17/05/2003
Número - 315

 
Helga Szmuk




COINCIDÊNCIAS
EPÍLOGO


 

XLVI – Coincidências

Eu, pessoalmente, não acredito muito em coincidências, mas algumas vezes elas acontecem e jogam nossas crenças por terra. O dono do hotel no Texas e a nossa infância nos Alpes austríacos, isto, sim, é coincidência pura, mas outras coisas. como o encontro do comandante do navio que tomou conta da embarcação do meu pai, não é tanto assim. Marinheiros sempre se encontram, como se diz, mas acho também que as pessoas comunicativas fazem mais amizades e, portanto, têm mais oportunidades de encontrar outras pessoas em lugares “estranhos”.

Um exemplo: quando eu ia para o Guarujá semanalmente, de ônibus, nunca tomava o ônibus para o Guarujá, mas o para Santos. A viagem é mais longa, mais complicada, mas valia a pena. Os passageiros para o Guarujá são paulistas, fechados, ninguém fala com ninguém. Já para Santos os passageiros são santistas, gente de beira-mar, mais comunicativa, mais aberta e mais interessante.

Eu adorava a travessia de balsa e numa dessas ocasiões fiz uma interessante amizade. Uma senhora me perguntou o que podia ver no Guarujá. Ela era esposa do comandante de um navio inglês que estava ancorado em Santos. Convidei-a a vir à minha casa, depois peguei um táxi e a levei para conhecer Guarujá. Poucos dias depois recebi uma carta com um convite para viajar ao Rio de Janeiro e a Salvador, junto com meu marido, a bordo do cargueiro.

Outra vez estava no ônibus para Santos e ao meu lado havia um senhor. Nós conversamos e ele se apresentou: Eckermann. Eckermann? O nome para mim é um sonho! O grande escritor alemão Goethe, meu grande ídolo, um dos maiores expoentes da língua alemã de todos os tempos, tinha um amigo íntimo com esse nome. Existem cartas que os dois trocaram por muitos anos e eu adorava lê-las. Eu perguntei a este senhor, “O senhor sabe quem era Eckermann?”. Ele respondeu que não. Depois me contou que o bisavô dele veio da Alemanha, de uma cidade chamada Weimar. Inacreditável! Goethe nasceu em Weimar, era ministro do Parlamento.

Eu o aconselhei a se comunicar com o Instituto Goethe, em São Paulo, ou com o consulado da Alemanha, com os documentos dele para esclarecer tudo aquilo. Algumas semanas depois ele me ligou: era mesmo o bisneto do grande Eckermann. Pouco tempo depois houve uma celebração em Weimar de um aniversário da morte de Goethe e o nosso Sr. Eckermann foi convidado, com tudo pago, para representar a família Eckermann.

Eu não acho que essas coisas sejam coincidências, mas simplesmente vontade de conhecer e de se comunicar para fazer novas amizades.

Uma vez tive a honra de receber na minha casa o grande John Dobson, o inventor do famoso telescópio que tem seu nome. Depois que ele já tinha ido embora recebi um e-mail dizendo que, numa revista de astronomia daqui, havia um artigo de um astrônomo brasileiro que mora no Guarujá e tinha um desses telescópios. Eu fiquei muito chateada por ele não ter podido falar com o John pessoalmente. Mas procurei o nome dele na lista telefônica e foi muito fácil achá-lo, pois seu sobrenome é polonês e só existia uma pessoa com este nome na lista.

Liguei para ele e contei-lhe sobre a visita do John. Depois de poucos minutos de conversa ele me perguntou sobre minha nacionalidade por causa do meu sotaque forte, embora o dele também fosse. Ele disse:
– Então podemos falar em alemão!

Falamo-nos por muito tempo e ele me contou que tinha 86 anos, mas ainda colocava o telescópio na rua para tudo mundo olhar para o universo. Bem ao espírito de John Dobson!

Alguns dias depois disso fui ao dentista mas peguei o ônibus errado. O motorista parou para eu descer e gentilmente indicou-me qual deveria tomar. Fiz isso mas esqueci de descer na rua Augusta, como o motorista havia-me falado, e desci no próximo ponto. Atrás de mim um senhor também desceu, com um buquê de flores na mão e estava prestes a atravessar a av. Paulista fora da faixa de pedestres. Eu agarrei ele pela manga do paletó e falei:
– Não faça isto!!

Ele, surpreso, perguntou-me:
– Qual a sua nacionalidade?

Disse-lhe que austríaca e ele revelou que era polonês e que podíamos falar em alemão! Dejá vu! A mesma conversa do telefone! Ele disse que não era de São Paulo, morava no Guarujá.

Era ninguém menos que o meu amigo do telescópio Dobson!

Errei duas vezes de ônibus e me encontrei com ele. É mesmo muita coincidência, mas ocorre que NOS FALAMOS! Sem não tivéssemos nos falado nunca descobriríamos tudo isso.

Uma vez em Nova York fui ao Haydn Planetarium para comprar um livro. Mas a biblioteca estava fechada, era hora de almoço. Um simpático rapaz se ofereceu para comprá-lo para mim e deixar o livro na portaria do hotel. Eu achei que ele estava sendo atencioso demais. Estranho, porque os nova-iorquinos não costumam ser assim – até que ele revelou que era astrônomo! Estava explicado, então.

Alguns anos depois, ia haver um eclipse solar sobre o Oceano Atlântico e o Roger Tutthill fretou um avião para observá-lo. Nesses dias minha casa sempre fica cheia de astrônomos de todo o mundo. É um hábito muito gratificante. Eles não precisam pagar hotel e eu tenho o raro prazer de compartilhar alguns dias com pessoas as mais inteligentes, gente que acrescentou muito aos meus conhecimentos de astronomia.

Para esta ocasião o Roger trouxe algumas pessoas da NASA com ele – cada um, claro, com o seu laptop a tiracolo e fazendo cálculos dia e noite para que pudéssemos acompanhar a sombra da lua o máximo de tempo possível. Pois uma desses pessoas era nada menos do que meu amigo do Haydn Planetarium...

O vôo sobre o Atlântico foi perfeito e nós ficamos nove minutos preciosos na sombra, o que nenhum ser humano até viveu agora. Depois do pouso, fomos todos jantar para comemorar o evento. E todo mundo com seus laptops, obviamente. Quando o garçom trouxe a conta, ninguém conseguiu dividir a conta por 32! Com lápis e papel, pior ainda, cada um chegou a um resultado! Nós rimos tanto...

Um dia mostrei para alguém a foto onde todos nós, que tomamos parte na recepção do navio que chegou na véspera do Ano Novo, aparecíamos: a dona do restaurante, os operadores de rádio e também do primeiro radar da história, o Peter e outros. Uma pessoa me deu a informação que a dona desse restaurante estaria no Brasil, morando em São Paulo. Mas teria casado de novo e, portanto, seu sobrenome seria outro.

Essa pessoa me também informou que ela tinha uma loja de roupa masculina na Av. São João. O Peter pegou o foto, foi à Av. São João e entrou na primeira loja de roupa masculina que encontrou, com o foto na mão. A dona olho para o foto e perguntou com espanto:
– De onde você tem esta foto? É minha!

E o Peter respondeu:
– E esse menino aí na foto sou eu!

Ela ficou muito emocionada e nos convidou para um jantar na casa dela e conhecer o resto da família. O filho dela, Peter também, tem a mesma idade do meu Peter.

No dia seguinte fomos na casa deles com flores e muita expetativa do encontro tão desejado por mais de 20 anos. Tocamos a campainha, um rapaz abriu a porta e perguntou ao Peter:
– O que você está fazendo aqui?

O Peter respondeu:
– Ora, fomos convidados para jantar!

O outro Peter, muito surpreso, exclamou:
– Você??

Pois não é que eles estudaram juntos na USP, se conheciam há muito tempo, mas por falta de comunicação nunca haviam se perguntado onde tinham nascido?

Quando eu fui à star party no Texas, comprei no McDonald’s Observatory brinquedos educativos para dois meninos, netos de amigas minhas. Eles e suas avós nunca haviam se encontrado e moravam em bairros diferentes. Cada um ganhou uma bola inflável com a Via Láctea e as constelações pintadas nela, e um sistema solar montável para eles mesmos construírem cada um o seu.

Pouco tempo depois uma delas me contou a seguinte história. Ela levou o neto no Clube Hebraica e ele começou de mostrar o seu novo tesouro, a bola do nosso céu. Um outro menino se aproximou e disse:
– Eu também tenho uma igual à sua!

Claro que era mentira, ele deve ter pensado, pois existia somente um desses no Brasil ou na América do Sul (somente o McDonald’s Observatory tem esses brinquedos educativos de astronomia).

O menino continuou:
– Mas só eu tenho um sistema solar montável.

E o outro:
– Eu também tenho!!!

“Que grande mentiroso”, deve ter pensado.

Mas a avó do outro menino, percebendo a discussão, se aproximou e disse:
– É verdade sim, ele tem um igual, foi uma minha amiga que trouxe do Texas.

A outra avó retrucou:
– Minha amiga também trouxe de Texas.

Claro, possivelmente eram os únicos meninos que tinham esses brinquedos – e não que eles tinham de se encontrar?

A astronomia é assim, junta as pessoas: as vovós também acabaram amigas, até hoje.

Um dia fomos para Miami e no hotel Imre fez amizade com um senhor do Canadá, mas falou em húngaro. Sentamo-nos a uma mesa no saguão e Imre comprou alguns cartões postais e escreveu para os amigos. Mas comprou demais e deixou o resto na mesa. Logo depois entrou um casal jovem e a moça, vendo os cartões, perguntou:
— De quem são estes cartões?

Meu marido ficou quieto e resolveu que ela podia ficar com eles se quisesse. Mas o novo amigo dele falou em bom húngaro e voz alta:
— Imre não seja bobo, diga que são seus e terá aí uma boa oportunidade de começar um flerte com ela. Vale a pena, pois eu estou vendo ela de frente.

Meu marido respondeu também em voz alta, em húngaro:
— Mas eu estou vendo ela de trás e posso  garantir a você que não vale a pena.

A moca virou e falou em HÚNGARO:
— Vocês são de Budapeste?

Meu marido respondeu que não, que éramos de São Paulo. Ela disse:
— Eu também! Moro na alameda Casa Branca.

Até hoje eu evito a al. Casa Branca e redondezas...


Epílogo


Acho que daqui por diante Peter e Ivan devem continuar escrever as memórias da família. É muito gratificante viver tudo duas vezes! Aprendi muito, mas infelizmente sempre tarde demais. Primeiro, nunca deixe uma oportunidade passar, pois nunca se sabe quais conseqüências poderiam advir: quando fui salva pelo camponês no lago gelado, quando fui ao baile onde conheci Imre e depois Edith.

Eu não me arrependo de nada do que vivi ou fiz, somente das coisas que não fiz e que não aconteceram. Eu prefiro um eventual fracasso do que um NADA, um amor não correspondido do que amor nenhum; filhos e netos longe de mim do que filho ou neto nenhum. O vazio é horrível. O caos é normal no universo, mas é somente aparente, depois se ajusta e tudo se resolve. Nós, mesmo sendo muito pequenos em tamanho, a nossa vida, considerando a escuridão antes do nosso nascimento e depois da nossa morte, é uma faísca de luz, mas uma faísca muito importante.

Uma célula de nosso fígado, se morre, mata nosso corpo inteiro. Nós somos menos do que isso, mas somos muito importantes na evolução do universo. Tal como cada átomo de uma estrela que se junta a outro átomo até formar uma estrela e planetas, e vida, até explodir e espalhar tudo para o universo sem se perder um átomo sequer para criar novas estrelas, novos planetas e nova vida. Nós somos parte de tudo isso, sem exceção, somos “material estelar” e tivemos permissão de contemplar, por uma fração do tempo do universo, tudo isso.

Tempo é o que há de mais precioso desde mundo, tudo o que acontece leva tempo. Não temos o direito de desperdiçar um segundo desta preciosidade. A palavra “passatempo” é um pecado. O tempo passa mesmo sem você, mas você está perdendo cada segundo precioso.

Eu já fiz 80 revoluções ao redor do sol, uma viagem maravilhosa.

Nessa viagem testemunhei o descobrimento do planeta Plutão, o retorno do cometa Halley e mais outros 12 visíveis a olho nu, o impacto do cometa Shoemaker-Levy com Júpiter, a supernova SN.1987. Registrei oito eclipses solares e muitos lunares, o primeiro homem no espaço etc.

Ninguém deve perder nada. O único preço que pagamos é experiência e velhice. Também, quanto mais velhos ficamos, mais pessoas perto de nós vão embora, mais sozinhos ficamos. Não tenho medo da morte, mas tenho medo de morrer sozinha. Talvez eu tenha mais uma ou mais revoluções para fazer. O futuro, ninguém sabe.
Ainda bem!



(17 de maio/2003)
CooJornal no 315


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br