
09/09/2006
Ano 10 -
Número 493

ARQUIVO IRENE SERRA
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Irene Serra
Egocêntricos das letras
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Regina chega ao jornaleiro na Praça General Osório e pede:
- Por favor, quero o Jornal de Domingo, que vem no O Globo.
Aécio, o jornaleiro, se espanta:
- O jornal é um todo, não posso lhe dar apenas um caderno. Se levar o
jornal completo, terá muito mais o que ler e se divertir. E outras pessoas do seu
convívio também poderão aproveitá-lo.
- Ah, até pode ser. Mas é que eu só queria ler um artigo. Não tem jeito de o
senhor, então, me tirar essa pagininha aqui?
Com o queixo caído, Aécio quase precisa de ser atendido no Hospital de
Ipanema... Nunca ouvira algo tão inusitado!
Ali perto, na esquina da Rua Vinícius de Moraes, um musculoso rapaz entra na
Livraria Letras & Expressões:
- Ô meu, quero uma revista de moto.
Alcides prontamente lhe entrega duas, para que ele escolha.
Encontrando o que queria, vai se dirigindo ao caixa:
- Olha, vou arrancar estas páginas aqui do meio, porque é esse assunto que
me interessa. Foi escrito por um primo meu! O restante da revista você
pode dar para qualquer pessoa.
Vinícius lá no alto, na placa da esquina, olha assustado!
- Ler só um
pedaço?
E Alcides, mais assustado ainda:
- Como??? Não vai levar a revista? Não viu nada mais de interessante,
nenhum conteúdo, a não ser o artigo escrito por seu primo? Observe no
índice a variedade de assuntos! Se você gosta de moto, certamente
encontrará algum outro artigo que lhe chame a atenção.
O rapaz interrompe:
- Meu primo disse que tava aqui. Só falou desse artigo.
Alcides não se conforma:
- Esta revista é
formada de dezenas de artigos escritos por excelentes especialistas. É
lógico que você vai gostar mais de uns do que de outros. E isso é que traz
o interesse a uma revista, a diversidade, as opiniões e formas diferentes
de serem demonstradas. Se, além do artigo do seu primo, você tiver a
oportunidade de ler mais algum, você é quem ganha, se aprimora. Já
imaginou se chega aqui uma outra pessoa pedindo esta mesma revista, mas
quer levar somente a página do Quinzinho, o irmão? Você, certamente,
gostaria que ela também lesse o que seu primo escreveu e até acabariam
trocando idéias. Pense nisso! Vamos, leve a revista! Por que não se dar a oportunidade de ler outros autores?
- É, talvez você tenha razão. Vou levar a revista, quem sabe gosto mesmo?
Logo em frente, na Galileu, chega a jovem Luciana, esbaforida:
- Quer me ver Caras?
O vendedor, solícito traz-lhe um exemplar.
De pronto ela responde:
- Não, quero 55 revistas! Estou em um artigo e quero mandar para todos
meus amigos lerem.
Feliz, volta o Mário, abraçado ao pedido.
Mal vê as revistas, Luciana começa a recortar, cuidadosamente, as folhas onde a apresentam,
colocando-as em envelopes, cada um com o destinatário já
escrito. Afinal, o que interessa é ela e não o evento em que estava.
Mário fica consternado:
- A senhora não deve fazer isso! Por que não envia a revista aos seus
amigos?
Já imaginou o
quanto vão valorizá-la ao encontrá-la dentre essas páginas, em meio a
tantos famosos?
Luciana contesta. Na verdade, nem percebe que cada página de uma revista é diferente, não é
como um bolo, em que toda a massa (quando bem assada) é igual.
É como diz uma célebre escritora: “Realmente é uma pena que todos não
percebam a importância de um jornal como um todo. Estar num jornal bem
acompanhado por outros e por boas notícias é muito melhor que estar só.”
(09 de setembro/2006)
CooJornal no 493
Irene Vieira Machado Serra
professora,
foniatra, editora da Revista Rio Total
RJ
irene@riototal.com.br
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