24/03/2007
Número - 521

ARQUIVO
HELGA SZMUK

 
Helga Szmuk



Era uma vez

 

Por centenas de milhões de anos mudamos e nos adaptamos às mudanças e necessidades para sobreviver na terra. Nadávamos na água salgada e por isto nossas lágrimas ainda estão salgadas. Nossa parte inferior da boca se movimenta como a de um peixe. Saímos da água e nos movimentamos perto do chão, não muito confortável. Subimos em árvores, comemos frutas com as mãos e  pulamos de galho para galho.

Mas o clima mudou e seguiram-se milhões de anos de seca, o que nos forçou a descer da árvore e usar mãos ao invés das pernas.

Milhões de anos de frio, de umidade, de calor e muita luz até criarmos sobrancelhas para proteger nossos olhos que estavam acostumados com a escuridão.

Cada mudança aumentou nosso cérebro e começamos a pensar sobre o que estava acontecendo...

Durante todos estes trezentos milhões de anos nenhuma outra criatura era consciente da sua descendência, de um peixe com um pulmão simples e bolhas no cérebro até o ser pensando sobre sua existência e passado. E fácil fazer uma omelete, mas é muito difícil fazer de uma omelete um ovo. É isto que estamos fazendo, nós estamos invertendo a história com nosso cérebro. Somos os primeiros seres a pensar sobre nosso passado e planejar o futuro. Somos os primeiros a nos adaptar às mudanças na terra usando o cérebro e não por eliminação. Somos os únicos que sabemos que nossa viagem tem um fim. Passeando na floresta somos os primeiros a não esperar os pássaros nos trazerem frutas e amendoim das árvores, mas sim, levamos comida para eles. Da nossa vontade de sobreviver adquirimos a capacidade de ajudar outros a sobreviver. Agora, pela primeira vez, temos um software no cérebro ao invés do hardware da genética. Nadamos melhor do que o peixe, voamos mais rápido do que o pássaro, olhamos da lua para cima para ver a terra e... sabemos sorrir.

Beleza, é verdade, mas VER a beleza é privilégio nosso. Oferecemos flores, os outros oferecem um pedaço de um cadáver. Somos os únicos a saber que os outros são como nós, os únicos que sabemos que alcançamos este status através de incertezas. Sabedoria é a chave! Somos a única criatura que sabe que o universo é feito de hidrogênio e tudo o que existe ao nosso redor foi feito por esta partícula primordial, por transformação do gás intergalaxial sem cor, sem gosto, sem cheiro, que apareceu em pares de opostos próton e elétron, mais contra menos, eletricidade contra gravidade, espaço contra tempo. Mas não somos o final da evolução! Falta ainda muito tempo, nosso sol está somente na metade da idade dele até engolir tudo e implodir e espalhar seu conteúdo para o espaço, para criar outros sóis e outros planetas.

Eu estava pensando quais são as possibilidades de mudar o rumo da nossa civilização completamente:
Mudança no ciclo dos manchas solares que é de 11 anos. Este ano houve explosões fora do ciclo que influenciou as radiocomunicações e quem sabe o clima na terra também.
Uma explosão de uma supernova perto de nós que, certamente, acabaria com a vida na terra. Quem sabe se não aconteceu no passado? Cada estrela morre um dia, entre as bilhões de estrelas na nossa galáxia já pode ter acontecido.
Um impacto de um cometa ou um NEO (near earth object) e muitas outras causas, mas não acredito que será o uso de automóveis.

Muito se fala em aquecimento global e destruição da Terra. Não estamos supervalorizando nossos poderes? O presidente Bush não assinando o tratado de Kyoto pode mudar o mundo? Com certeza não, pois já sobrevivemos ao frio, calor, seca, o dilúvio, e vamos também sobreviver aos gases dos automóveis.
 

If forever is until the sun swallows the earth, there is not much diference between my little moment and forever
In an ancient universe that knows no end farther than the night can see
A hundred exploded stars are coursing through my blood and yours my brother;
The silver haze across the night is a billon suns and one among the haze is ours. One belongs to you and me.
(Joannie Jackson)  

Tradução

Se “para sempre” é até o sol engolir a terra, não tem muita diferença entre meu pequeno momento e para sempre.
Num universo antigo que não conhece fim mais longe do que a noite revela
Centenas de estrelas que explodiram correm através do meu sangue e do meu irmão;
A nuvem prateada através da noite é um bilhão de sóis e um entre as nuvens é nosso.
Um deles pertence a você e a mim.

 

(24 de março/2007)
CooJornal no 521


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
Florianópolis, SC
helgasz@uol.com.br
http://www.riototal.com.br/astros/