04/02/2006
Número - 462

ARQUIVO
IRENE SERRA


Irene Serra  
  

CHEIRO DE CAPIM DO MATO

 

Olhei sua foto pela internet e me encantei. Tinha uma aparência tão meiga, tão desprotegida ao lado daquela árvore meio caída, que tive vontade de consolá-la.

Tornou-se um hábito observá-la e, a cada dia, mais eu me entusiasmava ao descobrir novas nuances em sua fisionomia. Sua alma ainda não se abrira para mim, mas de tanto conversar com suas amigas, querer conhecê-la foi inevitável. E viajei horas para encontrá-la.

Logo nos vimos frente a frente. Atrás das grades do portão gasto, estava a sorrir, parecendo que me reconhecia. Mas não se mexeu. Ansiosa, abri o portão devagarzinho, medindo os passos até a soleira da porta. Afaguei-a suavemente e a abracei, o que há tanto desejava fazer. Sei que sentiu meu toque, apesar de nada falar. Estaria muda de felicidade por se sentir tão querida, tão esperada? Ou estaria encabulada por ainda não estar bem arrumada e vestida, já que não esperava visita tão cedo?

Emocionada, chorei de alegria. Era assim mesmo que eu a idealizara, cheiro de capim do mato e não de areia da praia; silenciosa e tranqüila como quem está em oração; pele clara com algumas imperfeições, mostrando que o tempo por ali também passara.

Foi então que se mostrou por inteiro, sabendo que estaríamos juntas a partir daquele momento. Já como amigas, levou-me ao seu jardim que pedia socorro, tão despojado, árido e seco se encontrava. Imaginei logo quais flores e plantas lhe traria, assim que voltasse. Vou buscá-las no sítio: mudas das azaléias, samambaias e orquídeas que mamãe tão bem cultivava... assim terei um pouquinho da minha família a perfumar um outro jardim. São vidas que renascem.

As noites serão românticas ao olharmos o céu estrelado. Sei, também, que me dará todo seu aconchego, mesmo quando estiver a reclamar dos seus desgastes e fraquezas. Quanto a mim, prometo cuidar-lhe tão bem, enfeitá-la com tanto carinho, que nunca mais se sentirá sozinha e nem vai querer que eu me afaste ou viaje para outras paragens. Inseparáveis!

Ah, minha casinha, como espero sermos felizes!



(04 de fevereiro/2006)
CooJornal no 462


Irene Vieira Machado Serra
professora, foniatra, editora da Revista Rio Total
RJ 

irene@riototal.com.br