10/05/2008
Ano 11 - Número  580

ARQUIVO
IRENE SERRA


 
Irene Serra  
  

Ouvir para crescer

 

Noite fria em Araras, interior de São Paulo, mas a platéia que lota o Teatro Estadual nos aquece com seu calor humano. É o projeto “Ouvir para crescer - Música para todos”, realizado pela Sociedade de Cultura Artística, em uma série de 10 espetáculos. Esse, especificamente, “Eu e a Música - Elementos do Som” tem a participação da Camerata de São Paulo, com regência de Daniel Misiuk. Uma bela experiência de descoberta e entendimento do som, suas características e, “mais do que isso, saber como ele é transformado em Música!”.

O apresentador Maurício Pereira levanta o auditório com suas brincadeiras e mímica corporal. Logo após a abertura com o violeiro João Amaral, entram os músicos da Camerata, que fazem a necessária afinação de seus instrumentos, e chega Misiuk, acendendo ainda mais a platéia. Começa um verdadeiro show didático. Entremeado a trechos de músicas, tanto popular quanto erudita, o Maestro explica o que é vibração, intensidade, duração, freqüência e timbre. Pergunta, estimulando respostas. O público, a princípio meio ressabiado, vai se soltando, dando palpites, interagindo.

Como bem disse Misiuk, ao final: - Quem não conhece aprendeu. Quem conhece relembrou.

Acostumada às aulas de piano no Conservatório de Música, no Rio - em que as aulas teóricas eram um suplício, o bom mesmo era deslizar os dedos sobre o teclado - não posso deixar de observar a facilidade de expressão, a comunicação de Misiuk, o fazer ficar agradável e interessante algo que poucos consideram. Geralmente, ouve-se: Teoria? Argh!

Impressionante seu dom de escolher as músicas para cada característica, tão entrelaçadas que falavam por si só.  Grieg e Vivaldi espreitavam felizes!

Participação, palmas, empolgação. O público responde em uníssono.

Músicos jovens, talentosos, buscando a perfeição em sua arte. Sobremaneira, um detalhe me chama a atenção: o segundo violino. Em Carinhoso, mostra-se terno, apaixonado, sussurrando ao ouvido de Pixinguinha; reza, solene, o Ave Verun de Mozart; esbanja brejeirice em Vassourinha, dançando com Matias da Rocha; sorri a cada movimento mais delicado de Peer Gynt, sentindo a aprovação de Grieg; sai do instrumento e acompanha Beethoven em seu passeio pela Nona Sinfonia; enfim, faz nascer as flores na Primavera de Vivaldi, cujo perfume inconfundível  vai nos acompanhar para sempre. O jovem resplandece felicidade. Momento mágico, sopro divino!

Um espetáculo para ser ouvido inúmeras vezes, onde a Camerata estiver.



(10 de maio/2008)
CooJornal no 580


Irene Vieira Machado Serra
professora, foniatra, editora da Revista Rio Total
RJ 
irene@riototal.com.br