15/04/2006
Número - 472



 
Helga Szmuk



O pior cego É quem não quer ver


 

Ficar velho tem entre outras coisas desagradáveis mais um fator. A gente perde os amigos ao seu redor. Eu tenho medo de olhar na minha lista de telefone, tem mais nomes riscados do que ativados. Mas em compensação me lembro o dia quando tinha 16 anos e fui forçada a deixar meu pais de nascimento, sozinha sem pais irmãos e amigos. Um senhor de mais de 70 anos me disse. "Quem falou que amigos que você vai encontrar mais tarde na vida valem menos do que os que você agora vai perder?" Tantas vezes na minha longa viagem ao redor do sol estava pensando nestas palavras sábias.

Eu faço parte de um grupo virtual de astronomia e trocamos idéias, aprendemos um com o outro e nossos erros são corrigidos muitas vezes. É um grupo de pessoas inteligentes, criativas e que têm os mesmos interesses. Alguns dias atrás recebemos um pedido de um senhor de 41 anos, de Portugal, pedindo que fosse incluído no nosso grupo. O critério de admissão é bastante rigoroso, precisa ter um certo conhecimento e há assuntos proibidos de serem tratados tal como política, religião e astrologia. Bem, ele foi aceito unanimemente e nós começamos uma amizade que me trouxe muito conhecimento, muitas vantagens e preciso dizer que apesar da minha idade ainda aprendi muito. Ele é muito curioso, quer saber de tudo o que é novo e me ensinou também a usar recursos que eu não conhecia até agora.

Durante nossas conversas virtuais estive pensando que existem ainda pessoas que falam do “bons tempos velhos”? Eu me lembro de minha avó materna com 50 anos uma velha gorda, durante o almoço ela já perguntava a cada membro da família o que deseja comer no jantar. Que tempos bons!!! Era a vida dela.

Bom, eu esqueci de dizer que meu novo amigo é cego. Ele já nasceu cego e é quase surdo. Ele nunca viu uma estrela, a lua, uma nuvem, o mar. Mas sabe muito mais do que muitos cegos com 2 olhos que não se interessam por nada senão o último estilo de sapatos ou penteado.

Todo mundo do nosso grupo perguntou: "Como é possível ele saber tanto?"

E me lembrei: Copérnico nunca viu a Terra girar ao redor do sol, Einstein nunca viu a velocidade da luz, Beethoven era surdo e nos deu a música mais divina. Ninguém ainda viu um elétron ou um átomo e mesmo assim nós sabemos como são. A resposta é nosso cérebro, esta máquina maravilhosa que temos e usamos somente uma pequena parte. Que desperdício! Nós não jogamos fora móveis velhos da vovó, mas desperdicemos a coisa mais preciosa desde mundo.

Também há a técnica moderna. Há poucos anos atrás um cego era uma pessoa inútil e dependente do outros. Meu amigo trabalha e se sustenta. Ele leciona numa escola para cegos. Ele escreve em braile no computador e recebe a resposta através de sons ligados diretamente nos ouvidos dele.

Minha avó teria inveja dele com a vida pobre que ela levava. Com certeza.

Paulo Gomes Varella, professor do Planetário de São Paulo, ao escrever a nosso amigo, dando-lhe as boas vindas, acopla o texto que escreveu sobre o Prof. Acácio Riberi, deficiente visual, amigo de longa data, falecido em 1998 e com o qual teve o privilégio de trabalhar no Planetário de São Paulo por muitos anos. Acrescenta que o Prof. Acácio foi um exemplo de perseverança, um companheiro ético, sempre disposto a colaborar e cujo desaparecimento deixou uma enorme lacuna na vida daqueles que com ele conviveram.
Paulo Varella me disse que seu intuito, ao comentar a participação do Prof. Acácio como professor de Astronomia no Planetário é lembrar a todos (portadores de necessidades especiais ou não) que com perseverança e firmeza de propósitos alcançamos qualquer meta, mesmo que nos pareça, inicialmente, algo inatingível...

"PROF. ACÁCIO RIBERI: um exemplo de perseverança
Em abril de 2004, durante o ciclo de palestras "Astronomia na Cidade de São Paulo" realizado na Escola Municipal de Astrofísica, tive o privilégio de proferir uma delas, cujo tema foi "A criação do Planetário e Escola Municipal de Astrofísica" onde apresentei um resumo da história da Instituição, desde a fundação da Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo em 1949, passando pela inauguração do Planetário (1957) e da Escola (1961) até 2002, quando o Planetário completou 45 anos de existência. Na ocasião, homenageei 3 pessoas, que pelo caráter e conjunto de suas obras, contribuíram significativamente para o desenvolvimento da Astronomia e do Planetário de São Paulo: O Prof. Aristóteles Orsini, a quem São Paulo deve, em boa parte, a existência do Planetário do Ibirapuera e seu primeiro Diretor; o Prof. Irineu Gomes Varella, sucessor do Prof. Orsini e a quem São Paulo deve a existência de seu segundo Planetário (Planetário do Carmo) e o Prof. Acácio Riberi, uma figura ímpar na Astronomia Paulistana.
O Sr. Acácio Riberi nasceu em São Paulo, em 24 de setembro de 1924 e era formado em Contabilidade pela Escola Técnica de São Paulo desde 1949. Em 1951 casou-se com Sra. Donayde Riberi. Sua vida corria normalmente quando, em dezembro de 1952, sofreu um descolamento das retinas provocado por uma uveíte (inflamação nos olhos). Após este fato, teve que abandonar a carreira de Contador e dedicou-se ao comércio.
Por volta de 1962, acompanhou seu filho (José Tadeu Riberi), na época com 9 anos de idade, em várias apresentações do Planetário e ficou fascinado com o que ouviu e com o que José Tadeu lhe descreveu. Na época, o Prof. Orsini, começou a organizar grupos de trabalho no Planetário e diante do interesse do Sr. Acácio, convidou-o para freqüentar as aulas internas destinadas à equipe do Planetário. Uma certa dificuldade era enfrentada por ele quando acompanhava as aulas de Astronomia Esférica ministradas pelo Prof. Orsini. O Sr. Acácio possuía bons conhecimentos de matemática, geometria, física e química. Entretanto, na absorção das noções de geometria espacial, sua dificuldade era clara. Para solucionar tal problema, em uma noite, após o encerramento das aulas, o Prof. Orsini permaneceu com o Sr. Acácio por mais um tempo na sala de aula e confeccionou, precariamente, pequenas representações da esfera celeste, de seus planos e eixos, com as folhas de um caderno.
Na semana seguinte, trouxe os mesmos modelos feitos em papelão. Por várias semanas, os modelos de papelão serviram para que o Sr. Acácio pudesse, por meio do tato, aprender as noções apresentadas nas aulas. O sucesso foi tão grande, que mesmo aqueles que podiam enxergar os desenhos traçados na lousa, freqüentemente se serviam dos modelos para uma melhor visualização das noções. Mais tarde, tais modelos foram substituídos por outros confeccionados em latão, isopor e compensado de madeira. Graças a esses modelos, o Sr. Acácio pôde estudar Astronomia e transformar-se em 1966, no Professor Acácio Riberi, quando foi contratado com esse título, pela municipalidade. É o único professor de Astronomia privado da visão que tive notícia até hoje no mundo; principalmente tendo aprendido Astronomia anos após ter perdido a visão."
Paulo Gomes Varella

Finalizando, eu estava lendo um artigo sobre pessoas que são sortudas e pessoas que são azaradas. Stephen Hawking se considera sortudo porque escolheu a física teórica que é uma dos poucos campos onde a condição física dele não atrapalha muito - Hawking é paralisado e não pode mais falar. Ele se comunica através de computadores. Sorte nossa também que ele nos fez entender melhor o mecanismo do Universo. Só isto!!!



(15 de abril/2006)
CooJornal no 472


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br
http://www.riototal.com.br/astros/