Irene Serra
PÔR-DO-SOL EM IPANEMA
|

|
Editando uma crônica para o CooJornal desta semana, em que seu autor
comenta que "andar é viver", fazendo alusão a uma caminhada
pela bela Praia de Ipanema, a alegria das pessoas que por ali
estavam e ... bem, quem já leu a crônica aí acima sabe a que estou me
referindo - lembrei-me, imediatamente, de certo email que recebi em um verão anterior,
de uma leitora portuguesa, que indagava "por que os cariocas precisavam de
bater palmas para um simples pôr-do-sol, coisa que acontecia diariamente e
que por lá era certamente mais belo do que aqui?". "Seria necessidade de
chamarmos atenção da mídia? Não teríamos nada melhor?" E algumas outras
agressivas opiniões.
Perplexa com a insensibilidade demonstrada, com a falta de respeito ao
hospitaleiro, espontâneo, bem-humorado carioca, respondi-lhe:
Cai a tarde em Ipanema. O sol, ainda um adolescente saltitante, brinca de
pique-esconde atrás do Morro Dois Irmãos rajando o céu de um vermelho que
se esmaece em laranja para logo além se pintar em púrpura, emocionando-nos
com sua beleza e fazendo com que procuremos, dentro de nós, o mais belo
que temos para oferecer: um simples aplauso... aplauso em agradecimento à
natureza pelo que, espontaneamente, ela nos doa.
Não há palavras para explicar a sensação de êxtase que, num galope, invade
a todos - jovens com seus dourados corpos esculturais a almejar o futuro,
velhos dourados mas não tão esculturais refletindo sobre um recente
passado - comungam da mesma sabedoria: a mão divina rege cada um destes
tantos grandiosos espetáculos.
A sensibilidade de sorrir para uma flor que desabrocha ou chorar diante de
um crucifixo é a mesma que diferencia um tocador de piano de um pianista,
um canastrão de um ator. É nata e não precisa de auditório para ser
demonstrada, ou seja, quanto mais sozinha a pessoa se encontra dentro de
si mais vivifica e se entrega às emoções. E, com sua espontaneidade e
alegria, o carioca bem sabe extravasar amor e aproveitar cada momento que
lhe é concedido.
Feliz quem se embriaga de sensações em valores outros além da beleza
intrínseca do amamentar um filho - nunca banal porque repetitiva e sim
única de cada vez. Feliz quem ouve o incessante canto do córrego a fugir
das pedras que o machucam - aí está a água pura e límpida. Feliz quem
reverencia a profundidade e mistério do céu estrelado - Deus lhe permitiu
ver um pouco da Sua face.
Aplausos, então, ao pôr-do-sol.
E, a todos que homenageiam e glorificam a natureza, também aplausos!
(03 de agosto/ 2002)
CooJornal no 270
Irene Vieira Machado Serra
professora,
foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ
irene@riototal.com.br