Irene Serra
SEM TEMOR!
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Lá vêm elas, sorridentes, conversando, quase a brincar: mãe, filha e
boneca. A mãe, corpo esguio e cabelo curto, parece ser a filha. A menina,
linda, é uma verdadeira boneca. A boneca, com olhos brilhantes e fixos na
criança, mostra-se uma atenta mãe.
E assim seguem saltitantes até chegarem a uma casa branca, onde se
despedem com inúmeros afagos.
A casa é tão branca e limpa, como se estivesse recém-pintada, demonstrando o esmero com que a mantêm!
É protegida por um muro onde um pouco de tinta, também branca, escorre
pelas pedras que compõem sua base, dando-nos a impressão de que querem
penetrar em seu interior para descobrir algum segredo ali escondido.
Portas e janelas amarelas, toldos listados amarelo e branco e até a caixa
de correio brilhando com seu quinhão de amarelo, dão as boas-vindas a quem
chega. E que prazer observar as dezenas de mãozinhas coloridas espalmadas nas
paredes internas, abençoadas por um mural de Nossa Senhora com seu Filho
ao colo!
Não é um castelo de fadas. É apenas uma pequena escola!
E aquela linda menina, após ser recebida carinhosamente, entra e permanece com o mesmo
jeitinho alegre. Nota-se que ela está feliz, que há uma continuidade
lar/escola! Pois é, estamos no final do ano letivo e o comportamento calmo
e solícito das professoras parece ser o de primeira semana de aulas. Quem
as vê cantando enquanto orientam a sadia algazarra das crianças,
facilmente pode intuir que estas estão no lugar certo para terem tempo de
crescer.
De outra feita, em um dia chuvoso e cinzento, lá vem um galante pai
mostrando sua princesinha a todos, só sorrisos para quem passa ao seu
lado. Vaidoso, ele a apresenta como um troféu. Mas a filha não sorri, vem
meio a contragosto tentando encolher a mão livre dentro do agasalho. De
repente, a menina diz que está com frio. Param. Ele exclama: "Frio, que
frio? Você está é com manha para não ir à escola!" Ela irrompe em choro:
"Estou com frio! Muito frio! Quero mamãe! MAMÃE!" E uma cena deprimente se
sucede. O até há pouco gentil cavalheiro agacha-se e, olhos nos olhos, diz-lhe baixinho
com os dentes trancados: "Você conhece o peso da minha mão? Pois se não
calar a boca e parar de chorar, vai ver como ela é pesada e como dói me
desobedecer!" Em um instante a criança engoliu as lágrimas e andou até a
escola, entrando. Devia ter uns 3 anos de idade...
Tão pequena, tão desamparada! Que trabalho hercúleo o de uma professora
para conseguir incentivar e atrair alguém que chega neste estado! Quantas
respostas negativas podem daí advir! Duas meninas aparentemente iguais,
provavelmente do mesmo nível social e com as mesmas oportunidades mas,
talvez, com futuros tão distintos!
- Ah, querida!
Que pena você não ter trazido sua boneca! Certamente ela a carregaria no
colo, contando-lhe histórias e você receberia atenção, amor e carinho!
Mas não tema entrar numa escola. Nunca! Lá é o pouso seguro, onde fará
amigos e aprenderá a crescer e viver. Lá você sempre será ouvida! Todos
precisamos da Escola! É nela que passamos nossos melhores dias e dos
quais nunca vamos nos esquecer! A Escola é sua! Conte com ela! Vamos,
levante este rostinho, sorria e seja muito feliz!
(16 de novembro/ 2002)
CooJornal no 286
Irene Vieira Machado Serra
professora,
foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ
irene@riototal.com.br