte de Goethe e o nosso Sr. Eckermann foi convidado, com
tudo pago, para representar a família Eckermann.
Eu não acho que essas coisas sejam coincidências, mas simplesmente vontade
de conhecer e de se comunicar para fazer novas amizades.
Uma vez tive a honra de receber na minha casa o grande John Dobson, o
inventor do famoso telescópio que tem seu nome. Depois que ele já tinha
ido embora recebi um e-mail dizendo que, numa revista de astronomia daqui,
havia um artigo de um astrônomo brasileiro que mora no Guarujá e tinha um
desses telescópios. Eu fiquei muito chateada por ele não ter podido falar
com o John pessoalmente. Mas procurei o nome dele na lista telefônica e
foi muito fácil achá-lo, pois seu sobrenome é polonês e só existia uma
pessoa com este nome na lista.
Liguei para ele e contei-lhe sobre a visita do John. Depois de poucos
minutos de conversa ele me perguntou sobre minha nacionalidade por causa
do meu sotaque forte, embora o dele também fosse. Ele disse:
– Então podemos falar em alemão!
Falamo-nos por muito tempo e ele me contou que tinha 86 anos, mas ainda
colocava o telescópio na rua para tudo mundo olhar para o universo. Bem ao
espírito de John Dobson!
Alguns dias depois disso fui ao dentista mas peguei o ônibus errado. O
motorista parou para eu descer e gentilmente indicou-me qual deveria
tomar. Fiz isso mas esqueci de descer na rua Augusta, como o motorista
havia-me falado, e desci no próximo ponto. Atrás de mim um senhor também
desceu, com um buquê de flores na mão e estava prestes a atravessar a av.
Paulista fora da faixa de pedestres. Eu agarrei ele pela manga do paletó e
falei:
– Não faça isto!!
Ele, surpreso, perguntou-me:
– Qual a sua nacionalidade?
Disse-lhe que austríaca e ele revelou que era polonês e que podíamos falar
em alemão! Dejá vu! A mesma conversa do telefone! Ele disse que não era de
São Paulo, morava no Guarujá.
Era ninguém menos que o meu amigo do telescópio Dobson!
Errei duas vezes de ônibus e me encontrei com ele. É mesmo muita
coincidência, mas ocorre que NOS FALAMOS! Sem não tivéssemos nos falado
nunca descobriríamos tudo isso.
Uma vez em Nova York fui ao Haydn Planetarium para comprar um livro. Mas a
biblioteca estava fechada, era hora de almoço. Um simpático rapaz se
ofereceu para comprá-lo para mim e deixar o livro na portaria do hotel. Eu
achei que ele estava sendo atencioso demais. Estranho, porque os
nova-iorquinos não costumam ser assim – até que ele revelou que era
astrônomo! Estava explicado, então.
Alguns anos depois, ia haver um eclipse solar sobre o Oceano Atlântico e o
Roger Tutthill fretou um avião para observá-lo. Nesses dias minha casa
sempre fica cheia de astrônomos de todo o mundo. É um hábito muito
gratificante. Eles não precisam pagar hotel e eu tenho o raro prazer de
compartilhar alguns dias com pessoas as mais inteligentes, gente que
acrescentou muito aos meus conhecimentos de astronomia.
Para esta ocasião o Roger trouxe algumas pessoas da NASA com ele – cada
um, claro, com o seu laptop a tiracolo e fazendo cálculos dia e noite para
que pudéssemos acompanhar a sombra da lua o máximo de tempo possível. Pois
uma desses pessoas era nada menos do que meu amigo do Haydn Planetarium...
O vôo sobre o Atlântico foi perfeito e nós ficamos nove minutos preciosos
na sombra, o que nenhum ser humano até viveu agora. Depois do pouso, fomos
todos jantar para comemorar o evento. E todo mundo com seus laptops,
obviamente. Quando o garçom trouxe a conta, ninguém conseguiu dividir a
conta por 32! Com lápis e papel, pior ainda, cada um chegou a um
resultado! Nós rimos tanto...
Um dia mostrei para alguém a foto onde todos nós, que tomamos parte na
recepção do navio que chegou na véspera do Ano Novo, aparecíamos: a dona
do restaurante, os operadores de rádio e também do primeiro radar da
história, o Peter e outros. Uma pessoa me deu a informação que a dona
desse restaurante estaria no Brasil, morando em São Paulo. Mas teria
casado de novo e, portanto, seu sobrenome seria outro.
Essa pessoa me também informou que ela tinha uma loja de roupa masculina
na Av. São João. O Peter pegou o foto, foi à Av. São João e entrou na
primeira loja de roupa masculina que encontrou, com o foto na mão. A dona
olho para o foto e perguntou com espanto:
– De onde você tem esta foto? É minha!
E o Peter respondeu:
– E esse menino aí na foto sou eu!
Ela ficou muito emocionada e nos convidou para um jantar na casa dela e
conhecer o resto da família. O filho dela, Peter também, tem a mesma idade
do meu Peter.
No dia seguinte fomos na casa deles com flores e muita expetativa do
encontro tão desejado por mais de 20 anos. Tocamos a campainha, um rapaz
abriu a porta e perguntou ao Peter:
– O que você está fazendo aqui?
O Peter respondeu:
– Ora, fomos convidados para jantar!
O outro Peter, muito surpreso, exclamou:
– Você??
Pois não é que eles estudaram juntos na USP, se conheciam há muito tempo,
mas por falta de comunicação nunca haviam se perguntado onde tinham
nascido?
Quando eu fui à star party no Texas, comprei no McDonald’s Observatory
brinquedos educativos para dois meninos, netos de amigas minhas. Eles e
suas avós nunca haviam se encontrado e moravam em bairros diferentes. Cada
um ganhou uma bola inflável com a Via Láctea e as constelações pintadas
nela, e um sistema solar montável para eles mesmos construírem cada um o
seu.
Pouco tempo depois uma delas me contou a seguinte história. Ela levou o
neto no Clube Hebraica e ele começou de mostrar o seu novo tesouro, a bola
do nosso céu. Um outro menino se aproximou e disse:
– Eu também tenho uma igual à sua!
Claro que era mentira, ele deve ter pensado, pois existia somente um
desses no Brasil ou na América do Sul (somente o McDonald’s Observatory
tem esses brinquedos educativos de astronomia).
O menino continuou:
– Mas só eu tenho um sistema solar montável.
E o outro:
– Eu também tenho!!!
“Que grande mentiroso”, deve ter pensado.
Mas a avó do outro menino, percebendo a discussão, se aproximou e disse:
– É verdade sim, ele tem um igual, foi uma minha amiga que trouxe do
Texas.
A outra avó retrucou:
– Minha amiga também trouxe de Texas.
Claro, possivelmente eram os únicos meninos que tinham esses brinquedos –
e não que eles tinham de se encontrar?
A astronomia é assim, junta as pessoas: as vovós também acabaram amigas,
até hoje.
Um dia fomos para Miami e no hotel Imre fez amizade com um senhor do
Canadá, mas falou em húngaro. Sentamo-nos a uma mesa no saguão e Imre
comprou alguns cartões postais e escreveu para os amigos. Mas comprou
demais e deixou o resto na mesa. Logo depois entrou um casal jovem e a
moça, vendo os cartões, perguntou:
— De quem são estes cartões?
Meu marido ficou quieto e resolveu que ela podia ficar com eles se
quisesse. Mas o novo amigo dele falou em bom húngaro e voz alta:
— Imre não seja bobo, diga que são seus e terá aí uma boa oportunidade de
começar um flerte com ela. Vale a pena, pois eu estou vendo ela de frente.
Meu marido respondeu também em voz alta, em húngaro:
— Mas eu estou vendo ela de trás e posso garantir a você que não
vale a pena.
A moca virou e falou em HÚNGARO:
— Vocês são de Budapeste?
Meu marido respondeu que não, que éramos de São Paulo. Ela disse:
— Eu também! Moro na alameda Casa Branca.
Até hoje eu evito a al. Casa Branca e redondezas...
Epílogo
Acho que daqui por diante Peter e Ivan devem continuar escrever as
memórias da família. É muito gratificante viver tudo duas vezes! Aprendi
muito, mas infelizmente sempre tarde demais. Primeiro, nunca deixe uma
oportunidade passar, pois nunca se sabe quais conseqüências poderiam
advir: quando fui salva pelo camponês no lago gelado, quando fui ao baile
onde conheci Imre e depois Edith.
Eu não me arrependo de nada do que vivi ou fiz, somente das coisas que não
fiz e que não aconteceram. Eu prefiro um eventual fracasso do que um NADA,
um amor não correspondido do que amor nenhum; filhos e netos longe de mim
do que filho ou neto nenhum. O vazio é horrível. O caos é normal no
universo, mas é somente aparente, depois se ajusta e tudo se resolve. Nós,
mesmo sendo muito pequenos em tamanho, a nossa vida, considerando a
escuridão antes do nosso nascimento e depois da nossa morte, é uma faísca
de luz, mas uma faísca muito importante.
Uma célula de nosso fígado, se morre, mata nosso corpo inteiro. Nós somos
menos do que isso, mas somos muito importantes na evolução do universo.
Tal como cada átomo de uma estrela que se junta a outro átomo até formar
uma estrela e planetas, e vida, até explodir e espalhar tudo para o
universo sem se perder um átomo sequer para criar novas estrelas, novos
planetas e nova vida. Nós somos parte de tudo isso, sem exceção, somos
“material estelar” e tivemos permissão de contemplar, por uma fração do
tempo do universo, tudo isso.
Tempo é o que há de mais precioso desde mundo, tudo o que acontece leva
tempo. Não temos o direito de desperdiçar um segundo desta preciosidade. A
palavra “passatempo” é um pecado. O tempo passa mesmo sem você, mas você
está perdendo cada segundo precioso.
Eu já fiz 80 revoluções ao redor do sol, uma viagem maravilhosa.
Nessa viagem testemunhei o descobrimento do planeta Plutão, o retorno do
cometa Halley e mais outros 12 visíveis a olho nu, o impacto do cometa
Shoemaker-Levy com Júpiter, a supernova SN.1987. Registrei oito eclipses
solares e muitos lunares, o primeiro homem no espaço etc.
Ninguém deve perder nada. O único preço que pagamos é experiência e
velhice. Também, quanto mais velhos ficamos, mais pessoas perto de nós vão
embora, mais sozinhos ficamos. Não tenho medo da morte, mas tenho medo de
morrer sozinha. Talvez eu tenha mais uma ou mais revoluções para fazer. O
futuro, ninguém sabe.
Ainda bem!
(17 de maio/2003)
CooJornal
no 315