Olhei sua foto pela internet e me encantei. Tinha uma
aparência tão meiga, tão desprotegida ao lado daquela árvore meio caída,
que tive vontade de consolá-la.
Tornou-se um hábito observá-la e, a cada dia, mais eu me entusiasmava ao
descobrir novas nuances em sua fisionomia. Sua alma ainda não se abrira para
mim, mas de tanto conversar com suas amigas, querer conhecê-la foi
inevitável. E viajei horas para encontrá-la.
Logo nos vimos frente a frente. Atrás das grades do portão gasto, estava
a sorrir, parecendo que me reconhecia. Mas não se mexeu. Ansiosa, abri o
portão devagarzinho, medindo os passos até a soleira da porta. Afaguei-a
suavemente e a abracei, o que há tanto desejava fazer. Sei que sentiu meu
toque, apesar de nada falar. Estaria muda de felicidade por se sentir
tão querida, tão esperada? Ou estaria encabulada por ainda não estar bem
arrumada e vestida, já que não esperava visita tão cedo?
Emocionada, chorei de alegria. Era assim mesmo que eu a idealizara, cheiro de capim do mato e
não de areia da praia; silenciosa e tranqüila como quem está em oração;
pele clara com algumas imperfeições, mostrando que o tempo
por ali também passara.
Foi então que se mostrou por inteiro, sabendo que estaríamos juntas a
partir daquele momento. Já como amigas, levou-me ao seu jardim que pedia
socorro, tão despojado, árido e seco se encontrava. Imaginei logo quais
flores e plantas lhe traria, assim que voltasse. Vou buscá-las no sítio:
mudas das azaléias, samambaias e orquídeas que mamãe tão bem
cultivava... assim terei um pouquinho da minha família a perfumar um
outro jardim. São vidas que renascem.
As noites serão românticas ao olharmos o céu estrelado. Sei, também, que me dará
todo seu aconchego, mesmo quando estiver a reclamar dos seus desgastes e
fraquezas. Quanto a mim, prometo cuidar-lhe tão bem, enfeitá-la com
tanto carinho, que nunca mais
se sentirá sozinha e nem vai querer que eu me afaste ou viaje para outras
paragens. Inseparáveis!
Ah, minha casinha, como espero sermos felizes!
(04 de fevereiro/2006)
CooJornal no 462
Irene Vieira Machado Serra
professora,
foniatra, editora da Revista Rio Total
RJ
irene@riototal.com.br