
28/07/2007
Ano 11 -
Número 539
ARQUIVO HELGA SZMUK
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Helga Szmuk
Viva a diferença
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Muita gente pergunta por que eu gosto tanto de aprender e ensinar línguas
e também estar apaixonada por astronomia? O que os dois têm em comum?
Muita coisa. Ambos abrem o horizonte. Você vive tantas vidas quantas
línguas fala e sabe ler e se comunicar. Mesmo dentro do próprio país, as
diferenças entre os nordestinos e sulistas além do sotaque é enorme. Norte
e sul, influência de clima e portanto da mentalidade. A língua reflete a
mentalidade, tal como as canções e danças. Viva a diferença! Tudo que abre
o horizonte também abre a mente das pessoas. Recebi um email de uma aluna
de 22 anos que diz: "mas a ponte entre fronteiras de todo mundo que
isso te traz me fascina... um dos motivos que quero aprender inglês, acho
que o principal deles, é para eu quebrar qualquer fronteira... kisses
teacher. Fiquei muito feliz. Uma menina de mente aberta. Ela estuda
comigo não somente para achar um emprego maior mas para abrir o horizonte!
Tem gente que cria os filhos para o mundo, tem outros que criam os filhos
para ficar perto dos pais, da família, morar no mesmo bairro, casar com
homem ou mulher da mesma religião e um dia cuidar dos velhos da mesma
família. Sinto pena destes filhos, os pais querem receber ao invés de dar.
Eu divido as pessoas entre "givers" e "takers"
- pessoas que
querem receber e pessoas que querem dar. É muito mais gostoso dar do que
receber. Por que o filho precisa cuidar da sua própria família, um dia?
Por que não pode cuidar e dar amor conhecimento para outras pessoas?
Galileu abriu um mundo construindo uma luneta, para enxergar mais longe. Colombo viajou para o desconhecido para abrir novos caminhos tal como
Vasco de Gama, Cabral, Marco Pólo e muitos outros. Nenhum deles ficou no
mesmo bairro onde nasceu. Gagarin saiu da nossa terra e disse: "a Terra e
azul!" Ninguém antes sabia disso! O
telescópio
Hubble nos traz imagens e informações de milhões de anos luz. Coitados dos antigos que
pensaram que a Mesopotâmia era o mundo. E depois que a Terra era o mundo,
depois o Sol era o centro etc... cada dia o universo fica maior e mais
bonito
Os átomos se juntam, as galáxias se juntam mas não adianta... O universo se
expande contra a vontade de tudo e de todos, as famílias se desfazem, os
filhos vão embora, amigos se foram, mas vêm novos amigos, novos jovens com
mentes mais abertas, mais conhecimento, menos distâncias.
Que bom ler obras de outros autores de outras línguas em original. Eu
nunca gostei de traduções. Não dá certo. Eu já li Jorge Amado em húngaro,
é horrível! Nenhum húngaro vai saber como o povo da Bahia fala, e portanto
pensa, canta (mesmo falando). É uma imitação pobre e falsificada.
Eu tenho um amigo de 4 patas na praia de Floripa. Cada manhã quando eu apareço
lá ele está ocupado olhando para o horizonte, observando o barco do
dono dele, um pescador. O cachorro, um vira-lata, me cumprimenta com muita
alegria mas corre de volta para não perder o barco da vista. Na mesma
praia tem uma mulher com um pequinês que late para mim com raiva. Por quê?
Ele está acostumado a ficar no sofá sempre junto com a dona que também
prefere ficar na frente da Tv mais tempo possível. Até o cachorro muda o
caráter se fica preso no seu “lar”.
Sorte nosso e da humanidade que as mães dos descobridores não insistiram
para os filhos ficarem juntos a elas.
A relação entre língua e astronomia:
Uma criança alemã de 1 ano fala para
o pai: Papa com o acento na primeira sílaba. A criança francesa pronuncia as
mesmas letras Papa com o acento na segunda sílaba. Por quê o mesmo
movimento dos lábios do quem pronuncia e tanta diferença?
A música, o
ritmo, a expressão. Isto que faz uma língua, e não o vocabulário.
Eu
assisti uma vez em Israel à peça obra prima do Goethe, o Fausto. Num
momento a Margarida cumprimenta o Dr. Fausto com as palavras: SHALOM, Paz
seja com você. Em alemão: Frieden sei mit dir!
É horrível, um crime! Não pode acontecer. Traduções não podem ser feitas
ao pé de letra! A pessoa que faz a tradução precisa conhecer profundamente
as duas línguas e a mentalidade dos dois povos. Mas isto não se aprende na
escola ou no computador. Se aprende na convivência.
Astronomia também não
se aprende no sofá. Somente observando, sentindo os fótons das estrelas
tocar sua retina. Em todos as casos é preciso se levantar e sair! Quanto
mais longe melhor!
(28 de julho/2007)
CooJornal
no 539
Helga Szmuk
astrônoma amadora, professora de idiomas
Florianópolis, SC
helgasz@uol.com.br
http://www.riototal.com.br/astros/
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