Irene Serra
UMA CHURRASQUEIRA INOPORTUNA
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Conheci há pouco em Copacabana uma rua que até então não poderia acreditar
existir. E sei que é desconhecida até mesmo por muitos que moram na zona
sul do Rio (o que é pertinente, senão, ela não seria este paraíso que é).
Estritamente residencial, suas casas parecem uma vila de Delft (digna de
ter sido imortalizada por Werner) acrescentada de dois pequenos
edifícios. Quedei-me a observar uma árvore na área em frente a um deles -
em meio ao silêncio interrompido apenas pelo canto dos pássaros que ali
fizeram sua morada. A alguns palmos da janela de onde eu estava, havia um
ninho e a mamãe passarinha me olhava como que a avisar que dali eu não me
aproximasse. Sorri! Faria o mesmo por meus filhos!
Logo abaixo vi o cuidado do zelador, com seu tomateiro carregadinho,
coentro florindo em vários vasos e um pimentão querendo ficar vermelho –
mas certamente relutante, com pena de perder os afagos que recebe.
Tendo chovido, um verdadeiro riacho descia pela encosta do morro, passando
por uma canaleta atrás do prédio. Estaria mesmo no Rio, ou seria um sonho?
Acolá, convivem pé de café, de tangerina, cana caiana, inhame, numa festa
de dar gosto. Não brigam, cada um tem seu espaço e convivem
harmoniosamente. Ah, sim, este espaço ainda é dividido com diversas flores
e um abacateiro.
Minha atenção, em espanto, se prende ao abacateiro. O que é isso que está se levantando
ao seu lado, a céu aberto, como uma verdadeira muralha de
tijolo quebrando o encanto da paisagem? O susto não passou, mas veio a
certeza: é uma churrasqueira, que já está da altura de um homem. Que
incoerência! Aonde o bom senso, ao se deixar este monstro estranho em meio
a tanta beleza, que vai vomitar fogo enfumaçando o ambiente e soltar seus
excrementos numa área social que dá para as janelas da sala e quartos de
todos os apartamentos?
Adeus abacateiro e cheiro de mato! Adeus passarinhos construtores e um
certo beija-flor que ali costuma flutuar! Adeus vento cantante que não
mais poderá brincar visitando o interior das casas,
já que todas passarão a estar com suas janelas fechadas a cada vez que o
monstro de tijolo urrar querendo fazer sua refeição!
(01 de novembro/ 2002)
CooJornal no 284
Irene Vieira Machado Serra
professora,
foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ
irene@riototal.com.br