Alem da Astronomia tenho mais uma paixão: Línguas. Eu falo, escrevo, me
comunico em 4 ou às vezes 5 línguas. São 5 mundos diferentes e mesmo
parecidos. Além de me comunicar e ler os autores de diversas línguas em
original. Raramente existem boas traduções. A música, o charme de cada
língua é muito difícil de traduzir, mas eu adoro lecionar línguas para
alunos que começam a aprender comigo, alunos que ainda não sabem nada
desta língua. Um grupo de pessoas, geralmente estranhos entre si, depois
um espaço de tempo curto, sabem muita coisa sobre seus colegas (e agora
também amigos muitas vezes). Esta semana vamos terminar o primeiro estágio
de inglês com um grupo de 6 alunos, todos morando no mesmo bairro, Depois
dos costumeiros: Que você gosta de ler, de comer, de fazer, e onde você
vai aos domingos e quantos livros ou cadeiras você tem em casa, agora
vamos começar a perguntar -por que? Qual é sua opinião sobre.... Você
concorda com ela ou com ele? É muito gratificante para mim, é como um
escultor ou pintor que cria uma obra, com todos seus defeitos e erros para
ser aperfeiçoada. Na escola onde eu lecionava por muitos anos e onde eu
aprendi a gostar de lecionar me disseram antes da minha primeira aula:
Pode conversar sobre tudo, exceto religião e política. Claro que obedeci
às ordens, apesar que todo mundo gosta de falar justamente sobre isto.
Agora que não sou mais paga pela escola eu não preciso mais obedecer esta
regra. E justamente sobre isto é que quero falar. História versus
política/ onde termina a historia e onde começa a política?
Religião versus ciência. Onde termina um e onde começa o outra?
As páginas vazias dos livros da historia são os anos mais felizes de um
povo. Não me lembro quem falou isto mas era um filosofo alemão. Na minha
infância na Áustria precisamos estudar muito mais historia do que as
crianças brasileiras. Séculos de guerras, monarcas com nomes difíceis e um
monte de filhos, mas era obrigatório saber tudo isto.
Quando vivi na Hungria e viajamos pelo país, paramos muitas vezes para ver
uma cruz ou uma tabla com nomes. Eu perguntei a meu marido o que
significava aquilo. Ele respondeu: Aqui perdemos uma batalha. Fomos
para outra cidade e outra estatua e nomes. Perguntei outra vez. A mesma
resposta. Depois meu marido se cansou e disse: por favor não me
pergunte mais. Nós perdemos todas as batalhas em todos os lugares em todos
os tempos, mas na escola as crianças aprenderam e até hoje ainda aprendem
sobre as vitórias conquistadas.
Muitas vezes quando ensino números e datas para minhas alunas eu pergunto:
"o que aconteceu no dia 15 de novembro?" Ninguém sabe. Coisa mais recente.
Onde nasceu JK ou Jânio? Nada! Bom, eu sabia muito mais até...... até que
emigrei e estudei em colégio inglês, onde aprendi que tudo que estudei era
mentira! Tudo acontecera de uma maneira completamente diferente. Qual era
certo? Não sei e não quero saber, pouco me interessa. Nada é tão
falsificado como a história. Muito sangue foi e está sendo derramado em
nome da religião e em nome de deus. Povo feliz que sabe as datas de
nascimento dos jogadores de futebol mas não sabe dos políticos! Agora,
onde termina religião e começa ciência? Mais difícil ainda de estabelecer.
Max Planck acreditava em Deus.
Einstein falou: "ser cientista precisa ser muito forte. Horas e horas de
estar sozinho com seus pensamentos, a religião às vezes dá inspiração."
Mas também falou: Não posso imaginar um deus a recompensar e a castigar o
objeto de sua criação.
A mesma coisa me falou o David Levy que já descobriu mais de 20 cometas.
Eu lhe perguntei: Como e possível ser cientista e no mesmo tempo
religioso? Ele respondeu: A religião me inspira.
De outro lado, Carl Sagan era agnóstico, ateu. Ele falou: "Por que deus
esconde as verdades de Kepler e do Newton? Por que elas não são encravadas
nos hieróglifos do Egito? Por que os 10 mandamentos não estão escritos na
lua para podemos ver todos os dias? Por que a bíblia é tão clara e as
evidências tão escondidas? Por que andar atrás nos tempos antes de
Copérnico quando nós fomos o centro do mundo?
Darwin: "Evolução não contradiz criativismo. Os americanos são um povo
muito religioso e mesmo assim estimam a ciência. A religião diz que o
mundo começou há 10.000 anos. A ciência diz que começou há 10.000.000.000
anos. Alguns zeros a mais... A grandeza da criação nos faz admirar com
respeito e duvidas, tanto faz como começou.
Os
grandes músicos Bach, Haydn, Mozart, Bruckner, etc, se inspiraram na
religião. Os grandes pintores e escultores também criaram suas maiores
obras pensando em deus.
Por que quase não existem grandes escultores e pintores entre os Judeus?
Porque para eles é proibido fazer imagem de deus.
Igrejas e templos foram erguidos em todos os tempos, obr
as
maravilhosas para pagar tributo ao criador.
Mas também uni-versidades, obser-vatórios, bibliote-cas foram construí-dos
para aprender a saber um pouco mais sobre o universo, sobre o que chamamos
cosmos.... ordem contrária de caos.
Nós somos os únicos seres neste pedaço de rocha, o terceiro a partir do
sol, que somos conscientes da nossa ignorância, da grandeza de tudo ao
nosso redor. Os únicos que têm a curiosidade de saber mais e já demos o
primeiro passo ao nos afastar do nosso habitat. Ultimamente ouvi falar
muito de comunicação com pessoas mortas. Comunicação através do quê? Luz é
transportada através de fótons, gravidade através de grávitons, e os
mortos? Através de “espiritons’?
Por que Galileu nunca se comunicou conosco, ou Leonardo da Vinci? Não
seria mais útil do que o bisavô do qualquer um de nós?
Darwin nos mostrou que tudo começou de uma coisa extremamente simples
evoluindo até a complexidade de hoje, indivíduo, família, grupo, nação e
globalização. Criativismo é o contrário. Deus criou de cima para baixo.

Religião diz que a família e o grupo são a base. A luta inútil entre
ciência e religião não leva a nada. Se continuamos a lutar um contra o
outro vamos destruir tudo. Religião e ciência também.

(25 de novembro/2006)
CooJornal
no 504