03/08/2002
Número - 270




Irene Serra  
  

PÔR-DO-SOL EM IPANEMA

 

Editando uma crônica para o CooJornal desta semana, em que seu autor comenta que "andar é viver", fazendo alusão a uma caminhada pela bela Praia de Ipanema, a alegria das pessoas que por ali estavam e ... bem, quem já leu a crônica aí acima sabe a que estou me referindo - lembrei-me, imediatamente, de certo email que recebi em um verão anterior, de uma leitora portuguesa, que indagava "por que os cariocas precisavam de bater palmas para um simples pôr-do-sol, coisa que acontecia diariamente e que por lá era certamente mais belo do que aqui?". "Seria necessidade de chamarmos atenção da mídia? Não teríamos nada melhor?" E algumas outras agressivas opiniões.

Perplexa com a insensibilidade demonstrada, com a falta de respeito ao hospitaleiro, espontâneo, bem-humorado carioca, respondi-lhe:

Cai a tarde em Ipanema. O sol, ainda um adolescente saltitante, brinca de pique-esconde atrás do Morro Dois Irmãos rajando o céu de um vermelho que se esmaece em laranja para logo além se pintar em púrpura, emocionando-nos com sua beleza e fazendo com que procuremos, dentro de nós, o mais belo que temos para oferecer: um simples aplauso... aplauso em agradecimento à natureza pelo que, espontaneamente, ela nos doa.

Não há palavras para explicar a sensação de êxtase que, num galope, invade a todos - jovens com seus dourados corpos esculturais a almejar o futuro, velhos dourados mas não tão esculturais refletindo sobre um recente passado - comungam da mesma sabedoria: a mão divina rege cada um destes tantos grandiosos espetáculos.

A sensibilidade de sorrir para uma flor que desabrocha ou chorar diante de um crucifixo é a mesma que diferencia um tocador de piano de um pianista, um canastrão de um ator. É nata e não precisa de auditório para ser demonstrada, ou seja, quanto mais sozinha a pessoa se encontra dentro de si mais vivifica e se entrega às emoções. E, com sua espontaneidade e alegria, o carioca bem sabe extravasar amor e aproveitar cada momento que lhe é concedido.

Feliz quem se embriaga de sensações em valores outros além da beleza intrínseca do amamentar um filho - nunca banal porque repetitiva e sim única de cada vez. Feliz quem ouve o incessante canto do córrego a fugir das pedras que o machucam - aí está a água pura e límpida. Feliz quem reverencia a profundidade e mistério do céu estrelado - Deus lhe permitiu ver um pouco da Sua face.

Aplausos, então, ao pôr-do-sol. E, a todos que homenageiam e glorificam a natureza, também aplausos!



(03 de agosto/ 2002)
CooJornal no 270
    


Irene Vieira Machado Serra
professora, foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ 

irene@riototal.com.br