01/11/2002
Número - 284




Irene Serra  
  

UMA CHURRASQUEIRA INOPORTUNA

 

Conheci há pouco em Copacabana uma rua que até então não poderia acreditar existir. E sei que é desconhecida até mesmo por muitos que moram na zona sul do Rio (o que é pertinente, senão, ela não seria este paraíso que é).

Estritamente residencial, suas casas parecem uma vila de Delft  (digna de ter sido imortalizada por Werner)  acrescentada de dois pequenos edifícios. Quedei-me a observar uma árvore na área em frente a um deles - em meio ao silêncio interrompido apenas pelo canto dos pássaros que ali fizeram sua morada. A alguns palmos da janela de onde eu estava, havia um ninho e a mamãe passarinha me olhava como que a avisar que dali eu não me aproximasse. Sorri! Faria o mesmo por meus filhos!

Logo abaixo vi o cuidado do zelador, com seu tomateiro carregadinho, coentro florindo em vários vasos e um pimentão querendo ficar vermelho – mas certamente relutante, com pena de perder os afagos que recebe.

Tendo chovido, um verdadeiro riacho descia pela encosta do morro, passando por uma canaleta atrás do prédio. Estaria mesmo no Rio, ou seria um sonho?

Acolá, convivem pé de café, de tangerina, cana caiana, inhame, numa festa de dar gosto. Não brigam, cada um tem seu espaço e convivem harmoniosamente. Ah, sim, este espaço ainda é dividido com diversas flores e um abacateiro.

Minha atenção, em espanto, se prende ao abacateiro. O que é isso que está se levantando ao seu lado, a céu aberto, como uma verdadeira muralha de tijolo quebrando o encanto da paisagem? O susto não passou, mas veio a certeza: é uma churrasqueira, que já está da altura de um homem. Que incoerência! Aonde o bom senso, ao se deixar este monstro estranho em meio a tanta beleza, que vai vomitar fogo enfumaçando o ambiente e soltar seus excrementos numa área social que dá para as janelas da sala e quartos de todos os apartamentos?

Adeus abacateiro e cheiro de mato! Adeus passarinhos construtores e um certo beija-flor que ali costuma flutuar! Adeus vento cantante que não mais poderá brincar visitando o interior das casas, já que todas passarão a estar com suas janelas fechadas a cada vez que o monstro de tijolo urrar querendo fazer sua refeição!


(01 de novembro/ 2002)
CooJornal no 284


Irene Vieira Machado Serra
professora, foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ 

irene@riototal.com.br