16/03/2019
Ano 22 - Número 1.117

 

ARQUIVO
IRENE SERRA




 

Irene Serra



Maria, Mariazinha, minha sempre “Bibia”
 

Irene Serra - CooJornal

Em 2003 desabafei este texto. Não durou muito, em 2005 Mariazinha se foi. E, agora,
no aniversário de seu falecimento, a saudade aperta ainda mais. Minha babá querida,
a companheira de todas as horas, a quem sinto que falhei quando mais precisava.
Por que se torna tão difícil, às vezes, dizer que amamos, que sentimos falta de alguém?

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A morte espreita. Ouço seu ronco e sei que nada posso fazer a não ser dar um abraço, um carinho, passar as mãos pelos crespos cabelos da pessoa que respira com dificuldade ao meu lado. Vejo seu raro sorriso ao lhe pedir, hoje, um beijo, como se ainda eu criança fosse, sentindo seu colo amigo e protetor. E ela também, criança mostrando-se cada vez mais em seu corpo miúdo e magro quase centenário, olhar longínquo, medo permanente em meio aos devaneios e ausências.

Gênio difícil – o de todos nós. Palavras duras e amargas, impaciência até mesmo nos momentos em que sentimos sua incapacidade de compreensão e os reflexos já murchos e lentos. Maldita língua que não se cala, apesar de todo o amor existente!

Com o tempo ela foi se tornando mais amarga, muda... Mas quem assim não agiria ao se sentir carente de afeto, de uma palavra amiga, tão só? Não me lembro de alguém que tivesse tido muito tempo para ouvir suas reminiscências, algumas bobagens ou jogar conversa fora, nesta vida tão agitada que nós mesmos construímos. Da pia para o tanque, das compras para o quarto, ei-la um cão de guarda fiel que quase não recebia afago. E nós, a família que ela adotou desde sempre, inúmeras vezes indiferentes ao seu silêncio sofrido!

Amando, alcei novos vôos e não a carreguei em minhas asas. Não mais recortes de Cashmere Bouquet das velhas revistas, sentada no chão da cozinha, olhando-a trabalhar responsável e confiante, e ela a fingir que não me via. Não mais lugar para histórias de fadas, confissões pueris, brincadeiras de panelinhas, o dengo a qualquer hora. Não mais tudo. Não mais nada. E ela, em seu canto, quedou-se na espera.

Apesar de há algum tempo estar morando comigo, sei que não é só isso que quer; ela precisa de minha companhia incondicional como filha, e isso não mais lhe dou, o famoso "agora não tenho tempo; fica para depois".

Seguro sua mão, que já não tem força. Converso baixinho, sabendo que pouco me ouve, mas na esperança de que minha voz a acalme e durma serena. O gato aconchegado em suas pernas dorme de há muito, como a lhe dar o ritmo da respiração. Até quando terá forças para lutar? E fico a contemplá-la, em angustiada prece, a lhe pedir perdão pela felicidade que não lhe dei, só recebi!

Publicado no CooJornal em 30 de outubro/2003

 

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Irene Vieira Machado Serra
foniatra, editora da Revista Rio Total, revisora e orientadora de textos
RJ 
irene@riototal.com.br   



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