Irene Serra
RESGATE
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Há algum tempo, ao ser entrevistada por Márcia Leite para o seu Deleite's, abordei a diversidade
de conteúdo dos emails que recebemos através da Revista Rio Total, desde as abordagens mais infantis a graves problemas de saúde ou financeiros. A todos tento responder com a mesma atenção e cuidado, apesar de bem saber da urgência ou não de cada um.
Este ano tem-nos sido de uma alegria e felicidade sem iguais. Se Rio Total terminasse agora, consideraria que nossa missão foi cumprida. Sempre tentamos ajudar e fazer o bem, tenho certeza disso. E como temos sido recompensados!
Em abril, chega correspondência de Budapeste: "I'm searching xx and her sons (yy and zz). If you know anything about them, please contact me: …." E a resposta estava logo ali ao nosso alcance! Após rápida troca de correspondências, o susto:
"Como você conseguiu isto?". Passei a participar da alegria das "meninas", recebi fotos, fui convidada a visitar a família. Enfim, sou premiada ao saber
que as amigas separadas bruscamente desde a segunda guerra estarão se encontrando,
semana que vem, na Hungria. O tempo nem o sofrimento as afastara.
Mal "entregamos" o Caso Hungria, chega-nos outro, prova de admirável tenacidade e amor filial.
Uma jovem navegante, procurando pelo pai de seu esposo, chega às margens do São Francisco, via internet. Ali havia uma balsa, já gasta pelo tempo e não muito estável mas, encorajados, nela embarcam. Cúmplice de mais um caso de amor, o "Velho Chico" - como o escritor o chamara - leva-os ao Rio Total. E aí, ancorados, fazem sua pesquisa. É quando o rapaz manda um email direcionado ao CooJornal, de forma sensível e sofrida, expondo sua constante busca ao pai e a ansiedade em revê-lo. Dele, só guarda o nome... e a saudade!
Um homem, olhar fixo às palavras que parecem saltar do computador, surpreso, medita perdendo-se no passado. O amor à companheira - que lhe dera um filho - fica adormecido em Petrolina, às margens do São Francisco, quando de lá é transferido. Vai para São Paulo, depois viaja para o exterior, sendo que ao retornar alguns anos depois, constitui família no sul. Esquecera o passado, o amor primeiro? Nunca! Seus olhos sempre tristes traem a muda pergunta que - para não ferir ninguém, pois a sabe novamente casada - teima em não fazer. E se nada de si fora contado ao filho? E se ele o recusasse? E se o odiasse? E de
se em se foi-se deixando calejar. Ficaram apenas os sonhos... e a saudade!
Lê e relê: "Venho através desta pedir ao senhor um favor; procuro uma pessoa chamada...".
Seria coincidência? Poderia ser seu próprio filho a pedir ajuda, justo a ele?
Responde-lhe, então, 25 anos consumidos em segundos, citando dados, solicitando outros, em prece a Deus para que fosse este o seu filho. Sem acanhamento, deixa os olhos chorarem em meio à alegria imensa, na certeza de que não seria abandonado agora, quando suas esperanças se renovavam.
E rápida chega a réplica. Ele mal sussurra:
"A bênção meu Pai! Até que enfim nós nos encontramos, vc não imagina o quanto te procurei."
Abraçamo-nos, emoção transbordando. Finalmente, a paz! O amor! A família! E com direito a três lindos netos!
- Pelo homem que você se fez e por tudo que passa a representar para mim, um novo filho, abraço-me a seus pais para também rogar: Deus o abençoe, Lippe!
(setembro 2001)
Irene Vieira Machado Serra
foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ
irene@riototal.com.br