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Helga Szmuk
SANTA INTERNET
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Em 1995, fui operada da minha vista direita devido a um descolamento de
retina e perdi a visão em um olho. Depois fui perdendo parte da visão do
outro olho, e assim minha vida mudou.
Eu morava sozinha num apartamento enorme em São Paulo e ficava
impossibilitada de sair depois de escurecer. As calcadas esburacadas e
outros obstáculos fizeram de minha vida quase um inferno. Bem... Quase!!!
Um amigo do meu filho me convenceu de começar a me comunicar através da
internet, que então era uma relativa novidade (os primeiros provedores
tinham aparecido no ano anterior). Parecia uma tarefa quase impossível
para mim, mas ele insistiu. Eu sou da época em que se usava pena e tinta
para escrever, e telefone somente através da telefonista, mas consegui.
Fiz muitas burrices, mas devagar fiz as pazes com o computador. Conseguia,
então, apenas comunicar-me diariamente com meus filhos que moravam longe
e também ficar em contato com meus amigos da astronomia, minha paixão
desde que meu pai era marinheiro nos idos da década de 1920.
Até que um dia cortaram minha conexão com o antigo provedor Mandic, exatamente
um dos pioneiros da internet no Brasil: “falta de pagamento”! Eu nunca
na minha vida deixei de pagar uma conta ou atrasei em pagamento, mas meu
mundo parecia que tinha acabado. E agora?
Eu liguei para o Mandic e insistiram: “a conta está em aberto”. Pouco
tempo depois me ligaram dizendo que era erro da administração e podia
continuar usar a internet à vontade, com as devidas “desculpas”.
“Errar é humano”. Eu detesto esta desculpa, que não acho verdadeira: errar
não é humano; acertar é que é humano! Nós chegamos à lua, vencemos a
paralisia infantil, etc... por causa dos acertos e não por causa dos
erros; os macacos erraram, por isto eles estão ainda na árvore. Eu escrevi
tudo isto para o Mandic e expliquei meu desespero, de como meu sonho
acabou... O próprio sr. Aleksandar Mandic (ele também filho de
imigrantes, no caso iugoslavos, que fugiram da guerra) comoveu-se com
minha carta e a publicou, mesmo sabendo que estaria exposto ao público como
culpado. Um verdadeiro empresário, honesto e íntegro. A Irene, do site Rio
Total, leu a carta e me ligou: convidou-me a escrever para ela. Assim
começou uma amizade preciosa e, para mim, uma oportunidade de falar sobre
minha grande paixão - a astronomia – e sem sair de casa! Conclusões: não
hesitar de reclamar em voz alta; e, se cometer um erro, admiti-lo sem culpar
os outros. E o mais importante: os males muitas vezes tornam-se um
benefício... Minha amizade quase exclusivamente virtual com a Irene e o
marido dela.
Algum tempo depois, decidi escrever minhas memórias, para que meus filhos e netos
soubessem exatamente como era a vida antes, durante e logo após a segunda
guerra mundial. Com a ajuda preciosa e o incentivo do Bob Sharp, escrevi e
terminei em tempo recorde, batizado de “Da Minha Sacada”. Outra vez a
Irene ofereceu-se para publicar no Rio Total e, assim, começou mais um
capítulo na minha vida. Muitas pessoas me escreveram, alguns corrigiram ou
completaram alguns fatos dos quais eu não me lembrava mais; outros fazendo
perguntas... mas o fato é que conheci outra vez muitas pessoas que se
tornaram importante na minha vida!
Um dia, em dezembro de 2004, recebi um e-mail de um senhor de Belo Horizonte,
me perguntando onde ele podia comprar o “livro”. Eu lhe expliquei que
o livro como tal não existe: somente na internet. Minha intenção era
somente deixar tudo isto para meus filhos e netos. Nós começamos a nos
comunicar quase que diariamente, e ele me disse que se interessava muito
pela história da Europa daquela época; ele era casado, e tem menos idade
do que meu filho mais novo.
Eu me senti muito honrada com isto: é comum pensar que a juventude de
hoje somente se interessa por drogas e festas ruidosas. Um grande engano! Ele me fez muitas perguntas, pediu meu endereço e, um dia, cerca de um
mês depois, chegou em minha casa um “pacote”: nele estavam as minhas
memórias, impressas e encadernadas com capa em couro e letras douradas, e
todos os eventos da minha juventude na segunda guerra relatados no livro
com fotos originais, que ele havia colocado. Até a história do meu mestre
de balé em Viena; os atores e artistas que ajudaram a lavar o chão em Viena,
com os nomes e fotos; um dos navios do meu pai; os navios onde ele
serviu e o salvamento de um navio ilegal nas areias de Naharia, em
Israel... Eu não quis acreditar nos meus meus olhos... mas tudo estava lá:
uma preciosidade!
Das fotos que colocou, havia até fotos e mapas das cidadezinhas
da Hungria onde meu marido e meu pai nasceram. Lugares com nomes quase
impronunciáveis, como Marmaroszighet, Paks, Fiume!! Assim, fiz mais
contatos com parentes e antigos amigos de muito tempo atrás. Meu amigo se
chama Reginaldo: ele não é judeu, mas eu aprendi muito com ele sobre o
passado da minha gente. Aliás, ele diz que é brasileiro, português,
africano, indiano, palestino, e adora os judeus!
Tudo isto seria assunto para mais um livro, mas eu vou contar os
últimos acontecimento e coincidências, graças à internet e à ajuda do meu
novo amigo e de outras pessoas.
Em uma passagem que também contei nas memórias, em 1943, durante a guerra,
um navio ilegal - que trazia imigrantes judeus da Europa pelo rio Danúbio e
pelos mares Negro e Mediterrâneo - chegou nas proximidades de Haifa, uma
pequena cidade onde eu morava em Israel, depois de ter emigrado cinco anos
antes. Meu marido Imre, médico que serviu no exército inglês, estava em
Cingapura. Éramos só eu e meu primeiro filho, Peter, que estava com 2
anos de idade. Um casal, que eram donos de um restaurante na praia, quase
nos “adotaram”; eles também tiveram 2 filhos. Juntos, nós ajudamos a
receber os imigrantes; cada um teve uma tarefa e a história é contada
também na internet, e foi outra vez o Reginaldo que achou para mim, com
fotos e tudo.
Agora, mais uma das muitas “coincidências” da minha vida, que sem internet
seria impossível de acontecer. Eu sabia que, daquele casal, o marido havia
falecido, a esposa se casara outra vez e estava no Brasil... e nada mais!
Um dia li no jornal “Estado de São Paulo”, na seção chamada “São Paulo
reclama”, uma pequena queixa de uma pessoa. A assinatura continha o mesmo
sobrenome (Gaertner) desta pessoa que eu vi pela ultima vez em 1945. Eu
pedi ao jornal que me fornecesse o e-mail da pessoa ou desse para ela o meu
e-mail. Tudo foi muito rápido, como somente na internet acontece, e a
ajuda de pessoas bem intencionadas. Logo eles avisaram a pessoa: ele me
escreveu e falou que ele não era a pessoa quem eu estava procurando, mas
um parente dele; e ele disse que faria o possível para entrar em contato
com ele.
Logo vem a resposta: o filho daquele casal, donos do restaurante, que
naquela época também tinha 2 ou 3 anos de idade me escreveu. Ele tem o
mesmo nome do meu filho, Peter. Eu mandei fotos daquela época para ele
também, e, coincidência: a irmãzinha dele (já avó de 3 netos!) morava em
Sta Catarina, perto de mim! Na foto, que foi tirada no aniversario do meu
filho, eram ele, a irmã e mais algumas outras crianças.
Um deles, de sobrenome Bronner, eu sabia que o pai dele era músico e
compositor em Viena, antes da guerra. Ele também ajudou na recepção dos
imigrantes. O Reginaldo logo descobriu o endereço dele em Viena, e do
filho da foto, O Oscar (“Ossi”) Bronner! Também eu escrevi para ele, que é
agora dono de um grande jornal em Viena (Der Standard); e a mãe dele era
minha colega de quarto na escola interna em Israel. Os dois, o Peter e o Ossi de Viena, nunca mais se encontraram.
Outro dia recebi do Peter (Gaertner), que mora em Rio de Janeiro, um
artigo de um jornal traduzido para o português, porque ele achou interessante. Acreditem ou não, mas no mesmo dia recebi o mesmo artigo do Ossi Bronner de Viena, traduzido para o alemão. Um de Viena, o outro do Rio
de Janeiro, e a foto era de Naharia, Israel, uma cidade que não devia ter
2 mil habitantes, em1943!
Quando nós saímos a pé da Hungria para a liberdade, uma menina de 7 anos
nos olhava com olhos tristes. Era a amiga do meu filho Ivan, a companheira
das brincadeiras e também das tristezas da infância, a Judite. Nem
ela nem Ivan sabiam para onde nós estávamos indo naquele dia, e para
sempre. 45 anos depois ela achou meu nome no riototal e se comunicou com a
Irene, pedindo-lhe que se comunicasse conosco. A Irene agiu
rapidamente e logo entramos em contato outra vez. No mesmo ano
fomos, à convite dela, para Budapest (onde Ivan nasceu) com a esposa
dele e filha. A Judite era mãe de 7 filhos! A carta que ela escreveu
foi tão comovente que foi publicada nos jornais em Budapest.
E tudo começou com uma “burrice” de algum funcionário que cancelou minha
assinatura na internet...
Conclusões? São várias... Primeiro: nunca é tarde demais para se aprender
coisas novas. Outra: muitas vezes os males são origens de uma mudança para
melhor. Mais uma: os amigos que você encontra mais tarde na vida podem ser
tão valiosos como os amigos antigos. E, o mais importante: distâncias não
são obstáculo. Às vezes você mora no mesmo prédio com pessoas sem
contato; mas, graças à internet, você pode ter amigos em qualquer lugar do
mundo. Santa internet e Santo Google!
(03 de setembro/2005)
CooJornal
no 440