30/10/2003
Número - 338





Irene Serra  
  

Maria, Mariazinha, minha sempre “Bibia”

 

A morte espreita. Ouço seu ronco e sei que nada posso fazer a não ser dar um abraço, um carinho, passar as mãos pelos crespos cabelos da pessoa que respira com dificuldade ao meu lado. Vejo seu raro sorriso ao lhe pedir, hoje, um beijo, como se ainda eu criança fosse, sentindo seu colo amigo e protetor. E ela também, criança mostrando-se cada vez mais em seu corpo miúdo e magro quase centenário, olhar longínquo, medo permanente em meio aos devaneios e ausências.

Gênio difícil – o de todos nós. Palavras duras e amargas, impaciência até mesmo nos momentos em que sentimos sua incapacidade de compreensão e os reflexos já murchos e lentos. Maldita língua que não se cala, apesar de todo o amor existente!

Com o tempo foi se tornando mais amarga, muda, egoísta... Mas quem assim não agiria ao se sentir carente de afeto, de uma palavra amiga, tão só? Não me lembro de alguém que tivesse tido muito tempo para ouvir suas bobagens ou jogar conversa fora, nesta vida tão agitada que nós mesmos construímos. Da pia para o tanque, das compras para o quarto, ei-la um cão de guarda fiel que quase não recebia afago. E nós, a família que ela adotou desde sempre, inúmeras vezes indiferentes ao seu silêncio sofrido!

Amando, alcei novos vôos e não a carreguei em minhas asas. Não mais recortes de Cashmere Bouquet das velhas revistas, sentada no chão da cozinha, olhando-a trabalhar responsável e confiante, a fingir que não me via. Não mais lugar para histórias de fadas, confissões pueris, brincadeiras de panelinhas, o dengo a qualquer hora. Não mais tudo. Não mais nada. E ela, em seu canto, quedou-se na espera. Apesar de visitá-la quase diariamente, eu sabia que não era isso que queria; ela  precisava de minha companhia incondicional.

Seguro sua mão, que já não tem força. Converso baixinho, sabendo que pouco me ouve, mas na esperança de que minha voz a acalme e durma serena. O gato aconchegado em suas pernas dorme de há muito, como a lhe dar o ritmo da respiração. Até quando terá forças para lutar? E fico a contemplá-la, em angustiada prece, a lhe pedir perdão pela felicidade que não lhe dei, só recebi!
 

(30 de outubro/2003)
CooJornal no 338


Irene Vieira Machado Serra
professora, foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ 

irene@riototal.com.br