Irene Serra
QUASE UM GUERREIRO
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Rapaz alto, forte, combativo. Um verdadeiro guerreiro! No lusco-fusco,
ei-lo perscrutando o horizonte baixo na tentativa de localizar o
acampamento onde teria de se apresentar desde há muito. Cansado, sabe que
tem bastante por andar, pois nenhum sinal de alguma movimentação, fogo ou
lanterna chegara a perceber. O cabelo liso insiste em cair sobre seus
olhos, trazendo-lhe certa irritação. A boca seca - sem que possa ao menos
umedecê-la, pois o cantil encontra-se vazio - murmura palavras de
encorajamento e incentivo a si próprio.
Vê o pequeno córrego e decide que é hora de um descanso se quiser chegar
ao destino. Refestela-se com a água e, prevenido, enche o cantil. Deita-se
na relva e relaxa, repousando a cabeça sobre o alforje, antes tendo tirado
o que da vestimenta o incomodava. Se não chegou até agora, que o aguardem
mais um pouco.
Sorri. Sempre fora assim, gostava de aventuras e nunca deixava um desafio
em meio. Só que agora percebe o quão intempestivo fora ao aceitar esta
competição conhecendo apenas alguns dos disputantes e sem ao menos ter
estudado o local do embate. Achava que seria tão fácil! Para que planejar?
Um vento mais forte, sinal de chuva, uma coruja a olhá-lo, curiosa, no
campo ainda escuro e em silêncio total. É hora de continuar a jornada.
Levanta-se lentamente e, enquanto encilha o alazão que ficara pastando,
conversa com o amigo. Acaricia-lhe o focinho róseo, monta e parte em
galope ligeiro. Ainda traz consigo o lenço que certa dama lhe dera para
que não a esquecesse. Como se isso fosse necessário! Tem no pensamento
todas as mulheres que passaram em sua vida! Em meio às lembranças, como
que real, vem-lhe a figura do velho pai. Deixara-o com os cabelos brancos
e ralos, ombros encurvados, vista cansada. Mas a força física persistia inexplicavelmente. Vencia qualquer queda de braço e arremessava as boleadeiras à grande distância, com precisão. Suas qualidades eram
reconhecidas por todo o reino. E, mirando-se em seu exemplo, foi que
escolhera aquela vida de luta e conquistas.
Quando o jovem volta para casa em triunfo, nomeado Cavaleiro do Rei, é
ovacionado. Cumprira sua missão de defesa ao castelo além-mar; protegeria
com a própria vida, se preciso fosse, a vida da princesa-menina que ali
passava um período de recuperação após severa doença. Tornaram-se amigos
verdadeiros: ela o considerando um deus, ele protegendo-a como uma rara e
frágil flor.
Agora, o cavaleiro volta sua atenção ao caminho que percorre. Segue em
trote, atento. Seus sentidos estão todos aguçados e ele sabe... alguém o
espreita. Para não perder mais tempo com aquela abelha que insistia em
importuná-lo, abaixara a viseira do elmo, sentindo o odor de seu suor
mesclando-se ao perfume suave das flores campestres. Como a armadura pesa!
Previne-se, automaticamente, sabendo que ela está prestes: Tocaia! E
despenca no chão empurrado por uma horda que o ataca.
- Acorda, acorda Percy! Estamos há um tempão chamando, mas você não acorda! Que sono pesado! Pelo atraso, achávamos que
havia se perdido e quase íamos procurá-lo! Mas, que nada! Está aí deitado
perto do cocho, todo molhado! Vamos! Você é imprescindível à caçada ao
touro bravo e a manhã já vai longe!
(09 de abril/2005)
CooJornal no 415
Irene Vieira Machado Serra
professora,
foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ
irene@riototal.com.br