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Helga Szmuk
O pior cego É quem não quer
ver
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Ficar velho tem entre outras coisas desagradáveis mais um fator. A gente
perde os amigos ao seu redor. Eu tenho medo de olhar na minha lista de
telefone, tem mais nomes riscados do que ativados. Mas em compensação me
lembro o dia quando tinha 16 anos e fui forçada a deixar meu pais de
nascimento, sozinha sem pais irmãos e amigos. Um senhor de mais de 70 anos me
disse. "Quem falou que amigos que você vai encontrar mais tarde na vida
valem menos do que os que você agora vai perder?" Tantas vezes na minha
longa viagem ao redor do sol estava pensando nestas palavras sábias.
Eu faço parte de um grupo virtual de astronomia e trocamos idéias,
aprendemos um com o outro e nossos erros são corrigidos muitas vezes. É um
grupo de pessoas inteligentes, criativas e que têm os mesmos
interesses. Alguns dias atrás recebemos um pedido de um senhor de 41 anos, de
Portugal, pedindo que fosse incluído no nosso grupo. O critério de admissão
é
bastante rigoroso, precisa ter um certo conhecimento e há assuntos
proibidos de serem tratados tal como política, religião e astrologia. Bem,
ele foi aceito unanimemente e nós começamos uma amizade que me trouxe
muito conhecimento, muitas vantagens e preciso dizer que apesar da minha
idade ainda aprendi muito. Ele é muito curioso, quer saber de tudo o que é
novo e me ensinou também a usar recursos que eu não conhecia até
agora.
Durante nossas conversas virtuais estive pensando que existem ainda
pessoas que falam do “bons tempos velhos”? Eu me lembro de minha avó materna
com 50 anos uma velha gorda, durante o almoço ela já perguntava a cada
membro da família o que deseja comer no jantar. Que tempos bons!!! Era a
vida dela.
Bom, eu esqueci de dizer que meu novo amigo é cego. Ele já
nasceu cego e é quase surdo. Ele nunca viu uma estrela, a lua, uma nuvem, o
mar. Mas sabe muito mais do que muitos cegos com 2 olhos que não se
interessam por nada senão o último estilo de sapatos ou penteado.
Todo
mundo do nosso grupo perguntou: "Como é possível ele saber tanto?"
E me lembrei: Copérnico nunca viu a Terra girar ao redor do
sol, Einstein nunca viu a velocidade da luz, Beethoven era surdo e
nos deu a música mais divina. Ninguém ainda viu um elétron ou um átomo e
mesmo assim nós sabemos como são. A resposta é nosso cérebro, esta máquina
maravilhosa que temos e usamos somente uma pequena parte. Que desperdício! Nós não jogamos fora móveis velhos da vovó, mas desperdicemos
a coisa mais preciosa desde mundo.
Também há a técnica moderna. Há poucos anos atrás um cego era uma pessoa inútil e dependente do outros.
Meu amigo
trabalha e se sustenta. Ele leciona numa escola para cegos. Ele escreve em
braile no computador e recebe a resposta através de sons ligados
diretamente nos ouvidos dele.
Minha avó teria inveja dele com a vida pobre que ela levava. Com certeza.
Paulo Gomes Varella, professor do Planetário de São Paulo, ao escrever a
nosso amigo, dando-lhe as boas vindas, acopla o texto que escreveu sobre o
Prof. Acácio Riberi, deficiente visual, amigo de longa data, falecido em
1998 e com o qual teve o privilégio de trabalhar no Planetário de São
Paulo por muitos anos. Acrescenta que o Prof. Acácio foi um exemplo de
perseverança, um companheiro ético, sempre disposto a colaborar e cujo
desaparecimento deixou uma enorme lacuna na vida daqueles que com ele
conviveram.
Paulo Varella me disse que seu intuito, ao comentar a participação do
Prof. Acácio como professor de Astronomia no Planetário é lembrar a todos
(portadores de necessidades especiais ou não) que com perseverança e
firmeza de propósitos alcançamos qualquer meta, mesmo que nos pareça,
inicialmente, algo inatingível...
"PROF. ACÁCIO RIBERI: um exemplo de perseverança
Em abril de 2004, durante o ciclo de palestras "Astronomia na Cidade de
São Paulo" realizado na Escola Municipal de Astrofísica, tive o privilégio
de proferir uma delas, cujo tema foi "A criação do Planetário e Escola
Municipal de Astrofísica" onde apresentei um resumo da história da
Instituição, desde a fundação da Associação de Amadores de Astronomia de
São Paulo em 1949, passando pela inauguração do Planetário (1957) e da
Escola (1961) até 2002, quando o Planetário completou 45 anos de
existência. Na ocasião, homenageei 3 pessoas, que pelo caráter e conjunto
de suas obras, contribuíram significativamente para o desenvolvimento da
Astronomia e do Planetário de São Paulo: O Prof. Aristóteles Orsini, a
quem São Paulo deve, em boa parte, a existência do Planetário do
Ibirapuera e seu primeiro Diretor; o Prof. Irineu Gomes Varella, sucessor
do Prof. Orsini e a quem São Paulo deve a existência de seu segundo
Planetário (Planetário do Carmo) e o Prof. Acácio Riberi, uma figura ímpar
na Astronomia Paulistana.
O Sr. Acácio Riberi nasceu em São Paulo, em 24 de setembro de 1924 e era
formado em Contabilidade pela Escola Técnica de São Paulo desde 1949. Em
1951 casou-se com Sra. Donayde Riberi. Sua vida corria normalmente quando,
em dezembro de 1952, sofreu um descolamento das retinas provocado por uma
uveíte (inflamação nos olhos). Após este fato, teve que abandonar a
carreira de Contador e dedicou-se ao comércio.
Por volta de 1962, acompanhou seu filho (José Tadeu Riberi), na época com
9 anos de idade, em várias apresentações do Planetário e ficou fascinado
com o que ouviu e com o que José Tadeu lhe descreveu. Na época, o Prof.
Orsini, começou a organizar grupos de trabalho no Planetário e diante do
interesse do Sr. Acácio, convidou-o para freqüentar as aulas internas
destinadas à equipe do Planetário. Uma certa dificuldade era enfrentada
por ele quando acompanhava as aulas de Astronomia Esférica ministradas
pelo Prof. Orsini. O Sr. Acácio possuía bons conhecimentos de matemática,
geometria, física e química. Entretanto, na absorção das noções de
geometria espacial, sua dificuldade era clara. Para solucionar tal
problema, em uma noite, após o encerramento das aulas, o Prof. Orsini
permaneceu com o Sr. Acácio por mais um tempo na sala de aula e
confeccionou, precariamente, pequenas representações da esfera celeste, de
seus planos e eixos, com as folhas de um caderno.
Na semana seguinte, trouxe os mesmos modelos feitos em papelão. Por várias
semanas, os modelos de papelão serviram para que o Sr. Acácio pudesse, por
meio do tato, aprender as noções apresentadas nas aulas. O sucesso foi tão
grande, que mesmo aqueles que podiam enxergar os desenhos traçados na
lousa, freqüentemente se serviam dos modelos para uma melhor visualização
das noções. Mais tarde, tais modelos foram substituídos por outros
confeccionados em latão, isopor e compensado de madeira. Graças a esses
modelos, o Sr. Acácio pôde estudar Astronomia e transformar-se em 1966, no
Professor Acácio Riberi, quando foi contratado com esse título, pela
municipalidade. É o único professor de Astronomia privado da visão que
tive notícia até hoje no mundo; principalmente tendo aprendido Astronomia
anos após ter perdido a visão."
Paulo Gomes Varella
Finalizando, eu estava lendo um artigo sobre pessoas que são sortudas e pessoas que são
azaradas.
Stephen Hawking se considera sortudo porque escolheu a física teórica
que é uma dos poucos campos onde a condição física dele não atrapalha
muito - Hawking é paralisado e não pode mais falar. Ele se comunica
através de computadores. Sorte nossa também que ele nos fez entender
melhor o mecanismo do Universo. Só isto!!!
(15 de abril/2006)
CooJornal
no 472