12/05/2007
Número - 528

ARQUIVO
HELGA SZMUK

 
Helga Szmuk



Quanto tempo dura a felicidade?


 

Dr. Fausto estava fazendo um pacto com Mefisto. Ele recebe eterna juventude se consegue dizer durante a vida dele uma única vez: momento, pare! Estou tão feliz que não quero que o tempo continue! É um retrato do Goethe. Ele diz no começo: Tenho estudado lei, filosofia, matemática, línguas e teologia, mas me sinto cada vez mais ignorante. Uma grande verdade. Quanto mais estudamos mais percebemos nossa ignorância.

Eu estava perguntando a mim mesma: é impossível alguém ser feliz para sempre? Durante minha vida presenciei alguns momentos em que todos pensavam ter tido um momento da maior felicidade e o que aconteceu?...

Eu me lembro do casamento da Lady Dy, a Diana, uma plebéia, casando com um príncipe herdeiro do trono da Grã-Bretanha, Tanto esplendor tanta inveja! Todo mundo sabe o fim triste da história, um casamento infeliz uma morte precoce. Ela nem veio a conhecer a adolescência de seus filhos.

Logo depois do casamento espetacular, o cunhado casou-se com uma amiga dela; mais pompa, mais inveja e logo vem o fracasso. Eles se separaram para sempre.

Eu me lembro do casamento do John Kennedy com a Jaqueline, outra pompa outra felicidade eterna. Ele se tornou presidente dos Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo; outro fim trágico, o assassinato do presidente. O segundo casamento da Jaqueline com o magnata Onassis e outro fim triste. Ela morreu de câncer, o filho jovem morreu num acidente de avião.

A Grace Kelly! Estrela de Hollywood, casando com o príncipe Rainier! Mais um fim trágico. A filha também perdeu o marido num acidente de barco.

Quando eu era criança, estudei 6 meses num pensionato na Suíça para aprender francês (nunca aprendi!). Lá havia uma menina linda, de cabelos ruivos, um anjo na terra; ela se casou com o Agha Khan, um dos homens mais ricos do mundo. A menina se chamava Rita Hayworth. Eles se separaram logo e a filha, Jasmin, sacrificou sua juventude cuidando da mãe que teve Alzheimer muito jovem ainda.

Estes são algumas exemplos da não eternidade da felicidade somente durante minha vida. Nenhum desses personagens está vivo ainda.

Mas conheço casos do contrário. Extrema infelicidade que se tornou uma vida com sucesso.

Uma amiga minha foi deportada durante a guerra para um campo de concentração. Ela e seu filho passaram fome, frio, humilhações e tudo o que nós sabemos dos livros e filmes. Ela foi salva com o filho e me contou: "eu prometi, se puder sair daqui com meu filho, ele nunca mais vai passar fome... Eu nunca mais vou me queixar de nada."
Mas eu estava presente quando ela brigou com a empregada porque esta trocou o papel higiênico cor de rosa por papel de cor azul, para o banheiro errado. Eles moram em São Paulo, são pessoas conhecidas, mas eu não tenho permissão de revelar o nome deles.
Mas fico feliz que as coisas ruins também possam ser, se não esquecidas, pelo menos superadas.

Outro caso é de uma pessoa muita conhecida e bem sucedida,
que também mora em São Paulo. Foi sua mãe quem me contou a história. Também durante a guerra, na ocupação alemã na Hungria, quando o marido desta minha amiga foi deportado e ela e o filho de 3 anos ainda estavam no apartamento. Mas ela sabia que não ia durar muito e ela e o filho seriam os próximos. Foi quando uma antiga empregada se ofereceu para esconder o menino sob um nome falso. Ela concordou, mas o nome do menino era tipicamente judeu e em curto tempo ele precisava aprender um outro nome. A mãe perguntava-lhe: como você se chama? Ele respondia seu nome verdadeiro. Ela batia nele, NUNCA mais pronuncie este nome outra vez. Como você se chama? O menino respondia e  outra batida, dessa vez com cinto. Ela repetiu tantas vezes até ele nunca mais ousou pronunciar o nome dele.
Logo ela foi deportada para o campo de concentração. O menino sobreviveu sob a proteção da ex-empregada. A guerra terminou, a mãe sobreviveu pesando 36 kg. Logo foi procurar o filho e o encontrou bem de saúde. Ela casou de novo e vieram para Brasil. Ela já faleceu e o "menino", hoje com quase 70 anos, é uma pessoa bem sucedida e feliz. Ele não se lembra de nada e o relacionamento com a mãe até a morte era excelente.
Ele nunca soube de nada. Eu sou a única pessoa viva quem sabe da história dele. Mas a mãe nunca me deu a permissão de revelar, para ele, E uma pena!
 
Agora, sobre felicidades. Quem é mais feliz? As meninas que casaram com príncipes ou as sobreviventes do holocausto?

Onde estão os psicólogos e entendidos? Eu gostaria de saber se gênios como Darwin, Kepler Einstein, Newton eram felizes? Eles descobriram alguns segredos do universo. Será que isto é felicidade duradoura? Ou pintores, gênios da música, Mozart, Beethoven, Schubert, Michelangelo? Eram felizes até a morte?
Não sei. A criança que nasce chora muito, parece estar sofrendo. Nada de felicidade de estar vivo.

A história de Fausto e o Mefisto também não acharam a felicidade eterna. Mas é bom enquanto dura!



 


(12 de maio/2007)
CooJornal no 528


Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
Florianópolis, SC
helgasz@uol.com.br
http://www.riototal.com.br/astros/