19/12/2009
Ano 13 - Número 663

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isabel vasconcellos

 

Isabel Vasconcellos



O Sucesso e o Tempero do Bife
 

Faço produção de TV há mais de vinte anos. A minha experiência mostra que, quando se trata de agendar convidados para ir ao ar, é, de longe, muito mais fácil agendar com homens do que com mulheres.

Faço programas médicos. Há tantas médicas quanto médicos. Mas há pouquíssimas médicas de carreira acadêmica, professoras, professoras titulares ou cirurgiãs.

No mercado de trabalho, as mulheres são 41%. Mas pouquíssimas ocupam cargos executivos, pouquíssimas participam do topo da pirâmide empresarial.

Na política, no Executivo ou no Legislativo elas nunca conseguem ser 10% dos cargos ocupados por homens.

O que acontece?

Serão as mulheres menos ambiciosas que os homens?

Serão menos competentes?

Acho que não. Acho que as mulheres são tão competentes quanto qualquer homem, algumas são muito mais competentes do que muitos homens. São ambiciosas também.

Então, por que ainda não chegam lá? Por que têm agendas tão complicadas o que torna muito mais difícil agendar compromissos com elas do que com eles?

Uma boa e simples explicação é a velha conversa da dupla jornada de trabalho: A mulher, trabalhando fora de casa, ainda acumula as tarefas domésticas e, portanto, não tem tempo para mais nada, não tem tempo para fazer política, para estudar, para se aperfeiçoar...

Bom, não deixa de ser verdade.

Mas o que dizer daquelas que tem um séqüito de empregados domésticos?

Acredito que o grande nó da questão seja a atitude mental da mulher e não exatamente o acúmulo de tarefas domésticas.

As mulheres estão no mercado de trabalho e na vida produtiva, pra valer, há coisa de cinco ou seis décadas.

Por milênios o único poder da mulher residia na maternidade ou no comércio do sexo. Ou ela tinha o poder porque era uma grande matriarca ou porque era uma grande cafetina.

Então, hoje, parece difícil para a maioria das mulheres se libertar do papel de “rainha do lar”. Mesmo que ela seja uma executiva ou uma política, mesmo que tenha empregados domésticos para realizar as tarefas da casa, ela não renuncia ao papel de rainha no lar. Ela quer ver tudo, dominar tudo. Do tempero do bife à quantidade de amaciante que vai na máquina de lavar.

A cabeça dela é que está dividida e ela não consegue (e não concebe) delegar as responsabilidades do cuidado da casa. Ela não divide essas responsabilidades com outros membros da família, filhos, marido, etc. Toma para si preocupações que poderia deixar por conta de profissionais do trabalho doméstico.

É claro que é muito importante cuidar do lar. É claro que é de suma importância preocupar-se com a educação dos filhos, com a alimentação e com a saúde da família.

No entanto, estas preocupações, num mundo em que a mulher participa da vida produtiva e política, não devem mais ser exclusivamente dela. O lar deve ser problema de todos os que vivem nele e não apenas da mulher.

Ousaria colocar uma nova expressão. Em vez de dizer “dupla jornada de trabalho”, dizer “dupla responsabilidade de trabalho”.

Para a mulher atuar no mundo a preocupação, a atitude mental de responsabilidade pelas questões domésticas, terá que ser igualmente dividida com outros membros da família.

Mulheres que participam da vida produtiva ou da vida política jamais poderão ter o mesmo sucesso e o mesmo empenho de seus competidores do sexo masculino enquanto não abrirem mão da sua imagem de rainhas-do-lar, enquanto estiverem preocupadas com o tempero do bife.
 


(19 de novembro/2009)
CooJornal no 663


Isabel Vasconcellos é escritora e jornalista
Na TV, é colunista do programa do Otávio Mesquita, na Band (A Noite É Uma Criança), com o quadro “Só Sexo” e produz e apresenta o programa “Só Saúde”.
isabel@isabelvasconcellos.com.br

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