08/07/2006
Número - 484

 
Helga Szmuk



Patriotismo, amor pela pátria,
chauvinismo, nacionalismo



 

Geralmente as pessoas escrevam para informar, para transmitir algo, mas eu estou escrevendo agora para receber informação. Talvez os psicólogos tenham uma resposta para mim. Minha dúvida é grande!

Eu conheço muitos cegos e percebi uma grande diferencia entre cegos desde nascimento e cegos que perderam a visão durante a vida; os últimos têm uma lembrança de cores e impressões visuais e sentem muita falta disso. Mas os cegos desde o nascimento não. Eles substituem a visão com tato, audição etc, mas não se acham em desvantagem com os outros.
 
A mesma coisa com a audição. Beethoven perdeu a audição e estava na beira de suicídio. Minha mãe, que ficou surda com a idade avançada, teve um imenso prazer em ler a partitura das obras favoritas dela. Ela teve a lembrança.

Agora, meu caso. Eu nunca tive pátria, nunca tive uma só língua que eu falasse melhor do que duas outras. Cada um dos meus filhos nasceu num outro país, com outra língua. Meus pais nasceram em países diferentes e falavam línguas diferentes. Por isto já nasci poliglota e meus filhos também. Eu nunca me emociono ouvindo um hino nacional de qualquer nação, mas gosto de ouvir alguns deles. A Marseillese, A Volga de Smetana que é hino de Israel, o hino da Tchecoslováquia, da Rússia etc. Mas não me emociona.

Não entendo como pessoas podem odiar um país porque eles ganharam um jogo de futebol, o chorar porque o país “deles” perdeu. Eu gosto de esporte mas sem torcer para um país. Gostaria de saber. O que as pessoas amam? O chão? As pessoas? Ninguém conhece todo o país, somente uma pequena parte, portanto como pode amar uma coisa que não conhece? Em todo lugar do mundo há lugares bonitos, montanhas, rios lagos etc. Eu sei que uma pessoa que nunca recebeu amor é incapaz de amar. Será esta a razão que eu não posso amar um país?

As pessoas viajem e ficam 2 dias em Paris (sem falar francês), 3 dias em Londres sem falar inglês e 1 dia em Berlim sem falar alemão. Depois tem uma opinião! Elas "adoram" Paris ou "detestam " Berlim, etc. Para conhecer um povo ou um país precisa conviver com as pessoas. Geralmente falo com os motoristas de táxi, com o zelador do prédio, com o guarda na rua, mesmo assim precisa muito mais tempo para se dar uma opinião sobre o país.

Também acho que amar seus próprios filhos, seus próprios pais e irmão é muito fácil. Mas amar ou gostar, também, dos filhos e pais dos outros, isto faz você um ser humano. A mesma coisa sobre nacionalismo, E precisa gostar também de outros países, outras línguas e outras costumes.

Amor não pode ser destrutivo, mas tanta gente já morreu defendendo a pátria. Eu sou mãe e sei que as mães não querem ver os defeitos dos filhos e, apesar dos defeitos, sempre os ama. E a mesma coisa com o nacionalismo? Eu confesso que não sinto falta desde paixão pelo meu time, ou pelo país onde eu moro ou morava, Eu gosto, ou amo, ou detesto algumas pessoas que eu encontrei na minha vida independentemente da nacionalidade, Tudo isto é somente uma ilusão? Meu filho tem uma filha adotiva. Ela é mulata, pai negro e mãe loira de olhos azuis. Quando era pequena ela não sabia que era metade negra. Detestava os negros!! Agora ela tem 30 anos e esta grávida. É bem possível que vá ter um filho negro. Eu conheci muitos judeus que lutaram para defender a pátria, perderam filhos e depois foram discriminados e mandados embora. Será que estou perdendo ou ganhando com isto de não amar uma bandeira?



(08 de julho/2006)
CooJornal no 484


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
São Paulo, SP
helgasz@uol.com.br
http://www.riototal.com.br/astros/