
20/01/2007
Número - 512
ARQUIVO HELGA SZMUK
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Helga Szmuk
Lei da compensação
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Meu filho que tem 64 anos e mora nos Estados
Unidos veio me visitar. Nos lembramos das coisas do passado, e uma das que
ele se lembra nitidamente foi um brinquedo que ganhou quando tinha 3 anos
de idade. Foi durante a segunda guerra mundial, meu marido longe servindo
no exército inglês, lutando por democracia e liberdade. Minhas maiores
preocupações eram: comida, segurança e sobrevivência. Para brinquedos
caros, certamente não houve espaço. Mas ele ganhou uma pequena roda de
madeira que para ele era o volante de um carro imaginário. Ele viajava
através do seu mundo pequeno (ou muito grande). Foi este o presente mais
querido que ele ganhou na vida.
Depois que ele voltou para os Estados Unidos, chegou o aniversario do
filho dele, meu neto. Eu escrevi para ele que perguntasse o que ele queria
ganhar e depois comprasse em meu nome. Depois de esperar alguns dias
recebi a resposta: - O Thomas não quer nada porque ele já tem tudo...
Isto me fiz mudar meus pensamentos. Eu tive pena do meu filho por 60 anos,
por nunca ter recebido um brinquedo de verdade, mas agora eu sinto mais
pena do meu neto. Não ter mais desejo de ganhar nada? O que é pior?
A eterna lei da compensação. Ele não tinha nada, o filho dele tem tudo
(coisas materiais).
Eu fui obrigada a mudar de pátria diversas vezes e deixar tudo para trás,
mas, em compensação, aprendi diversas línguas, o que me proporcionou
sempre um bom emprego e muitas amizades de pessoas de diferentes
nacionalidades.
A lei da compensação.
Outro dia almocei junto com um primo da minha neta. Ele tem 15 anos e o
pai dele sofreu um acidente e ficou tetraplégico. Eu sempre tive muita
pena do filhinho dele. Viver com um pai que precisa do filho ao invés do
contrário, deve ser muito duro, mas a natureza agiu.
Eu quase não enxergo nada e andando na rua cheia de buracos é uma aventura
para mim
Nós fomos a um restaurante e meu filho, minha nora, tudo mundo correndo
para frente; somente o menino de 15 anos olhou para trás e me ajudou a
atravessar a pequena rua.
Este pequeno gesto me fez pensar outra vez na lei da recompensa. Este
menino pensa muito mais em DAR do que em Receber, um dom divino.
Eu tenho um amigo virtual o Reginaldo que me ajudou em muitas coisas sem
que a gente se conheça pessoalmente. Ele nunca aprendeu inglês ou alemão,
mas para meu espanto quando eu às vezes misturo palavras em alemão ou em
inglês nos emails para ele, ele entendeu tudo. Também quando recebi uma
notícia muito triste, o falecimento do meu irmão, ele me mandou um verso
de Goethe, meu poeta predileto, em alemão, Como é possível? Ele me contou
que o pai dele nasceu cego e ele foi "obrigado" a ler para o pai e
portanto ele também leu muitos livros. O pai dele estudava alemão e ele
foi outra vez "obrigado" a ler clássicos da língua alemã para ele. Não é
fantástico? Também dando ele recebeu um tesouro muito grande. O amor pela
leitura ninguém mais pode tirar dele.
Stephan Hawkings, o grande físico inglês que agora ocupa a cadeira de
Isaak Newton, é incapaz de se mover e de falar. Ele se comunica através de
computador e aparelhos sofisticados e falou que é uma pessoa de sorte,
pois escolheu uma profissão que usa somente a mente e não uma profissão
braçal. Homem de sorte!! Quantas pessoas se queixam de dor de cabeça ou de
não ter o último modelo de alguma coisa, mas agora eu li uma noticia: ele
quer ser passageiro de uma espaçonave em 2009. Pensando no futuro! Não é
para ter inveja dele?
Eu não sou mística nem religiosa, mas acredito na lei de compensação. Não
é recompensa, não. Mas pelo menos não tenho mais pena do meu filho e nem
de mim mesmo. É a pior de todas as doenças e não tem cura.
(20 de janeiro/2007)
CooJornal
no 512
Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
Florianópolis, SC
helgasz@uol.com.br
http://www.riototal.com.br/astros/
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